O Fisioterapeuta (Portugues - BR)

Capítulo 6 - Indo pra casa


N/A – A partir deste capítulo, vou inserir algumas anotações do diário que Krist vai ganhar. Não coloquei a data, para não ficar preso a uma cronologia muito rígida. As transcrições sempre estarão em itálico ou negrito.


Krist abriu os olhos e olhou ao redor

- Já acordou? Perguntou Singto quando Krist virou-se para ele.

- Estava tendo outro sonho! Respondeu Krist.

- Tenho um presente para você! Disse Singto, oferecendo-lhe um pacote muito bem embrulhado.

- Oh! Obrigado. O que é isso? Perguntou Krist enquanto lentamente começava a abrir o presente.

- Abra! Respondeu Singto, com um sorriso no rosto.

Dentro do pacote continha um belo diário. Estava ornamentado com uma linda capa de couro, onde as letras K e P foram gravadas no centro. Na parte superior da capa havia um compartimento extra, onde estava guardada uma caneta. O diário era confeccionado num belo papel macio.

- Dr Pete falou que você poderia ter alguns flashes ou sonhos de suas lembranças, e que escrever poderia ajudar a ordenar melhor suas ideias e memórias. Espero que ajude você a se lembrar de tudo mais rapidamente. Falou Singto enquanto continuava a sorrir.

Os olhos de Krist começaram a marejar com a emoção que tomou conta dele. Apesar de se sentir confuso e não lembrar do que havia ocorrido, sabia que estava no hospital como resultado de algum acidente. Criando coragem ele falou:

- Estava sonhando com Anong. Ela me disse que era a hora dela, não a minha. Ela... morreu?

Singto apenas balançou a cabeça afirmativamente quando lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Krist. Após parar de chorar, Krist falou:

- Err... no sonho... err... ela... também me disse.... que... o bebê... Perdeu a voz enquanto lágrimas voltaram a molhar seus olhos.

- Sim... a bebê sobreviveu e é uma menina. Eu estou tomando conta dela até você se recuperar completamente. Está cada dia mais bonita e esperta. Não se preocupe que em breve você vai conhecê-la. Como não sabíamos o nome que vocês dariam a ela e, quando o juiz perguntou como iríamos chamá-la, eu pensei no nome de Myna. Respondeu Singto sabendo o que ele iria perguntar. Mas combinamos, com toda a família, para chamá-la de outros nomes como docinho, princesa, boneca, gatinha... Não queríamos que ela se acostumasse a um nome que não sabíamos se seria permanente. Queremos que você se sinta a vontade para fazer as mudanças que tiver vontade. Complementou Singto.

- Obrigado, mas eu acho que Myna está ótimo! Respondeu Krist. Não vejo motivos para mudar. Como não sabíamos o sexo da bebê, sempre falávamos que iríamos primeiro olhar sua carinha para ver que nome combinava com seu rosto.

- Faz quanto tempo que tudo aconteceu?

- Quase dez meses. Respondeu Singto enquanto Krist voltava a chorar.


XX/XX/XXXX

Hoje faz três dias que eu acordei do coma e o “Shing” me deu você de presente. O Dr Pete falou que seria bom eu escrever sobre meus sonhos, meus flashes e, também, minhas lembranças. Disse que me ajudaria a organizar minhas memórias. Depois de adulto tenho que aprender a usar um diário. Seria até engraçado se não fosse trágico. Ainda não acredito que dormi por mais de nove meses e de quantas coisas perdi. Hoje eu descobri uma coisa que me deixou triste: Anong morreu no acidente. Também soube que nossa filha sobreviveu e “Shing” está tomando conta dela. Sinceramente, não sei como alguém que passou pelo que eu passei pode se achar com sorte, mas acho que tivemos muita sorte de que o acidente tenha ocorrido perto daqui e tenhamos caído nas mãos de pessoas tão boas e competentes. Não vejo a hora de conhecer minha filha. Estamos esperando o resultado dos exames pra que eu possa ir pra “casa”... lágrimas rolam pelo meu rosto.... viemos para cá em busca de um novo começo e estarei indo pra uma casa que nem é minha e com um futuro que não foi planejado...


Enquanto Krist esteve no hospital, Singto permaneceu a maior parte do tempo ao seu lado, lhe dando apoio. Quando tinha que sair para resolver algo, sempre pedia a alguém para ficar no seu lugar. Não queria que Krist se sentisse solitário depois de tudo que passou. Ainda se sentia cansado e algumas vezes confuso, o que era mais do que normal para alguém que passou nove meses em coma. Após mais alguns dias de exames e expectativas, os resultados mostraram que Krist havia acordado do coma sem apresentar sérios problemas neurológicos ou físicos. As confusões que ele sentia, iriam diminuir com o tempo. Dr Pete falou, também, que todo o trabalho de fisioterapia que Singto havia feito durante o período de coma tinha diminuído bastante as sequelas em seus músculos. Entretanto, mesmo com a fisioterapia constante, seu corpo ainda apresentava grande perda de massa muscular. Bastaria ter paciência e seguir a prescrição médica para que se recuperasse plenamente. Mais uma vez Dr Pete confiava e apoiava Singto para cuidar do seu paciente. Finalmente, após quase dez meses do acidente, Krist estava indo para casa, mesmo sabendo que ainda teria um grande período de luta pela frente até estar totalmente recuperado.


XX/XX/XXXX

Toda vez que durmo ou fecho os olhos eu continuo tendo sonhos e flashes com aquele pequeno quarto, com a garota e com o barulho de asas. Eu não tenho coragem de falar tudo para o Dr Pete e nem pro “Shing“, tenho medo que eles achem que eu esteja ficando louco. Mas lembro perfeitamente daquelas asas passando sobre a janela do quarto e do rosto de Myna. Lembro quando ela me empurrou pela porta para eu encontrar o anjo. Será que fiquei louco?


A casa foi mais uma vez adaptada para receber um novo morador. Singto preparou um quarto com todas as necessidades que Krist pudesse ter, da cama aos equipamentos. Além de querer deixá-lo o mais confortável possível, queria, também, facilitar seu acesso aos equipamentos necessários aos seus exercícios diários, ao menos no começo do tratamento, enquanto ele se fortalecia o suficiente, sem precisar ficar indo e vindo à clínica.

Enquanto entravam em casa, com Singto empurrando sua cadeira de rodas, Krist foi recepcionado pelos pais de Singto e pela sua filha, que se encontrava nos braços da Sra Marila. A menina foi colocada em seu colo após ele ter sido acomodado no sofá da sala. A emoção voltou a tomar conta de Krist, levando-o às lágrimas. Após acordar do coma, era a primeira vez que estava vendo e segurando sua filha. Enquanto tentava controlar suas emoções, Krist começou a falar:

- Eu queria agradecer a vocês por tudo o que estão fazendo por mim. Indo às lágrimas mais uma vez.

- Obrigado Sr e Sra Prachaya! Obrigado “Shing”. Falou, enquanto continuava a chorar.

- Por favor, nos chame de Mãe e Pai, falou a Sra Marila. Afinal, daqui a pouco sua garotinha vai estar correndo aqui dentro de casa e nos chamando de vovô e vovó, então podemos considerar você como nosso filho também! Continuou a Sra Marila com um grande sorriso no rosto, chegando perto e dando um beijo em sua cabeça enquanto o envolvia em um abraço caloroso.

- Então... obrigado pai, mãe e “Shing”. Disse mais uma vez, dessa vez misturando o choro com um sorriso.

Um turbilhão de emoções passava em sua cabeça: tristeza, alegria, gratidão, preocupação... Como se soubesse o que Krist estava pensando, Singto apertou seu ombro e disse que não se preocupasse com nada, tudo iria ficar bem.


XX/XX/XXXX

Hoje recebi alta do hospital e conheci Myna, minha filha. O mesmo nome da menina que me visitava no quarto e que estava com Anong. Acho que mesmo em coma devo ter ouvido eles falando o nome dela e, no meu inconsciente, fico misturando realidade e fantasia. Os pais de “Shing” me pediram para chamá-los de pai e mãe. A emoção foi enorme. Não conseguia segurar minhas lágrimas. Acho que realmente sou uma pessoa de sorte. Qualquer dia eu digo a eles que nunca tive pai e minha mãe morreu muito cedo, o que me fez ser criado em um orfanato.


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