O Fisioterapeuta (Portugues - BR)

Capítulo 3 - Os pacientes

Quando entrou pela porta principal do hospital, Dr Singto Prachaya foi direto a recepção. Gostaria de saber em qual setor ele estava sendo solicitado. Depois de ser informado que o chamado foi feito pela Dra Lawan, na UTI Neonatal, dirigiu-se ao elevador e foi direto ao sexto andar.

Após se preparar para entrar na sala, o Dr Singto foi direto falar com a Dra Lawan, médica pediatra, responsável pela UTI, sua amiga desde a época da faculdade, sobre o que se tratava a ocorrência. Ela o levou até a incubadora neonatal, onde se encontrava a bebê, para que ele a conhecesse. Apesar de ser uma bebê de sete meses e com os pulmões ainda um pouco imaturos, necessitando apenas dos cuidados essenciais, todos os exames mostravam se tratar de uma garotinha que apresentava um quadro absolutamente dentro do esperado para uma recém nascida prematura. Entre os cuidados essenciais, a Dra Lawan recomendou os trabalhos de um fisioterapeuta para ajudar na recuperação da menina, e considerava Singto o melhor que ela conhecia. Além de ter se formado com mérito, viajou o mundo conhecendo e aprendendo técnicas naturalistas e, por vezes, não convencionais, tudo na esperança de ajudar seus pacientes. Quando retornou, utilizou o dinheiro da família e inaugurou o Centro Myriana de Reabilitação, que rapidamente tornou-se um local de grande referência em fisioterapia.

Enquanto olhava para a bebê, as palavras de sua irmã voltavam a sua cabeça “eles precisam de você”. Dr Singto queria saber mais e perguntou pelos pais da criança. Ficou sabendo que a mãe havia morrido antes mesmo do parto e o pai ainda não tinha acordado da cirurgia. Sentiu o coração apertar. Por enquanto, seria o fisioterapeuta de uma linda princesa sem nome. Decidiu começar a fisioterapia com a garotinha naquele mesmo instante. Enquanto fazia os exercícios ia conversando com ela. Gostava de falar com seus pacientes, sempre explicando o que estava fazendo, mesmo que fossem bebês, pessoas em coma ou incapacitadas. Achava importante que os enfermos soubessem, ouvissem e sentissem que a pessoa ao lado se importava. Algo que havia aprendido em suas viagens é que o calor humano faz muita diferença para quem está acamado. Quando terminou com a garotinha, perguntou a Dra Lawan se podia conhecer o pai dela. Foram juntos a UTI geral, onde ele estava internado. Olhando aquele homem deitado inconsciente naquela cama de hospital, ficou se perguntando o que poderia fazer para ajudá-lo, como sua irmãzinha havia pedido. Chegou perto dele, segurou em sua mão e falou:

- Ei campeão, tem uma princesa aqui fora esperando por você. E alguém me pediu para ajudá-los! Então, nem pense em desistir!

Enquanto segurava a mão de Krist e falava com ele, o monitor cardíaco que estava ligado ao seu lado registrou um ligeiro aumento nos batimentos cardíacos do paciente.


Sentado no chão do quarto, encostado na parede, abraçado aos joelhos que estavam flexionados até a altura do peito, Krist sentiu quando o quarto começou a ficar um pouco mais quente. Do barulho confuso que se ouvia do lado de fora, conseguiu distinguir o que parecia ser um farfalhar de asas e uma voz. Era forte e suave ao mesmo tempo. Apesar de não entender o que estava sendo dito, tinha certeza de que a voz falava com ele. Pensou em se levantar e tentar descobrir de onde vinha essa voz, mas ainda estava muito assustado e decidiu permanecer onde estava. Sentiu o quarto voltar à temperatura normal enquanto o barulho do lado de fora voltava a ficar confuso mais uma vez.


Juntamente com a Dra Lawan, enquanto saiam da UTI, foram decidindo os procedimentos para o tratamento da garotinha. Passou a visitar a pequena princesa duas vezes ao dia. Era sempre a sua primeira paciente pela manhã, quando estava a caminho da clínica, e a última, quando já ia retornar pra casa. Ficava cada dia melhor. Sempre perguntava sobre o estado de saúde de Krist ou se algum familiar procurou por eles, e as notícias nunca eram como esperava. Apesar dos traumas e dos ferimentos causados pelo acidente e pela cirurgia estarem cicatrizando a contento, o paciente ainda continuava em coma e ninguém o havia procurado desde o dia do acidente.

Dez dias após o acidente, Singto soube que o corpo de Anong havia sido liberado pelo IML para ser sepultado. Ainda pensando nas palavras de sua irmã, decidiu fazer o funeral. Não queria que a mãe da pequena princesa fosse sepultada como uma pessoa que não tem família. Ligou para seus pais e, após explicar os motivos em querer ajudar, pediu permissão para utilizar o jazigo da família. Naquele dia, Singto foi ao cemitério prestar homenagens a Anong Suriang enquanto ela era sepultada no jazigo da família Prachaya.

No dia seguinte, ao chegar ao hospital para fazer a fisioterapia da garota, Dr Singto foi chamado pelo Dr Pete para conversar. Sentindo o coração pesado, com medo de receber alguma má notícia sobre Krist, caminhou em direção à sala do seu antigo mestre da faculdade. Tomou conhecimento da melhora física do paciente, mas que insistia em não acordar do coma. Não era um coma profundo e sim um coma com um estado mínimo de consciência. Esse é um estado no qual já há uma consciência, mas, como o nome diz, é um estado mínimo, em que o paciente reage a pouquíssimos estímulos. Nesses pacientes você espera uma melhora, embora ela possa nunca acontecer. Querendo estar preparado para o caso dele acordar do coma e não ter tantas sequelas em seu corpo, causado pela falta de movimento, perguntou se Singto aceitaria tomar Krist como paciente e se tornar responsável pela sua fisioterapia. Mesmo sem saber o porquê de sentir o que estava sentindo, ficou internamente muito feliz em ser convidado para cuidar daquele homem. Foram visitar Krist para uma nova avaliação. Dr Pete examinou seus olhos para ver a reação de suas pupilas, que continuavam iguais. Como da primeira vez, Singto segurou a mão dele e disse:

- Bom dia, lembra de mim? Como te disse, alguém me pediu pra te ajudar e, a partir de hoje, estaremos juntos todos os dias fazendo algum trabalho para exercitar esse corpo. Espero que você melhore cada vez mais!


Krist sentiu quando o quarto começou a ficar mais quente, de novo. Lembrava-se da sensação. Dessa vez não ouviu apenas o barulho das asas, mas, através da janela que se iluminou por um instante, viu um par de asas passando por ela. Aquela voz... Sabia que estava falando com ele de novo. Isso o fez se sentir confortável. Ele queria se levantar, mas o medo não deixava. Mais uma vez sentiu o quarto voltar à temperatura normal enquanto o barulho do lado de fora voltava a ficar confuso mais uma vez.


Novamente o monitor cardíaco que estava ligado ao seu lado registrou um ligeiro aumento nos batimentos cardíacos do paciente. Dessa vez, essa alteração não passou despercebida pelos olhos de Singto. Sabia que Krist estava lá, em algum lugar. Só tinha que deixar tudo o mais organizado e confortável pra quando ele decidisse voltar.

Saiu do hospital para ir à clínica enquanto pensava que agora teria dois pacientes a visitar por dia. Com certeza, isso o deixou mais animado. A pequenina já ocupava uma grande parte de seus pensamentos diários, agora o seu pai também. Era estranho o que sentia com isso. Não era profissional, mas não conseguia evitar.

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