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O Quadro

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Summary

Quanto mal um simples quadro pode causar para uma família? Um garoto de 11 anos, impulsionado por sua curiosidade, deseja descobrir um segredo que aos poucos está acabando com sua família. A única coisa que ele não esperava é que sua sanidade estava em jogo.

Genre:
Horror / Mystery
Author:
NickAzobrab
Status:
Complete
Chapters:
1
Rating:
n/a
Age Rating:
16+

O Quadro

Vivenciei algo que me deixou muito próximo da insanidade. Movido pela curiosidade, acabei por descobrir no sítio de meus avós, um objeto feito de lona crua esticada sobre uma moldura de madeira de aparência tão frágil, que qualquer pessoa poderia quebrá-lo e rasgá-lo com as mãos. Porém, em seu conteúdo encontrei aquilo que seria o responsável pelos meus pesadelos frequentes. Apesar de ter me recuperado com o passar dos anos, prevalece o fato de que não consigo esquecer do dia em que me deparei com aquele maldito quadro.

O início do meu tormento se deu em um dia comum.

Minha mãe abriu as persianas deixando a luz invadir o quarto, atingindo minhas pesadas pálpebras. Tentando me apegar às lembranças que já se desvaneciam das aventuras vividas nos sonhos, puxei o lençol cobrindo a cabeça e me botei com o rosto colado no travesseiro.

— Pedro, acorde! Levanta pra tomar seu café da manhã. — Disse minha mãe, já acostumada com aquele jogo rotineiro.

— Só mais um pouquinho, mamãe.

— Só mais um pouquinho, nada! Trate de levantar agora ou vou pegar um balde de água gelada para te tirar daí.

Apesar de ser muito carinhosa e amável, mamãe costumava levar a sério as ameaças que fazia. Uma vez ela jurou nunca mais falar comigo, porque eu não queria arrumar o quarto. O silêncio dela durou 6 horas. Pode parecer pouco tempo, mas no auge dos meus 8 anos, pareceu toda uma eternidade ser ignorado por ela durante tantas horas. Acabei arrumando o quarto.

— Tá bom mamãe, já acordei — Disse sentando na cama num pulo.

— Vá lavar o rosto antes, que tentarei convencer sua tia a ir junto.

Tia Catarina havia nos oferecido abrigo, enquanto minha mãe tentava organizar sua vida após o divórcio com meu pai. Nunca cheguei a saber direito o que aconteceu para o término, já que aparentavam ser um casal perfeito.

Achava ela muito estranha. Vivia a beira de um ataque de pânico, se recusava a sair para lugares que não conhecia, se mantinha afastada das pessoas e até dos familiares. Se não fosse por precisarmos tanto, duvido que ela teria nos oferecido ajuda.

No caminho até a cozinha, ouvi uma discussão entre as duas.

— Vamos Catarina! Eles sentem sua falta e vai ser bom pra você sair um pouco dessa casa também.

— Mas Mari... você não entende — Tia Cat falava evitando olhar para minha mãe. — Você não viu a expressão deles olhando para… o… aquele..., era como se estivessem hipnotizados…

— Hipnotizados? — Perguntou com um certo desdém — Mamãe e papai? — Tia Catarina confirmou com um leve acenar de cabeça — Você tem que se abrir mais comigo, dizer de fato o que aconteceu para te mudar tanto naquela merda de dia três anos atrás — Disse firme — Eu quero te ajudar, sabia?

Antigamente, pelo que mamãe me dizia, tia Cat foi uma mulher segura de si e esbanjava confiança para todo canto que ia. Um dia durante uma reforma na casa de meus avós, ela encontrou um objeto, escondido em uma discreta abertura na parede do quarto deles. Depois daquela descoberta ela se tornou o contrário da pessoa que um dia fora.

— Eu sei que quer, eh, me ajudar mas...não… não, é algo que dê pra explicar.

— Mas se você não tentar eu nunca entenderei mesmo! — Disse minha mãe elevando o tom da voz. — Não entendo o que poderia ser tão bizarro a ponto de hipnotizar nossos pais, se você não me disser que porcaria você encontrou lá Cat.

— Mari… você não viu o rosto deles, não estavam hipnotizados, era mais um… um fascínio por.. por aquela coisa... — Começou a adotar a mesma posição defensiva de quando se sentia ameaçada — É que… não dá, não dá…

— Tudo bem Cat, no seu tempo tá! Mas venha conosco, prometo que não te deixarei sozinha lá.

— Mas e se… — Se interrompeu tentando controlar sua hiperventilação — E se eles ainda o tiverem? — Perguntou sussurrando.

— Não seja boba, você sabe que eles se livraram do que quer que tenha te causado mal naquele dia… — Entrei na cozinha interrompendo a fala da minha mãe.

— Não, não... não eu, eu vou ficar por aqui mesmo... manda um abraço pra eles, sei lá, faça como quiser, deixarei tudo arrumado para quando vocês voltarem.

— Tudo bem Cat, não insistirei mais — Disse desistindo de convencê-la a ir — Quando voltar falaremos mais sobre isso.

Tia Catarina acenou com a cabeça concordando, afagou meu cabelo e com um olhar de pesar, saiu da cozinha.

— Pedro, tome seu café da manhã e ande que não temos muito tempo pra ficar enrolando, o caminho até a casa dos seus avós é longo e não quero pegar trânsito.


A viagem de carro foi longa e durante todo o percurso, esgotei todas as possíveis posições confortáveis no assento. Nenhum jogo de celular me prendia mais a atenção. Não via meus avós desde a mudança e a ansiedade para reviver aqueles dias de brincadeiras e histórias de vô Alípio e de me deliciar com as tortas de vó Hortência, deixava-me inquieto.

Dei graças quando reconheci a entrada do sítio que havia visto apenas por fotos mostradas por minha mãe.

Mamãe estacionou o carro, puxou o freio de mão e tirou a chave da ignição.

A casa aparentava não ser muito grande, tinha as paredes de um branco manchado com marcas de mofo perto do rodapé e de água que provavelmente as telhas não conseguiram barrar. Dois cachorros — que se andassem em apenas duas patas seriam maiores que eu — latiam atrás de um cercado de madeira impedidos de virem em nossa direção.

— Vamos lá dizer um oi pros seus avós — Disse ela sorrindo pra mim.

Meu avô estava na varanda quando nos viu chegar. Usava o mesmo chapéu de palha que eu recordava tão bem. O mesmo sorriso do qual eu me lembrava estampava seu rosto ao nos ver.

— HORTÊNCIA, ELES CHEGARAM. — Gritou levantando da cadeira de balanço.

— TÔ INDO — Berrou de volta minha vó.

Minha mãe foi na frente e deu um abraço em meu avô. Mesmo ansioso para vê-lo, me escondi atrás dela. A falta de contato de três anos me causava uma certa timidez.

— Já num era sem tempo hein? Achei que num iam chegar nunca — disse ele.

— Ai pai nem me fale! Pegamos um trânsito enorme, até parecia algum feriado de tanto carro na estrada — Respondeu Mamãe visivelmente cansada. — Que falta que eu senti de vocês. — Disse enquanto o abraçava.

— Filha, esse é o Pedrim? — Perguntou surpreso — Como esse menino cresceu.

— Oi vô — Timidamente ergui a mão para cumprimentá-lo.

— Abaixa essa mão e vem me dar um abraço, faz muito tempo que num te vejo menino!

Ele me apertou com tanta força que pensei que meu corpo fosse desmontar, mas eu me sentia bem com aquele abraço. Senti como se aqueles três anos de distância nunca tivessem existido.

— A última vez que te vi você era desse tamanho — Sinalizou com a mão na altura dos quadris. — Marina esse menino nem parece que tem 11 anos.

Minha mãe abriu a boca para responder, mas vó Hortência saiu de casa limpando as mãos no avental rosa que vestia.

— Ô minha fia vem cá — Disse minha vó abraçando minha mãe — Como ocê tá?

— Estou bem mãe, essas coisas não são fáceis, mas vai passar, só preciso de um tempo pra mim — Respondeu mamãe.

— Isso mermo minha fia, logo logo ocê arranjar argô mió, viu — Disse Vovó não contendo sua satisfação de ver a filha separada do marido.

Um dos motivos para não visitá-los antes, era porque minha vó nunca havia aceitado a relação entre sua filha e meu pai. Era minha mãe quem sempre me levava e buscava quando eu ficava na casa deles antes de se mudarem. Quando vó Hortência soube do divórcio, não teve quem conseguisse calar os “Eu avisei” que ela não cansava de falar.

— Marina esse menino tá muito magrinhu! Ocê não tá fazeno comida pra ele não? — Perguntou minha avó, notando minha presença.

— Mãe não começa, é claro que faço, ele está no peso certo e super saudável! Vocês que estão muito mais magros do que antes, tá tudo bem com vocês?

— Num fali bobages fia, nós tamo muito bem, graças “ao Deus”. Vem cá me abraça menino. — Abracei ela e senti um cheiro de açúcar queimado, geleia de morango e óleo fresco de quem passou o dia preparando comida — E cadê Catarina?

— Ela não pôde vir mãe, mas mandou um beijo e disse que estava com saudades — Respondeu minha mãe.

— Num precisa minti pra mãe não fia, eu sei que ela num quer vir aqui. — Disse fitando o chão.

— Ela ainda está se recuperando daquele dia. No tempo dela ela vai melhorar.

— Vem cá Pedrim, vou te mostrar o sítio — Meu avô chamou percebendo os rumos da conversa e me afastando delas.


À primeira vista era um terreno pequeno, mas percebi que era só aparência mesmo. Vô Alípio me mostrou que do lado da varanda, havia um cercado onde os cachorros corriam como loucos disputando a posse de um osso de borracha. Mais ao fundo havia um galinheiro com uma porção de galinhas disputando uma vaga no feno, alguns pintinhos que brigavam por comida e dois galos competindo por um espaço no poleiro.

Ao contornar a casa, me deparei com uma farta horta com uma porção de hortaliças e verduras de tipos diferentes. A vegetação ao redor, crescia de um jeito que eu nunca havia visto antes. Arcos de folhagens diversas se formavam criando caminhos entre as plantações, enchendo meu olhar de mais puro fascínio por aquele verde todo. Mais ao fundo, próximo aos limites da propriedade, avistei algumas árvores frutíferas que me lembraram da história do pé de feijão que vô Alípio me contava.

Apesar de toda beleza do que eu via, o que me chamava a atenção eram as esculturas de barro. Possuíam tamanhos variados com textura grosseira e formatos de uma geometria esquisita. Elas permeavam os arredores do jardim criando assim uma decoração que roubava a atenção de toda natureza ao seu redor.

— Vovô o que são essas… coisas? — Perguntei enquanto me agachava para investigar uma das esculturas mais próxima.

Meu avô abriu um sorriso que me assustou, seus olhos pareciam vidrados como se enxergassem algo que eu não conseguia ver.

— São monumentos feitos pela sua vó, eles são representações “do Deus”! São lindos, num são? — Disse pousando a mão no meu ombro, enquanto olhava a escultura de formas bizarras com uma intensidade fora do comum.

— Credo, eu achei elas bem feias.

— Olhe, veja bem, niuma coisa se compara a “sua” beleza. É “ele” que nos prove essa fartura a sua volta.

— Ele quem vovô? — interrompi meu avô — O deus do céu? É dele que tia Cat tem medo?

— É o… — Vô Alípio saiu daquele transe estranho, o rosto voltando a sua aparência normal. — O.. eh… Você num quer tentar pegar uma fruta no pé?

Meu avô estava visivelmente nervoso, dava pra ver em seu rosto que ele esperava que eu saísse daquele assunto.

— Posso mesmo? — Respondi o aliviando da pergunta, mas ainda intrigado com aquela decoração bizarra.

— Mais é claro Pedrim — Disse bagunçando meu cabelo

Caminhamos até uma macieira bastante carregada. Minha baixa estatura, comparada com o tamanho fora do normal daquele pé, me impedia de colher um fruto. Recusei a ajuda de meu avô e tentei escalar o tronco. No fim, não obtive sucesso.

Vô Alípio se divertia com minha tentativa falha. Frustrado, peguei uma pedra no chão e a arremessei na tentativa de derrubar uma maçã. Minha mira foi igual a perder no jogo da velha jogando sozinho. A pedra bateu em um tronco mais alto e uma pesada esfera vermelha se desprendeu de seu galho passando rente a minha cabeça, atingindo com força meu ombro.

— Ei, pare de rir — Falei irritado — Pelo menos eu… — Notei algo com o canto do olho que me fez interromper a frase. A curiosidade foi tanta que minha irritação se tornou nula e a dor deixou de perturbar minha mente.

Olhando para além de meu avô, na construção onde eu me hospedaria nos próximos dias, havia uma janela bloqueada por ripas de madeira. Uma sensação esquisita de estar sendo observado passou por mim.

— Porque que tem uma janel…

— PAAAI, ME AJUDA COM AS MALAS — Gritou minha mãe me interrompendo e salvando avô Alípio da pergunta.

— TO INDO FILHA — Disse olhando para mim — Pedrim esquece isso tá, vamos que sua mãe está nos chamando.


— Alípio, ajuda a Marina cum as mala dela que eu vô mostra o quarto pru menino.

Tirei minha mala do carro e segui Vó Hortência para dentro da casa.

Por dentro a casa era bem maior do que aparentava ser por fora. Passando pela entrada me deparei com uma cozinha grande com porcelanato colorido cobrindo as paredes. Utensílios domésticos, bastante utilizados, decoravam o ambiente com uma geladeira marrom encostada em um fogão baixo de seis bocas e pratos de porcelana decorados atrás de uma porta de uma vitrine de um dos armários. Um balcão separava a cozinha de uma sala onde havia um sofá castigado pelo tempo e móveis que você só encontra em casa de vó.

Achei que encontraria os anjinhos de porcelana que antes abarrotavam a antiga residência de meus avós. Mas em cima do rack, junto com uma foto de minha mãe e tia Cat abraçadas numa praia e uma foto minha de quando era apenas um recém-nascido, havia versões menores das esculturas que se encontravam no terreno atrás da casa. Diferente daquelas, essas eram cobertas por uma pintura grotesca onde nenhum tom se harmonizava. Aquilo fez crescer meu sentimento de estranheza, pois mesmo sendo apenas um enfeite ainda destoava demais da decoração.

Na parede acima do móvel, havia um prego solitário que parecia sentir falta de algum objeto que antes estivera pendurado nele, deixando apenas a marca retangular manchada no local. No canto da sala havia um corredor que provavelmente dava para os quartos e o banheiro. Alguma coisa naquele corredor me causava calafrios.

Ela me conduziu por aquele caminho. A mesma sensação estranha que senti olhando para as ripas de madeira pregadas na parte de trás da casa se apossou de mim, como se algo me chamasse. De cada lado do corredor havia duas portas, imaginei que uma delas fosse a do banheiro e as outras dos quartos. A que atraia minha atenção, ficava no final do corredor.

— Vovó, o que tem naquele quarto?

Minha avó olhava para o mesmo ponto que eu, e pareceu não ouvir minha pergunta.

— Vovó? — Chamei-a puxando seu avental.

— Que... — Disse se voltando para mim — Oi menino que ocê tava falano?

— Perguntei o que tem lá dentro — Apontei com o dedo.

— Aquele quarto tá proibido pra ocê menino — Disse com uma expressão esquisita que nunca havia visto ela fazer. Pode parecer maluquice minha, mas se me perguntassem, eu diria que parecia a mais pura loucura fervilhando em seus olhos castanhos — Só tem as coisas de roça do seu avô que ocê pode se machucar se ficar fuçando.

Vovó abriu a porta mais próxima e indicou com a cabeça para entrar. O quarto não era grande, mas tinha um espaço suficiente para que eu ficasse confortável. Coloquei a mala ao lado da cama que ficava encostada na parede debaixo de uma janela, na qual se podia ver a horta que meu avô havia me levado. Havia também uma mesinha de cabeceira com duas gavetas e do lado oposto a esses móveis, um armário velho preenchia a parede.

— Sabia qui a vó fica muito feliz di saber que ocê vai passa uns dias com nóis? — Perguntou vovó sentando na cama.

— Sei sim vovó, também estou super feliz — Respondi — Vai ser bom pra mamãe descansar um pouco dos problemas da separação.

— Esse negócio de divórci é dificil neh? Fique procupado não fi, rapidim ela fica mió e se livra do traste do seu pai.

— Não fala isso vó, ele ainda é meu pai — Tentei defendê-lo.

— Má é um traste! Num sei ondi qui aquela doida tava com a cabeça quando resorveu noivar cum ele, se prestasse inda hoje estariam juntos. A única coisa boa que ele fez foi ocê!

— Tá bom vó, a senhora está certa — Resolvi que não adiantaria discutir. — Posso guardar as roupas nesse armário? — perguntei mudando de assunto.

— Craru que sim, o quarto é todim seu, mió que fica até mais confortávi, ai não vai mais querer sair da casa da vó.

— Pena que tia Cat não tenha vindo também, ela é estranha, mas eu gosto dela.

— Catarina tem os pobremas dela pra resorver, mas ela sabe qui nóis amamos muito ela, também quiria ela aqui. — Disse com um sorriso amável. — Bom, vô dexa ocê arruma suas coisa e vô lá arruma a mesa pro armoço qui ocês deve está morreno di fome.

— Estou sim — Disse eu enquanto ouvia minha barriga fazendo barulho — Vovó, antes de a senhora ir, posso fazer uma pergunta?

— Pode preguntar fio.

— O que tia Cat viu pra ela ficar daquele jeito? Ouvi ela conversando com mamãe, mas elas nunca me dizem nada.

A postura de vovó mudou completamente, mordeu os lábios e eu conseguia ouvir, mesmo que muito baixo, o ranger de seus dentes. Aquela expressão esquisita voltara a seu rosto e parada na saída do quarto, me respondeu.

— Isso num é assunto pra ocê menino, seje lá o que ocê tenha orvido delas, deixa pra lá, num quero ocê me perguntando mais sobre isso!

— Tudo bem vó, não queria chatear a senhora — Falei sentindo medo da minha amada avó.

— Num chatiou não, é que não é coisa pra um pequeno como ocê. — A expressão sombria desapareceu de seu rosto. Tocou a boca machucada. — Ó, si precisar ir no banheiro, é nessa porta aqui da frente. — Indicou ela antes de sair para a cozinha.

— Obrigado vó.

Sentei na cama. Até aquele momento um mistério pairava no ar e eu queria solucionar. O que minha tia viu de tão aterrorizante na antiga casa de meus avós? E o que havia naquele quarto que fazia meus pelos arrepiarem? Não adiantava pensar sobre aquelas coisas naquele momento, então desfiz minha mala, guardei as roupas no armário e fui para a sala, pois o cheiro da comida me indicava que o almoço estava pronto.


— Pedro não quero ouvir “UMA” — Minha mãe deu muita ênfase nisso — reclamação dos seus avós ein! Já já estou de volta. Se quiser alguma coisa do mercadinho me manda uma mensagem que se der eu te trago — Ela afanou meu cabelo e deu um beijo em minha testa — Te amo.

— Também te amo mamãe, cuidado no caminho.

— Pode deixar que tomarei cuidado sim — Deu uma piscadela e sentou no banco do motorista.

Observei o carro saindo do sítio. Não demorou muito para que não conseguisse mais ver a nuvem de poeira que o veículo levantava por onde passava.

Enquanto brincava com os cachorros que disputavam pela bola que eu havia jogado, fiquei pensando em maneiras de entrar naquele quarto para desvendar de uma vez por todas os mistérios que envolviam minha família.

Pensei em vários planos mirabolantes, mas o único que me parecia plausível de conseguir realizar, consistia em convencer meus avós a saírem de casa enquanto eu entraria de fininho no quarto, mas nenhuma desculpa que eu imaginava parecia ser boa o suficiente para que eles acreditassem.

Decepcionado por não chegar a uma alternativa satisfatória e com a curiosidade explodindo em meu peito, voltei para casa. A cadeira de balanço estava vazia. A louça acumulada, solicitava urgente uma atenção que não era atendida. Não via ou ouvia nada de meus avós. Resolvi investigar os quartos. Tremia de ansiedade esperando que não houvesse ninguém por lá. Caso não encontrasse eles, eu poderia me esgueirar para dentro daquele quarto.

Meus avós estavam parados de frente para a porta no final do corredor. Via apenas suas nucas, mas conseguia sentir que estavam com aquelas expressões estranhas em seus rostos. Chacoalhavam seus corpos lentamente para frente e para trás sem um ritmo aparente. Espantado com a cena, retornei apressado para a sala e, sem querer, esbarrei no rack, derrubando uma das horrendas esculturas. Com o coração na boca, me agachei para recolher as dezenas de pedaços de barro seco pintado que deveriam ter se espalhado por todo o piso, mas me deparei com a peça sem nenhum arranhão. Rapidamente a devolvi para o seu devido local quando…

— Gosto da hortinha da vó? — Perguntou minha avó saindo do corredor me pegando de surpresa e sem nenhum vislumbre daquela expressão maníaca — Seu vô tava me falano que te levo lá.

— Horta? Ah sim, gostei bastante, até peguei uma maçã — Tentei responder fingindo não ter visto nada de estranho com ela momentos antes.

— Oiá menino, não vá se machuca hein, aquelas arvres são grandes dimais procê. Se quise mais é só pidi pro seu Vô.

— Tudo bem vovó, eu consegui jogando uma pedra, acabei pegando a maçã com o ombro, mas tô bem.

— Hortência, o Pedrim é um menino esperto, puxou a mãe. — Disse meu avô saindo do corredor e se encaminhando para a varanda. Dei uma risada tímida visivelmente constrangido com a comparação, mas não minimizando o susto que levei ao vê-los naquele transe.

Minha avó foi até a cozinha e começou a mexer nas louças sujas da pia.

— Terminano a loça aqui, a vó vai lá na vizinha levar uma torta que eu prometi pra ela, quer ir com eu? Tem otras crianças lá procê brincar.

Tem vezes que o destino zomba da nossa cara nos abrindo oportunidades de que nos arrependemos depois, mas naquele momento eu só conseguia pensar no quão sortudo eu era. Mal conseguia conter a ansiedade pela oportunidade que teria, mas para isso eu precisava inventar alguma desculpa que seria mais simples do que fazê-la sair da casa.

— Hoje não Vó, talvez outro dia, a viagem de carro foi cansativa e depois do seu almoço maravilhoso — Tentei elogiá-la para que aceitasse mais fácil a mentira — Me deu uma leseira.

— Tá bom menino, vá lá descansa um poco, coquer coisa si mudar di déia, pede pro teu avô ti leva lá, tá.

— Tudo bem vovó, se não conseguir dormir eu falo com ele.

Deixei ela na cozinha e me encaminhei para o meu quarto controlando minhas pernas para não sair correndo. Fechei a porta, deitei na cama e fiquei atento esperando que ela terminasse seus afazeres.

Enquanto esperava, fiquei imaginando o que mexia tanto assim com eles. O medo que senti quando os vi parado na frente da porta era grande e por mais que eu tentasse, não conseguia pensar em nada que pudesse causar tantas mudanças repentinas nas pessoas, assim como aconteceu com tia Cat. Aquelas representações “do Deus”, como eles mesmos diziam ser, não apaziguava meu mal-estar, pelo contrário, só me deixavam mais temeroso e todo o mistério por trás, ganhava mais a minha atenção.


O barulho vindo da cozinha cessou. Minha avó bateu na porta perguntando se eu não havia mudado de ideia. Mantive-me em silêncio até ela desistir. Ouvi ela conversando alguma coisa com avó Alípio, mas não consegui entender. Me forcei a esperar mais alguns minutos no quarto para então colocar minha missão em prática.

Quando julguei que havia passado tempo suficiente, enviei uma mensagem para minha mãe assegurando que não correria o risco de ser pego no pulo. Perguntei se ela demoraria para chegar. Após alguns segundos digitando, recebi a resposta de que ela teve algum problema com o carro que iria fazer com que demorasse mais uns vinte minutos para voltar. Esse era o tempo que eu dispunha para invadir o quarto e encontrar a última peça daquele quebra-cabeça.

Saí do quarto tentando fazer o mínimo de ruído possível. Caminhei até a sala na ponta dos pés para verificar se não havia ninguém em casa. Avô Alípio havia adormecido na cadeira de balanço e eu não via sinal de minha avó em lugar nenhum. Aquele era o momento ideal que eu não poderia deixar passar.

Enquanto caminhava lentamente atravessando todo o corredor, uma estranha sensação crescia dentro de mim. Passando pela porta do meu dormitório e do banheiro, senti os pelos de meus braços se arrepiarem. Passei pela porta do quarto de mamãe e de meus avós, um formigamento se espalhou pelo meu corpo fazendo meu coração bater forte e minha respiração acelerar. O medo começava a tomar conta, mas eu não teria outra oportunidade tão cedo então continuei indo em frente. Quando enfim fiquei de frente para o quarto que tanto me atraía. Qualquer sensação estranha que eu havia tido até aquele momento, desapareceu.

Devido à ansiedade crescente, minhas mãos estavam encharcadas de suor, meu corpo todo tremia e uma agitação em minha barriga indicava que o meu intestino se afrouxava.

Entre todas as possibilidades de falhas do meu plano, não cheguei a pensar sobre a possibilidade mais óbvia da porta estar trancada. Chegar tão perto do meu objetivo e ser impedido de continuar por uma falta de atenção, seria devastador.

Coloquei a mão na maçaneta e girei-a devagar. Para minha falta de sorte ela estava destrancada. Um ar gelado saiu pelo buraco da fechadura abraçando minha mão enquanto eu empurrava a porta. A janela bloqueada tornava o ambiente escuro e sombrio. Tateei a parede procurando o interruptor de luz, o encontrei e apertei.

A primeira impressão que tive ao ver o quarto, foi de bagunça. Longos panos revestidos por uma fina camada de poeira cobriam praticamente todos os móveis e caixas de papelão. Ferramentas de jardinagem se apoiavam num dos cantos, quanto a elas minha avó não havia mentido. Enquanto analisava o ambiente à procura do motivo de tanta comoção em minha família, meus olhos se fixaram em uma estrutura alta no fundo do quarto. Reparei nas três pernas de madeira que o tecido não cobria. Avistar aquilo fez acelerar meu coração e aquele sentimento de chamado voltou com toda força. Debaixo daquela malha branca, descansando em um cavalete coberto se encontrava aquele horror.

Coloquei minhas mãos trêmulas sobre o tecido, engoli em seco. Senti a palpitação forte do meu coração devido ao desejo brutal de revelar o grande mistério. Puxei o pano. O que vi na minha frente me fez estancar no lugar, enquanto eu fitava aquilo que jamais deveria existir.

Há coisas nesse mundo que não foram feitas para olhos despreparados, qualquer vislumbre de algo minimamente parecido pode levar a pessoa mais sã à loucura. Não sei como não perdi completamente a sanidade naquele dia, ainda mais tendo uma imaginação tão fértil, talvez fora exatamente isso que tenha me salvado da loucura certa. A imaginação de uma criança a torna muito mais acessível a aceitar a natureza do impossível do que uma mente adulta já desacostumada a acreditar no fantástico. É nesse pensamento que me apego quando tento explicar o inexplicável.

Sobre o cavalete se encontrava uma tela. Suas bordas grossas e brancas, serviam como a guarnição de uma janela que se abria para todo um universo de mistérios ocultos e obscuros. Olhando para ela, conseguia sentir a dor dos pincéis que sofreram para imprimir no tecido, tamanha monstruosidade. Quanto mais tentava focar naquelas cores jogadas na superfície porosa da tela, mais elas se tornavam borradas e desfocadas como se recusassem serem vistas por meus olhos enquanto se misturavam em um carrossel infernal de matizes, tonalidades, perspectivas, curvas e linhas bizarras, disformes e grosseiras.

Um terror indefinível tomou conta do meu corpo. Teria corrido daquele inferno artístico se uma força sobrenatural não me impedisse. Fechar os olhos era impossível, uma vez que a estranheza daquela arte me atraía e hipnotizava com suas terríveis formas.

Corpos verminosos expeliam seivas que escorriam, criando raízes em um amontoado de espécies de algas extintas e ressecadas, verduras multicoloridas amassadas e leguminosas angulosas apodrecidas. As texturas da pintura oscilavam na tênue linha entre a viscosidade e a porosidade. Tudo e nada, em simultâneo, se movia sobre as superfícies contrastantes de partes de um quebra-cabeça insolucionável, criado por uma mente que beirava a psicopatia perversa e a selvageria antinatural.

Aquilo que eu via era sem dúvidas a inspiração que minha avó teve para criar as esculturas que estavam por todo canto do sítio. Tentativas que não se comparavam em nada com tudo aquilo que eu via.

Já tendo perdido o senso do que era real ou frutos da minha imaginação, observei as perspectivas que não seguiam as leis da natureza. Os traços frenéticos que pulsavam e se retraiam, geravam uma profundidade irreal naquele pedaço de lona crua esticada sobre ripas de madeira. Por trás daquele pesadelo, algo me chamava e incitava uma aura de violência me provocando a avançar para dentro daquela dimensão de horrores ocultos e pesadelos desconhecidos.

Juntando todas as forças que consegui, lutei contra aquelas amarras invisíveis que paralisavam meu corpo. Consegui dar dois dolorosos passos para longe da estrutura de três pernas. Recusando-se a me deixar escapar, o quadro vibrou e as tintas irromperam para fora da contenção de suas bordas, espalhando aquele mar de desespero que deslizava para todos os lados galgando o espaço entre mim e o cavalete.

O mundo a minha volta se preenchia por aquele pandemônio irreal. Tentáculos disformes e sinuosas formas bulbosas se agarravam aos tecidos e os mancharam com aquelas saturadas cores destoantes. Eu já não tinha mais controle sobre meu próprio corpo. Uma mancha escura se formou em minhas calças. O líquido morno escorria pelas minhas pernas criando uma poça no chão. Eu parecia flutuar em uma piscina de plasma, a cabeça balançava sem peso para os lados e uma sensação de vazio tomava conta do meu peito. Tentei um último passo para longe da estrutura e escorreguei na minha própria urina.

Deitado naquele chão gelado a poça morna me oferecia conforto. Não conseguia pensar em meus avós, não conseguia pensar em minha mãe, não conseguia pensar em nada que não fosse aquele turbilhão de cores me levando para aquela dimensão abissal.

Seja lá o que aquele “Deus” escondido no quadro quisesse, estava conseguindo. Eu já não possuía mais forças para lutar, meus braços pendiam inertes a qualquer estímulo que eu enviasse mentalmente, minhas pernas haviam virado gelatina, uma tontura turvava minha visão. Aquelas formas finalmente conseguiram me alcançar, o toque sobre minha pele liberou o grito que estava preso em minha garganta. O esforço daquele berro foi o suspiro final de minha consciência.

A última coisa que me lembro de ter feito antes de desfalecer por completo foi de finalmente ter livrado meus olhos daquele magnífico pesadelo, ter olhado para a saída do quarto e ver minha mãe entrar correndo com um olhar de pavor no rosto.

***

Acordei dias depois. As lembranças terríveis daquele horror se impregnaram na minha mente me deixando instável e desequilibrado.

Internado em uma clínica, os dias passavam e minha mãe perdia as esperanças de que eu me recuperasse daquele trauma. Ela agora entendia o que sua irmã havia passado e buscava na medida do possível os melhores tratamentos para mim. Mesmo que ela também tenha avistado o conteúdo daquele objeto, seu instinto imediato de mãe a poupou de ficar presa naquela visão enquanto salvava seu único filho.

As semanas foram passando e gradualmente recuperei minha sanidade e o controle de meu corpo.

Alguns meses depois do ocorrido, minha tia me contou da grande briga que minha mãe teve com meus avós, de como ela proibia qualquer contato deles comigo no hospital e de como ela os fez atear fogo naquele pesadelo.

Nove anos se passaram desde aquele dia. A notícia do falecimento súbito de minha avó nos pegou desprevenidos. Meu avô fazia questão de que o enterro fosse feito no sítio na amada horta de minha avó, dizendo que era esse o desejo de sua falecida esposa. Eu teria que voltar para o local dos meus maiores pesadelos.

O retorno me dava arrepios e reavivou minhas memórias. Apenas o conforto de ter minha mãe e minha tia ao lado e saber que não ficaríamos ali por muito tempo me tranquilizava.

Por mais que minha mãe afirme que viu aquele quadro sendo consumido pelas chamas eu não consigo acreditar que ele e o que quer que estivesse dentro dele tenham de fato sido destruídos, pois, aquela sensação que arrepiava os pelos da minha nuca, tomava conta do meu corpo mais uma vez me indicando que se eu seguisse seu chamado, em algum lugar daquele sítio iria encontrar aquele belo quadro.

FIM

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Katy: Need to read the rest!!!

alexandra: Ich kann nicht sagen wie oft ich am heulen war und ich hoffe für Mia das sie endlich glücklich werden und vele Welpen bekommen hoffe auf einen weiterführen wie es dem andern geht was in der Eifel passiert 🤞

Dianne Kelly: Have read books one and two. They are so brilliantly different from the supernatural stories I’ve read to date. Please keep them coming and so waiting for book three. Thank you❤️

Viola.: Tolles Buch 👍😄

ina: Auch das 2. Buch ist fantastisch geschrieben

Annelin Viste: Sweet love story 🥰

marremom: great little story. had kind of "the mist" feel to it, but you made it your own. pain is something that can wreak havoc in so many ways. i love the ending where he realizes that this is his demon. it killed the others to magnify his own pain and grief. hes been living in his own hell since his fa...

Hallie Cox: Liked the plot needs better proof readers

user-D73EPSVCoa: It is okay.

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scarbrough71: 💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜💜

Janelle: We need the rest

Deleted User: This story is beautifully written and I can’t wait for the updatekeep up the good work ❤️😊

Khush: This one was also nice but not as good as the previous 3 books. Looking forward to the next book.

Rachael: Okay so I've read about 150 stories here on this app, and many more on others. But I honestly had trouble putting this one down. It has a nice mystery twist to the romance and the whole story was unique. The characters were easy to understand and not too many. The whole story I was able to fly th...

suzell: I'm enjoying this story. Has many curve balls that keeps you connected.

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