O Fisioterapeuta (Portugues - BR)

Capítulo 10 - Descobertas

A rotina de exercícios com Krist continuava e era bastante árdua. Em nenhum momento Singto facilitava ou diminuía o ritmo. Os efeitos de todo o trabalho eram visíveis. A cada dia que passava Krist melhorava mais e mais. Apesar de ainda usar sua cadeira de rodas para se locomover em alguns locais, ele já conseguia ficar cada vez mais tempo em pé e andar sozinho com ajuda apenas de muletas.

Naquele final de semana, Singto convidou Krist para conhecer um lugar muito especial para ele e disse que queria apresentar alguém muito importante. Lembranças de P’Prae falando de Fiat vieram a sua mente, deixando-o bastante desconfortável. Mas não tinha como dizer não ao convite, depois de tudo que Singto fez por ele.

Enquanto Singto dirigia o carro, a mente de Krist divagava em inúmeros cenários: para onde estavam indo, quem ele iria conhecer, por que essa pessoa era tão importante, por que ele se sentia tão incomodado. Ele estava tão absorto em seus pensamentos que só percebeu que estavam parados quando a porta ao seu lado foi aberta e Singto tocou em seu ombro, assustando-o e fazendo-o gritar. O que levou Singto as gargalhadas.

Após ajudar Krist a sair do carro e se organizar com as muletas, Singto retirou Myna da sua cadeirinha, que ficava acomodada no banco de trás, para só então se dirigirem ao interior do prédio que estava a frente.

Os três foram recebidos por Patty, que correu em direção aos três quando os viu entrando.


- P’Singto. Quanto tempo! Falou Patty com um sorriso feliz no rosto. Essa é Myna? Como ela cresceu! Continuou falando sem deixar que ninguém respondesse enquanto puxava a garota dos braços de Singto.

- Patty, esse é meu amigo Krist! Falou Singto apresentando os dois.

- Então esse é o famoso Krist. Muito prazer, Krist, eu sou Patty.

- Muito prazer, Patty. Respondeu Krist, dando um sorriso tímido enquanto seus pensamentos corriam a mil por hora, agora imaginando como essa garota conhecia Myna.

- Tem alguém que vai morrer de felicidades quando ver você. Falou Patty olhando para Singto, deixando Krist com uma sensação de enjoo que não conseguia controlar.

Enquanto conversavam, Krist percebeu um belo homem que se aproximava, com uma estrutura física de causar inveja a maioria dos homens. Vinha se aproximando com um enorme sorriso no rosto, enquanto olhava pra Singto. À medida que o homem se aproximava, abriu os braços puxando Singto para dar um abraço apertado, levando Krist a sentir emoções que ele próprio desconhecia. Quanto mais ele ficava ali mais sentia vontade de sair correndo daquele lugar.

- Singto Prachaya, da próxima vez que você passar tanto tempo sem aparecer aqui, nós teremos sérios problemas! Falou o homem, franzindo as sobrancelhas como se estivesse com raiva. Levando Singto a dar um sorriso aberto enquanto respondia:

- Prometo que não demorarei muito a retornar. Nossas vidas estão começando a se normalizar e acho que teremos mais tempo para voltar a visitar vocês.

Enquanto ouvia Singto responder, o homem virou-se para Krist e falou:

- E você deve ser o famoso Krist, estou certo? O homem perguntou deixando Krist encabulado antes de responder.

- Sim. Sou Krist Perawat. Prazer em conhecê-lo! Falou Krist.

- Muito prazer, Krist. Meu nome é Tew. Sou um grande amigo de Singto desde os tempos do nosso ensino médio. Se quiser saber algum segredo dele, você pode me procurar depois. Falou sorrindo enquanto Singto apenas sorria e balançava a cabeça. Virando-se pra Patty ele continuou:

- Fiat já sabe que ele está aqui?

- Ainda não. Respondeu Patty com um sorriso no rosto.

Enquanto pegava Myna dos braços de Patty, Tew falou:

- O que você está esperando para ir chamá-lo? Perguntou Tew.

- Ainda não! Pediu Singto, deixando Krist entristecido e cada vez mais enjoado. Mil coisas passavam em sua cabeça. Todas aquelas pessoas que ele não conhecia e todas conheciam Myna e sabiam quem era ele. Por que Singto não queria apresentá-lo a Fiat?

- Primeiro quero acomodar o Kit. Ele deve estar cansado de ficar em pé, parado aqui, enquanto ouve vocês falando um monte de besteira. Quando a gente se acomodar, vocês podem chamar o Fiat. Não quero correr o risco dele derrubar ou machucar o Kit. Explicou Singto. O que deu um pouco de alívio a Krist ao sentir a preocupação de Singto com ele.

Colocando a mão sobre o ombro de Krist, Singto o direcionou para a varanda que ficava nos fundos da casa. À medida que caminhavam, Krist pode observar a quantidade de salas e quartos que a casa possuía. Ao passar por uma das salas que estava com a porta aberta, ele pode perceber a presença de várias camas alinhadas uma ao lado da outra levando-o a acreditar que se tratava de um orfanato. Ele teve certeza de que se tratava de um orfanato quando, ao entrar no terraço, viu a quantidade de crianças que corriam no quintal. Mesmo assim, sua mente ainda trabalhava contra ele, alimentando suas dúvidas enquanto não descobrisse quem era o tão famoso Fiat. Após se acomodarem no balanço que ficava virado para o jardim, Patty avisou que iria chamar Fiat.

Quando Tew desceu com Myna para brincar em um dos balanços que ficava no jardim, Krist começou a conversar com Singto.

- Você parece muito a vontade aqui!

- Sim, é verdade! Respondeu Singto. Eu era voluntário aqui. Esse orfanato é mantido com ajuda financeira da empresa de nossa família. Sempre ficamos por perto, preocupados com os funcionários que são contratados. Sempre tivemos medo de que alguns pudessem maltratar essas crianças que já perderam tanto na vida. Respondeu Singto, explicando sua relação com o orfanato. Mas, desde que Tew assumiu como diretor do orfanato, nós ficamos mais tranquilos. Ele é de nossa inteira confiança.

Enquanto Singto explicava sua relação com o orfanato, Krist observou uma criança que corria mancando em direção e eles. Ao prestar mais atenção na criança que mancava, Krist observou que ele não tinha uma das pernas. Ela havia sido substituída por uma prótese.

- Tio Sing chegou! Tio Sing chegou! Gritava a criança chegando cada vez mais perto, até se jogar nos braços de Singto e começar a chorar enquanto o abraçava e esfregava seu rostinho no pescoço de Singto, que sorria e alisava suas costas de forma carinhosa.

- Tio Sing está aqui. Não precisa chorar. Falava Singto de forma carinhosa, esperando que o menino parasse seu choro.

- Eu estava com saudades! Choramingou o garotinho.

Essa cena fez Krist chorar, levando Singto a falar em tom de brincadeira.

- Pronto. Era só o que faltava. Duas crianças chorando ao mesmo tempo. O que é que tio Sing pode fazer para vocês dois pararem de chorar?

Essas palavras fizeram a criança olhar em direção a Krist e perguntar a Singto.

- Quem é ele? Perguntou o garoto enquanto continuava fungando, numa tentativa de parar de chorar.

- Esse é o tio Kit. Ele é amigo do tio Sing e veio aqui para te conhecer. Você não quer ir se apresentar para ele? Falou Singto.

O garoto saiu do colo de Singto e foi até a frente de Krist, estendendo sua mãozinha enquanto falava:

- Muito prazer tio Kit, eu sou o Fiat.

- Muito prazer, Fiat. Você é um garotinho muito educado. Respondeu Krist apertando a mão que Fiat havia estendido para ele.

Olhando para as muletas que estavam ao lado de Krist, Fiat, como qualquer criança, perguntou sem nenhum constrangimento.

- É tio Sing que está ajudando você a andar? E, apontando para sua perninha, continuou. Foi o tio Sing que me ajudou a andar de novo.

- É sim! É o tio Sing que está ajudando tio Kit a andar de novo. Respondeu Krist enquanto lágrimas voltaram a escorrer pela sua face.

- Não se preocupe tio Kit, você vai ficar bom logo. Tio Sing é o melhor! Falou Fiat já com um enorme sorriso no rosto.

- Eu sei. Respondeu Krist, já querendo chorar novamente com as palavras de Fiat. Eu também posso ganhar um abraço seu ou só o tio Sing que ganha?

- Claro, tio Kit, você também pode ganhar um abraço. Respondeu o garoto enquanto envolvia os braços ao redor do pescoço de Krist.

Enquanto envolvia seus braços ao redor do garotinho, Krist olhou para Singto, que não parava de ver a interação entre os dois, e viu seus olhos brilhando mais do que nunca. O brilho nos olhos de Singto em direção a ele sempre fazia seu coração bater mais acelerado. Mesmo com seu coração batendo acelerado, e apenas movendo seus lábios, ele falou obrigado para Singto, obtendo um sorriso e um aceno de cabeça como resposta.

O resto do dia transcorreu com um ótimo astral. Podia-se ver como as crianças eram alegres e bem tratadas. Os adultos se divertiam tanto quanto as crianças. A única coisa que não mudou ao longo do dia foi a distância entre Singto e Fiat. O garoto parecia um polvo, cheio de braços e mãos, se agarrando em Singto o máximo que podia. Apesar de ter começado o dia com uma sensação de desconforto no estômago sem saber o que o esperava pela frente, Krist sentia que foi um dos dias mais felizes que teve depois do acidente. Ele foi embora sabendo que voltaria tantas vezes tivesse oportunidade.

Naquela noite, Krist contou a Singto sobre sua infância. Que seu pai havia morrido antes dele nascer e sua mãe morreu quando ele tinha seis anos. Como seus pais tinham fugido para se casar, quando eles morreram ninguém da família quis assumir a responsabilidade sobre ele, colocando-o num orfanato, mas que era um local totalmente diferente daquele que ele conheceu hoje. Ele falou que não foi maltratado, mas, também, nunca teve ninguém para lhe dar amor ou carinho. Além de ver os poucos amigos que fazia irem embora com suas novas famílias e nunca mais voltar a vê-los.

Após ouvir atentamente a história de Krist, foi a vez de Singto contar a história de Fiat. Ele foi abandonado no hospital quando seus pais descobriram que ele estava com câncer no osso do pé e que já tinha se espalhado para a Tíbia, que é o osso que fica abaixo do joelho. Os médicos optaram por amputar toda a parte de baixo da perna, abaixo do joelho, antes de começar a quimioterapia. Eles disseram que isso daria uma maior chance de recuperação a Fiat. Eu o conheci nessa época e fiquei ao lado dele durante o tratamento. Ele só ficava na cadeira de rodas até que eu decidi doar a prótese para ele. Demorou um pouco para ele aprender a andar, mas eu também nunca desisti dele.

Lágrimas corriam pela face de Krist quando ele comentou:

- Você é muito bom, Shing. É por isso que todo mundo ama você!

- Então você também me ama, Kit? Perguntou Singto com um sorriso no rosto. Krist ficou com o rosto tão vermelho quanto um tomate, mas isso não o impediu de jogar uma almofada em Singto, levando os dois a rirem.


XX/XX/XXXX

Eu sinto que a cada dia que passa nós nos tornamos mais amigos. Hoje ele me levou para conhecer o orfanato que a família dele ajuda a manter. É muito diferente daquele em que eu vivi. Eu contei para ele da minha infância. Ele escutou com muita paciência. Também conheci o Fiat, que P’Prae falou pra mim. É um garoto muito simpático e tem verdadeira adoração por Singto. Mas, com a dedicação que ele nos trata, quem pode não adorá-lo? Não sei o que está acontecendo, mas sinto que cada dia que passa eu me sinto mais envolvido por ele.


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