Nossa Vida (Português - BR)

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Capítulo 8 - Os filhos.


Tudo estava caminhando bem em nossas vidas. Com sua competência profissional, Arthit ascendeu rapidamente dentro da Ocean Eletrick. Também fiz meus progressos dentro da empresa da minha família. Por diversas vezes, nossas empresas fizeram alguns trabalhos em parceria. Durante um desses trabalhos, ganhamos o nosso primeiro bebê. Lembro-me de Arthit chegando com ele nos braços, dizendo que nosso parceiro soube que éramos casados e havia nos dado de presente. Com um sorriso bobo, que ele gostava de usar quando queria me convencer de algo, perguntou se nós podíamos ficar com ele. Ver aquela bola de pelos brancos e castanhos nos braços de Arthit, com aquele olhar pidão, com a língua de fora, me levou a ter uma crise de risos. Toshiba, nome escolhido em homenagem ao nosso parceiro, tornou-se a alegria da casa. Como sempre acordava cedo, era minha responsabilidade levá-lo para fazer as necessidades pela manhã. A noite seria responsabilidade de Arthit, mas sempre terminávamos fazendo juntos. O que nós ainda não sabíamos era que Toshiba seria o responsável por outra grande mudança em nossas vidas. Ele iria encontrar nossos filhos!


Estávamos completando doze anos de casados e, para comemorar a data, decidimos sair da cidade e fomos passar o final de semana na praia, onde havíamos casado. Por se tratar de um fim de semana especial, não deixei Arthit dormir até tarde como ele gostava de fazer. Fomos caminhar pela praia acompanhados de Toshiba, que adorava correr quando ficava sem a coleira. Umas vezes ele corria pela beira da água, outras vezes corria atrás de pequenos caranguejos que se escondiam sob a areia. Toshiba não costumava se afastar muito de nós, mas, como naquele dia a praia estava com pouca gente, o deixamos correr livremente, cada vez mais para longe. Até que, em um dado momento, ele parou por alguns instantes e correu pra dentro de alguns arbustos que cresciam perto da praia. Enquanto caminhávamos em sua direção, ele voltou correndo com uma criança ao lado. Apesar de ser bastante dócil, Toshiba não era um cão que gostava de muito contato com crianças, o que nos deixou preocupados. Entretanto, naquele momento, ele se mostrava totalmente aberto àquele garoto que corria ao lado dele. Toshiba saltitava, rolava pela areia e lambia o rosto do menino, que ficava dando risadas com as brincadeiras do cão. Enquanto nos aproximávamos deles, começamos a estranhar a ausência de algum adulto acompanhando aquela criança. O garoto devia ter entre quatro e cinco anos. Começamos a conversar com ele, que disse se chamar “Sumssai”. O tempo foi passando e nossa angústia foi aumentando à medida que nenhum adulto aparecia à procura do menino. Enquanto Arthit permaneceu junto à criança, corri em casa para pegar água, algumas frutas e um guarda-sol, para alimentá-lo e protegê-lo do calor. Não queríamos tirá-lo daquela área, no caso de algum adulto aparecer em busca dele. Toshiba parecia entender o que estava acontecendo e não saía do lado do garotinho, que começava a mostrar sinais de cansaço. Quando o garoto adormeceu, vimos que não podíamos mais continuar ali parados. Arthit colocou o garotinho nos braços e fomos para casa. Quando ele acordasse decidiríamos o que fazer!

Colocamos um colchão no chão do terraço, que estava bastante fresco, e colocamos “Sumssai” dormindo nele. Enquanto almoçávamos, Toshiba simplesmente deitou ao lado do garoto e ficou de guarda. Após discutirmos o que fazer, chegamos à conclusão que a decisão mais acertada seria ir à delegacia mais próxima, levando o garoto, e decidir junto com os policiais um plano de ação para encontrar os responsáveis. Quando o “Sumssai” acordou, fizemos exatamente o que combinamos. Fomos direto para a delegacia. Enquanto nos dirigíamos para lá, alguns questionamentos começaram a nos assombrar: e se ninguém estivesse procurando pelo garoto? Ele ficaria sozinho? Teria que dormir na delegacia? Para onde iria? Estava sendo muita coisa para processar! Alheio a tudo que estávamos falando, “Sumssai” continuava rindo enquanto brincava com Toshiba no banco de trás, até que finalmente chegamos.

Mal entramos na delegacia, com Arthit carregando “Sumssai” em seus braços, uma freira que estava sentada na recepção gritou o nome de Somchai – foi assim que descobrimos seu verdadeiro nome – e correu em nossa direção. Ao segurar o garoto, a irmã começou um choro muito sentido. O delegado nos convidou para sua sala e perguntou onde havíamos encontrado o menino. Após falarmos tudo que tinha ocorrido, ele nos contou que o garoto vivia em um orfanato próximo dali, e que durante um passeio com as freiras, por conta de um pequeno descuido, o menino se perdeu do grupo. As outras religiosas voltaram para o orfanato com as outras crianças, enquanto irmã Namtan tinha decidido ficar até conseguir notícias de Somchai. Com tudo esclarecido, oferecemos uma carona para deixá-los no orfanato e a irmã Nam, como pediu para ser chamada, aceitou na mesma hora, e lá fomos nós. Ela se sentou no banco de trás, ao lado de Somchai. Toshiba deitou-se ao lado do garoto com a cabeça em seu colo. No caminho ela foi contando que Somchai havia sido abandonado no portão do orfanato há apenas seis meses, junto com seu irmão Kalan, que não tinha mais do que alguns dias de nascido. Falou das dificuldades do orfanato, do quanto era difícil as crianças serem adotadas, principalmente quando tinham irmãos. Quanto mais ouvíamos a história, mais ficávamos com nossos corações apertados. Chegamos lá no final da tarde e fomos convidados a conhecer o orfanato. Era um enorme prédio antigo, com mobílias simples. Vimos várias crianças brincando no jardim e na sala de TV. Outras em seus quartos, que eram divididos pela idade das crianças. Em uns vimos berços, em outros tinham camas e encontramos beliches onde ficavam alojados os mais velhos. Conhecemos Kalam, que já estava com pouco mais de seis meses de idade. Enquanto caminhávamos em direção à saída, a irmã Nam nos deu um abraço e agradeceu por tudo que fizemos por Somchai e por ela, nos convidando a voltar sempre que tivéssemos vontade. Somchai se despediu de nós com um abraço e um beijo estalado em nossas bochechas. De quebra, ainda levou outras lambidas de Toshiba em seu rosto, causando mais risadas. Tudo parecia resolvido, mas nossos corações já não eram mais os mesmos de quando saímos para caminhar na praia pela manhã.

No caminho de volta, ficamos calados na maior parte do tempo. Arthit tinha um semblante triste, que há muito tempo eu não via em seu rosto. Mesmo não falando nada, numa tentativa de confortá-lo, ora deixava minha mão repousando em sua perna, ora sobre seu ombro. Já perto de casa, ele olhou pra mim e disse que tínhamos que fazer algo. Naquele momento, outra grande mudança começava a se desenhar em nossa vida. Antes de voltarmos pra casa, fomos ao mercado da região e compramos muitos presentes e comida para levarmos pros garotos do orfanato no dia seguinte. Chegamos em casa nos sentindo elétricos. Não víamos a hora de ver os olhares daquelas crianças quando chegássemos lá com todos aqueles presentes.

Poucas vezes Arthit acordava antes de mim. Mas, naquele dia, quando acordei, além de já estar de pé ele também tinha feito até o café da manhã. Após comermos, voamos para o orfanato. Queríamos muito ver aquelas crianças, mas tinha uma em especial não saía de nossa cabeça. Quando chegamos, fomos recebidos pela irmã Nam, que ficou radiante com os presentes. Ela sabia o quanto de alegria tudo aquilo traria pros meninos que ela ajudava a criar. Chamando as crianças para o jardim, transformou o dia numa grande festa. Assistir tanta alegria de perto aquecia nossos corações. Somchai não se desgrudava de nós, a não ser quando era pra correr atrás de Toshiba. Ver o quanto os olhos de Arthit brilhavam olhando para aquele menino eu não tive dúvidas: Arthit estava apaixonado por outro homem, e não havia nada que eu pudesse fazer. Eu também estava.

Após o almoço, enquanto algumas crianças descansavam, fomos conversar com irmã Nam. Dissemos que éramos um casal e que ficamos muito interessados em adotar Somchai e Kalan. Queríamos saber se ela teria algo contra. Ela sorriu e muito calmamente nos perguntou:

- Vocês se amam?

- Sim! Respondemos juntos. E muito! Completou Arthit.

- Ao contrário de muita gente, nunca acreditei que pudesse existir um Deus que ficasse contra o amor. Eu não consigo imaginar uma criança que amo ir para uma casa onde elas não sejam amadas. Tenho certeza que meus meninos serão felizes e muito amados por vocês. Muito obrigada por me darem essa felicidade. Disse nos dando um abraço apertado.

Foi difícil se despedir de Somchai e Kalan. Nem Toshiba parecia querer ir embora. Partimos com lágrimas nos olhos, mas felizes. Aquela, com certeza, não foi a comemoração de aniversário de casamento que tínhamos planejado, mas não mudaríamos em nada tudo o que aconteceu. Em questão de dias nossa família estaria maior. Corríamos como loucos para agilizar os papéis da adoção. A notícia foi recebida como uma bomba por toda a família. Eles já tinham perdido a esperança que fôssemos adotar alguma criança e, de repente, iriam chegar duas de uma vez. Enquanto isso, nossa rotina virou um ir e vir semanal até o orfanato. Ver e brincar com os meninos virou uma necessidade que nos fazia esperar o final de semana com muita ansiedade. Decidimos que havia chegado a hora de mudarmos para uma casa. Queríamos ver nossos filhos crescendo, correndo e brincando no jardim. No dia que Arthit fez quarenta anos, ganhamos o maior presente de nossas vidas. Nossos filhos Somchai e Kalan Sutthilack-Rojnapat vieram morar conosco.


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