O Fisioterapeuta (Portugues - BR)

Capítulo 2 - O telefonema

Ele estava sentado sob a sombra de uma árvore na frente de casa. Gostava de descansar olhando o movimento das ondas no mar, algumas vezes ficava de olhos fechados, apenas escutando o som das ondas quebrando na praia. Esse era um dos seus programas preferidos. Quando abriu os olhos, viu a menina saindo da água de mãos dadas a uma mulher. Sentiu seu coração bater cada vez mais acelerado dentro do peito, enquanto as duas caminhavam em sua direção. Quando já estavam próximas, a garotinha soltou as mãos da mulher e correu em sua direção com um sorriso no rosto. Chegando junto dele, ela parou, olhou com carinho para ele e falou:

- Oi meu anjo! Eles precisam de você e você precisa deles. Abra o seu coração e não desperdice essa chance!

Dando um beijo em seu rosto, a garotinha correu de volta para junto da mulher, juntando suas mãos novamente. Viu as duas voltando a entrar na água antes de sumirem de sua vista, enquanto ele ainda tentava falar alguma coisa sem conseguir.

O Dr Singto Prachaya pulou da cama gritando por Myna. Ao perceber que tinha sido um sonho, começou a chorar. Há anos não sonhava com sua irmãzinha. Já fazia quinze anos que ela havia partido.

Enquanto se acalmava, Singto lembrou-se de quando sua mãe engravidou e do nascimento de sua pequena irmãzinha. Ele tinha seis anos e uma irmã três anos mais velha, que já não queria mais brincar junto com ele dizendo que era muito criança, então vivia pedindo aos seus pais um irmãozinho ou irmãzinha de presente. Sempre dizia que ajudaria a cuidar dele ou dela. Quando sua mãe falou que estava grávida, ele gritava e pulava de alegria. Finalmente seria o irmão mais velho e iria proteger seu irmãozinho ou irmãzinha. Infelizmente os planos não ocorreram exatamente como planejado. Sua mãe teve uma gravidez difícil e todos foram avisados pelo médico que a garotinha nasceria com algumas necessidades especiais, só não sabiam ainda toda a extensão dessas necessidades.

Myriana, a quem Singto imediatamente começou a chamar de Myna, nasceu com um grave problema na espinha, limitando sua locomoção, e uma deficiência no diafragma, o músculo que ajuda os pulmões a inspirar e expirar, obrigando-a a ficar presa a uma máquina para realizar a respiração por ela. Como eram de uma família muito rica, não foi difícil adaptar a casa para receber a garotinha com todo o equipamento necessário para deixá-la o mais confortável possível.

Apesar dos seus seis anos, Singto cumpriu exatamente o que havia prometido. Tomou para si, dentro dos limites permitidos, a responsabilidade de tomar conta da menina, até aprendeu a fazer os exercícios que o fisioterapeuta mandou praticar com Myna, para melhorar o sistema respiratório dela. Sempre que podia, estava com a garota. Ao acordar corria para o quarto pra dar um beijo de bom dia e falar com ela. Quando chegava da escola ia contar sobre o seu dia e antes de dormir sempre passava para dar um beijo de boa noite. Não foi surpresa para ninguém quando a menina começou a falar e uma das primeiras palavras que disse foi “Shing”, e assim continuou a chamá-lo. Quando estava com seis anos, Myna pegou um resfriado que evoluiu rapidamente para uma severa pneumonia. Singto estava no colégio quando viu seu pai na porta da sala para buscá-lo. Naquele instante, mesmo sem precisar que seu pai falasse o motivo, ele sabia que o maior medo dele estava acontecendo: sua irmãzinha estava partindo!

Ao chegar em casa, Singto correu para o quarto de sua irmãzinha e, como sempre fazia, entrou sorrindo para ela e perguntou:

- Como a minha anjinha está se sentindo?

Com dificuldade em respirar e falar, ela respondeu pausadamente:

- Eu... inda... num... sô... sua... anja não... mas... pometo... que... vô sê! Mas... você... sempe... foi... meu... anjo! Bigada... por... cuidar... de... mim, “Shing”!

Sem conseguir dizer mais nada, Singto segurava e beijava a mão de sua irmãzinha quando ela partiu. Sua mãe, que estava ao seu lado o tempo todo, o puxou e abraçou forte enquanto ele chorava sua dor.

Algumas lágrimas ainda escorriam pela sua face, quando se deu conta que o celular tocava insistentemente. Respirou fundo mais uma vez, antes de atender a ligação.

- Dr Prachaya falando!

- Bom dia. Dr.! Desculpe ligar tão cedo, mas o hospital está com uma paciente precisando do Sr. Falou a telefonista do outro lado da linha.

- Estarei aí o mais rápido possível. Respondeu enquanto se lembrava do sonho. “Eles precisam de você e você precisa deles. Abra seu coração e não desperdice essa chance!”

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