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Capítulo 3 - Alguns tropeços


Após contar a Kim toda sua trajetória, Kong avisou a todos que estava cansado e que ira deitar um pouco mais cedo.

A narrativa trouxe não apenas boas lembranças, mas, também, lembranças dos problemas que eles enfrentaram e que ele não contou ao seu neto.

Já deitado em sua cama, olhando para o espaço vazio ao seu lado, Kong recordou o turbilhão emocional que ambos atravessaram, ao se descobrirem apaixonados. P’Arthit ficava sem querer falar com ele, evitando-o sempre que possível, na esperança de afastar as estranhas emoções. Afinal, eram dois homens héteros com sentimentos até então impensáveis. Das brigas que tiveram, dos medos, das inseguranças, dos ciúmes, do julgamento dos outros por serem dois homens, das perseguições profissionais, das vezes em que ele achou que P’Arthit esteve próximo de desistir do relacionamento deles, de quantas lágrimas foram derramadas até que todas as engrenagens (referência ao símbolo do curso de engenharia) fossem encaixadas.

Kong recordava principalmente de dois, dos momentos mais difíceis na vida deles.

O primeiro ocorreu quando ele era estagiário da Ocean Eletric, mesma empresa em que Arthit já era funcionário. Durante uma festa de confraternização na praia, os dois foram fotografados se beijando e tiveram a foto divulgada dentro da empresa. Isso gerou momentos de grande tensão entre eles. Com medo de sofrer bullying e de perder o respeito dos amigos de trabalho, Arthit decidiu manter-se afastado de Kong, o que lhe causou um grande sentimento de rejeição. Por conta disso, Kong devolveu a engrenagem, da qual tomava conta, dizendo que ele deveria ficar com ela, até que voltasse a ter certeza do relacionamento deles. Essa certeza foi manifestada na festa de encerramento do estágio, quando Arthit, na frente de todos, anunciou o seu amor por Kong e revelou que eram namorados. A engrenagem levou mais alguns dias até Arthit devolvê-la a Kong. Antes, ele tinha algo a fazer. Mandou dividir as duas engrenagens, a dele e de Kong, e unir uma metade à outra. Dessa forma as engrenagens não seriam apenas a representação deles, mas a representação de seus corações ligados em um só.

O segundo momento ocorreu quando Kong conseguiu uma bolsa para fazer o curso de pós-graduação em economia, na China. Arthit ficou inseguro, porque acreditava que a ida de Kong para outro País significava o fim do relacionamento entre eles. Isso fez com que ele se antecipasse e terminasse o relacionamento, antes mesmo da viagem, causando muita dor e sofrimento para os dois. Mas, no dia marcado para a viagem, eis que aparece Arthit no aeroporto, dizendo que estava arrependido e que acreditava no amor deles. Isso fez Kong retirar de sua bolsa um par de alianças. Ofereceu uma a Arthit e passou a usar a outra. Arthit tascou-lhe um beijo no aeroporto, sem se importar com nada nem ninguém. Configurando-se dessa forma, um compromisso que duraria uma vida inteira. E, surpreendendo Kong, mostrou uma passagem que comprou no último momento, para levá-lo até a China.


Já quase vencido pelo sono e embalado pelas lembranças, Kong teve certeza que seu Ai Oon estava em pé ao seu lado, olhando e sorrindo pra ele. Quase dormindo, sussurrou:

- Boa noite, meu amor!


Como sempre fazia há anos, Kong era um dos primeiros a levantar. Naquele dia não foi diferente. Arrumou seu quarto e seguiu para a cozinha, onde costumava preparar o café da manhã para ele e Arthit. Fazia tudo de forma tão automática, que não percebeu quando Somchai, seu filho mais velho, entrou na cozinha e ficou observando o seu pai fazer o café, até que falou:

- Só está fazendo café pra dois? Disse sorrindo, enquanto caminhava em sua direção e dando um beijo em sua cabeça.

Como que arrastado de volta à realidade, Kong percebeu que estava, novamente, fazendo o café dele e de Arthit.

- Desculpa, filho! Acho que as lembranças de ontem foram tão fortes, que acordei sentindo a presença dele e, por um instante, esqueci que ele não está mais conosco.

- Não precisa se desculpar, pai. Todos nós também sentimos muita falta dele. Disse Somchai, dando-lhe um abraço apertado.


O dia transcorria com muita animação. A beleza do lugar era incontestável. A alegria das crianças correndo pelo gramado deixava o dia mais colorido. Após o almoço, enquanto todos se preparavam pra o descanso, Kim se jogou no colo do avô e, com sua curiosidade natural, pediu mais histórias dele e do vovô Oon, levando todos a rirem e procurarem outras coisas pra fazer, afinal, todos sabiam que essas histórias eram bastante duradouras.

- Lembra que o vovô falou que a gente trocou aliança no aeroporto?

- Lembro sim, respondeu o neto.

- Então, quando o vovô Kong voltou da China, sabe quem estava esperando por ele no aeroporto, com um enorme sorriso no rosto?

- O vovô Oon! Gritou o menino, com a mesma alegria na voz que o avô.

- Isso mesmo, o vovô Oon. Ele me deu um grande abraço e disse que estava na hora da gente ir pra casa.

Nesse instante, Kong foi transportado ao passado. Lembrou-se da hora do desembarque, quando encontrou Arthit no portão de saída, à sua espera, com um largo sorriso estampado no rosto. Abraçaram-se calorosa e demoradamente, enquanto Arthit sussurrava em seu ouvido o quanto o amava e sentia sua falta. Kong estava voltando para casa e tinha plena certeza que uma nova vida ao lado do homem que amava, estava prestes a recomeçar.


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