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Capítulo XI

O doutor sabia que os procedimentos a serem adotados no caso de Adauto não seriam simples e muito menos ortodoxos. Teria de provar, antes de qualquer coisa, a potencialidade de Adauto em se personificar em uma aberração maligna, um ser sem escrúpulos e perigoso; só então poderia “curá-lo”, comprovando suas teorias e se consagrando por seus méritos. Todo o tratamento deveria ser cuidadosamente planejado para não haver falhas; deveria ser monitorado de perto, para que todos os dados fossem coletados, relevantes ou não.

Toda a bibliografia disponível foi considerada. Porém, visitas a bibliotecas e conversas com ex-colegas foram descartadas para não levantar suspeitas sobre seu trabalho, tendo em vista sua baixa credibilidade atual. Temas contraditórios, procedimentos irregulares, experimentos com resultados duvidosos, teses não comprovadas ou mesmo desmascaradas, tudo foi cuidadosamente manipulado, recortado e compilado em um único tratamento que englobava toda a teoria do doutor – inclusive um livro cabalístico, que o doutor ganhara de sua filha, fora cogitado e subitamente descartado.

Estava claro para o doutor que o tratamento não seria fácil de ser conduzido. Havia um toque de crueldade que traria sofrimento ao paciente e a ele próprio. Sentia-se em dúvida ao ler e definir certos mecanismos, procedimentos e métodos, pois, às vezes, pareciam desumanos e antiéticos. Nestes momentos, o doutor recostava-se na sua cadeira com a caneta cravejada – reservada para momentos de especiais – balançando-a por entre os dedos, enquanto avaliava a real necessidade de aplicá-los e imaginava como poderiam ser recebidos pela comunidade; mas sempre se voltava contra sua então inquieta consciência e a convencia através dos resultados que a dor de Adauto seria recompensada com sua reabilitação e que seus métodos seriam perdoados com o sucesso do tratamento que, oportunamente, poderia ser revisto.

Uma semana foi o tempo que o doutor precisou para elaborar o tratamento. Ele ficou praticamente todo este tempo trancado em seu escritório. Chegava bem cedo e saía tarde da noite, quando saía, pois houve noites em que ele passou no escritório, entre cochilos e pesadelos. Dedicou-se plenamente a este trabalho, abandonando quase todos os compromissos no manicômio. Os enfermeiros mantinham a operação padrão e os pacientes recebiam os medicamentos e cuidados prescritos na última visita que o doutor lhes prestara. Somente em casos de extrema emergência os enfermeiros conseguiam que o doutor destrancasse a porta do escritório. Mesmo assim, ele preferia dar as orientações necessárias e retornar ao seu trabalho, depois de excomungar em gritos e xingamentos os que o tiraram de sua tarefa.

Havia uma única exceção concedida pelo doutor: as ligações feitas pelos familiares de Adauto deveriam ser transferidas para seu escritório e somente estas ligações deveriam importuná-lo, conforme havia deixado grosseiramente claro à funcionária da recepção – a mesma que recebera a irmã e a noiva de Adauto e lhes apresentara o manicômio como devia ser mostrado. O doutor não queria que nenhuma informação inadequada chegasse aos familiares de Adauto, pois isso poderia causar preocupações desnecessárias que retirariam Adauto do manicômio. Perdê-lo estava fora de cogitação para o doutor. Outra preocupação do doutor era mantê-los longe de Adauto. Eles não poderiam influenciar ou questionar o estado de Adauto, pois isso também prejudicaria os planos do doutor. Assim, o doutor procurava mantê-los despreocupados, dizendo que Adauto estava sob medicamentos relaxantes a fim de reparar seu desgaste físico e mental, e que ele poderia receber visitas após iniciar o tratamento. O doutor também deixava claro que estava trabalhando de perto no caso, elaborando o tratamento que seria conduzido por ele mesmo para que Adauto voltasse à vida normal em breve, entre outros convencimentos. O doutor precisava ganhar tempo até concluir o tratamento, só então poderia lidar melhor com eles. Apesar de funcionarem perfeitamente, estas ligações lhe custavam muito. Além de interromper seu trabalho, exigiam que utilizasse toda sua educação, raciocínio e experiência para não vacilar. Consumiam-lhe muita energia. Ao terminá-las, permanecia olhando ao longe de sua poltrona, enquanto tomava um trago de licor. Ao todo, foram três ligações durante a elaboração do tratamento e quatro na semana seguinte. Algumas feitas pela irmã, outras pela noiva. A impressão que se tinha era a de que estavam sempre juntas.

Todos os funcionários estavam atônitos com o comportamento do doutor. Não falavam em outra coisa quando não estavam tentando cuidar sozinhos de algum surto de algum paciente com medicação desatualizada. O doutor sempre foi ativo para com os afazeres do manicômio, tanto administrativos quanto clínicos, mas tudo estava estranho. Sabiam que havia algo com o novo paciente, pois desde sua chegada, o doutor estava calado e reservado. Uma vez, conseguiram surpreendê-lo sentado, parado, com o olhar ao longe – cena rara, pois o doutor evitava demonstrar algum traço de dúvida ou insegurança perante os funcionários. O enfermeiro louro-grande comentou que havia visto rapidamente o doutor dentro de roupas amassadas e desarrumadas, com os cabelos perdidos do rumo normal e os olhos em profundas olheiras. Todos estavam apreensivos. A senhora da limpeza, que também estava proibida de entrar no escritório, chegou a cogitar “será que ele está enlouquecendo?”, mas foi rapidamente censurada pelos colegas, que não queriam admitir aquela hipótese, apesar de chegarem à conclusão de que algo não estava bem.

Ao concluir a especificação do tratamento, o doutor formalizou-o nos papéis timbrados com o brasão da psiquiatria e com o emblema do manicômio, que só ele possuía. Datilografou todo o tratamento obedecendo às normas de padronização vigentes para este tipo de documentação. Deleitou-se com ar orgulhoso enquanto transformava seus rabiscos do rascunho. Criou duas cópias: uma que o guiaria durante toda a execução e outra que arquivaria para possível referência futura.

A última tecla foi pressionada com o êxtase de um pianista que dá a última nota de um concerto perfeito. Com o coração acelerado, o doutor tirou a folha da máquina e a suspendeu à altura dos olhos contemplando-a. Acomodou-a com as demais, alinhou-as e as releu recostado em sua cadeira. O tratamento foi especificado e dividido em cinco partes – ou como o doutor preferiu chamar, cinco fases, as quais, no documento final, eram simplesmente identificadas como fase um, dois, três, quatro e cinco, por numerais romanos.

Antes de iniciar a versão final do tratamento, o doutor providenciou uma área limpa ao centro da mesa onde colocou as folhas de rascunho e calmamente as revisitou com olhos atentos e coração sério. Por não se tratar de um tratamento convencional, alguns itens – por assim denominar – exigiriam certa frieza, mas eram tidos como necessários e tecnicamente justificáveis. A consciência do doutor, fraca e acuada, obrigava-o a nomear no rascunho, em letras minúsculas e praticamente ilegíveis, cada fase do tratamento: Admissão, Confirmação, Purificação, Redenção e Remissão.

Durante a transcrição do rascunho, o doutor ignorou estas anotações, não só por não as levar ao trabalho final, mas por ignorá-las em seu coração e fazer isso de caso pensado. Viu-as e disfarçou, tentou fazer com que elas não estivessem ali. O completo sentido que carregavam gelaram sua barriga e despejaram ondas de calafrio pelo corpo. No fim, a última versão do documento possuía apenas os numerais romanos e o doutor enterraria as anotações.

O doutor não aguardou outra ligação dos familiares de Adauto. Depois de concluir todas as formalizações do tratamento, permitiu-se mais um dia em seu escritório para decidir o que e como diria a eles. Teria de demonstrar muita confiança para que Adauto permanecesse aos seus cuidados, pois teria de afastá-los durante o tratamento. Isso era o que mais preocupava o doutor: a presença de algum deles poderia levar o tratamento por água abaixo, além de que nenhum deles entenderia seus métodos, podendo tirá-lo de vez de ação. Seria uma conversa complicada e decisiva. Assim, sabendo que nunca estaria pronto, tomou o telefone e ligou para a noiva de Adauto – de quem seria mais fácil se esquivar ao telefone – e combinou uma reunião com a família. Conforme previu, ela pediu algum tempo para poder entrar num acordo com a família e definir a data e a hora para a reunião. O doutor se aproveitou e concluiu com um “decida o que for melhor para vocês, estou à disposição”. A noiva de Adauto ligou de volta no mesmo dia, marcando aquele encontro para dali a dois dias, pois a família de Adauto também estaria presente. O doutor sentiu certo alívio, pois teria mais um tempo para pensar e descansar.

Dois dias depois, o pai, a mãe e a irmã de Adauto foram apanhados pela noiva de Adauto na estação de trem, por volta da uma hora da tarde. A reunião estava marcada para as três daquele mesmo dia, mas eles preferiram ir direto ao manicômio ao invés de almoçarem. Disseram ter comido algo no trem. A mãe de Adauto estava com uma expressão de decepção e suas palavras denunciavam uma inquietação de quem queria resolver logo aquela situação. A irmã de Adauto vinha com olhos cheios, pondo-se a chorar vez ou outra, e parecia atormentada – apesar de acreditar em estar ajudando o irmão, era constantemente golpeada pelo sentimento de traição. O pai de Adauto vinha sério e monossilábico, de mãos juntas sobre as pernas inúteis e olhar preocupado. Todos estavam preocupados e impacientes. Quase não conversaram durante a viagem. A noiva tentava iniciar algum assunto para aliviar o ambiente, mas apenas a irmã tentava continuar a conversa de forma educada. Pai e mãe não abriram a boca e permaneceram olhando para as respectivas janelas do banco de trás do carro.

Chegaram uma hora adiantados no manicômio, mas o doutor estava prevenido para isso e os recebeu na porta, acompanhado da recepcionista, que coordenara toda a maquiagem do lugar, assim como antes.

O doutor saudou-os um a um cordialmente, mantendo uma postura amável, mas séria, a fim de demonstrar respeito pela dor deles. Convidou-os a adentrar e os instalou confortavelmente na sala previamente preparada para servir de sala de reuniões. Água e café foram servidos. Quando o doutor se preparava para iniciar a conversa, a mãe de Adauto irrompeu:

- Quero ver meu filho! Onde está ele?

- Sim senhora, com toda certeza! Porém, ele está recebendo uma medicação neste momento, mas lhe asseguro que o verá tão logo concluirmos esta conversa.

Ela recostou-se impaciente com uma expressão que exigia a agilidade e a clareza do doutor. O pai de Adauto suspirou e engoliu seco, mantendo um ar melancólico e os olhos baixos.

O doutor começou:

- Senhores, como todos sabem, Adauto permaneceu sob nossos cuidados durante este período para que pudéssemos delinear um diagnóstico preciso sobre sua real condição psíquica. O tempo foi necessário para que conseguíssemos isolar todas as variáveis que pudessem exercer influência sobre suas, digamos, perturbações. Um tanto diferente de outras áreas da medicina, esta exige um aprofundamento na definição do diagnóstico do paciente, tanto em questões à situação, às condições e ao histórico do paciente. Ainda se trata de identificar “onde” dói, mas não da forma que estamos habituados. E esta, senhores, não é uma pergunta que o paciente pode nos responder. Assim, preferimos mantê-lo isolado de todos os eventos e variáveis externas que pudessem afetá-lo de alguma forma. Isso inclui vossa presença.

O doutor fez uma pausa para tomar fôlego. Sua testa estava começando a umedecer. Recompôs-se e continuou:

- O estado psíquico de um paciente, como disse, está sujeito a diversas variáveis e fatores que podem estar acompanhando-o ou simplesmente sendo resgatadas de seu íntimo, uma vez...

- Doutor! – interrompeu o pai de Adauto – Por favor, adiante-se e nos diga por que nos convocou aqui. Sem cerimônias! Não temos ânimo nem paciência para ouvir suas explicações técnicas sobre a sua medicina. Apenas nos diga o que está acontecendo com nosso filho. Estamos há semanas sem informações concretas sobre ele. Perdoe-me, mas nos poupe desta agonia.

A voz do pai de Adauto estava baixa e trêmula. Revelava um nervosismo interno que tentava ser abafado. Em suas entranhas, o doutor sentiu um desconfortável tremor. Não conseguira concluir o seu discurso ensaiado e estava lidando com a pressão do sofrimento da família. O doutor lançou-lhe um olhar compreensível e restaurou a expressão séria, mas cordial:

- É justo, senhor! – disse isso para ganhar um fôlego. Pensou em se desculpar, mas achou melhor continuar, pois de nada serviria – Adauto sofre de um mal que afeta sua personalidade de forma que pode se tornar uma pessoa extremamente hostil para com todos.

- Ai meu Deus, como doutor? Meu filho é uma pessoa boa, não seria capaz de maldades para com ninguém! – disse a mãe de Adauto em protesto, antes de cair em prantos nos ombros da filha, que tentava se conter e ouvir o doutor.

O pai com a voz ainda trêmula perguntou:

- Esquizofrenia, doutor?

- Tecnicamente, sim. – respondeu o doutor sem hesitar.

- Quão mal é isso, doutor? – perguntou o pai de Adauto, então estabelecendo um contato direto com ele, demonstrando fortemente um interesse pelos detalhes.

O doutor percebeu e continuou:

- De certa forma, está avançada e os efeitos têm sido intermitentes; nos intervalos em que reina a personalidade do Adauto que conhecemos, tendem a diminuir. O Adauto descontrolado, imprevisível e, afirmo com propriedade, perigoso, se tornará mais frequente até o momento de assumir o controle total. Adauto não está bem. Seu estado pode piorar muito, em proporções que eu não gostaria de descrever.

Ao ouvir estas palavras, a mãe de Adauto se desesperou e a irmã não podia mais conter as lágrimas, que então deslizavam pelo rosto e lhe davam a possível “certeza” de ter agido corretamente, aliviando o seu sentimento de traição. O pai de Adauto buscou forças de nem onde ele soube e perguntou ao doutor se havia uma saída.

- Sim, há. – prosseguiu o doutor, que então se tornara centro de todas as atenções e sentiu que não seria mais interrompido. Regozijou-se. – A situação não está mais em estágio inicial, portanto, pode ser controlada e até revertida. Ainda há tempo, mas temos de correr. Isso significa que temos de iniciar rapidamente um tratamento rigoroso para conseguirmos trazer Adauto de volta!

Nesse momento, o pai de Adauto entendeu que esse era o verdadeiro motivo da reunião e que estava prestes a ter de decidir sobre este tratamento diferenciado para seu filho. Preparou-se para questionar, mas o doutor continuou:

- Dada a situação, o tratamento deverá ser intensivo a fim de deter o avanço da disfunção, digamos assim. Estou concluindo a especificação do tratamento – mentiu o doutor para evitar que os questionassem sobre detalhes -, e tomo como base os mais avançados estudos e procedimentos de que temos conhecimentos, inclusive minha própria experiência. No entanto...

O pai de Adauto não se conteve e interrompeu:

- No entanto o quê, doutor? Diga-nos o que tem a nos dizer!

- No entanto – prosseguiu o doutor, após limpar a garganta –, Adauto não poderá receber visitas durante o período do tratamento. Entendam! Não é uma questão de privá-los de Adauto, mas de privar Adauto de todos os fatores externos. A simples sensação da presença de vocês poderia levar o tratamento por água abaixo, e aí sim não teremos mais o controle sobre a situação, tendo de mantê-lo sob medicação rigorosa e vigilância constante.

A mãe de Adauto não tinha condições de falar, pois caiu em prantos num choro abafado no colo da filha, que também não sabia como reagir, ainda oscilando entre os sentimentos de traição e de dever cumprido. Não se podia dizer que o pai estava em condições melhores, mas ele fez um esforço sobre-humano para se manter composto da forma que pôde, para poder entender e discutir melhor com o doutor:

- Doutor, o senhor quer dizer que teremos de nos afastar do nosso filho durante o tratamento, sem ao menos vê-lo às escondidas, à surdina?

O doutor assentiu que sim com uma expressão séria.

- E o senhor disse que se o tratamento for interrompido ou se algo não sair conforme o planejado, nosso garoto terá de ficar internado por toda sua vida?

O doutor tremeu, mas não vacilou:

- Sim. No caso de piora, a questão da internação deve ser considerada. Uma pessoa em tais condições mentais mantida em casa, mesmo com todo amor que possa receber, poderá causar danos irreparáveis nas vidas dos que o cercam e ainda sofrer profundamente pela falta de cuidados especiais. Vejam, não estou dizendo que não teriam capacidade de cuidar de Adauto, pois podem aprender todos os cuidados necessários com meu acompanhamento. Apenas quero dizer que a internação deve ser considerada. Acreditem, já vi isso várias vezes e no fim, os pacientes acabam voltando em um estado pior e as famílias ficam arruinadas.

Subitamente, a mãe tentou engolir o choro e disse com a voz embargada, enquanto se levantava do colo da filha:

- Tudo bem, doutor, concordamos com o tratamento!

A filha olhou assustada para mãe sem entender ao certo o que se passava. O pai de Adauto lançou um olhar indignado para a esposa e tentou restabelecer a conversa com o doutor:

- Doutor, quanto tempo durará este tratamento? Qual a chance de sucesso? O senhor está certo de que funcionará?

O doutor ruborizou-se com uma ponta de orgulho em discursar sobre seu tratamento:

- Não posso garantir o sucesso pleno do tratamento. São vários os fatores que deverão ser considerados e controlados. Também dependerá muito da reação de Adauto aos medicamentos e procedimentos. Contudo, estou convicto de que temos uma grande chance de sucesso e, pelos meus estudos, isso será comprovado em aproximadamente seis meses. Executarei o tratamento pessoalmente, com o apoio dos meus melhores funcionários. – e nesse momento lembrou-se dos únicos enfermeiros menos incapacitados que ainda tinha disponível.

A convicção do doutor abrandou o coração do pai de Adauto, que ainda não estava convencido, mas entendera que, dentre as alternativas, o tratamento era o melhor, pois poderia trazer seu filho de volta. Olhou a sua volta: sua esposa o olhava com um ar clemente enquanto enxugava o rosto avermelhado; a filha tinha um olhar que parecia suplicar-lhe o “sim”, pois com isso não teria motivos para se sentir traidora.

O pai de Adauto voltou-se para si, de cabeça baixa. Tentou pensar, ser lógico, mas os pensamentos apenas vagavam para lugar algum e não traziam nenhuma conclusão. Mas foi quando a imagem do filho ainda criança, correndo pelo gramado da fazenda, se formou em sua mente, ele suspirou vencido um “sim”. Ainda acrescentou que queria ver o filho antes de partir. O doutor concordou, batendo-lhe levemente nas costas, agradecendo e dizendo que aquela havia sido uma sábia decisão e que manteria contato com a família durante todo o tratamento, enfatizando que Adauto estaria em boas mãos.

O doutor aguardou alguns segundos como se esperasse que todos se conformassem e melhorassem os olhares, então os invocou:

- Agora, vamos ver Adauto?

Os olhos da mãe brilharam e seu rosto revelou um contentamento eufórico, o que fez com que o doutor se lembrasse de acrescentar, enquanto se levantava e caminhava para fora da sala:

- Provavelmente, Adauto estará em repouso profundo por conta da medicação que lhe prescrevi para evitar que se desgaste demasiadamente.

Aquilo já era certo. Adauto estava sedado, apesar de o doutor ter preferido a expressão “repouso profundo”. Além disso, conforme as demais ordens do doutor, Adauto estava num quarto cuidadosamente preparado para evitar impressões negativas aos familiares. Era um quarto não muito maior do que aquele em que passara os dias, mas era limpo, aconchegante, com equipamentos relativamente novos e até perfumado. As vestimentas de Adauto, como as da cama, estavam limpas, bem arrumadas e levemente amareladas. O próprio Adauto tinha uma aparência melhor e estava sem as amarras, o que claramente dariam horror à cena. O doutor havia se preparado para esse momento e tinha ordenado alguns procedimentos, digamos, preparatórios para melhorar a aparência de Adauto durante esta visita e garantir sua estadia. Adauto havia ganhado alguns quilos – apesar de ainda estar bastante magro –, as olheiras eram menos escuras e os cabelos estavam limpos e devidamente penteados. Sua expressão era de relaxamento, sem sofrimento. Apesar destes cuidados, o doutor preferiu mantê-lo coberto por um fino lençol que estava envolto em seus pés, indo até seu pescoço.

Ao adentrarem pelo quarto, o doutor sentiu-se tenso e observou cuidadosa e disfarçadamente as reações dos familiares, como se tentasse confirmar o sucesso da cena.

A mãe de Adauto, que vinha abraçada à filha, largou-a assim que chegou à porta e correu para o filho. Pôs-se ao lado de Adauto, quase que deitada em sua cama hospitalar, enchendo-o de beijos pelo rosto e pela testa, examinando-o desordenadamente com os olhos e com as mãos, revolvendo o lençol como se quisesse confirmar que todas suas partes estavam ali e intactas e que aquele era realmente seu querido filho. Fez tudo isso ao mesmo tempo e descontroladamente entre lágrimas e soluços. Era possível ouvir algumas palavras como “meu filhinho querido”, “o que aconteceu com você?”, “olha só para você” e “mamãe está aqui”.

Ao ver o irmão, a irmã sentiu novamente o sentimento de culpa e traição palpitar em seu peito. Foi até a mãe e abraçou-a levemente, tentando confortá-la e confortar a si mesmo. Colocou sua mão na do irmão e a massageou carinhosamente. Trouxe a mãe para junto de si e permaneceram em pé ao lado de Adauto, como se o velassem.

O pai de Adauto ficou aos seus pés, observou a cena toda e permaneceu atordoado olhando para ele, com um nó no peito, tentando descobrir os erros que cometera para encontrar o filho naquela situação. Naquele momento, sentiu-se muito triste consigo, porque acreditou que tudo que fizera sempre estivera certo.

O doutor manteve-se paciente durante a visita e em momento algum demonstrou nervosismo ou desejo de que ela terminasse logo. Foi a mãe de Adauto quem repentinamente colocou-se em pé, recompôs-se e anunciou a partida de todos, dizendo ao doutor, com um olhar direto e um tom áspero:

- Cuide bem do meu filho, doutor. Mantenha-nos informados. Ele está sob sua responsabilidade!

O doutor assentiu com a cabeça e sentiu o peso da responsabilidade imposta, mas logo foi encoberto pelo alívio do sucesso da visita. Tudo correra como planejado. Tudo estava arranjado. O tratamento iria começar!

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