Prólogo: Ei, Ei!
Meu pai disse que só perdedores ainda vão comemorar o Loy Krathong com os amigos. Meu irmão mais velho disse que eu era patético por não ter coragem de convidá-lo para ir ao Loy Krathong comigo. E meu amigo disse...
"Ei."
Esse truque funciona cem por cento das vezes.
"....."
"Ei."
Lambi meus lábios secos. Droga. O que eu deveria fazer agora? Nos meus ensaios, ele deveria responder alguma coisa — não ficar me encarando desse jeito.
"Meu amigo gosta de você."
Fechei os olhos e falei um pouco mais alto. O som dos fogos de artifício e o barulho familiar do festival de Loy Krathong preenchiam o ar. Todo mundo ali estava soltando seu krathong com alguém que amava. Claro. Um calouro, solteiro feito eu... devia parecer meio triste. Não, na verdade — era muito triste.
"Um amigo?"
"É, é..."
Será que alguém já tinha dito a ele?
Que ele é absolutamente adorável.
"Meu nome é Friend."
Encantador sem motivo nenhum. Encantador o bastante para enlouquecer um apaixonado desde o primeiro dia do trote dos calouros. Encantador mesmo tendo a mesma altura que eu. Encantador mesmo se vestindo de qualquer jeito — uma camisa de uniforme da universidade enorme que nunca tinha sido passada direito, os mesmos tênis surrados que usava desde o trote... ou até aquelas mãos pálidas segurando com cuidado aquele krathong de pão.
"Amigo, uma ova."
Bam!
Parecia que eu tinha levado um tiro direto no coração. O krathong de pão que ele jogou acertou em cheio na minha cara, com uma expressão visivelmente irritada. Eu conhecia aquele olhar... Os amigos dele assobiaram e zoaram a gente, chamando a atenção de todo mundo. Eu tinha certeza de que meus próprios amigos — que estavam escondidos atrás de uma árvore momentos antes — já tinham saído para torcer, se misturando às luzes brilhantes do festival.
E aquele foi o dia.
"Duang! Vai lá, cara!"
"Duangggg, fala logo! Cara moderno, ombros largos, sapato de couro!"
O primeiro dia em que fiz mais do que ficar observando ele ensaiar música depois da aula em silêncio. O primeiro dia em que fiz mais do que passar por ele e sentar no fundo do refeitório, encarando suas costas enquanto ele comia devagar a mesma refeição toda noite.
"Então, seu nome é Friend ou Duang?"
O primeiro dia...
"Duang."
Dizer meu próprio nome pareceu impossível de tão difícil.
"E aí? O que foi?"
"Você... se importaria?"
"Se a gente tentasse conversar?"
O primeiro dia em que me senti o maior idiota ainda respirando. Eu queria gritar na frente dele, pedir desculpas por ser tão sem jeito... tão sem graça. Mas ainda assim — será que ele se importaria?
Eu era um cara. Ele era um cara.
"Dá pra ser mais direto?"
Engoli em seco.
"Qin! Calma, garoto, calma!"
"Não pressiona ele, cara. De boa!"
Mais direto do que isso e eu estaria de joelhos pedindo em casamento, juro. Cocei o nariz sem jeito... cruzei sem querer com o olhar dele, e meu coração despencou como se eu estivesse numa montanha-russa. Parei de me perguntar se ia dar certo ou não — porque como alguma coisa ia acontecer se eu nunca nem tentasse?
"Posso te cortejar?"
Eu tinha hesitado na minha cabeça centenas de vezes. Mas depois de tanto vai e vem, achei melhor simplesmente falar antes que ele pudesse aceitar ou me rejeitar. E pra isso, precisei reunir mais coragem do que quando estava no jardim de infância e tive que dançar no palco na frente de centenas de pessoas no Dia das Mães.
Ele valia mais do que isso.
"Não — quer dizer, Duang quer te cortejar."
Mais do que cem pessoas e um palco que fazia meus joelhos tremerem.
"Mudei de ideia."
"Não estou pedindo permissão. Só estou avisando."
Eu era tão careta. Mas enfim...
"Então vai em frente e me conquista."
Ele e eu. Ele, que cantava tão bonito. Ele, que sempre voltava pro dormitório tarde da noite e comprava café preto pra espantar o sono toda manhã. Ele, que era tão imprevisível quanto o tempo.
E aquele foi o dia... em que comecei a cortejá-lo. O dia em que começamos a conversar.
☁️ notas:
Loy Krathong: Um querido festival tailandês realizado na lua cheia do 12º mês lunar (geralmente em novembro). As pessoas soltam krathong, pequenas embarcações decorativas tradicionalmente feitas de folhas de bananeira ou pão, em cursos d'água para homenagear a deusa das águas e simbolicamente liberar negatividade. É fortemente associado ao romance; casais soltando krathongs juntos é uma tradição cultural, tornando-o um cenário clássico para declarações.
Krathong feito de pão (krathong khanom pang): Uma alternativa ecológica aos krathongs de folha de bananeira que se tornou popular porque os peixes podem comê-los. O krathong de pão aqui também funciona como uma arma cômica.