O Fisioterapeuta (Portugues - BR)

Capítulo 11 - Outras descobertas

O tempo passava rápido. A recuperação de Krist era impressionante. Em breve faria um ano e meio do acidente e ele já havia conseguido se livrar das muletas. Naquele final de semana, Singto avisou que seria o aniversário de sua irmãzinha e que iria ao cemitério colocar flores. Perguntou se Krist gostaria de acompanhá-lo. Ele poderia conhecer sua irmã e aproveitar para visitar o túmulo de Anong. Krist aceitou o convite de imediato.

Com tudo acertado, no começo da manhã do sábado, a Sra Marila chegou para ficar com Myna. Trazia dois ramalhetes de rosas, um para sua filha e outro para Anong. O primeiro ela entregou a Singto enquanto dizia:

- Esse aqui é para sua irmã. Diga a ela que nós sentimos falta dela todos os dias. Depois virou-se para Krist e entregou o segundo ramalhete enquanto falava:

- Esse aqui é pra sua Anong. Por favor, diga a ela que fique tranquila. Que vocês fazem parte de uma nova família. Que ama muito vocês e sempre irá fazer o possível para serem felizes. Enquanto terminava de falar, percebendo como os olhos de Krist ficaram cheios de lágrima, ela o puxou para um abraço e deu um beijo em sua face.

- Agora não vamos ficar tristes. Eu quero saber onde está a princesinha da vovó? Falou a Sra Marila com um enorme sorriso no rosto.

- MYNA! Vovó chegou, meu amor! Gritou a Sra Marila e foi entrando na casa em busca de sua netinha, deixando os dois homens com um sorriso estampado no rosto.

O caminho até o cemitério foi silencioso e tranquilo. Singto sabia que depois de tanto tempo, muitas coisas estavam se passando na cabeça de Krist e ele não queria atrapalhar esse momento.

Antes de entrarem no cemitério, Singto parou numa floricultura. Apesar de trazer os ramalhetes que sua mãe havia comprado, ele queria comprar um pequeno arranjo de lírios brancos pra Anong. Krist havia dito anteriormente que eram suas flores preferidas e ele gostaria de fazer uma homenagem especial para ela.

Quando chegaram a área que pertencia a família Prachaya, Singto mostrou onde a lápide de Anong se encontrava. Ele sabia que Krist tinha necessidade de ficar só por um momento. Então, avisou que o deixaria sozinho por um tempo e depois iriam juntos ao túmulo de sua irmã, se afastando em seguida.

Krist se ajoelhou em frente ao túmulo de Anong e em seguida colocou o ramalhete de flores sobre a lápide, antes de começar a conversar com ela.

- Olá, Anong. Faz tempo, né! Eu não pude vir antes porque ainda estava me recuperando. Foi minha nova mãe que mandou essas flores pra você. Ela disse que é pra você ficar tranquila que eles vão cuidar bem de mim e de Myna. Pois é; nossa filha se chama Myna. Ela é uma menina bem esperta e está cada dia mais linda. Quem poderia imaginar que em meio a essa tragédia eu e Myna seríamos adotados por uma nova família. Por favor, perdoe-me que não pude salvar você! Terminou de falar com sua voz já falhando, antes de cair em um choro bastante sentido.

Ao ver o choro de Krist, Singto imediatamente se aproximou para dar seu apoio e, mesmo sem dizer uma palavra, colocou a mão em seu ombro para que ele soubesse que não estava só. Esperou o tempo necessário para Krist chorar suas tristezas e mágoas. Quando Krist parou de chorar e se levantou, apenas olhou pra Singto e agradeceu. Singto disse que também tinha algo a falar com Anong e pediu pra ficar um pouco a sós com ela. Assim que Krist se afastou um pouco, Singto colocou o arranjo de lírios que ele trouxe para ela e começou a falar:

- Esses lírios daqui fui eu que escolhi para você. Sei que são as suas preferidas porque o Krist me falou. Eu realmente fico triste por tudo que aconteceu, gostaria muito que nossas vidas tivessem sido diferentes, mas quero que você saiba que eu amo muito a Myna. Eu a trato como minha filha e daria minha vida por ela. Eu também amo muito o Krist e quero que você saiba que se houver alguma chance entre a gente, eu farei o meu melhor para que ele seja cada vez mais feliz. Por favor, onde você estiver, fique em paz. Te prometo que faremos o nosso melhor pela sua família.

Quando se levantou, viu que Krist já se encontrava em frente ao túmulo de sua irmã e seguiu direto para lá. Ao chegar ao lado viu que novas lágrimas escorriam pela face de Krist enquanto ele olhava para foto de sua irmã.



- Krist, essa é minha irmãzinha... Singto estava falando quando foi interrompido pela voz de Krist.

- Essa é Myna! E olhando para Singto, que ficou bastante surpreso com a afirmação de Krist, continuou. Me diz que não estou louco? Deixando Singto sem saber o que responder, já que não sabia do que ele estava falando.

- Eu a conheço. Sonhei com ela várias vezes. Ela se chama Myna! E olhando para Singto ele continuou. Você era o anjo dela? Krist estava ficando agitado.

Singto balançou a cabeça afirmativamente.

- Eu não estava alucinando! Krist voltou a chorar e a se agitar enquanto alguns flashes do quarto voltavam a aparecer em sua mente antes de perder a consciência.


Quando Krist abriu os olhos, verificou que se encontrava em um quarto diferente, percebendo de imediato que estava em um quarto de hospital. Sentindo sua mão presa, observou que Singto a estava segurando e descansava com a cabeça recostada na cama. Olhando aquele homem adormecido, Krist se perguntou por mais quanto tempo Singto iria aguentar uma pessoa como ele, a dar trabalho e trazer tantos problemas pra sua vida. Esse pensamento trouxe mais lágrimas aos olhos de Krist. Sem querer acordá-lo, levou sua outra mão para acariciar seus cabelos, mas não obteve sucesso. Assim que tocou em seus cabelos, Singto despertou e levantou sua cabeça para olhar para ele. Seus olhos se mostravam preocupados, o que fez Krist imediatamente perguntar se tinha algo errado.

- Não tem nada errado! Respondeu Singto com os olhos marejados. Só estava com medo de perder você novamente! Terminou de falar enquanto se debruçava sobre seu peito envolvendo-o num abraço, deixando Krist bastante surpreso com essa demonstração de carinho.

Ainda estavam abraçados quando seus pais abriram a porta do quarto e entraram, deixando Krist envergonhado com a posição em que se encontravam. Enquanto sua mãe correu para o lado da cama, empurrando Singto e, segurando sua mão, perguntou como ele estava se sentindo e dava um beijo em sua testa, seu pai se dirigiu ao outro lado demonstrando a mesma preocupação.

- Estou bem, mãe. Desculpe por preocupá-los. Respondeu Krist olhando para seus pais.

- Nem pense em voltar a dizer algo assim. Somos sua família e se preocupar com você é nossa obrigação. Falou a Sra Marila.

- O que o Dr Pete falou? Quis saber o Sr Krekkay direcionando seu olhar para Singto.

- Ele falou que está tudo bem! Eu contei como Kit ficou emocionado no cemitério e ele acredita que foram apenas as emoções. Mas pediu que o chamássemos assim que Kit acordasse. Vou fazer isso agora. Avisou antes de ir à enfermaria solicitar a presença do Dr Pete, que veio sem muita demora.

- Boa tarde a todos! Falou o Dr Pete assim que entrou na sala e viu a família ao redor de Krist. Caminhando em direção ao seu paciente, foi logo perguntando:

- Como você está se sentindo, Krist? Está tudo bem?

- Estou bem, sim! Respondeu Krist.

- Você lembra do que aconteceu? Questionou Dr Pete.

- Lembro sim! Respondeu Krist.

- Isso é ótimo. Mostra que você não estava desorientado! Falou Dr Pete enquanto media sua pulsação. Depois, colocando seu dedo em frente ao rosto de Krist, pediu para ele o seguisse enquanto o movimentava da direita para esquerda.

- Você quer falar o que houve ou o que sentiu na hora que desmaiou? Perguntou o Dr Pete.

Olhando para Singto, que retribuiu o olhar e acenando a cabeça. Mesmo silenciosamente, lhe dando todo apoio para o que ele quisesse falar.

- Eu ainda estava muito emocionado quando sai da frente do túmulo de Anong. Ainda me sinto culpado por ter sobrevivido e ela não. Depois caminhei até o túmulo de Myna...

- O quê? Eu não sabia que Myna havia falecido! Falou o Dr Pete interrompendo a fala de Krist.

- Não... ela está bem! A Myna que estou falando é a irmãzinha do Shing. Krist falou corrigindo o mal entendido. Quando cheguei ao túmulo da Myna e vi o seu retrato, eu a reconheci. As imagens do que eu achava que eram sonhos começaram a aparecer em minha mente, como um filme em alta velocidade. Isso me deixou enjoado e eu perdi os sentidos.

- Como assim, você a reconheceu? Perguntou a Sra Marila impressionada com a revelação.

- Quando eu acordei do coma, eu disse a Shing que havia sonhado com Anong. Ela me dizia que era a hora dela e não a minha. Ele me confirmou que ela havia morrido. O que eu não disse foi que ela estava acompanhada de uma menina, que ela chamou de Myna e que a estava ajudando. Quando Shing me falou que ele tinha dado o nome de Myna para a bebê, eu achei que pudesse ter escutado esse nome durante o coma e estava misturando realidade com fantasia. Hoje eu descobri que a Myna dos meus sonhas era a irmã de Shing. Eu sempre sonhava que estava em um pequeno quarto branco, com uma cama, uma pequena janela e uma porta. Myna sempre me visitava nesse quarto. Ela conversava comigo e falava do anjo dela. Até que um dia ela me disse que estava na hora de sair do quarto e que o anjo iria tomar conta de mim. Quando eu perguntei quem era o anjo, ela sorriu e me disse que era Shing e simplesmente me empurrou pra fora do quarto. Acordei com Shing do meu lado. Eu nunca falei nada porque achava que tinham sido alucinações. Krist terminou de falar enquanto algumas lágrimas escorriam pela sua face. Todos estavam de boca aberta com sua história. Sua mãe e Singto choravam com as lembranças de Myna e emocionados com a experiência que Krist passou. O Dr Pete foi o primeiro a falar.

- Não se preocupe com isso Krist. A ciência nunca conseguiu e nunca conseguirá explicar tudo. Sem dúvidas, você teve uma experiência única, mas isso não faz de você um louco. Já ouvi relatos de pacientes que viram túneis, luzes, jardins entre tantas outras experiências. Na minha opinião, essa experiência faz de você um homem de sorte. A única coisa que eu recomendo para você é um pouco mais de descanso. Pode ser aqui ou na sua casa, você que decide.

- Eu gostaria de ir pra casa. Falou Krist.

- Ok! Então eu vou preparar os papéis da sua alta. Não se preocupe com nada, clinicamente você está muito bem. Falou o Dr Pete, dando um sorriso, fazendo uma reverência para todos e saindo do quarto para preparar a liberação do seu paciente.

Quando Krist saiu do hospital, pediu a seus pais para irem com ele e Singto para casa. Ele gostaria de compartilhar com sua família um pouco mais do que havia escrito no seu diário. Naquela noite, mais uma vez, Krist sentiu todo o amor de sua família. Em nenhum momento expressaram qualquer desconfiança do que ele falava, ao contrário, ele sentia que o olhavam com olhos de puro amor e compreensão. Krist avisou que algumas páginas do diário continham pensamentos pessoais e ainda não queria compartilhar, mas tudo que estivesse relacionado as suas lembranças com Myna ele gostaria de falar. Outro momento de emoção foi quando ele mostrou os desenhos de Myna e das asas do anjo que ele via através da janela.


A semelhança com a foto que estava no túmulo de Myna era enorme. E sobre o desenho das asas do anjo... ahh foi outro momento que deixou a todos impressionados. A primeira pergunta que a Sra Marila fez foi se Krist já tinha visto Singto sem camisa, deixando os dois homens corados.

- Não, nunca! Respondeu Krist a sua mãe.

- Mostre a ele! Pediu a Sra Marila olhando pra Singto. Essas palavras fizeram com que Krist olhasse para Singto sem entender o que sua mãe estava pedindo, até que ele começou a tirar a camisa, virando-se em seguida e exibindo uma tatuagem. Tinha o tamanho suficiente para não chamar muita atenção, mas era exatamente igual ao desenho do diário.

- Myna sempre disse que eu era o anjo dela, mas, pouco antes de morrer, ela disse que seria minha anja. Quando cresci, eu fiz essa tatuagem em homenagem a ela. A letra M no meio das asas faz referência ao nome dela. Explicou Singto para um Krist que não parava de chorar.

Naquele instante, Krist teve consciência que Myna não virou apenas a anja de Singto, mas, também, a dele. Ela organizou toda a sua vida pós acidente. Ela arrumou uma família para ele.


XX/XX/XXXX

Hoje, Shing e eu fomos ao cemitério visitar Anong e a irmã dele. Pra minha surpresa a irmã dele é a Myna. A mesma garota que me visitava no que eu achava que eram sonhos. As lembranças vieram tão rápidas que me fizeram desmaiar. O Dr Pete me examinou e disse que já teve outros pacientes que viveram experiências semelhantes, mas que estava tudo bem. Cada vez amo mais minha nova família. Compartilhei minhas memórias com eles e em nenhum momento duvidaram de mim ou me olharam como alguém esquisito. Foi um dia muito emocionante. Eu não sei quantas vidas terei que viver para agradecer a Myna por ter cuidado de mim e colocado Shing para cuidar de nossa filha. Graças a ela, estamos todos juntos e bem.


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