Chapter 1: A Plan
Entertainment District, Toronto
Ellie estava sentada na primeira fila, com a bolsa aos pés e os joelhos balançando sem parar.
O teatro estava com aquele clima de sempre em dias de teste. Silêncio demais, mas nada tranquilo. Cada tosse parecia intencional. Cada página virada soava como um julgamento. As luzes do palco estavam na meia-força, o que deixava tudo pior, porque agora ela conseguia ver a poeira flutuando no ar e tinha quase certeza de que uma partícula a encarava havia um minuto inteiro.
Noiva de mentira.
Ela repetiu as palavras baixinho, testando como soavam. Noiva. De mentira. Uma mulher contratada para ficar ao lado de um homem e convencer o mundo de que eles estavam apaixonados. Ellie tinha feito a lição de casa. Ela assistiu a pelo menos quatro filmes em que as pessoas fingiam namorar e acabavam se apaixonando de verdade. Leu textos sobre o trabalho emocional em relacionamentos e um tópico nada útil no Reddit sobre romance contratual que virou uma discussão sobre astrologia.
A personagem não estava fingindo amar. Ela estava fingindo pertencer àquele lugar.
Ellie entendia essa parte muito bem.
Ela folheou o roteiro, as páginas já gastas de tanto manuseio. Tinha destacado algumas coisas, sublinhado outras, feito anotações nas margens que agora só diziam coisas como aqui ela é confiante? e contato visual!!!, além de um rostinho sorridente desesperado que ela nem lembrava de ter desenhado.
Seus dedos não paravam quietos. Ela girava o anel, ajeitava a trança, batia o pé, parava, cruzava as pernas, descruzava. Seu cérebro continuava saltando para o momento em que ela esqueceria tudo e entraria em colapso silenciosamente no palco.
Ela releu a primeira frase pela décima vez.
Eu sei que é pouco convencional, mas sou muito boa em fingir.
Aquilo era promissor. Aquilo era honesto. Aquilo era perigosamente familiar.
“Elena Bennett”, chamou o gerente de palco.
Ellie deu um sobressalto e se levantou rápido demais. A bolsa tombou. O protetor labial rolou para fora. Ela encarou o objeto por um momento, chutou-o de volta para dentro da bolsa e correu para trás do palco.
Ela encostou as costas na parede e sussurrou: “Ok. Tudo bem. Você é encantadora. Você é estável. Você é uma mulher que alguém logicamente contrataria para fingir um amor”.
Ela apontou para o próprio reflexo em um painel espelhado escuro. “Você tem alcance. Você tem profundidade. Você já chorou de forma convincente no banheiro de um Starbucks. Isso aqui não é nada.”
Ela inspirou. Expirou. Sorriu largo demais. Ajeitou o sorriso.
Então, ela entrou.
As luzes a atingiram de imediato. O diretor estava sentado três fileiras atrás, com os braços cruzados e o rosto naquela expressão neutra e avaliadora que não significava nada e, ao mesmo tempo, significava tudo. Seu parceiro de cena, um homem que ela reconhecia vagamente de comerciais, estava à sua frente, já em posição. Ele sorriu educadamente. Seguro. Preparado. Irritantemente calmo.
Ellie abriu a boca.
“Eu sei que é pouco convencional”, começou ela, com a voz firme, “mas sou muito boa em fingir.”
Bom. Mandou bem. Ela deu um passo à frente, sentindo o ritmo se acomodar em seu peito.
“Consigo lembrar de aniversários, comidas favoritas, a cara exata que alguém faz quando está mentindo para si mesmo.” Ela levantou o queixo. “Eu consigo vender sinceridade.”
Então, sua mente ficou em branco.
Completamente vazia. Um vácuo branco e ecoante onde as palavras deveriam morar.
Ah, não.
Seu coração disparou contra as costelas. Suas mãos ficaram úmidas. O silêncio se estendeu. O diretor inclinou a cabeça um pouco, já perdendo a paciência. Seu parceiro de cena piscou, confuso, mas educado, esperando pela deixa.
Diga alguma coisa. Qualquer versão de qualquer coisa.
Ellie riu, um riso curto e um pouco ofegante. “Desculpe”, disse ela, mantendo a personagem porque o pânico, aparentemente, tinha decidido ser profissional. “Isso não fazia parte do combinado. Acabei de perceber que ainda não sei o seu pedido de café, e isso parece irresponsável para uma noiva.”
O parceiro de cena se surpreendeu. Ele hesitou, mas se recuperou rápido. “Eu, hã... preto. Geralmente.”
“Claro que toma”, disse Ellie, balançando a cabeça com seriedade. “Opiniões fortes. Alegria mínima.”
Uma onda de algo percorreu a sala. Não foi exatamente risada, mas atenção.
Ela continuou, porque parar parecia pior.
“Você me contratou porque sua família espera perfeição”, disse ela, circulando-o lentamente agora, com os instintos assumindo o controle. “E eu pareço convincente ao seu lado. Sei quando tocar no seu braço e quando ficar quieta. Sei quando sorrir e quando apertar sua mão debaixo da mesa para que você não exploda no jantar.”
Seu cérebro estava disparado. Seu corpo acompanhava.
“Mas você deveria saber”, acrescentou ela, mais suave, encontrando seus olhos, “eu não finjo tudo. Algumas coisas escapam. Esse é o risco.”
Silêncio de novo.
Ellie olhou além dele, direto para o diretor.
Ele não sorria. Sua caneta pairava sobre o caderno, imóvel. O rosto dele dizia que ele estava pesando o custo daquela improvisação contra o incômodo de interrompê-la.
O que não era bom.
Ela terminou a cena mesmo assim, chegando à última frase com um tom esperançoso na voz, e então ficou ali parada, com o pulso ecoando nos ouvidos, imaginando se tinha acabado de jogar fora a chance de conseguir o papel em menos de três minutos.
O diretor limpou a garganta. “Obrigado, Elena.”
Ellie sorriu, assentiu e saiu do palco com a dignidade praticamente intacta, enquanto o cérebro já repassava cada segundo em câmera rápida.
De volta à coxia, ela se encostou na parede novamente e sussurrou: “Ok. Isso foi corajoso ou uma sabotagem na carreira. Provavelmente os dois”.
Ela pegou a bolsa, recuperou o protetor labial que tinha caído e passou nos lábios com determinação.
Noiva de mentira, pensou ela.
Ela talvez tenha levado a sério demais.
Pearson Airport, Toronto
Julian estava sentado dentro do Pearson Airport com sua mala de mão precisamente alinhada ao braço da cadeira e o telefone pressionado contra o ouvido, encarando um painel de partidas que já estava três minutos atrasado.
“Vou interrompê-lo por aí”, disse ele calmamente. “Você não pode descrever isso como um atraso estratégico quando os números revisados se atrasaram porque você não os conferiu.”
Uma pausa. Alguém estava explicando. Julian esperou, porque a paciência em doses pequenas às vezes é útil.
“Não”, ele respondeu, olhando para o relógio. “Não estou sendo difícil. Estou apontando que, se as premissas não se sustentam sob um exame básico, elas não vão melhorar magicamente na frente da diretoria.”
Outra pausa. Mais longa. Defensiva.
Julian recostou-se na cadeira e cruzou a perna. “Se você quer que eu defenda isso, me dê algo que não desmorone no momento em que for questionado. Caso contrário, pare de confundir responsabilidade com temperamento.”
Silêncio. Então, uma concordância curta.
“Bom”, disse Julian. “Envie o modelo corrigido dentro de uma hora. E não tente suavizar a linguagem.”
Ele encerrou a chamada antes que alguém pudesse agradecê-lo.
Julian expirou, uma vez, e logo em seguida discou outro número.
Sebastian Cruz atendeu no segundo toque. “Bom dia para você também, executor corporativo.”
“Tenho que ir para Willowridge por alguns dias”, disse Julian.
Um segundo de pausa. “Problemas?”
Julian checou o relógio por hábito. “Não tenho certeza. A velha quer que eu esteja lá. Cancele minhas reuniões nos próximos dois dias. O que for urgente, me avise e—”
Seb o interrompeu com naturalidade. “E reportar qualquer estupidez que a diretoria aprontar enquanto você estiver fora. Eu sei.”
Julian observou uma criança correr, arrastando um urso de pelúcia pela orelha. “Você é irritante.”
“Você me paga pela previdência e pelo autocontrole. O charme é brinde”, disse Seb, e acrescentou: “Você vai vê-los de novo”.
Julian abriu sua caixa de entrada e começou a triar os e-mails. “Trágico.”
“Quer que eu providencie um transporte no aeroporto?”
“Alguém vai me buscar”, disse Julian. “Mas reserve um aluguel de carro para amanhã.”
“Mais alguma coisa?”
“Só isso.”
“Traga algo de Alberta para mim. CIAO.”
A linha ficou muda.
Julian abaixou o telefone e franziu a testa para a tela. Alberta. Carne. Petróleo. Clima. Seja lá o que for.
Assim que seu grupo de embarque foi anunciado, a lembrança surgiu, indesejada, mas clara. A mensagem de Margaret na noite anterior. Curta. Precisa. Entregue bem depois do jantar, porque ela gostava tanto de timing quanto de impacto.
Todos vocês precisam estar em Willowridge nos próximos dois dias. Sem desculpas.
Sem explicação. Sem suavizar. Apenas uma ordem envolta em inevitabilidade.
Julian não tinha respondido. Não precisava. As convocações de Margaret Hale não eram pedidos e nunca vinham sem danos colaterais. O resto da família estaria lá. Seus meios-irmãos, já irritados com a presunção de que ele era o favorito, como se o favoritismo fosse algo além de expectativas implacáveis e correções públicas.
Ele poderia aparecer. Poderia ouvi-la. Poderia ir embora.
Julian levantou-se, ajeitou o paletó e entrou na fila.
Dois dias. Exposição mínima. Saída controlada.
Isso parece um plano.