O Fisioterapeuta (Portugues - BR)

Capítulo 7 - Dia a dia

- Bom dia! Falou Singto enquanto ia abrindo as cortinas do quarto. Está na hora de acordar, tomar seu café e começar os exercícios. Continuou Singto.

Os raios de sol que entraram pela janela bateram direto no rosto de Krist, deixando-o totalmente iluminado. Enquanto abria os olhos e afastava-os da luz, ele olhou para Singto que estava com Myna nos braços. Krist ainda tentou argumentar alguma coisa para continuar dormindo, mas foi calado quando Singto disse que ele já tinha dormido por tempo suficiente. Ajeitando a cama numa posição para que ficasse praticamente sentado, ele colocou Myna no colo de Krist e disse para tomar conta dela enquanto iria buscar seu café da manhã.

Não demorou muito e Singto voltou com uma bandeja de café da manhã para Krist, colocando na cama após pegar Myna de volta. Quando Krist terminou de comer, Singto voltou a deixar Myna em seu colo enquanto retirava a bandeja e organizava o quarto.

Um tempo depois, ele colocou Myna em um cercado que tinha no quarto para que ela ficasse perto deles e, olhando pra Krist, disse que estava na hora de começar os exercícios para sua recuperação. Singto avisou que Jay, um enfermeiro da clínica, deveria chegar em breve para ajudá-lo com os exercícios, com sua higiene diária e com o que ele precisasse durante o dia.

Os exercícios começaram de forma leve e foram aumentando à medida que os músculos de Krist iam esquentando. No final, ele estava exausto, mas em nenhum momento Singto deixou que ele parasse ou desistisse. Após a sessão de fisioterapia, Singto deixou alguns objetos próximos à cama, como bolas e elásticos, para que ele usasse durante o dia o máximo que pudesse. Avisou que quanto mais ele se exercitasse mais rápido seus músculos iriam se recuperar, mas o fez prometer que fizesse tudo da forma que foi instruído, caso contrário, poderia haver lesões, o que prejudicaria os resultados obtidos. Após ouvir tudo que Singto estava falando, foi a vez de Krist falar com ele.


- “Shing”, posso perguntar uma coisa pra você? Falou Krist olhando seriamente pra Singto.

- Claro. O que você quiser! Respondeu Singto.

- Por favor, não pense que estou sendo ingrato nem nada do tipo, mas... por que você está nos ajudando? Falou Krist quase que sussurrando.

- Hmmm... alguém que é muito importante pra mim me pediu para ajudá-los. Simples assim. Depois que comecei a cuidar de Myna, foi um caminho sem volta. Eu simplesmente me apaixonei por ela e você.... Quando percebeu o que estava dizendo, Singto sentiu seu rosto corando e tentou disfarçar, torcendo para que Krist não tenha percebido seu deslize, quando continuou a falar... você também precisava da minha ajuda. Mas não se preocupe com isso. Faço tudo com muito prazer.

- Posso saber quem foi essa pessoa? Como ela me conhecia? Perguntou Krist.

- Foi minha irmã. Ela não conhecia vocês, mas eu não gostaria de falar disso agora. Falou Singto com os olhos marejados de lágrimas. Podemos deixar esse assunto pra outro momento? Eu prometo que conto tudo a você! Continuou explicando.

- Claro! Respondeu Krist, percebendo que Singto havia ficado emocionado. Por favor, não fique chateado comigo. Continuou falando tentando se desculpar.

- Ei... eu falei pra não se preocupar com nada. Claro que não estou chateado e prometo que depois conto a história toda. Só não estou pronto pra contar agora!

- Outra coisa. Você se importa que eu continue chamando você de “Shing”? Eu sei que não é seu nome, mas quando vou falar com você sai de forma tão natural! Falou Krist com um sorriso no rosto, deixando a mostra duas covinhas em suas bochechas que deixavam Singto ainda mais encantado.

- Desde que você não se importe que eu lhe chame de Kit. Respondeu Singto, também com um sorriso no rosto.

- Claro que não! Nunca ninguém me chamou assim, mas eu gosto! Respondeu Krist.


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Não consigo chamar Shing pelo nome certo lol lol lol lol lol a Myna que me visitava nos meus sonhos o chamou desse jeito e, por mais que eu tente chamá-lo pelo nome certo, é sempre assim que o nome dele sai da minha boca. Ele até acha graça e diz que não tem problema nenhum. Ele é um cara muito bom. Sempre se preocupa como eu estou e com meu bem estar. A voz dele sempre me lembra da voz do anjo que eu ouvia enquanto estava trancado naquele quarto. Quando ele fala comigo eu sinto que tudo vai ficar bem. A fisioterapia não é fácil, mas ele parece mais determinado do que eu. Sempre que ele me toca eu me lembro da sensação de calor e de conforto que eu sentia no quarto, quando o mesmo aquecia e eu ouvia as asas do anjo. Se eu fechar os olhos é quase como se ainda estivesse naquele quarto. Ele está sempre falando e contando histórias. Eu acho ele muito engraçado e o sorriso dele é muito fofo. Só estou curioso sobre a história da irmã dele. Será que ela teve alguma participação no acidente e por isso ele ficou emocionado e se sinta obrigado a me ajudar?


Os dias seguintes foram quase iguais ao primeiro. Singto acordava Krist pela manhã, servia um pequeno desjejum e, depois que Jay chegava, eles começavam os exercícios. Myna participava de toda a rotina de dentro do seu quadrado. Uma das vezes Jay tentou pegá-la, mas ela não gostou e ameaçou chorar quando ele insistiu. Os pais de Singto sempre estavam por perto, ora visitando Krist, ora pegando Myna para passear. Krist já começava a perceber a melhora nos músculos, tanto dos braços quanto nas pernas. Sabia que ainda tinha muito pela frente. Era o que Singto sempre falava, mas já estava colhendo os frutos do esforço. Já conseguia ajudar quando ia para a cadeira de rodas, o que facilitava sua locomoção pela casa.


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Myna nunca me estranhou. Ela sempre vem para o meu colo com muita facilidade e eu já a vi estranhando outras pessoas. Perguntei a Shing como ele conseguiu fazer isso com ela. Ele me respondeu que sempre que podia levava ela para me ver na clínica e depois me levou no quarto dela, onde tinha colado na parede dois painéis quase em tamanho natural com uma foto minha e outra de Anong, que ele havia copiado dos nossos documentos. Ele falou que queria que Myna crescesse sabendo exatamente quem eram seus pais. Isso me deixou profundamente emocionado. Ele tem que ser uma pessoa muito especial. Fazer todo esse esforço por um estranho, não é pra qualquer um. Ele é muito legal mesmo. Acho muito bonito a forma que ele trata Myna, como uma verdadeira filha. Eu o admiro muito.


Ficar na cama já não era mais uma opção pra Krist. Ele gostava de ficar em sua cadeira de rodas, o que o permitia se mover por dentro de casa. À medida que os dias passavam, as conversas entre Singto e Krist fluíam de forma bastante natural. Pareciam amigos de longas datas. Quase todo final da tarde, Singto gostava de levar Krist e Myna para o jardim para apreciarem o mar. Ele colocava uma manta embaixo da árvore onde Myna ficava brincando enquanto ele e Krist ficavam rindo com as brincadeiras da garota.


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Cada dia que passa me sinto um pouco melhor. Fazer os exercícios diários ainda me incomodam muito, mas, na verdade, está ficando cada dia um pouco mais fácil. Sinto que estou ficando mais forte. Na próxima semana vai fazer um ano do acidente, da morte de Anong e, também, será o aniversário de um ano de Myna. Shing veio falar comigo e propôs fazer o aniversário de Myna no próximo mês. Seria no dia que ele a levou pra casa quando teve alta do hospital. O dia seria apenas dela. Adorei a ideia. Eu vejo o brilho nos olhos dele quando ele fala de Myna ou quando ela o chama de papa, mesmo que ele a corrija na mesma hora. O brilho nos olhos dele é incrível. Cada dia esse cara me surpreende mais.


Quando Singto acordou Krist naquele dia, seu sorriso estava diferente. Após o café da manhã Singto disse que estava na hora dele voltar a fazer a fisioterapia na clínica. Ele já estava pronto para se locomover e isso ajudaria ainda mais na sua recuperação. Seria a primeira vez que Krist estaria saindo de casa desde que saiu do hospital. Quando estavam chegando, Krist viu o nome da clínica e percebeu como o prédio era grande. Jay já se encontrava na porta para ajudá-lo a sair do carro e levá-lo para dentro. Apenas entrar naquela clínica já trazia fortes emoções a Krist, foi ali que ele dormiu por quase nove meses. Alguns funcionários falavam com Singto e com Krist. A manhã passou rápida enquanto Krist era levado de um equipamento para outro. Antes de ir embora, Krist pediu para ver o quarto em que ficou durante o tempo que esteve dormindo na clínica. Visitar o quarto voltou a encher o peito de Krist com mais emoções. Enquanto voltavam para casa Krist comentou o quanto ficou impressionado com o tamanho e a estrutura da clínica.

Naquele final de tarde, enquanto estavam no jardim, Singto falou para ele que a clínica era em homenagem a sua irmã, fazendo com que Krist olhasse para ele com um olhar questionador e perguntasse:


- Homenagem?

- Sim! Respondeu Singto. Myriana era minha irmã mais nova. Tinha seis anos quando morreu.

Singto continuou narrando como as coisas aconteceram com sua pequena irmã, do nascimento até sua morte. Tudo isso o fez querer fazer fisioterapia para ajudar as pessoas e que, com o apoio da família, eles criaram o Centro Myriana de Recuperação. Enquanto contava sua história, algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto e quando percebeu Krist estava enxugando suas lágrimas, levando um sorriso aos seus lábios.

- No dia do seu acidente, eu sonhei com ela me dizendo que vocês precisavam de minha ajuda e me pediu para ajudá-los. Quando eu acordei, o hospital ligou me pedindo para ir até lá. O resto você já sabe. Falou Singto.

- Acho que nunca poderei agradecê-la o suficiente e nem a você. Disse Krist.

- Quanto a mim, eu já disse que você não precisa se preocupar. Falou Singto com um sorriso. Mas quando você estiver melhor nós podemos visitá-la e levar algumas flores para ela e para Anong. Terminou Singto.

- Como assim? Você sabe onde Anong foi sepultada? Quis saber Krist, com um ar de surpresa no rosto.

- Sim! Respondeu Singto. Quando o hospital liberou o corpo de Anong para ser sepultado, nós decidimos fazer o funeral dela no jazigo de nossa família. Anong está sepultada próximo de minha irmã. Espero que você não fique chateado que a gente tenha tomado essa atitude, mas como ninguém apareceu procurando vocês... eu... eu não queria que Anong fosse sepultada como indigente. É muito importante que você saiba que nós prestamos todas as homenagens a ela. Disse Singto, terminando de falar.

- Obrigado! Disse Krist enquanto lágrimas começavam a escorrer pelo seu rosto. Dessa vez, foi Singto que enxugou suas lágrimas.


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O dia hoje foi repleto de emoções. Comecei a frequentar a clínica novamente. Shing falou que ir para clínica também fazia parte do processo de recuperação. Cada vez que me esforço com um novo movimento é uma ajuda a mais nos exercícios e na minha recuperação. É muito bom voltar a sair de casa, mesmo que seja para ir à clínica. Eu sei que Shing é o responsável pela clínica, mas aquela enfermeira não precisava ficar colada nele o tempo todo. Será que é namorada dele e está matando as saudades? Mas ela nunca apareceu na casa dele! Eu não tenho nada com isso, mas ela realmente não precisava ficar próxima a ele o tempo todo! No final da tarde, ele me contou sobre sua irmã. Dos problemas de saúde dela até a noite do sonho, com o pedido dela para me ajudar. Depois falou sobre o funeral de Anong. O que me deixou extremamente emocionado, me levando às lágrimas. Nunca pensei que pudesse haver pessoas tão boas assim. Realmente nós tivemos muita sorte de “cair” nas mãos dessa família.

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