A Loba Solitária

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Resumo

Encontraram-na quase morta à beira de uma estrada gélida. Sem rastro de família. Sem marca de alcateia. Sem passado. Apenas uma garota trêmula de olhos vazios, e uma loba tão fraca que mal se movia sob sua pele. “Ela não sobreviverá ao inverno”, alguém dissera. Mas ela sobreviveu. A alcateia a acolheu, não por bondade, mas por conveniência. Mais uma órfã para as patentes inferiores. Mais uma presença silenciosa em segundo plano num território poderoso. Ela cresceu sem nome, exceto na forma. Sem linhagem. Sem força. Sem futuro. E, certamente, sem mate.

Gênero
Romance
Autor
AshleyW
Status
Completo
Capítulos
46
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
18+

A Garota Encontrada na Neve

A tempestade engoliu o mundo inteiro.

O vento uivava por entre as árvores esqueléticas, arrastando camadas de neve sobre a terra congelada até que o céu e o chão se tornassem indistinguíveis. Até os lobos, criaturas nascidas do inverno e da sobrevivência, permaneciam em suas tocas em noites como esta.

Mas as fronteiras do Noctharrow Pack nunca ficavam sem vigilância.

"Fiquem atentos", chamou Thorne Varek sobre o vento, sua voz cortando a tempestade com autoridade treinada. Suas botas estalavam contra o gelo enquanto ele seguia à frente da patrulha, os olhos examinando a linha das árvores borrada.

Três outros o seguiam, envoltos em peles grossas, com os sentidos aguçados contra o frio.

"Não há cheiro algum por aqui", murmurou um deles. "Nem mesmo de presa."

"Não precisa haver", respondeu Thorne. "Tempestades como esta trazem o desespero."

E Thorne sabia que o desespero tornava as coisas perigosas.

Eles avançavam ao longo da crista externa, onde a floresta se estreitava em uma estrada sinuosa, raramente usada, e ainda mais raramente sobrevivia em um tempo como este.

Foi então que Thorne parou. Abruptamente.

"Esperem."

Os outros congelaram.

"O que foi?"

Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, saiu do caminho, suas botas afundando na neve à medida que ele se aproximava de algo mal visível sob o branco.

Uma forma. Pequena. Algo errado.

Thorne se ajoelhou, suas mãos enluvadas afastando camadas de geada e gelo.

Então ele ficou imóvel.

"...tem... tem alguém aqui."

Os outros correram para frente.

"Um corpo?"

"Não", sua voz baixou. "Está viva."

Por pouco.

Era uma garota. Tão magra que parecia frágil, seu corpo encolhido sobre si mesmo como se ela tivesse tentado desaparecer na neve. Suas roupas estavam rasgadas e encharcadas, não oferecendo proteção contra o frio brutal. A geada cobria seus cílios. Seus lábios tinham adquirido um tom azul perigoso.

Um dos lobos da patrulha agachou-se ao lado dela, farejando profundamente.

"...Ela não pertence a nenhum bando."

O maxilar de Thorne se contraiu.

Ele checou seu pulso; estava fraco, errático.

"Ela não vai durar mais uma hora aqui fora", disse o outro lobo, direto. "Precisamos ir."

Thorne não se moveu. A neve se acumulava em seus ombros enquanto ele a observava, algo ilegível passando por sua expressão.

"Não."

Os outros trocaram olhares.

"Não?", um deles repetiu.

Thorne passou um braço por baixo da forma congelada da garota, levantando-a com cuidado, apesar da rigidez em seus membros.

"Nós vamos levá-la."

"Isso não é protocolo", outro retrucou. "Lobos desconhecidos..."

"Ela não é uma ameaça", Thorne interrompeu bruscamente. "Olhem para ela."

Seguiu-se o silêncio. Porque eles também viram. Não havia força nela. Nenhuma ameaça oculta. Nenhuma agressividade contida. Apenas... ausência. Como se o lobo que vivia dentro dela mal tivesse sobrevivido.

"...Tudo bem", um deles murmurou. "Mas se o Alpha perguntar..."

"Eu respondo."

E foi o fim da discussão.

Ela não se lembrava da viagem de volta. Apenas fragmentos. A sensação de movimento. O calor fraco de algo sólido a segurando enquanto seu corpo ameaçava se desfazer. Vozes, distantes, borradas, indistintas. E, por baixo de tudo, o silêncio. Onde algo deveria estar. Algo instintivo. Algo lobo.

Mas era fraco. Oscilante. Frágil. Como se não pertencesse realmente a ela.

Quando ela acordou, a tempestade tinha ido embora. Em seu lugar, havia calor. Suave. Constante. Desconhecido. Seus olhos se abriram lentamente, os cílios pesados enquanto ela olhava para um teto de madeira iluminado pela luz gentil de uma lareira.

Por um momento, ela não se moveu. Não pensou. Não entendeu.

Então, a consciência veio à tona. Ela respirou fundo. O ar tinha um cheiro diferente. Não selvagem. Não vazio. Ocupado. Lobos. Muitos deles.

Seu corpo tensionou instintivamente, mas o movimento enviou uma dor aguda por seus membros, forçando um suspiro baixo de seus lábios.

"Não se mexa."

A voz veio do lado. Calma. Firme. Inabalável. Ela virou a cabeça lentamente.

Uma mulher mais velha estava perto da cama, com a postura ereta e os olhos afiados já a observando.

"Você foi encontrada fora das fronteiras", a mulher continuou. "Quase morta. Mais uma hora e você não teria sobrevivido."

A garota engoliu em seco, com a garganta seca.

"...Onde estou?"

"No território do Noctharrow Pack."

O nome não significava nada. Deveria significar.

Algo em sua mente deveria ter reconhecido, respondido, reagido, lembrado.

Mas não havia nada. Apenas um vazio. A mulher a estudou atentamente.

"Você se lembra de como chegou aqui?"

Silêncio.

A garota buscou em seus pensamentos.

Havia frio. Escuridão. Um longo trecho de nada.

Então...

"...não."

A resposta saiu mais fraca do que ela pretendia. A expressão da mulher não mudou.

"Seu nome, então."

Outra pausa. Mais longa desta vez.

Porque esta pergunta era mais difícil do que a anterior. E mais importante. Mas ainda assim... Nada.

Seus dedos se curvaram levemente no cobertor.

“Eu… não sei.”

As palavras se instalaram no quarto como algo definitivo.

A mulher exalou baixinho, como se esse resultado já fosse esperado.

“Claro que não sabe.”

Ela se virou, caminhando em direção a uma pequena mesa perto da lareira, pegando uma xícara de algo quente.

“Você não é o primeiro desgarrado que a tempestade arrasta para as nossas fronteiras”, disse ela. “Mas a maioria não sobrevive tempo suficiente para esquecer quem é.”

A garota não disse nada. Ela não tinha certeza do que havia para dizer.

A mulher voltou, estendendo a xícara para ela.

“Beba.”

Ela hesitou por apenas um segundo antes de pegar, suas mãos tremendo levemente pelo esforço.

O calor penetrou em seus dedos primeiro. Depois em seu peito. Depois em algo mais profundo.

“O que… acontece agora?”, perguntou ela baixinho.

O olhar da mulher permaneceu sobre ela por um momento.

“Você vive”, disse ela simplesmente. “Se conseguir.”

Não era reconfortante. Nem cruel. Era apenas a verdade.

Dias se passaram. Depois semanas. A garota se curou, mas lentamente. Lento demais. Outros lobos se recuperavam de ferimentos em poucos dias.

Ela permanecia à beira da fraqueza, seu corpo se recompondo como se não entendesse bem como fazer isso.

E seu lobo... Permaneceu em silêncio. Fraco. Distante. Errado.

Eles a testaram uma vez.

Uma tentativa simples de transformação.

Outras crianças conseguiam cedo, seus lobos ansiosos, responsivos.

Ela tentou.

Nada aconteceu.

De novo.

Nada.

Pela terceira vez.

Um lampejo.

Então silêncio.

“Patética”, murmurou um dos meninos em voz baixa.

“Ela mal tem um lobo”, acrescentou outro.

As palavras não foram altas.

Mas não precisavam ser.

Ela as ouviu.

As sentiu.

Guardou-as sem reagir.

Porque reagir significaria admitir.

E admitir tornaria tudo real.

Logo depois, colocaram-na na casa dos órfãos.

Um prédio comprido e baixo na borda do território interno da alcateia.

Um lugar para aqueles sem linhagem.

Sem posição.

Sem importância.

Ali, nomes não importavam.

Mas ainda assim deram um a ela.

A mesma mulher que havia falado com ela pela primeira vez estava no batente da porta, observando enquanto as outras crianças se acomodavam em suas rotinas.

“Você não pode continuar sendo nada”, disse ela.

A garota olhou para cima.

“Vaelith.”

O nome soou suavemente.

Desconhecido.

Mas não indesejado.

“Esse será o seu.”

Vaelith.

Ela repetiu em silêncio.

Testando como ele soava.

Não trouxe nenhuma lembrança.

Mas também não pareceu errado.

Então ela aceitou.

Como todo o resto.

Sem questionar.

A vida em Noctharrow tornou-se uma rotina.

Acordar. Treinar. Trabalhar. Comer. Dormir.

Repetir.

Vaelith aprendeu rápido, não porque fosse forte, mas porque não tinha escolha.

Aprendeu onde ficar para não ser notada.

Como se mover para não atrapalhar.

Quando falar... O que era raro.

E quando ficar em silêncio... O que era sempre mais seguro.

Outras crianças criavam laços. Amizades. Rivalidades.

Ela não criou nenhum.

Não porque não pudesse.

Mas porque ninguém a procurou.

E ela nunca tinha aprendido a buscar alguém.

Anos se passaram.

As estações mudaram.

A neve derretia na primavera, queimava no verão, morria no outono, apenas para retornar novamente.

Vaelith cresceu. Não mais forte. Não mais rápida. Não melhor. Apenas… mais velha.

Seu lobo permaneceu o que sempre fora...

Um eco fraco e distante.

Quase inexistente.

Como se não pertencesse a ela de jeito nenhum.

Certa noite, quando o sol se pôs atrás da linha das árvores, pintando o céu em um dourado desbotado, a alcateia se agitou em antecipação.

Sussurros se espalharam.

A energia mudou.

Algo estava por vir.

Vaelith notou imediatamente.

Porque, pela primeira vez, o mundo invisível em que ela existia estava se movendo ao seu redor.

E, no centro de tudo, uma única frase ecoou pela alcateia.

“A Lua Negra está chegando.”