PATOS

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Capítulo XII

Fase 1 – Admissão

Com a ofuscada aprovação da família, o doutor estava livre e em plenas condições para executar todo o tratamento. Sem a presença física da família, diversos e complicados problemas seriam evitados, já que não poderia presenciar o estado físico deplorável que Adauto provavelmente atingiria. Além disso, o tratamento estava por sua conta e risco e, apesar de toda indiferença que sofrera no meio profissional, o doutor sempre foi convicto de suas competências.

Justamente por isso, o doutor sabia que não poderia iniciar o tratamento com Adauto naquelas condições. Ele não aguentaria e o tratamento seria um desperdício. O doutor tinha isso claro em sua mente e teria que se conter até ter Adauto pronto.

Assim, os procedimentos preparatórios foram iniciados. Adauto foi submetido a uma dieta disciplinada a fim de recompor suas energias. Exames diversos foram realizados e medicamentos aplicados para recuperar as deficiências fisiológicas que estava sofrendo. Entretanto, essa recuperação tinha de se adequar ao tempo planejado pelo doutor: esperar Adauto recuperar sua condição plena de saúde tomaria um tempo muito precioso do tratamento e desse tempo o doutor não dispunha. Preferia lidar com os possíveis desvios de uma fase mais delicada e importante.

O quarto onde Adauto fora mantido antes da visita dos familiares não foi desarrumado, apenas superficialmente limpo. Não passava de um mero quarto do manicômio como os demais, que se diferenciavam por não terem sido submetidos a uma redecoração improvisada de última hora. Adauto foi levado de volta a esse quarto para o início do tratamento e o quarto utilizado para a visita dos familiares então voltou a ser o que era antes. Adauto estava mais uma vez enclausurado, embora não estava abandonado, pois era alvo o de muitas atenções convenientes.

Diversos meios e tipos de alimentos alternativos foram utilizados para devolver os nutrientes em Adauto, uma vez que o doutor ainda preferia mantê-lo inconsciente durante esta fase. Mesmo sendo sabido que sua recuperação física poderia ser mais eficiente se consciente, o doutor preferia evitar desgastes excessivos nesta fase. Adauto consciente, questionador e assustado poderia piorar e isso comprometeria os planos do doutor.

No quarto, além de sua cama hospitalar e o tão companheiro suporte para o soro, havia uma cadeira para o doutor e uma pequena mesa de apoio para a preparação de medicamentos e para as pastas de alimentos. A iluminação também fora melhorada, sob ordem do doutor, pois ele passaria grande parte do tempo naquele quarto escrevendo e forçando os olhos.

Durante as duas primeiras semanas, Adauto apresentava uma leve melhora. Ganhou vários quilos. É verdade que estava longe do ideal, mas estava bem melhor do que o pior cenário esperado pelo doutor. Seus ossos estavam menos expostos, as veias não tão saltadas, os olhos menos sombrios, os dedos um pouco mais encorpados, a pele menos transparente e, em algumas regiões do rosto, até rósea.

Mas a aparência não era o único fator a ser considerado. Adauto parecia muito bem em relação ao seu estado no início do tratamento, mas clinicamente a situação ainda era ruim. Os exames mostravam que Adauto, apesar de sua melhora, ainda estava debilitado. Seu corpo respondera muito lentamente aos medicamentos e isso deixou o doutor extremamente preocupado. Sem pestanejar, o doutor realizou outra bateria de exames para atestar a possibilidade de uma intensificação dos medicamentos sem arruinar o que restava de Adauto. Precisava ser rápido e preciso: tinha de melhorar o estado clínico de Adauto a ponto de continuar o tratamento.

Novos medicamentos foram desesperadamente introduzidos. As dosagens e frequências dos demais foram ajustadas. Adauto estava sob uma forte medicação. Naquela semana, quase não ganhou peso. O doutor quase não dormiu, passando algumas noites entre cochilos em seu escritório e acordando diversas vezes para vigiar as respostas de Adauto. No meio da semana, durante uma ronda pela madrugada, o doutor encontrou Adauto praticamente sem pulsação e foi necessário acionar os enfermeiros. Durante a reanimação de Adauto, o doutor, por diversas vezes, refletiu a continuidade do tratamento e a real necessidade do que estava fazendo. Mas a urgência das ações lhe roubava as conclusões. Depois, com Adauto estabilizado e os medicamentos novamente ajustados, concluiu que aquilo fora apenas uma situação normal em qualquer outro tratamento. O de Adauto, então, continuaria.

Aquele incidente fora apenas um susto que o doutor preferia desprezar. No fim daquela semana, Adauto tinha um estado clínico quase aceitável. O doutor não estava completamente satisfeito, mas teria de lidar com a situação. Alguns medicamentos poderiam ser ministrados na fase seguinte sem comprometer os resultados esperados. Poderia prosseguir, porém, com muita atenção. Em momento algum o doutor tirava da cabeça que Adauto era a peça mais preciosa daquele tratamento salvador, mas de nada lhe serviria se não estivesse em condições de responder aos procedimentos e lhe fornecer os resultados tão desejados.

A terceira e a última semana desta fase do tratamento se aproximavam do fim. O doutor estava cada vez mais próximo, acompanhando cada instante, cada evento, cada oscilação de Adauto. Aos que viam, pairava a imagem do comportamento de um criador com sua criatura. Comentários perplexos em relação ao comportamento do doutor ecoavam pelos corredores e instalações do manicômio. Mas o doutor tinha experiência e sanidade suficientes para mantê-lo firme e distante destes tipos de conversa e sentimentos. Ele era o médico e Adauto o paciente, apenas. E isso estava muito claro para ele.

A proximidade do doutor na última semana se intensificou, pois Adauto teria de ser acordado para iniciar a fase seguinte. Exames seriam realizados e, inevitavelmente, explicações seriam requeridas. E o doutor teria de estar preparado para este momento. Toda a equipe foi instruída para não conversar com Adauto ou, pelo menos, não fornecer detalhes que não fossem exclusivamente sobre o procedimento que estariam executando. Qualquer outro tipo de informação seria passada pelo doutor. Pela maneira como foram proferidas, as instruções tiveram claramente um tom de ordem e assim foram recebidas, o que, mais uma vez, aguçou a curiosidade dos funcionários: o que ele está fazendo? Por que está agindo desta forma?

Mas estas perguntas nunca seriam feitas ao doutor, pois ele mantinha uma relação rígida e distanciada de seus funcionários. Nem mesmo o mais desinibido deles teria a coragem e as condições suficientes para fazê-las.

Fase 2 – Confirmação

Naquele dia bem cedo, no início da quarta semana, o doutor estava no quarto de Adauto um tanto ansioso para trazê-lo à consciência. Os medicamentos finais foram aplicados e o doutor permaneceu pacientemente ao lado dele, aguardando que os efeitos fossem produzidos. Aquelas poucas horas foram intermináveis e o doutor repassou seu plano de tratamento, suas ações, seus valores, sua vida e seu futuro inúmeras vezes em sua mente. Sentiu sonolência pelo cansaço acumulado e pela falta de sono adequado. Algumas vezes, mexeu-se na cadeira esticando os membros e massageando o rosto. Olhava para Adauto e olhava para sua prancheta com as anotações dos procedimentos. Em algumas folhas em branco, fez rabiscos desorientados que passavam por cima uns dos outros e ora ou outra formavam algo inteligível, o que logo era sobreposto por mais rabiscos. A caneta deslizava pelas mãos desconectadas do pensamento, como se fossem uma parte autônoma de seu corpo: mente em um lugar, visão embaçada, mãos a rabiscar. Ora formava-se uma árvore, ora um casebre, ora uma ave. Nesse momento, as mãos pararam, a mente voltou e os olhos enxergaram. O doutor permaneceu por um instante olhando para esta ave – uma espécie de gaivota sob o mar – sem qualquer reação ou pensamento. Não compreendeu e nem concluiu nada, apenas permaneceu numa espécie de transe.

Uma respiração densa de Adauto, daquelas de um despertar profundo que recarrega o corpo de oxigênio para restabelecer seu funcionamento, interrompeu o transe do doutor, que pôs a prancheta de lado de qualquer jeito e ajeitou a cadeira para ficar mais próximo dele. Adauto mexia a cabeça lentamente, movia os dedos e os braços, as pernas, e parecia tentar abrir os olhos enquanto engolia a saliva grossa. O doutor verificou suas medições e confirmou que tudo estava dentro do esperado. Adauto abriu os olhos e olhou para o teto por alguns instantes, recobrando a consciência. Lentamente ergueu a mão direita e com a mesma expressão analisou a mangueira enterrada em sua veia por uma agulha. Virou-se para o doutor:

- Onde estou? – perguntou após alguns segundos de hesitação.

O doutor, sem pestanejar e sem gaguejar, respondeu com uma voz macia, porém firme:

- Em uma clínica especializada.

- Clínica? Especializada em quê?

Adauto fez uma pausa e produziu expressões como se tudo o que havia passado tivesse sido injetado de uma só vez em sua mente:

- Ah, agora me lembro. Não foi um sonho, estou na casa de repouso para tratamento do meu estresse, não é? – disse com uma ironia carregada.

Antes que o doutor pudesse continuar, Adauto tentou sentar-se bruscamente, mas foi atingido por uma vertigem forte e uma insuportável dor na cabeça que o obrigaram a se deitar novamente, deixando o corpo simplesmente cair.

O doutor havia providenciado que as amarras fossem retiradas novamente, pois não queria Adauto agitado. Sabia que ele não teria condições alguma para fugir. Aproximou-se de Adauto, suspirou calma e profundamente a fim de obter sua atenção e continuou:

- Não, não era um sonho. Você está em uma clínica especializada, em uma casa de repouso ou manicômio, se preferir. Mas seja o que preferir, você está sob um tratamento psiquiátrico. Não são disfunções mentais ou psíquicas, mas sim estresse que, tenho que confessar, é muito forte, mas apenas um estresse.

O doutor preferiu mentir esse diagnóstico para Adauto. Não queria que sentimentos depressivos e de revolta fizessem parte do tratamento, pelo menos não naquele momento. Adauto teria de aceitar sua condição.

As palavras do doutor se misturavam às lembranças de Adauto. Lembranças da emboscada conduzida pela irmã e a noiva que vinham inevitavelmente à tona. Adauto era preenchido pela revolta, mas dada a sua fraqueza e a voz calma do doutor, era transformada em decepção. Seu coração batia mais forte, parecendo que seu peito iria explodir. Seu abdômen parecia vazio e esse vazio causava-lhe dor, como se um rolo de arame-farpado girasse dentro de si. As dores físicas e os sentimentos de abandono, de ser apenas uma peça descartável na vida das pessoas, se misturavam e tiravam as míseras forças de Adauto, que se entregava às reações de seu corpo. As palavras do doutor eram ouvidas e, então, passaram a ser mais atentamente recebidas. Tinha vontade de chorar, mas não conseguia:

- Você permaneceu sedado por meio de medicamentos desde que chegou aqui, para que pudéssemos amenizar sua situação e darmos andamento ao tratamento apropriado.

- Tratamento apropriado? Mas para curar o meu estresse não seria suficiente apenas um período de descanso? Não seria essa a razão da casa de repouso? Que tipo de tratamento é esse? Quero falar com o responsável, por favor! – protestou Adauto fraco.

O doutor continuou:

- Perdoe-me por não me identificar de forma apropriada. Eu sou o responsável aqui. Responsável administrativo e técnico pela clínica. Tenho certo renome na comunidade especializada e minha formação é impecável. Meus estudos conduzidos e meus trabalhos publicados são de grande referência para os demais colegas. Pode acreditar que estou nisso há tempo mais do que suficiente para poder lidar com a sua situação. Provavelmente você ainda era um menino quando eu iniciei minha carreira.

“Por estes motivos, pela condição atual do problema em nosso mundo e pela consideração ao seu caso, que me atrai pessoalmente, estou acompanhando sua estadia aqui. Estou com você de perto, mais do que o normal, desde que você chegou. Eu elaborei o tratamento ao qual está sendo submetido e tenho tudo planejado e sob controle. Estou acompanhando todas as etapas pessoalmente, com apoio apenas de um ou outro enfermeiro. Estamos dentro do esperado, tudo está correndo conforme planejado. O que quero dizer é que você pode ficar tranquilo que realmente está sob ótimos cuidados, sob ótimas mãos. Estarei com você durante todo o período que estiver conosco para garantir que você poderá retornar à vida normal, que na verdade será melhor ainda.”

Adauto parou por alguns segundos e perguntou ao doutor:

- Há quanto tempo estou aqui?

- Algumas semanas. Não nos apeguemos a estes detalhes externos, vamos nos dedicar aos que se passam aqui dentro. Tempo não é um deles.

- Mas por quanto tempo ficarei aqui? Como será este tratamento?

- Há um planejamento inicial para o tempo do tratamento, mas isso não é um dado exato. Dependerá muito de como você reagirá. São muitas as variáveis a serem controladas que influenciam no todo. Não se preocupe com isso agora.

- Mas por que preciso de um tratamento deste tipo? Por favor, fale a verdade para mim. Veja, não sou nenhum tolo. O fato de o responsável por esse lugar, tão bem formado e considerado, como o senhor se gabou, cuidar pessoalmente de um caso de estresse com tratamento cuidadosamente elaborado, deixa claro que a situação não é assim tão simples. Por favor, doutor, eu insisto: seja franco comigo, sei que não estou louco – ainda!

Aqui o doutor fez uma pausa e engoliu seco. Não havia considerado plenamente esta questão. Não tão firme, continuou:

- Você está certo ao pensar assim. Como eu disse, trata-se de um estresse agudo, e apenas o repouso, como você colocou, não seria suficiente para tratá-lo. Poderia ser suficiente por um tempo, mas isso voltaria e com mais força. Tenho me dedicado intensamente nos últimos anos a isto. Tenho visto e acompanhado diversos casos – neste momento o doutor pensou no caso da sua família, e gaguejou alguns conectivos enquanto tentava retomar a linha de raciocínio –. Pessoas comuns, de índoles incontestáveis, tornando-se pessoas extremamente perigosas. Perigosas para si mesmas, para as pessoas que vivem com elas e até mesmo para quem quer que cruze seus caminhos. Acredite, já vi senhoras donas-de-casa tornarem-se assassinas. O acúmulo do estresse nos leva a atitudes descontroladas, inimagináveis, inaceitáveis. A revolta nos toma conta pelo simples fato de nos percebermos fora de controle. Assim, tudo vira um círculo vicioso muito complicado, tanto para ser desfeito e quanto por seus resultados. Tenho inclusive um estudo sobre as reações em cadeia que isso pode provocar. Há casos em que membros de famílias conservadoras e incontestáveis, nestas condições, disseminaram estes comportamentos e descontroles a outras pessoas de seu convívio e afeto, que se feriram física e emocionalmente. Por isso, temos que cuidar com muita cautela de quaisquer níveis de estresse.

“Você precisa deste tratamento. Não tanto pelo como você está, mas pelo que pode vir a se tornar. Pela minha especialização e pelo seu histórico é que decidi cuidar pessoalmente do seu tratamento. Adauto, você tem razão, você não está louco e assim que queremos que você permaneça: são!”

O doutor não percebeu o deslize que cometera, mas Adauto sim e aproveitou a situação:

- Como assim “meu histórico”, doutor? O que me trouxe aqui, aliás, o que levou aqueles que se diziam minha família a me enganar e me colocar aqui seu meu consentimento?

O doutor limpou a garganta, sentiu um gelar em sua espinha, mas se adiantou para não piorar a situação:

- Adauto, você não foi traído. Ninguém deixou de amar você e é exatamente por amor que você está aqui. Você estava tendo comportamentos, digamos, estranhos. As pessoas próximas de você estavam preocupadas com a maneira com que vinha agindo. Como se você estivesse se tornando outra pessoa, diferente daquela que todos amavam. Mas vejamos o lado deles: como eles poderiam ir até você, já não em suas condições normais, e dizer que você estava fora de si e que precisava de tratamentos? Eles estavam assustados. Então, pelo simples fato de lhe amarem e de lhe quererem bem que você está aqui. E eu estou aqui para garantir isso, como prometi a sua mãe!

- Minha mãe está aqui? Eles vieram me visitar?

- Não, sua mãe não está aqui. Eles me ligam constantemente e “vieram” lhe visitar. Mas eu sou o responsável por você não estar consciente durante a visita, pois fazia parte do tratamento. Tive uma última reunião com eles na qual deixei claro e pedi que evitassem visitas, pois isso poderia colocar o tratamento em situações difíceis, comprometendo seu progresso. Esse é um momento que você deve estar apenas consigo mesmo. Sua família está muito preocupada com você, saiba disso!

Adauto chateou-se por não poder vê-los. Mas ao mesmo tempo em que se chateou, revoltou-se, pois eles o haviam colocado ali. Eles que lhe dedicavam um amor incompleto, que apenas existia enquanto ele estava bem e não oferecia dificuldades. Adauto sentia-se abandonado, sentia-se uma doença dentro do círculo de pessoas das quais gostava, uma doença que fora arrancada a sangue-frio para que elas pudessem continuar a gozar dos deleites das próprias vidas. Adauto estava aliviado por não ter de olhar no rosto deles. Mas foi quando o doutor lhe confirmou que eles aprovaram o tratamento que Adauto sentiu verdadeiramente abandonado e destratado.

- Mas doutor, quais foram estes comportamentos que me trouxeram aqui? O que foi que fiz de errado?

- É complicado dizer, pois estão relacionados com seu estado naqueles momentos e até mesmo em outros momentos de sua vida que ainda o rondam. Mas basicamente foram comportamentos excessivamente violentos, em termos verbais. Você não chegou a cometer violência física, mas creio que não estava longe disso. Outro comportamento fora do seu padrão foi o descaso e a opressão com seus colegas de trabalho, subalternos e até mesmo familiares. Arrogância excessiva, prepotência e ignorância às necessidades alheias, de seus funcionários, por exemplo: férias impedidas às vésperas sem motivos que não vingança; promoções concedidas que você revogou por birra; gritos e humilhações a que submeteu seus subalternos, entre tantas outras que você muito bem as sabe. Sem contar os sonhos e as falas estranhas durante suas noites. Adauto, você não estava bem!

Adauto não podia acreditar que aqueles foram as razões que o condenavam ao tratamento:

- Doutor, o senhor é o administrador deste local, um homem vivido, o senhor realmente acredita que estes motivos são suficientes para tanto? O senhor sabe muito bem das atitudes e posturas que temos que adotar em determinados momentos da nossa vida, ainda mais em determinadas posições hierárquicas, com poderes de decisão, caso contrário tudo se perde, se descontrola, se corrompe!

- Adauto, você se corrompeu!

Adauto se calou, tinha uma expressão de surpresa pelo que estava ouvindo. Não podia acreditar. Estava sendo condenado por tornar-se aquilo que passara a vida inteira se preparando para ser. Estava sendo condenado por que não era tão gentil como costumara ser. Por mais que percebesse isso em sua vida, não podia consentir que aquele fosse o motivo para tal tratamento. Não acreditava que poderia se tornar a pessoa má que o doutor descrevera. Não sabia o que dizer, estava pasmo.

O doutor tentou continuar, mas parou imediatamente como se fosse impedido por alguém que lhe desse um beliscão discreto por baixo da mesa.

- Continue doutor, diga-me o que não conseguiu dizer. Tem algo mais, não é? – disse Adauto ao perceber a reação e já adivinhando sua resposta.

O doutor hesitou, mas se rendeu à seriedade de Adauto na espera da sua resposta. Percebeu que não teria escapatória:

- No parque. Os patos. – o doutor fez uma pausa para restabelecer sua respiração - Aquilo chocou a todos. Ficou claro o seu descontrole e, digamos, as inclinações psíquicas para a perda total da noção da vida real.

Adauto desmontou-se na cama. Nunca saberia quem o delatara, mas alguém o tinha feito. Agora pensou um pouco e tudo se encaixou: passou de uma referência para um problema, de um amuleto que se carrega para uma bomba prestes a explodir. Precisava ser retirado de cena, para esconder o mal em que poderia se tornar a eles, no mal do constante incômodo. Enquanto alimentava suas vidas de alguma forma ele era bom, mas passou a demandar atenção e a dar trabalho a eles. Tentou imaginar o que se passava na cabeça e na boca da sua família, do pessoal do escritório e dos amigos. Sentiu um pouco de vertigem novamente.

Permaneceu calado por alguns instantes. Respirou profundamente para retomar o raciocínio. Virou-se para o doutor e continuou num tom de voz de um réu confesso:

- O senhor já cuidou de casos assim como o meu?

- Sim, Adauto, conheço bem o seu caso. Tenho muitos estudos e materiais que nos darão todos os subsídios necessários para trazermos você de volta. Elaborei o tratamento especificamente para o seu caso, para o seu perfil e suas condições. Fique tranquilo. Quando menos esperar, estará em uma vida melhor do que a que tinha. Estará renovado, renascido, pronto para todos que o querem bem.

Mas Adauto não queria estar pronto para ninguém. Queria era sair logo daquele lugar. Passou a acreditar que as palavras do doutor poderiam ter sentido. Não acreditava que podia estar se tornando uma pessoa má, mas ele sabia que estava perdendo controle sobre si mesmo. Pensou que algum tempo naquele lugar, sob cuidados especializados, de alguma forma trariam benefícios a ele. Afinal, o descanso cuidaria de seu estresse, isso ele sabia.

Estava de olhar baixo, olhando para as mãos ainda magras e esbranquiçadas. Sem olhar para o doutor, movimentou a cabeça discreta e vergonhosamente assentindo o tratamento. A confirmação estava, enfim, sacramentada.

Já era tarde da noite e o doutor lhe informou que na manhã seguinte exames seriam feitos a fim de registrar seu estado clínico antes do início da fase seguinte. Os resultados serviriam de referência durante todo o tratamento, permitindo que desvios fossem identificados antes lhe causar algum tipo de dano mais sério.

- Agora descanse! O enfermeiro logo lhe trará sua ceia. – disse o doutor enquanto se levantava e deixava o quarto exausto.

Adauto estava com olhar fixo para as mãos e uma desolação enorme dentro de si que não lhe permitia nenhuma reação. O doutor apressou sua saída, pois sentiu pena daquela cena.

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