PATOS

All Rights Reserved ©

Capítulo IX

Adauto se demonstrou um bom profissional. Era um contínuo ágil e atento. Sempre prestativo às solicitações que recebia, ganhou a simpatia profissional dos demais empregados do escritório. Respeitavam Adauto e tinham ciência de sua competência, só. Não amavam Adauto e nem se importavam com ele. Não lhe distribuíam suas culpas ou responsabilidades e conversavam com ele entre um cafezinho e outro. Adauto estava contente com seu emprego. Conhecera várias pessoas, aprendera sobre o negócio – o que era muito importante, afinal, era sobre aquilo que estudava – e ganhava mais do que na loja. Não era um valor extraordinário, mas podia pagar suas contas, visitar os pais com maior frequência e satisfazer alguns gostos.

Ao se formar, Adauto passou de contínuo para analista contábil júnior. Seu trabalho era muito competente, passou a ter melhores relacionamentos com os colegas e com os clientes. Estes atributos, somados à sua dedicação, fizeram com que a gerência imediata e o próprio pai do amigo notassem seu valor e rapidamente o promovessem.

A carreira de Adauto começara a deslanchar. Seu salário era ainda maior: Adauto podia enviar dinheiro aos pais e perder certo tempo procurando gostos a serem saciados. Seus pais estavam extremamente orgulhosos e confiantes na sua ascensão. A mãe o transformara em um ícone importante perante a sociedade onde morava, onde Adauto passou a ser esperado por muitas outras pessoas além da família. Foi convidado ilustre de diversos eventos públicos da cidade, sendo sempre anunciado como o filho daquele lugar, o representante daquele povo. O trem mais importante passou a ser aquele que trazia Adauto. Pessoas diferentes ocupavam parte da plataforma a sua espera. Adauto passou a ser referência. A mãe nunca estivera tão perto em toda sua vida.

Suas visitas se tornaram cada vez mais públicas. Chegou ao ponto de não encontrar com o irmão em uma delas. Era época de safra e a cidade tinha várias inaugurações e confraternizações esperando por ele. Adauto se chateou consigo mesmo, pois poderia ter ido ao encontro do irmão e sabia o quanto esse encontro era importante para ele também.

As coisas tomaram proporções tais que Adauto já não tinha mais controle do que e de como as coisas aconteciam. Simplesmente largou as rédeas e deixou que a sua vida fosse conduzida.

Ao ser novamente promovido, resolveu sair da pensão. Frequentava certos ambientes com pessoas que não eram compatíveis com o lugar onde morava e com o montante na sua conta bancária. Despedir-se da velha não foi fácil. As emoções reinavam e Adauto não pôde conter que algumas lágrimas se jogassem ao abraçar a velha. Prometeu manter contato e sempre comunicar todos os acontecimentos de sua vida.

Adauto partiu para um apartamento em um bairro de melhor padrão. Sua vida financeira era mais que excelente. Tinha tudo que queria e ainda sobrava. Passou a visitar menos sua cidade e a financiar as visitas dos pais e da irmã à capital – apesar de ser sempre convidado, o irmão sempre se desculpava de alguma forma.

Naturalmente, a rápida ascensão de Adauto provocou olhares desaprovadores e invejosos no escritório, pois em poucos anos, de mero contínuo, passou a ser um profissional experiente e respeitado. Os olhos apenas refletiam o que sentiam os corações. O ambiente de trabalho tornava-se cada vez mais tenso. Adauto estava sob a mira de todos e passou a ser visto como um aproveitador. Eles se sentiram traídos por um contínuo que tinha a simpatia e amizade como parte de um plano desonesto e premeditado.

Mas não era verdade. Adauto não havia planejado aquilo, simplesmente aconteceu. Não havia ganância. Mas a inveja dos colegas apontou dedos para Adauto, que teve de aprender a se defender e, naturalmente, a se comportar como um verdadeiro homem do mundo corporativo. Diante dessa situação opressiva, Adauto passou a se preocupar com seu emprego e sua carreira e firmou-se em uma posição completamente defensiva, quando não ofensiva muitas vezes. Com o tempo, Adauto passou a atirar pedras contra os colegas sem perguntar ou tentar entender a real situação. Como um animal acuado, simplesmente reagia com violência aos fatos que chegavam a ele. Incorporou os mecanismos daquele mundo e passou a dançar conforme a música, cavando oportunidades entre a inocência e o vacilo das pessoas. Tornou-se ardil e manipulador e transformava todos os eventos favoráveis às suas ideias e comodidades.

Odiado pelos colegas, Adauto se tornava adorado pela alta gerência. Tratava as pessoas como máquinas sem sentimentos, puníveis de todas as formas por quaisquer erros que cometessem. Não tinha ouvidos àqueles que não fossem, pelo menos, do seu escalão. Adauto passou corromper aqueles valores que trouxe quando chegou à capital. Na verdade, Adauto não tinha mais valores algum.

Ficou isolado no trabalho. Não participava mais das conversas de cafezinho, não tinha companhia para almoçar, comunicava e tomava as decisões por si dentro de sua equipe, recebia recados e as pessoas evitavam permanecer mais tempo do que o necessário ao seu lado. Estava abandonado. No começo, Adauto não se sentiu incomodado; ao contrário, preferia a vida daquela forma. Sem relações emocionais, não tinha necessidades e nem ressentimentos diante da forma como tratava as situações e as pessoas, menos ainda diante das consequências que eram produzidas. Mas com o tempo, as necessidades de Adauto começaram a reclamar, ao perceber os espaços vazios e latentes em seu âmago. Ele passou a se sentir mal e seu desempenho começou a diminuir consideravelmente, o suficiente para ter uma conversa ameaçadora com seu superior. Foi sua petrificação. Adauto tornara-se pior – ou melhor, naquele mundo.

Adauto se entregou ao trabalho e passou a ignorar definitivamente os que um dia foram seus amigos. Definiu para si que eles eram apenas parasitas invejosos que lhe queriam mal. O amigo de Adauto foi convidado a ocupar uma das cadeiras da diretoria. Substituiria um velho teimoso que depois de tanto relutar foi obrigado pela sua saúde a aceitar a aposentadoria.

O trabalho dominou Adauto. Não havia turnos, fins de semanas, feriados, noites, quiçá férias. A hora que fosse, quando quisesse, Adauto punha-se a trabalhar e até envolver seus colegas, fazendo cobranças e exigências, muitas vezes incoerentes. Adauto era extremamente radical e intransigente com sua equipe. Quem não se enquadrasse, estava fora e muitos pularam. Adauto chegou ao extremo de pedir a demissão de um deles por não estar acessível em suas próprias férias. Adauto não apenas demitia, ele humilhava. Adauto respirava trabalho, comia trabalho, era trabalho, era patrimônio.

Passou a manter a família próxima para evitar perda de tempo em viagens e eventos inúteis. Mais perto, mas não junto. A mãe tinha orgulho disso e o usava como exemplo de homem à filha. O pai mantinha-se neutro, já não tinha idade nem saúde para se importar com este tipo de coisa. Ele sabia que o seu filho tinha se transformado naquilo que temia. Com o irmão não conversava havia meses; anos que abandonara a promessa que fez à velha da pensão; anos que não frequentava os botecos da avenida; anos que fugia da ideia da visita ao prostíbulo; anos que escondia sua história; anos que não era aquele que um dia se encantou com a estação ferroviária da capital, com as ruas cheias de gente suja e sofrida e com a avenida que morava; anos que não visitava a loja de tecidos; anos que tentava se esquecer daquela noite de despedida com a mulher do homem da loja; anos que não ia mais ao parque visitar os patos; anos que era outro.

As coisas se abrandaram um pouco quando Adauto conheceu uma moça que para ele era especial. Foi no casamento de seu amigo. Era ela amiga da noiva e Adauto a notou do outro lado do altar. Ela era alta, magra, bem vestida, tinha movimentos suaves, cabelos curtos e ondulados, pela rosada feito bebê, olhos claros e um sorriso que encantava qualquer um.

Durante a festa, trocaram olhares enquanto Adauto discutia negócios com velhos advogados e ela conversava com outras moças. Os olhares se tornaram intensos a ponto de Adauto exigir informações detalhadas sobre a moça, antes de convidá-la para tomar um vinho na sacada da casa dos pais do amigo. Beberam, conversaram, mas não foi o suficiente para se conhecerem como queriam. Adauto ficou envolvido, mas ao mesmo tempo frustrado, pois não sabia não estar no controle. Adauto a levou para um almoço – de negócios - que rendeu a ela uma gargantilha de ouro. Passaram a se encontrar com frequência e puderam se conhecer da forma que lhes cabia. Iniciaram um romance e, então, Adauto tinha alguém que cuidasse dele – até o ponto que ele permitia.

Ela foi rapidamente apresentada à família. Na ocasião, seu irmão pôde conhecê-la e a levou para conhecer a fazenda em uma caminhada. Adauto não concordou, pois achou que ela, sendo moça de nobre família da cidade, não se sentiria bem naquele lugar. Mas ela gostou e conversou bastante com o irmão de Adauto enquanto caminhavam sem pressa pela fazenda. Quando retornaram rindo, Adauto, que estava com o pai na varanda, ganhou um tabefe carinhoso do irmão, que, rindo, disse que pelo menos uma coisa Adauto havia feito certo na vida.

A mãe tornou-se incrivelmente íntima da moça e a cidade aprendeu a adorá-la tanto quanto adorava Adauto – o dinheiro que a mãe recebia dele era muito bem empregado nas relações público-sociais. Ela se mostrava cada vez mais hábil em se relacionar e manipular a opinião daqueles que lhe convinham. A irmã tornou-se amiga da namorada de Adauto e estava sempre na capital hospedada na casa dele, mas sempre junto da futura cunhada em lojas caras, restaurantes luxuosos ou em eventos com a alta sociedade.

Adauto passou a controlar melhor seu trabalho e a ter algumas horas de lazer com a moça, inclusive visitando a família com mais frequência.

A moça se mostrou uma verdadeira companheira de um homem de negócios. Tolerava a agenda, os desejos e a ausência de Adauto. Não havia questionamento por parte dela, apenas inteira dedicação e disposição ao seu amor. Adauto era o rei de si, de sua família e de sua amada.

Adauto estava completamente apaixonado pela moça e ficaram noivos em uma confraternização extravagante em sua nova casa. Reuniu as duas famílias, a do amigo e a dos demais diretores da empresa.

Num dia daqueles, ao terminar o almoço com clientes, Adauto pôs-se apressado a caminho de uma reunião com outro cliente. Adauto tinha de ser rápido para não se atrasar – atrasos eram inadmissíveis para ele. No meio do caminho, decidiu pegar um atalho pelo centro da cidade para garantir a pontualidade, mas essa foi a pior opção de Adauto. Ao virar à direita em uma avenida no centro, topou-se com um enorme congestionamento. Os carros estavam praticamente parados, arrastando-se lentamente vez ou outra. Não houve tempo de recuar. Quando Adauto olhou para fugir em marcha ré, um carro ocupou todo o espaço no retrovisor. Ainda foi um pouco para frente e para trás tentando livrar o carro, virando o volante de um lado para o outro feito louco, praguejando e esmurrando e buzina. Adauto era puro ódio. Vermelho, suava feito bica no conforto de seu carro. Virava-se e chacoalhava-se descontrolado para todos os lados buscando uma solução, mas não havia solução. Estava preso, iria se atrasar e poderia perder o negócio.

Com muita dificuldade, invadiu a faixa da extrema esquerda para tentar fugir no próximo cruzamento, no qual chegou cerca de quinze minutos depois. Mas Adauto pirou quando tentou virar à esquerda e o guarda de trânsito o parou mostrando a placa que indicava sentido contrário. Tinha de ter virado à direita e àquela altura não havia mais condições, ainda mais considerando a presença do oficial. Adauto corrigiu a posição do carro enquanto gritava com um “puta que o pariu!” alto e sonoro, que ficou abafado pelos grossos vidros de seu carro.

Com mais dez minutos, Adauto chegou ao meio do que parecia ser o último quarteirão de congestionamento. Havia outro guarda próximo à sua janela, que orientava os motoristas ao estreitamento de faixa. Adauto abaixou o vidro e perguntou:

- Falta muito, oficial?

- Apenas este quarteirão. No próximo cruzamento tudo volta ao normal – respondeu o guarda sem olhar para Adauto.

- O que aconteceu?

- Uma mulher foi atropelada...

O que se seguiu foi um forte apito do guarda que sacudia os braços tentando alinhar os carros.

Adauto fechou o vidro e ficou inconformado, não apenas com o congestionamento em si, mas com o acidente, se perguntando se aqueles eram lugar e hora para algum estúpido se deixar ser atropelado.

Ao se aproximar do acidente, Adauto notou que a equipe de resgate se movimentava menos e parecia guardar os instrumentos. Avançou mais um pouco e, esticando o pescoço, viu o rosto pálido e sem vida da velha da pensão desaparecer sob um pano branco, com os olhos ainda estalados em uma expressão de desespero e dor.

Adauto ficou paralisado olhando para o corpo coberto. Uma forte dor lhe tomou a barriga oca. Viu-se pálido, sem forças e sem pensamentos. Começou a sentir o cheiro da velha. Não o sentia literalmente, era uma lembrança muito forte que fazia parecer que o cheiro estava dentro do carro, como se a velha estivesse sentada do seu lado, como nos cafés-da-manhã ou nos jantares tarde da noite.

Havia muito tempo que Adauto não se lembrava dos inúmeros cheiros de sua vida, que quase se concretizavam no presente pela força que tinham em sua mente. Era o que estava acontecendo dentro do seu carro naquela hora. Adauto lembrou-se de muitos momentos que passara com a velha e de como ela o apoiava e, ainda, de como ele a jogou fora de sua vida.

Como uma peça pregada pela sua mente, Adauto passou a sentir o cheiro do seu quarto na pensão, o cheiro da loja de tecidos e dos diversos rolos de pano misturados com o cheiro de café que vinha de dentro da casa; sentiu o cheiro do creme de barbear do homem da loja, sentiu o cheiro da casa do homem da loja e sentiu o cheiro que a mulher da loja levou a ele naquela noite no quarto da pensão. O cheiro de seus cabelos, de seu corpo, de seu rosto e de seu gozo. Adauto pôde lembrar perfeitamente do cheiro que sentiu entre as bochechas e as orelhas dela.

Adauto estava suando, passara do temor à culpa, à nostalgia e à excitação de uma só vez, como num piscar de olhos. Tudo ficou turvo e doído quando toda esta viagem foi bruscamente interrompida pelo guarda, que batia à sua janela para que ele avançasse. Os motoristas atrás dele já estavam furiosos e buzinavam sem parar. Adauto saiu com o carro em solavancos acelerando forte sem saber para onde seguia. Demorou a recobrar algum tipo razão, e quando percebeu já estava a caminho de casa. Ao chegar, Adauto ligou para o escritório informando que estava se sentindo mal e que ficaria em casa naquela tarde e pediu que cancelassem a reunião que tinha com os clientes. Isso causou um grande espanto no escritório porque Adauto nunca se entregava a qualquer mal-estar. Em anos, essa era a primeira vez que se ausentava. Em casa, entregou-se àquele estado de torpor, abraçado a uma garrafa de uísque e rodeado por maços de cigarros.

Não apenas aquela tarde, mas as semanas seguintes foram complicadas para Adauto. Ele andava atrapalhado, com as ideias misturadas. Seu comportamento era estranho, assim como suas decisões e suas conversas. Todos perceberam isso no escritório e não havia outro assunto.

Seu amigo foi um dos primeiros a perceber a instabilidade de Adauto. Tentou conversar com ele para saber se estava acontecendo algo de errado, mas Adauto apenas dizia que estava tudo bem e que não havia nada para se preocupar. O serviço de Adauto estava se acumulando. Ele não conseguiu fechar alguns negócios que eram simples para ele e importantes para a empresa. Era nulo nas reuniões e suas opiniões tinham de ser arrancadas para imediatamente serem descartadas. Adauto estava se tornando um problema no escritório e o amigo sugeriu que tirasse férias, o que ele prontamente recusou.

E não foi só no trabalho. Sua noiva também estava aflita com Adauto. Ele a evitou completamente durante a semana seguinte àquela tarde. Quando conseguiram ficar juntos, ele quase não conversava. Havia emagrecido, mas ninguém havia percebido, a não ser ela. Conforme as semanas e os meses iam passando, Adauto começou a ter noção da transformação pela qual passara. Até então, não havia percebido no que se transformara; apenas pensava que tinha o controle de tudo o que parecia desviante e sem controle. Entretanto, quanto mais claras ficavam as coisas, mais claro ficava o seu passado, as suas lembranças e os seus vazios. Tudo era confrontado brutalmente com sua realidade, como uma exibição punitiva que sua mente lhe aplicava. Sentia-se culpado pela morte da velha, por tê-la abandonado. Quando se colocava a falar, Adauto falava ao vento, com o olhar vago e distante, com peso e ressentimento sobre o descaso das pessoas, sobre a falta de consideração aos sentimentos alheios, sobre como viver era difícil. Valorizava suas dúvidas e era enfático ao exemplificar a crueldade do mundo, sobre as coisas boas que temos e que desperdiçamos em busca de coisas maiores que nada significam no fim das contas. Adauto falava essas e tantas outras coisas fora de uma lógica ou contexto aceitáveis e de uma forma constante. A noiva de Adauto estava cada vez mais preocupada e sugeriu a ele que fossem visitar sua família. Ele concordou, disse que sentia falta deles, mas antes tinha que visitar os patos. Sua noiva não entendeu o que ele quis dizer, mas achou melhor não perguntar naquele momento.

Naquele domingo pela manhã, depois de muito tempo, Adauto foi visitar os patos. Chegou ao parque e notou que o pipoqueiro era outro. Questionou-o sobre o antigo pipoqueiro e soube que ele havia sido proibido de trabalhar do parque. Adauto entendeu que houvera alguma espécie de trapaça e ficou furioso com isso. Olhou bem nos olhos do novo pipoqueiro e ele entendeu o que Adauto pensava. Imediatamente baixou a cabeça e começou a mexer desordenadamente nas pipocas. Adauto bufou, pediu um saquinho de pipocas e foi até a árvore. Sentou-se e começou a chamar os patos e a jogar pipocas na água, mas eles não vinham. Fazia tempo que ele não ia ao parque e os patos não se lembravam mais dele, talvez nem fossem os mesmos patos. Adauto começou a erguer a voz e a lançar as pipocas mais longe. Alguns patos os olhavam, mas não vinham. Adauto estava sobre os joelhos jogando as pipocas e começou a gritar:

- Venham... pipipipipi... Venham, precisamos conversar, preciso me desculpar, preciso contar algumas coisas, preciso de vocês, venham!

Mas eles não iam, eles estavam se assustando e suas últimas palavras foram soluçadas. Adauto estava quase chorando. Depois de tanto tempo, Adauto estava derramando lágrimas. As pessoas olhavam assustadas, mas ninguém falou com ele. Algumas riam, outros apontavam. Adauto não as percebia, estava completamente descontrolado e quando jogou a última pipoca, caiu sobre as pernas chorando como uma criança, com o rosto no chão e boca babante de uma saliva grossa.

Adauto nunca soube, mas toda essa cena havia sido assistida pelo amigo e a pela noiva, que estavam se mantendo em contato o tempo todo por causa de Adauto, acompanhando seu comportamento. Quando Adauto disse que precisava ver os patos, os dois resolveram segui-lo. Mas ao se depararem com aquela cena, preferiram não abordá-lo, simplesmente por não saberem como lidar com aquela situação. Como guardiões, acompanharam o desfecho e a caminhada trêmula de Adauto até seu carro, onde permaneceu imóvel por muitos minutos, até se firmar e seguir para casa, escoltado por eles.

Durante a semana seguinte, Adauto estava um pouco mais centrado. O amigo comentou com a noiva que achava que ele estava melhorando. Isso aliviou um pouco a noiva, que o encorajou novamente a visitar os pais. Adauto disse que já havia planejado ir até lá no fim de semana seguinte. E o fizeram. Os dois foram visitar a família de Adauto.

A noiva havia conversado com a irmã de Adauto e dito que ele não estava bem e que precisava descansar um pouco. Não entrou nos detalhes.

Ao ver Adauto, a família se espantou com a aparência dele: estava magro, com cabelo desarrumado, olheiras profundas e um sorriso deleitoso em vê-las.

A mãe e a irmã preparam um almoço especial para confortá-lo enquanto ele conversava com o pai na varanda. O irmão chegou mais tarde da roça e também se assustou ao vê-lo, mas não demonstrou nenhuma reação para não constrangê-lo. Agiu como se tudo estivesse normal. Conversaram um pouco e Adauto insistiu em ver a cunhada e o sobrinho. Foram até lá e Adauto acabou almoçando por lá, ignorando os preparativos da família. Estava se sentindo muito bem no casebre do irmão, conversando com a cunhada e afagando o sobrinho. Adauto tomou alguns tragos de pinga com o irmão, conversaram e riram bastante, e por isso o irmão permitiu que ele ignorasse o banquete da casa dos pais.

Quando voltou, todos estavam esperando-o para o almoço. Adauto apenas disse que já havia almoçado e foi para o quarto dormir. Entreolharam-se e a irmã ficou um tanto furiosa com o trabalho desperdiçado. O pai mandou que deixassem Adauto e que fossem comer assim mesmo.

Mas foi à noite, enquanto Adauto conversava com a mãe, escorado na pia da cozinha, que a família teve uma ideia de como ele estava. Após a mãe e a irmã terminarem o relato dos últimos acontecimentos sócio particulares da cidade, Adauto pôs-se a falar. Fez aquele discurso já conhecido por sua noiva e ela sentiu o perigo. Adauto estava pior. O discurso fora maior e muito mais complexo que antes. Sua mãe estava nervosa e irritada. A irmã tentou interferir algumas vezes com outros assuntos, mas Adauto insistia. O irmão estava na sala com o pai, de onde podiam ouvir o que estava acontecendo. O transtorno de Adauto tornou-se mais irritante quando ele abordou os problemas familiares, chegando à relação que eles tinham com o irmão. Meteu-se em todos os problemas que existiam antes e depois de sua partida. Adauto foi longe demais ao acusar toda a família de ser desnaturada com o irmão – incluindo ele também - e afirmando que todos deviam aceitar que a mulher do irmão era parte da família. Adauto era eloquente e sentia muita dor. Estava falando não apenas da vida dele, mas de como eles todos haviam julgado suas próprias vidas e a dos outros, tomando decisões que não lhes eram dignas ou justas.

Aquilo foi o extremo. A mãe largou a faca e a cebola, virou-se para Adauto enxugando as mãos no avental e disse:

- Escuta aqui, seu moleque! Quem você pensa que é para vir na minha casa e dizer o que eu devo fazer ou dizer ou sentir em relação aos outros? Você vai embora daqui, faz sua vida a nossas custas, vira um grande homem, ganha rios de dinheiro, nos manda uma mixaria e ainda vem aqui dizer essas merdas que você está dizendo? Olhe bem para você, olhe bem para nós, o que você pensa que está fazendo? Pronto, sabia. Agora vai começar a chorar como criança! Seu pai mimou você demais. Vire homem de uma vez por todas. Pare com estas bobagens sentimentais idiotas. Vire homem!

Adauto tentou segurar, mas não conseguia. Não soluçou desta vez, mas as lágrimas corriam em seu rosto. Queria sumir, desaparecer. Ninguém disse uma palavra. Ficaram olhando para Adauto esperando uma reação, mas não havia, nem havia como. A noiva baixou a cabeça, a irmã o olhava com desaprovação e o irmão, seu salvador, tirou-o da cozinha e o levou para fora. Fora da casa Adauto explodiu. Chorou e tentava dizer algo como “Por que ela fez isso? O que disse de tão errado?”. O irmão o olhou bem nos olhos e disse:

- Calma, tenha calma! É assim mesmo. Entendo o que está acontecendo com você, mas sozinho você só vai para baixo. Acalme-se.

Adauto diminuiu o desespero e o irmão continuou:

- Entendo o que está acontecendo, mas você tem que ter calma. Isso não é fácil de resolver. Sei, é nossa família, mas o que está acontecendo para você dará trabalho para eles e é assim que a coisa vai acontecer. Só você poderá resolver isso, só você. Está me ouvindo? Chegou a hora de entender que você está sozinho, por si só. São seus anseios e ninguém vai entender ou fazer algo para compreendê-los. Na melhor das situações, você estará sozinho. Tenha calma e pense um pouco, lembre-se de quem você é e de quem você era. Mas agora se acalme.

Um pouco assustado com a conversa do irmão, Adauto o abraçou e chorou em seu ombro. O irmão tinha os olhos cheios também, mas tinha que aguentar naquele momento e disse:

- Sempre estarei do seu lado, certo? Está me ouvindo? Sempre estarei do seu lado, seja lá qual for a sua condição, saiba que sempre estarei do seu lado e você pode contar comigo sempre, está me ouvindo? Sempre!

Adauto se sentiu confortado e então chorou com mais desespero ainda.

Depois de mais calmo, Adauto, junto ao irmão, voltou e serviu-se do jantar que havia sido preparado. O silêncio só não foi pleno por conta dos talheres e pratos. Ninguém disse uma palavra e todos praticamente não comeram.

Ao terminar a refeição, Adauto se levantou e disse que iria dar uma volta. Ninguém respondeu e ele saiu. Foi para a lagoa, sentou-se e tentou senti-la. A lua era cheia e tudo estava maravilhosamente iluminado. Adauto fumou alguns cigarros, sentiu a dor e voltou para casa. Foi direto ao quarto, ignorando os pais abraçados no sofá da sala.

No dia seguinte, todos agiram como se nada tivesse acontecido, apesar de estar nítido nos olhos vermelhos da mãe e nas expressões dos outros.

Era o dia de Adauto ir embora e todos da casa o levaram até a estação. O irmão passou pela manhã e se despediu, pedindo a ele que sempre se lembrasse do que ele tinha dito no dia anterior.

A despedida foi menos calorosa que as outras e tinha um sentimento de alívio envolvido. O trem chegou e Adauto se foi com a noiva. Adauto nunca havia sentido tanta dor e ansiedade em deixar aquela plataforma como daquela vez.

Na semana seguinte, houve uma reunião padrão com a diretoria do escritório para identificar problemas e tomar decisões estratégicas. Adauto se levantou e foi para a reunião. No caminho, cruzou com um faxineiro e disse “boa-tarde”. O homem era magro e baixo. Tinha um rosto marcado pela dura vida que levava. As mãos enrugadas e duras mal conseguiam abraçar plenamente a vassoura em que se escorava. Surpreso, o homem abaixou a cabeça respeitosamente e murmurou de volta “boa-tarde, senhor”. Adauto diminuiu os passos e tentou olhar melhor para o homem, mas sentiu sua tristeza ao vê-lo de cabeça baixa na tentativa de esconder-se em si mesmo. Aquilo partiu Adauto em dois. Sentiu-se um ditador arrogante pisando na nuca de um súdito com o rosto contra a sarjeta. Adauto continuou andando olhando para trás, mas não conseguiu ver o homem erguer a cabeça. Pensou que o homem deveria ser um pai de família que trabalhava feito animal para garantir a comida e o remédio deles e ainda se sentia submisso a Adauto. Um homem que deveria ser um herói e tinha vergonha ou medo de olhar para um crápula da pior laia.

Adauto ficou inconformado não apenas com a submissão do homem, mas com a própria opressão. O faxineiro era um homem como ele, senão melhor, e tinha se humilhado, reduzindo-se ao nada com o seu cumprimento de “boa-tarde”. Adauto sentiu-se muito mal com aquilo e pensou na hipótese de ele ser o culpado por aquela situação. Na verdade, o homem era apenas mais um. Mais um boi marcado e reconhecido por um sinal pendurado ao pescoço na fila do abate. Foi assim que se sentiu. Era um número com uma foto que dizia mais do tudo que realmente era; mas a sala de reunião chegou antes que pudesse entender alguma outra coisa.

A reunião foi tensa. As coisas não caminhavam tão bem no escritório e isso tinha uma grande parcela de culpa de Adauto. O ritmo da reunião era previsto: os diretores cuspindo fogo e os demais de cabeça baixa prometendo o impossível para reverter a situação. Apesar dessa previsão, a reunião tinha outra aparência a Adauto. Os problemas existiam simplesmente pela razão de serem gerados por atitudes humanas. Adauto conseguiu reentender que os seres humanos erram. Os diretores estavam massacrando todos os outros subalternos, inclusive Adauto, que não se abalava por entender o que entendeu ali. Havia outro analista, um senhor conhecido de Adauto, que se desculpava feito idiota de tudo aquilo que não havia cometido e, ainda, prometendo resoluções que nem ao menos lhe cabiam. Ao ver esta cena, a lembrança de Adauto se aguçou e o fez rever as cenas em que o pai de seu velho amigo lhe cobrava por coisas que não lhe eram cabidas. Revivendo a lembrança tão de perto, Adauto explodiu, transtornado, batendo a mão na mesa, berrando:

- Seu imbecil! Você é um cagão, um bunda-mole! Em casa é um ditador para a mulher e filhos, exigindo muito mais do que eles podem lhe dar e vem aqui, agora, feito um idiota, se humilhar diante do que estão lhe acusando sem ser o responsável e, ainda, prometendo ações que não lhe cabem? Vá se danar! Desgraçado! Abomina sua família feito um deus impiedoso e agora deixa que estes desgraçados façam você de gato e sapato?

Tendo dito isto, Adauto saiu da sala batendo as portas. O que se resolveu depois nunca foi sabido, mas Adauto saiu do escritório e foi até um banco vazio da praça. Olhou para a catedral e sentiu uma vontade imensa de entrar. Entrou e sentou-se no penúltimo banco. A igreja estava vazia e Adauto ficou olhando as imagens do altar. Ao ver o Cristo, chorou quieto, apertado e amargo. Seu amigo apareceu logo em seguida e sentou-se ao seu lado. Ficou quieto por algum tempo e virou-se para Adauto com uma mão em seu ombro e disse:

- O que está acontecendo com você, amigo?

Adauto permaneceu quieto e não olhou para o amigo que preferiu continuar:

- Você precisa de férias e estou lhe obrigando a tirá-las. Amanhã não quero ver sua cara no escritório, está me ouvindo? Vá descansar, pois é disso que precisa. Está me ouvindo?

Adauto acenou positivamente com a cabeça. O amigo o deixou ali por mais algum tempo. Sem a noção do tempo, Adauto saiu da igreja e caminhou para onde nem ele sabia onde.

Já passava das dez horas da noite daquela quarta-feira quando Adauto chegara em casa. No percurso de volta para casa resolvera caminhar pelo calçadão do centro. Caminhou sem pressa ou preocupação, apenas com o cuidado de observar as pessoas que com ele dividiam o passeio, como um dia gostou de fazê-lo.

Um homem com uma roupa surrada e empoeirada de materiais de construção caminhava rapidamente. A barba por fazer e o olhar fixo em busca de uma solução imediata para algo que o atormentava denunciavam uma vida difícil e complicada, que lhe roubara inclusive a mínima consideração que poderia despender consigo mesmo. Mais adiante, duas jovens de braços dados tinham nos olhos um brilho vigoroso e inocente de quem ainda descobre a vida, ao mesmo tempo em que uma safadeza juvenil bailava em seus sorrisos. Adauto sentiu-se excitado e desejou não só uma, mas as duas jovens só para ele. As duas eram esguias e já apresentavam protuberâncias suficientes para serem tratadas como mulheres. As vestimentas o aguçaram ainda mais. Pela intimidade das duas, Adauto pensou em como se acariciariam quando sozinhas. Ouve uma troca de olhares entre Adauto e uma das jovens, mas não fora o suficientemente demorado para que notasse a sua presença e nem para retomar suas fantasias. Deu uma leve olhada para trás quando passou por elas. O desejo sumira de sua cabeça quando as duas, descuidadas no andar, entrelaçaram os passos para desviar de uma senhora enorme que não demonstrara nenhum desejo de mudar a trajetória de sua caminhada. Uma senhora metida num vestido antigo e estampado com muitas cores e formas sem sentido, carregando uma pequena bolsa em um dos braços e sob o outro uma sombrinha pequena, que protegeria apenas a pequena cabeça avermelhada, permitindo que o resto daquele monte de banhas ficasse encharcado durante uma breve pancada de chuva. Tinha os pulsos e os dedos cobertos por joias vagabundas e gastas pelo tempo. Adauto pensou por um instante porque uma monstruosidade daquela estaria na rua atrapalhando o trânsito dos pedestres ao invés de estar perpetuamente esquecida em algum abrigo para idosos. Concluiu que, ele mesmo, antes de atingir uma idade avançada e adquirir lentidão e dificuldades nos movimentos e nos pensamentos, se internaria em um abrigo destes. Desviou da velha com rapidez e nojo e apertou o passo para garantir que ela não o alcançasse. Confirmou a distância que a gorda ficara e voltou a andar calmamente. Este era o tipo de visão desvalorizada que Adauto passou a ter depois de se petrificar na cidade grande, indiferente a tudo e a todos, preconceituoso e intolerante.

Mais adiante, do outro lado da rua, havia um edifício muito antigo e imundo. Tinha a fachada completamente marcada por manchas arredondadas de umidade. Talvez um dia fora bege, pensou. Algumas janelas denunciavam a podridão de seus moradores. Roupas penduradas em varais improvisados nas sacadas. Pilhas de bugigangas e móveis deteriorados quase tapavam algumas das janelas. Duas mulheres discutiam sobre algo incompreensível, debruçadas sobre parapeitos. Uma tinha os cabelos embrulhados por um lenço encardido e vestia um farrapo que lhe exibia as gorduras. A outra usava uma espécie de túnica para dormir de um tecido transparente e fino de tão usado; os cabelos molhados e maltratados escorriam sobre o rosto, assim como seus enormes e flácidos seios sobre o parapeito.

Numa outra janela, conseguira notar uma jovem que dançava frenética e ridiculamente na sala enquanto se arrumava. Na janela ao lado, um homem gordo e asqueroso cruzava a sala na tentativa de atingir o sofá e ali passar quase a noite toda como um saco de farelo velho. Tinha um espesso bigode, o cabelo desarrumado, usava um samba-canção e uma camiseta regata branca encardida, trazendo em uma das mãos um prato com uma pilha desequilibrada de comida. Algumas vezes, era abruptamente interrompido por buzinas e gritos descontrolados sem justificativas para suas existências. Mas eram peças que se encaixavam naquele tipo de lugar, naquele tipo de passeio que tanto lhe agradara na época em que chegara à capital.

Parou num boteco de uma esquina pouco movimentada e se sentou ao balcão, dividindo-o com mais algumas figuras que se embebedavam ou comiam um lanche vagabundo, duro e elástico como sola de sapato. Pediu uma cerveja. Enquanto a aguardava, inspecionou sem pudor o ambiente onde estava. Em um lado, havia um homem de uns sessenta anos conversando com uma senhora, talvez um pouco mais nova, que tentava resistir sem muito esforço à sedução do homem. Do outro lado, um homem de uns quarenta anos que já estava nitidamente embriagado pelo líquido oleoso que deslizava do copo até sua garganta de uma só vez, em um brusco movimento. Ao fundo, um grupo se revezava entre as bebidas, cavaquinho, pandeiro e viola. Do lado de fora, nas mesas da calçada, um rapaz liderava um grupo que ouvia atentamente suas fantásticas conquistas de mulheres jovens e casadas, sempre detalhadas como deusas de beleza incomparável. Notou o movimento das prostitutas na outra esquina, umas se exibiam aos carros, outras chegavam de um programa e outras brigavam pela propriedade do ponto.

- Toma! Alguma coisa para comer? – disse o balconista enquanto colocava a cerveja no balcão.

- Não, obrigado. Por enquanto é só. Ah, me veja um cinzeiro! – respondeu Adauto.

Encheu o copo e tomou um gole longo e sedento. Retirou um cigarro do maço guardado no bolso do paletó. Antes de guardar o maço, contou os cigarros estimando se eram suficientes para a noite.

O lugar tinha um ar pesado e quente. Não havia ventilação. A noite era abafada e a fumaça das frituras formava uma névoa dentro do bar. À direita do grupo que estava no fundo do bar, havia uma escadinha apertada e sinuosa, com degraus estreitos, que levava ao banheiro no andar superior. Inspecionou o lugar mais uma vez e pareceu-lhe que já estivera lá. Tomou mais duas garrafas e pediu a conta. Estava cansado e sem fome para continuar. Pediu ao balconista que acrescentasse um maço de cigarros à conta. Tomou em um único gole a cerveja que restara no copo, e, enquanto aguardou o troco, observou as prostituas com a intenção de um desfecho um pouco mais ousado. Mais uma vez foi interrompido pelo balconista, que lhe entregava o troco e o maço de cigarros. Parou à porta do bar e verificou mais uma vez as prostitutas. Desistiu e pôs-se a andar até um ponto de táxi.

- Chegamos patrão! – disse o taxista de forma delicada para não acordar Adauto com violência.

- Aqui está, pode ficar com o troco. Obrigado e boa noite!

Adauto saiu do carro e entrou sonolento edifício adentro.

- O senhor vai para onde? – perguntou o porteiro.

- Vou fazer um assalto coletivo a todos os apartamentos do edifício. Tem um revolver para me emprestar? Esqueci o meu no banco do táxi... – retrucou, inconformado por ser barrado na entrada de sua própria casa – Eu moro aqui, rapaz!

- Desculpe-me, mas sou novo aqui e ainda não conheço todos os moradores. Faço estas perguntas, pois zelo pela segurança de todos que vivem neste prédio, inclusive a do senhor. Então, por favor, se puder se identificar melhor, eu agradeço. – gaguejou o porteiro.

Adauto percebeu a situação e soube que ainda era aquela pessoa ruim em que havia se transformado, porém não teve nenhuma intenção de se desculpar – Sou Adauto, do cento e setenta e três!

O porteiro confirmou as informações em sua lista de moradores e abriu o portão.

- Entre, por favor. Desculpe a demora. Isso não acontecerá novamente. Tenha uma boa noite e bom descanso.

Adauto entrou e murmurou uma espécie de “boa-noite”.

Entrou no apartamento e tateou a parede em busca do interruptor enquanto tentava fechar a porta de seu apartamento. Acendeu a luz e deu uma rápida inspecionada na sala. Concluiu que tudo estava em seu devido lugar, apenas aguardando a faxineira que viria no dia seguinte. O apartamento era grande e qualquer lacuna que fosse deselegante à decoração era preenchida por móveis luxuosos e, provavelmente, alguns nunca realmente utilizados por ele. Orgulhoso, seguiu para o closet retirando o paletó e desabotoando a camisa. Pendurou o paletó e colocou a camisa no cesto de roupas sujas no banheiro da suíte. Em seu apartamento, sentia-se protegido e pensava ser o melhor lugar em que uma pessoa pudesse viver. Mas imediatamente lembrou-se de seu quarto da pensão e, saudoso e culpado, chorou.

Abriu a geladeira e a vistoriou com os olhos sem ter a mínima noção do que procurava. Desistiu e tomou um copo de água. Andou um pouco pelo apartamento na tentativa de fazer uma inspeção em todos os cômodos. Era grande, tinha quatro quartos, dois deles eram suítes e closets. A cozinha era enorme e modernamente equipada. A área de serviço abrigava os utensílios de limpeza e um banheiro de empregada que Adauto não se lembrara de tê-lo usado.

Estava com calor. Preparou um copo de refrigerante gelado e foi até a sacada. Debruçou-se no parapeito e continuou a beber.

Um vazio doído o tomou novamente. Olhou para trás e certificou-se de que estava sozinho. Quase não havia apartamentos acesos na torre à frente. Em um deles havia um casal deitado na cama. A iluminação denunciava que assistiam algo na televisão. Outro se acendera. Era uma mulher que Adauto já havia notado que morava sozinha e sempre chegava tarde. Ela cruzou a sala e acendeu a luz do quarto, abrindo a janela. Adauto se entusiasmou ao notar que ela começara a se despir e apagou as luzes para não ser notado, tornando-se espectador do acontecimento. Aparentava ser bonita e devia ter uns trinta anos. Tirou a saia exibindo femininas pernas grossas e esculturais. Tirou a camisa e imediatamente o sutiã. Adauto admirou os seios de tamanho proporcional ao resto do corpo. Seios rígidos e rosados. Balançavam com firmeza e sincronismo em resposta aos movimentos da mulher. Foram levemente acariciados por ela defronte ao espelho em uma busca sem sucesso por alguma imperfeição. Expressou um orgulho e, apenas vestindo uma calcinha um tanto cafona, apagou a luz e saiu. Adauto sentiu um calor intenso e a desejou. Notou que a luz do banheiro fora acesa. Talvez, se ficasse mais um pouco, poderia vê-la nua por completo ao voltar do banho.

Tomou todo o refrigerante. A excitação havia passado e o vazio retornado agora mais forte. Acendeu um cigarro, manteve um olhar fixo e vazio e assim permaneceu por alguns minutos, sem pensar exatamente em nada.

Olhou novamente para a janela da mulher, que ainda estava no banho. Acendeu outro cigarro. Agora os pensamentos iam e vinham sem nexo algum, causando um turbilhão em sua cabeça. Apagou o cigarro e foi se aliviar como outrora, mas sem sucesso.

Adauto terminou aquela semana como um ébrio e nunca soube exatamente o porquê de sua irmã ter ido visitá-lo. Na verdade – e o que ele desconhecia – era que sua noiva e o amigo, continuamente observando o comportamento de Adauto, agora trocavam confidências com sua irmã e com sua mãe. A irmã foi mandada à capital representando a família na decisão que haviam tomado.

Numa tarde de quarta-feira, combinaram de encontrar Adauto em um bar do centro da cidade. Adauto estranhou o fato da irmã e da noiva se submeterem a um lugar daquele com ele – era um lugar simples e pouco movimentado –, mas deixou isso de lado. Passaram algum tempo entre cafés e sucos enquanto conversavam sobre amenidades. Adauto estava se contendo para não permitir que acontecesse novamente o que tinha acontecido na casa da sua família. O teor banal das conversas fez com que Adauto não se emocionasse e isso foi bom. De repente, enquanto eles conversavam, uma sirene veio de longe gritando escandalosamente. Adauto chegou olhar, sem dar importância, para o furgão branco que passava às costas das duas. O furgão então parou, mas Adauto, acostumado à vida na capital, não deu a mínima importância e continuou a conversa. Adauto percebeu que suas palavras não eram mais ouvidas e seu rosto não era mais o alvo dos olhares. A irmã estava com olhos cheios de lágrimas e a noiva estava branca e trêmula caindo aos prantos. Adauto parou e perguntou:

- O que foi? O que está acontecendo?

Quando pensou em se virar para trás para olhar na direção em que elas estavam olhando, foi surpreendido por um solavanco em seu ombro direito, que o jogou contra a mesa. O barulho dos copos e garrafas caídos só não foi maior do que o grito de sua noiva. Adauto foi mantido com o rosto colado à mesa enquanto o outro braço era virado para trás e seu pulso elevado a uma altura que lhe causava uma dor insuportável. Adauto tinha um brutamonte em cada braço, que impediam qualquer movimento que ele tentasse. Mas lutou! Apesar da dor e tomado por uma força até então desconhecida, tentou se livrar deles, mas era impossível. Adauto gritava para que o largassem, que o deixassem, mas não adiantava, eles o apertavam ainda mais. A irmã e a noiva estavam em pé e abraçadas assistindo à cena desoladora.

Ainda lutando, Adauto ouviu a porta do furgão se fechar e uma terceira pessoa veio por trás, sem poder ser vista. Apenas os sapatos, que batiam firmes no chão, eram ouvidos. Adauto percebeu a pessoa parar ao seu lado e sentiu uma picada no braço direito, seguida de uma queimação provocada pelo líquido mal injetado. Seus músculos começaram a se entregar e seu corpo amoleceu. Sendo arrastado para o furgão, Adauto olhou para as duas e chorou por entender o que elas haviam feito com ele. E elas choraram ainda mais por entenderem que ele sabia.

Continue Reading Next Chapter

About Us

Inkitt is the world’s first reader-powered publisher, providing a platform to discover hidden talents and turn them into globally successful authors. Write captivating stories, read enchanting novels, and we’ll publish the books our readers love most on our sister app, GALATEA and other formats.