PATOS

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Capítulo X

Algumas vezes, quando Adauto era bem jovem, ao ir para cama e aguardar o sono que não chegava, perguntas se formulavam em sua cabeça e o arrebatavam de tal maneira que lhe causavam uma terrível angústia existencial. As perguntas apareciam subitamente e Adauto não tinha ideia de onde vinham, tampouco tinha controle algum sobre elas. Apesar da angústia que sentia, tentava entendê-las:

“Esta é minha casa, onde moro. Esta casa fica numa cidade que está em um país. Este país está em um continente que junto com os mares formam o planeta onde moro. Este planeta está entre outros, muitos outros. Talvez haja mais alguém como eu, em outro planeta, pensando a mesma coisa que eu. Será? Mas este outro planeta não deve estar neste sistema. Diz-se que há outros sistemas, mas quantos? Se o universo é infinito, deve haver muitos outros sistemas. Se o sol é o centro do nosso sistema e é uma estrela, cada estrela é um sistema? Então deve haver mais outros como este agora? Pode ser. Mas o universo é infinito. Como algo pode ser infinito? Sem fim? Tem que haver um fim! Não pode ser um lugar negro que nunca acabe. Tem que ter fim. Se não tem fim, não pode ter começo. Sem começo? Mas tem Deus. Então teve um começo. O universo deve ter fim, sim. Deve ser como uma caixa de vidro que Deus observa e cria à sua vontade. É isso. Somos mínimos. Apenas um suvenir na casa de Deus. O que há na casa de Deus além Dele? Deus é único. Ah, os anjos e os santos. Também tem seu Filho e Nossa Senhora! Deus é único, mas não está sozinho. Todos devem estar na casa Dele. Mas onde fica a casa Dele? Ah é, fora daqui, nós estamos lá. Mas a casa dele deve ficar em algum lugar, como um planeta. Mas este planeta tem que estar em algum lugar. Deve haver um universo lá também, com outros planetas e sistemas. E se é um universo deve ser infinito. Se não pode ter fim, como é que tem começo? Se não tem começo, Deus não começou. E se houver outro Deus para o meu? Mas aí ele teria sua casa em um planeta em outro universo infinito que não pode ser infinito, senão ele não teria início e não existiria. Meu Deus, isso é infinito! Então, nada começou. Eu não comecei. Mas mesmo que seja real, um dia acaba! A morte! O fim, se acabar esse universo e aqueles outros, acabar tudo, fica o quê? Um vazio, um nada? Se existe esse nada, não existe isso que vivo! Então o que é isso tudo? Esta casa, estas pessoas, eu? Se nada disso existe, o que são esses pensamentos? Como pode haver pensamento se nada existe? Ou isso não é pensamento? É claro, se nada existir, não pode haver pensamento. De onde vem tudo isso? Sou matéria, ou penso que sou? Isso é como um filme? Mas de onde? Feito por quem? Não há nada. Tudo é simplesmente um vazio? Negro? Infinito? Mas vazio de onde? Como pode haver vazio se não há o cheio? Nada é real? Eu não sou real? Mas o que é então? O que há? Se não há nada, por que eu sei e vejo tudo isso? Imaginação? De quem se nada existe? Mas o que é isso? O que há? Se nada há por que tenho que pensar que existo? Mas não penso: não existo. Mas não dá para existir, sou um vazio, uma imaginação, não pode ser, sinto! É tudo uma piada? Piada de quem? Não dá mais, para! Para!”

As perguntas não acabavam aí. Elas voltavam. Iam e vinham. E estes momentos eram realmente difíceis. Era tudo muito rápido; questão de segundos, mas tinha um enorme poder de destruição. Seu corpo se tornava um verdadeiro vazio irradiando terríveis ondas de dor. Seus músculos espasmavam. Ele se forçava em posição fetal para tentar aliviar a dor. Abraçava os joelhos com todas as forças, de modo que as coxas apertassem sua barriga. Aliviava-a, mas tudo só terminava mesmo quando tinha que terminar, por si só e não por seu controle. Terminava quando sua mente o entregava ao extremo. Da mesma maneira com que tudo começava, tudo terminava: de repente. Então, Adauto podia se deitar normalmente. Secar algumas das poucas lágrimas que às vezes escapavam das rígidas e apertadas pálpebras. Conseguir dormir, esgotado.

Estes momentos eram raros e aconteceram principalmente na juventude de Adauto. Um pouco mais velho, aconteceu apenas uma vez, mas foi menos doloroso e Adauto conseguiu terminar antes do extremo.

Agora, depois de tantos anos, aconteceu novamente, com as mesmas dimensões de quando era garoto, só que doeu mais. Adauto não conseguiu se dobrar. Tentou, mas o corpo não obedeceu. Depois de terminado, seu corpo estava muito mais exausto e dolorido do que das outras vezes. Adauto tinha os olhos úmidos e tentou abri-los. Eles resistiram. Adauto parecia não ter o mesmo controle sobre eles. Tentou novamente e as pálpebras começaram a se descolar lentamente. Aos poucos, Adauto foi tomado por uma forte luz branca que parecia lhe furar dos olhos até a nuca. Precisou fechar os olhos, aguardou alguns instantes e tentou reabri-los mais lentamente para tentar se acostumar com a luz. Após algumas tentativas, ele conseguiu abri-los, mas o que via era apenas uma cortina branca e brilhante. Pensou em massagear os olhos para melhorar a visão, mas não conseguiu erguer o braço mais do que cinco centímetros. Tentou o outro. Mesma coisa. Estava amarrado. Inquieto, testou as pernas e estavam nas mesmas condições. Adauto começou a forçar os punhos e os tornozelos para tentar se livrar, mas não foi o suficiente. Começou a se desesperar e a dar trancos cada vez mais fortes. Seu coração estava acelerado. A cada movimento, sua respiração expulsava jatos de salivas por entre os dentes cerrados. Quanto mais força fazia, mais barulho se ouvia e mais crua a carne amarrada ficava, mas ele não desistia. Estava vermelho. As veias estavam grossas e visíveis em seus braços, se arrastando pelo pescoço até as têmporas, onde se enterravam sob os cabelos.

Uma porta foi aberta, quase que arrombada, fazendo um forte estrondo que gelou Adauto, mas não o parou. Seguiram-se passos apressados e palavras incompreensíveis. Adauto ficou ainda mais nervoso e mais força procurou. Mãos fortes caíram sobre seus tornozelos, joelhos, pulsos, cotovelos e ombros. Outras duas trabalharam em sua testa. Sua visão, um pouco melhor, lhe mostrou alguns vultos passando em sua volta e, então, a picada. Seu corpo entregou-se novamente. As mãos ainda o apertavam.

Um vulto se formou ao centro da luz e Adauto sentiu sua pálpebra direita ser aberta, mas já não via mais nada.

Havia seis dias que Adauto estava internado naquela clínica de repouso, que era na verdade um manicômio. De acordo com o que foi descrito na internação, o psiquiatra responsável optou por manter Adauto sedado sob fortes drogas a fim de obter um estado psíquico melhor para definir algum diagnóstico.

No escritório, com exceção do amigo e do pai do amigo, todos souberam que Adauto viajara em longas férias merecidas. Isso causou certa estranheza nos demais, que foi superada com grande facilidade e conveniência.

Para preservar sua integridade moral, a família preferiu não submetê-lo aos cuidados de outro psiquiatra, principalmente se fosse da mesma terra e que pudesse expor a situação à comunidade. A mãe de Adauto ordenou que ninguém soubesse o que se passava – ali seria mais fácil de manter as aparências. Contra as ordens da esposa, o pai de Adauto contou ao outro filho, que reagiu com intensa fúria amaldiçoando toda a família.

O manicômio em que foi internado fora indicado por uma amiga da esposa do amigo de Adauto, que tinha um psiquiatra conhecido de sua família. Apesar de afastado da cidade, a apresentação causou uma boa impressão.

A impressão fora correta, uma vez que só foram mostradas as partes externas e algumas áreas internas propositalmente preparadas para este fim. O que se passava nas demais áreas era um pouco diferente. O manicômio estava em decadência, tanto no que dizia respeito à infraestrutura quanto em relação ao tratamento humano. O descaso e a indiferença passaram a fazer parte da rotina daquele lugar. Os funcionários ganhavam mal e eram poucos para a quantidade de trabalho demandada. O trabalho em si era difícil. Tinham que cuidar de todos os tipos de pacientes: psicóticos, lunáticos, alcoólatras, drogados e depressivos. Adauto ficou mais três dias naquele quarto padrão, com cerca de dez metros quadrados. Estava numa cama hospitalar antiga. Ainda amarrado pelos pulsos e tornozelos, vestia um avental branco-amarelado sem cueca. Tinha uma fita de identificação em um dos braços. No outro, tinha a agulha do soro que tomava constantemente. Estava coberto por um lençol fino e usado. O travesseiro e parte do lençol, ao lado de seu ombro, estavam esverdeados por um rastro de vômito mal limpo. Estava descabelado. Seus cabelos estavam sujos, oleosos. Os olhos enterrados em escuras olheiras úmidas. Estava magro. As formas dos ossos do rosto pálido eram evidentes. Os braços eram brancos e com manchas roxas das veias saltadas. Ao redor do quadril, uma parte do lençol revelava uma mancha amarela de urina que ainda pingava lentamente ao chão.

Quando acordou, havia um enfermeiro no quarto. Tentou levar as mãos ao rosto e percebeu que ainda estava preso. Desta vez não tentou se libertar. Tentou se acalmar e entender o que estava acontecendo. Percebeu que a luz estava acesa e tentou abrir os olhos com mais cuidado, pois as pálpebras estavam novamente grudadas. Se fizesse muita força, poderia abrir os olhos repentinamente e ser ferido pela luz do quarto. Ao perceber a respiração e o movimento de Adauto, o enfermeiro foi até ele e verificou seus sinais vitais. Abriu uma das pálpebras e desperdiçou todo o cuidado de Adauto. A cortina branca penetrou como uma agulha em seu olho e seu rosto contraiu-se em uma expressão de dor. O enfermeiro percebeu, soltou a pálpebra e perguntou se ele se sentia bem. Adauto não respondeu, a boca estava seca, com um gosto azedo. Ao poucos, estirando os músculos do pescoço movimentando a cabeça para os lados, Adauto foi tentando tomar consciência e terminou de abrir os olhos. Piscou algumas vezes com a intenção de lubrificá-los e definir o vulto corpulento do enfermeiro ao seu lado. Virou a cabeça em direção ao enfermeiro, que perguntou:

- Como você se sente?

Adauto mascou um nada, pressionou as pálpebras e conseguiu ver melhor o enfermeiro. Um homem forte com cabelos louros cortados bem curtos, um corpo roliço, mas forte e grande. Tinha pele clara, rosada e um cavanhaque dourado.

- Onde estou?

- Você está num hospital. – respondeu o enfermeiro.

- O que aconteceu? Por que estou no hospital? Por que estou amarrado? – Adauto perguntou com certa agitação em sua voz.

- Você não estava bem e precisou de cuidados especiais. O doutor virá logo e poderá lhe dar mais informações, mas preciso saber como você se sente.

Adauto percebeu que o enfermeiro sabia de mais alguma coisa, mas que não lhe diria e então apenas respondeu:

- Chame o doutor, quero falar com ele!

O enfermeiro soltou um riso irônico e disse que o doutor viria logo e que naquele momento ele teria que ver outros pacientes.

Adauto sentiu medo ao perceber que o enfermeiro saiu de perto e pegava suas coisas para visitar outro paciente:

- Eu estou com sede!

- Está bem, pedirei que alguém lhe trague água. Agora tenho de ir.

Adauto ouviu a porta fechar e o silêncio tomou conta do quarto. Era possível ouvir um zunido fraco que vinha da lâmpada do teto, que tomou sua atenção por instantes. Adauto tentou entender a situação, tentou se lembrar do que havia acontecido antes de acordar naquele quarto, algo que pudesse explicar ou dar algum sentido a tudo aquilo. Com dificuldade, lembrou-se de que conversava com sua irmã e com sua noiva. Lembrou-se de que estavam conversando assuntos banais e que elas estavam tensas. Então, pôde ouvir o som daquela sirene vindo de dentro de sua cabeça. Lembrou-se dos passos apressados, das mãos fortes e da picada que sentiu. Mas Adauto ficou realmente tenso quando se lembrou das lágrimas reveladoras da irmã e da noiva. Sua respiração ficou acelerada, seu coração batia mais forte. Sentimentos de traição e dúvida se misturavam, seu corpo ficou vazio, nada fazia mais sentido, ou fazia um único sentido que não podia ser verdade. Começou a se debater, tentava se livrar das amarras e soltou um forte urro que pôde ser ouvido no corredor. Ninguém veio. Fraco, Adauto desistiu das amarras e tentou se acalmar. Olhou para os lados e encontrou apenas uma cadeira velha de madeira à direita e o suporte com a bolsa de soro vazia à sua esquerda. O quarto estava vazio. Ali, os minutos pareciam horas e Adauto adormeceu enquanto inspecionava cada marca e mancha do encosto de madeira daquela cadeira velha.

Duas horas depois, a porta se abriu e entraram o doutor e outro enfermeiro. Adauto acordou e virou-se para eles. O doutor foi na frente e o enfermeiro fechou a porta. O doutor era um homem de estatura média, bom aspecto físico, cabelos pretos e grisalhos nas costeletas. Aparentava cerca de cinquenta anos de idade. Usava roupas sociais e gravata de bons tecidos por baixo do jaleco e examinava o prontuário de Adauto com os pequenos óculos ajustados na ponta do nariz. Tinha uma expressão calma, lia o prontuário concentrado sem demonstrar nenhuma reação. Era como se Adauto nem ali estivesse.

O enfermeiro era baixo e magro e sua calvície ainda lhe permitia alguns fios louros de cabelo. Tinha uma postura tensa e inquieta, apresentava um mau-humor que devia ser constante. Permaneceu parado atrás do doutor aguardando alguma ordem.

O doutor se apresentou para Adauto e perguntou como se sentia. Adauto devolveu com outra pergunta:

- O que estou fazendo aqui? – falou como se não tivesse ouvido a pergunta.

- Você não estava bem e precisou de tratamentos especiais. – O doutor respondeu em um tom calmo e dedicado.

- Isso eu já sei, mas o que aconteceu comigo para eu estar neste hospital? O que aconteceu para eu precisar destes “cuidados especiais”? – Adauto disse estas últimas palavras sacolejando os pulsos e os tornozelos amarrados, chamando sarcasticamente a atenção do doutor para como era mantido.

Naquele momento, o doutor percebeu que Adauto não sabia onde realmente estava:

- Estamos fazendo alguns exames e lhe observando para podermos concluir um diagnóstico preciso.

- Mas por que estou neste hospital? Eu passei mal? Estou com alguma doença? Por que este quarto é tão pequeno e frio? O senhor viu que meu soro está vazio?

O doutor fez um sinal de reprovação ao enfermeiro, que saiu imediatamente do quarto para buscar outra bolsa. O doutor virou-se para Adauto e continuou:

- Acreditamos que você esteja passando por uma crise aguda de estresse. Estamos aqui para ajudar você.

Adauto percebeu que algo estava estranho e que o doutor escondia algo:

- Estresse? Eu? Do que o senhor está falando?

O doutor olhou apreensivo para Adauto, como quem busca uma resposta confortável, que não a verdadeira. Adauto continuou:

- O senhor é doutor em quê?

O doutor hesitou e respondeu calmamente:

- Sou psiquiatra.

Adauto arregalou os olhos, fechou os punhos e perguntou entre os dentes:

- O quê? Isso aqui é um manicômio? É isso?

O doutor, mantendo a calma, mentiu para tentar obter a calma de Adauto:

- Na realidade, aqui é uma “casa de repouso”.

Adauto se enfureceu e se sacudiu tentando se livrar das amarras. Ficou vermelho, suas veias saltaram sob a pele e gritava com os dentes ainda cerrados, lançando jatos de saliva:

- Tire-me daqui agora! Quero sair, vamos, me tire deste lugar! Eu não sou louco, eu não sou louco, droga! Que porra é essa? Solte-me, seu filho da puta, deixe-me sair! Você não pode fazer isso comigo, me tire daqui, vou acabar com você, seu doutorzinho de merda!

O doutor permaneceu imóvel à sua frente, sem demonstrar qualquer alteração em sua expressão. Isso deixou Adauto ainda mais nervoso:

- Socorro, alguém me ajude aqui! Eu tenho que sair daqui, socorro!

Nesse momento, o enfermeiro magro entrou com a bolsa de soro e uma injeção, que entregou ao doutor. Jogou a bolsa de soro nos pés de Adauto e segurou seu braço. Adauto urrava tentando livrar seu braço das mãos do enfermeiro, mas o doutor conseguiu lhe aplicar a injeção, e, novamente, Adauto sentiu seu corpo se entregar contra sua vontade. A impotência tomou seu coração, as vozes ficaram sem sentido, as imagens se distorceram e ele apagou.

O doutor permaneceu ao lado de Adauto enquanto a medicação fazia efeito completo. Tinha uma expressão de preocupação. Verificou os sinais vitais de Adauto e atestou que estava tudo bem. Com um olhar pensativo, dispensou a ajuda do enfermeiro, que sem dizer uma só palavra, recolheu os utensílios e os medicamentos e foi-se embora. O doutor puxou a cadeira e se sentou com o prontuário nas mãos. Leu-o novamente e novamente. Olhou para Adauto, associou as informações que tinha a ele. Pensou, analisou – estava cansado –, passou as mãos pelos cabelos e murmurou com um leve suspiro:

- O que faremos com você, rapaz?

O doutor era um homem de meia-idade, com bastante experiência em sua área. Havia trabalhado para instituições renomadas e tinha diversos trabalhos publicados em órgãos respeitados pela comunidade psiquiátrica. Recebera prêmios de reconhecimento que levaram seu nome aos níveis mais altos de referência. Lecionara em duas universidades importantes. Fora diretor de diversas instituições psiquiátricas. Com a morte de sua esposa tudo mudara.

Certo dia, enquanto sua esposa saia de uma loja de roupas de luxo com sua filha, um assaltante desesperado as abordou, arrancando-lhes as bolsas, as joias e pedindo-lhes dinheiro. A quantidade fornecida não fora o suficiente e o ladrão, em completo desespero, atirara nas duas. A esposa morreu na hora. A filha, fora baleada assim que começou a correr, mas sobreviveu. Ficou internada por seis meses e não pôde recuperar os movimentos da cintura para baixo.

O ladrão foi condenado à prisão e o doutor o examinou algumas vezes, apesar de expressamente proibido. O homem não tinha históricos criminais nem desvios sociais ou emocionais. Era apenas um pai de família enfurecido e desesperado pela fome que a família passava devido ao seu desemprego. Havia roubado a arma de um vizinho e saiu pelas ruas para conseguir comida. Havia três dias que estava nas ruas sem coragem de cometer um assalto. Mas a visão das duas mulheres lhe rendeu uma impressão de facilidade e sucesso na operação, mas a decepção de si mesmo, diante das suas necessidades, o levou à loucura total e aos disparos incontrolados, como o próprio descreveu.

O fato de um homem simples, dito como normal, ter se tornado um assassino – o assassino de sua esposa e da felicidade de sua filha -, fez com que ele revisasse seus métodos de tratamento. O doutor passou a ser mais rígido na definição de diagnósticos, no uso de medicamentos e no trato com os pacientes. Simples distúrbios emocionais passaram a ser tratados como esquizofrenias profundas, desvios não tão complexos eram tratados por métodos que ele próprio desenvolvera e que chegavam a ser considerados inaceitáveis pela comunidade médica. Tudo veio à tona e a questão ficou complicada quando um de seus pacientes faleceu após ser submetido a níveis extremos de medicamentos durante um período de dois meses.

Para não perder seu direito de exercer a medicina, ele foi orientado pelo presidente do conselho – um grande amigo que abafou todo caso – a passar dois anos afastados de suas atividades. Nesse período, ele estudou a fundo diversas teses, artigos, técnicas e propostas, com as quais desenvolveu suas próprias ideias e teorias. Quando retornou, foi encaminhado à clínica onde Adauto estava internado. Além de diretor, era também o médico psiquiatra chefe, contando apenas com dois jovens médicos da mesma área e um grupo de quatro enfermeiros. A clínica era praticamente abandonada, povoadas somente por casos incuráveis e pessoas esquecíveis. Seu amigo presidente do conselho viu aí a oportunidade de manter o colega ocupado e longe de causar mais escândalos. O doutor praticamente se mudara para a clínica e saía apenas para visitar a filha, que era mantida em uma clínica de recuperação indicada por um amigo.

Apesar de todo o escândalo e negligência, o doutor ainda estava convencido de que pessoas comuns têm alta possibilidade de se tornar homicidas incontroláveis. Mas também sabia que suas novas perspectivas e métodos de tratamento não seriam aceitos pela comunidade e que estaria condenado àquele lugar enquanto não voltasse a atuar como antigamente. O doutor decidiu que provaria a toda comunidade que estava certo e que seus métodos, além de eficazes, eram extremamente necessários. Naquele momento, olhando para Adauto e entendendo seu histórico, o doutor via-se diante da sua grande e tão buscada oportunidade. Adauto seria o seu passaporte de volta aos altos níveis do respeito e reconhecimento na comunidade médica do momento.

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