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Capítulo XIII

Fase 3 – Purificação

No primitivo complexo do manicômio, ao fim de um corredor coberto por um velho rancho esguio, havia uma espécie de cômodo anexo, no qual eram armazenados velhos e inutilizáveis utensílios de limpeza, como vassouras, rodos e outras tranqueiras que ninguém lembrava existir. A parte externa mantinha as mesmas características de descaso do resto das edificações do manicômio. Dentro, era pequeno demais em relação às dimensões externas do anexo, o que era facilmente notado. O cômodo era, na verdade, uma fachada que escondia, sob a velharia, uma porta que dava acesso a outro quarto. Apesar de secreto e ocultado, todos do manicômio sabiam da existência daquele quarto e respeitavam a ordem do doutor de se manterem afastados, começando pelo anexo. O que não respeitavam completamente era a ordem de não falarem sobre o quarto. Não eram comentários frequentes, mas vez ou outra, ele era lembrado em cochichos, fofocas ou contos assustadores, normalmente contados pelos funcionários mais antigos que tiveram a horrível oportunidade de presenciar o funcionamento pleno do quarto. Os relatos eram realmente assustadores e, naturalmente, decorados de exageros. Isso era o suficiente para que os mais novos permanecessem longe do quarto e das conversas.

O quarto – como era chamado pelo doutor e sussurrado pelos funcionários – era um cubículo de cerca de dois metros de largura e menos que quatro de cumprimento, sem janelas, forrado por um espesso e grosseiro revestimento acolchoado. Uma antiga câmera ficava no canto superior, acima da porta de ferro reforçada – fortemente chumbada à parede – e o único móvel era uma espécie de banqueta de ferro revestida por uma fina camada de estofo. Tiras de couro cru, exageradamente grossas, terminadas em fivelas antigas e de metal reforçado, estavam cuidadosamente chumbadas pela parede e chão. Permitiam uma rígida amarração daquele que estivesse sentado à banqueta. Uma das tiras era para a caixa torácica, outra para a região abdominal, duas para cada braço – os quais ficavam estirados na posição horizontal –, uma para cada pé e uma última que, dependendo do tamanho do paciente, era usada no pescoço ou na a testa. Dois eletrodos cilíndricos e metálicos estavam afixados na parede através de fios que a atravessavam para o lado de fora e se conectavam a um graduador de voltagem. Os eletrodos, quando conectados ao corpo, ficavam na região dos rins e eram longos mais que o suficiente para tocar o paciente. Causavam incômodos a ponto de não permitir o posicionamento normal da coluna vertebral.

Havia muito tempo que o quarto fora utilizado em tratamentos obsoletos e então excomungados pela comunidade daquele tempo. Somente pacientes em casos extremos ou em casos desconhecidos eram submetidos ao quarto e, segundo dizem, eram cruelmente confinados. Uns dizem que os pacientes saiam em estado praticamente vegetativo, com olhos fixos e saliva pendurada; outros contam que houve um caso em que um cadáver saiu, pútrido.

O próprio doutor, no princípio, chegou a utilizar o quarto por duas vezes, antes de interditá-lo. Utilizou-o como uma espécie de sala de interrogatório, fixando não todas as tiras em dois pacientes que eram de difícil controle e, em uma cadeira simples, os entrevistou, observou e estudou. O doutor utilizara o quarto por simples comodidade em vista do descontrole dos pacientes e das facilidades providas pelas instalações, que permitiam a ele estar no mesmo local que os pacientes nos momentos de crise, ou até, apenas observando-os de sua sala através da câmera que mandou instalar. Mas devido ao histórico, o uso do quarto provocava certa tensão entre os funcionários que chegaram, diversas vezes, a deixar o trabalho inacabado ou mal feito, devido ao mal estar que os envolvia. Foi então que o doutor, ao ouvir os relatos dos funcionários, resolveu interromper suas atividades no quarto e interditá-lo.

Naquele sábado pela manhã, bem cedo, o doutor chamou seus dois enfermeiros em seu escritório e os deixou sem fala:

- Preciso que vocês preparem o quarto para mim. Precisarei dele pronto na segunda-feira cedo!

Os enfermeiros arregalaram os olhos em uma expressão de interrogação um para o outro, como se buscassem entre si um entendimento diferente daquilo que ouviram do doutor. Depois de tanto tempo, o quarto seria reativado? Quando o doutor percebeu a hesitação dos dois, perguntou se havia algum problema e eles assentiram com a cabeça. O doutor continuou com a mesma voz macia e calma:

- Levem esse reprodutor de vídeo e esse televisor – disse apontando para os aparelhos em cima da poltrona – e os instalem. Testem-nos, pois não quero surpresas quando for utilizá-los.

O doutor baixou os olhos para os papéis que estudava em sua mesa e os enfermeiros concordaram com um tímido “sim senhor”. O maior pegou o televisor e o menor o reprodutor de vídeo e ambos saíram em silêncio.

A notícia não demorou a se espalhar entre os funcionários. A tensão estava estampada em seus rostos. Comentários eram agora mais ousados e incontrolados. As mulheres da cozinha estavam desesperadas. Todos estavam preocupados. O comportamento do doutor estava muito estranho há tempos e então ele queria o quarto. A necessidade de instalação daqueles aparelhos deixava toda a situação ainda mais curiosa. O que será que ele planejava fazer, era a pergunta impregnada em todos os funcionários.

Na segunda-feira, por volta das cinco e meia da manhã, o doutor já estava de pé tentando dissipar sua ansiedade, andando a passos largos pelos corredores do manicômio. Aproveitou para fazer algo que há muito não fazia: visitou os outros pacientes. Foram visitas superficiais, que não seguiam o protocolo. O doutor apenas limitou-se a confirmar se as prescrições poderiam continuar sendo as mesmas por mais algum tempo. Resolveu deixar de lado pequenos ajustes necessários. Estava apenas matando o tempo e aproveitando para limpar um pouco da consciência.

Adauto foi acordado calmamente às seis e meia pelo enfermeiro menor que trazia um desjejum. Disse que o doutor o orientara a não se alimentar em demasia para não prejudicar o tratamento. Adauto não se importou com a orientação, pois dificilmente acordava faminto e o que queria naquele momento era um copo de leite quente adoçado. O enfermeiro o alertou que deveria se aprontar, pois voltariam para buscá-lo. Adauto apenas assentiu e sentou-se na cama para acordar melhor.

Por volta das sete horas, o doutor entrou no quarto de Adauto, acompanhado do enfermeiro menor. Esbanjava animação e empolgação, como um jovem apaixonado que acorda no dia em que se encontrará com a amada.

- Bom-dia, Adauto! Teve uma boa noite? – e continuou sem ao menos dar tempo de Adauto responder – Hoje iniciaremos a terceira fase do nosso tratamento. Será uma fase difícil, devo dizer, mas é uma das principais. Se formos bem, o sucesso do tratamento estará quase todo garantido.

Enquanto falava, o doutor preparava um coquetel de medicamentos em uma seringa. Adauto permanecia olhando de canto de olho para tentar descobrir do que se tratava. Ao doutor concluir a mistura e olhar para ele como um alvo fixo, Adauto perguntou:

- O que é isso?

- Alguns medicamentos necessários para esta parte do tratamento – disse o doutor, um pouco surpreso com a pergunta.

- Mas que tipo de medicamento, não é muito cedo para ser medicado?

O doutor sorriu de forma muito amigável, camarada, tentando acabar com a desconfiança de Adauto. Abaixou a seringa, que já tomava a forma de uma arma, e sentou-se na cama ao lado de Adauto. Com muita calma explicou:

- Não se preocupe. Estes medicamentos são para manter seu bem-estar. Como lhe disse, esta fase é um pouco difícil e quero tentar mantê-lo o menos desconfortável possível. Tratam-se apenas de relaxantes musculares e calmantes fitoterápicos. Você apenas se sentirá relaxado, alegre e receptivo. Sabe como é, quando bebemos um pouco a mais?

O doutor terminou a última frase com uma gargalhada de satisfação, tendo percebido o aceite de Adauto.

Adauto estendeu o braço e o doutor lhe aplicou a injeção.

Realmente o doutor estava preocupado com o bem-estar de Adauto, mas sua verdadeira intenção era manter Adauto dopado durante esta fase do tratamento de modo que sua mente estivesse completamente aberta e receptiva, pelo tempo que a fase durasse. Na seringa, havia também drogas em dosagens calculadas para afetar o sistema nervoso de Adauto, para que o mantivesse em estado ébrio, porém com certa consciência.

Adauto foi conduzido pelo enfermeiro menor ao quarto, seguido pelo doutor. O enfermeiro maior verificava as instalações do quarto.

Durante o caminho, Adauto sentia as mãos e braços formigarem. As pernas pareciam andar sem serem comandadas, dando a sensação de flutuar. As bochechas estavam um tanto amortecidas e sentia uma leve vontade de rir.

Chegando ao quarto, Adauto já estava escorado no enfermeiro menor, que o conduzia pelo braço. O enfermeiro maior estava dentro do quarto aguardando com tudo pronto. O doutor estava eufórico e ele próprio acomodou Adauto na banqueta. Posicionou suas costas tentando evitar que se machucasse com os eletrodos e olhou para o enfermeiro maior, autorizando a amarração. O enfermeiro maior tinha a prática nas diversas técnicas de amarração. Prendia forte e firme, mas sem causar dores ou machucar o amarrado. Nunca nenhum paciente havia se libertado de uma de suas amarrações. O enfermeiro maior prendeu os pés de Adauto, em seguida, o peito, a cabeça e os braços. A tira abdominal foi a última, a pedido do doutor, por conta dos eletrodos.

Adauto estava devidamente acomodado e amarrado. Os enfermeiros saíram do quarto. O doutor permaneceu em pé e deu uma última olhada em Adauto. Estava fixo, com expressão abobada e olhos murchos. O doutor ligou o televisor, saiu do quarto e, ao trancar a porta, ouviu Adauto perguntar com voz mole sobre a que iriam assistir. Do lado de fora, o doutor colocou uma de suas fitas no reprodutor de vídeo e foi para sua sala, de onde poderia observar Adauto.

Adauto desfrutava de sensações deliciosas. Seu corpo parecia estar em um estado intermediário entre a realidade e os sonhos. Sua visão estava turva, não incompreensível, mas levemente desfocada, dando-lhe a sensação de desequilíbrio, mesmo estando totalmente amarrado. Sentia que estava ali, mas era como se seu corpo tentasse se desprender, flutuar, voar! Mas acima de tudo, sentia uma leveza maravilhosa e havia muito que não sentia algo parecido, nem ao menos se lembrava de onde estava, dos porquês, das pessoas, de sua própria vida. Ria timidamente diante da sensação única de pequenas bolhas que explodiam por baixo de sua pele, causando deliciosas cócegas carinhosas. Mas os sons que vinham do televisor e as imagens que começavam a se formar, tomaram-lhe a atenção e empolgado fixou seus olhos no aparelho.

As imagens começaram a fazer sentido. O estado de Adauto era cuidadosamente controlado de forma que permitia que ele as compreendesse muito bem e, ainda, que elas o penetrassem mais profundamente, se fixando em seu íntimo.

Uma grande cidade ensolarada pelo pôr do sol apareceu. Parecia que ela era sobrevoada por alguém que plana livremente, sem curso fixo, ora planando por entre prédios em movimentos delicados, ora aproximando-se demais de janelas e vidraças, cujas imagens captadas eram imediatamente refletidas na tela do aparelho. Era divertido e pacificador. Após voar sobre museus, estádios, escolas, praças, casas e ruas congestionadas, a cena se direcionava para um parque arborizado no centro da cidade, cortado por trilhas e belamente preenchido por um grande lago central. Um gramado estava repleto de crianças brincando, de pais a conversar ao redor, uma bela música a acompanhar os risos, bolas e mãozinhas. Gargalhadas despreocupadas, correrias, jogos e toda aquela radiante visão de pequeninos que se reencontram para diversão. A imagem então se fixa e um homem com barba por fazer e cabelos desfeitos, terno surrado e encardido, olhos atormentados e uma expressão desorientada é trazida para a cena com passos largos e apressados. Ao se aproximar das crianças, alguns pais interrompiam as conversas e levantavam-se em guarda, mas não a tempo suficiente de impedir que o homem sacasse sua arma e iniciasse a descarga insana de balas demoníacas por todos os lados. Aos poucos, a brincadeira se transformava em uma tentativa de fuga de uma luta incompreendida e terminava como um batalhão inteiro dizimado em um campo de batalha qualquer. Eram crianças e pais desesperados. A cena era trazida de volta à tela do aparelho e mostrava agora corpo a corpo, ferimento a ferimento, rosto a rosto, olhos a olhos, abertos e sem brilho, impedidos de ver a vida adiante deles. Por fim, o autor do massacre estourava a própria cabeça diante do cerco policial.

Todos os sentimentos e sensações de Adauto passaram a se rebelar entre si e a atacá-lo. Mantinha as sensações causadas pelos medicamentos, mas seu corpo e sua mente estavam escancarados ao que ele via. As imagens começavam a se replicar em momentos diferentes em sua mente. Era como se vários daqueles televisores estivessem dentro de sua cabeça, reproduzindo as mesmas imagens, iniciadas em momentos diferentes. As proporções foram tamanhas que de repente todas as imagens formaram uma só e de tão real, Adauto se via no meio das crianças que brincavam no parque. Tinha a plena convicção de que estava vivendo de verdade aquele momento. Olhava em volta e não via o homem chegando. Gritava para as crianças pedindo que fugissem, para que corressem. Gritava para os pais pedindo que as tirassem dali, pois algo terrível estava para acontecer. Mas ninguém o ouvia, ninguém o via, ninguém o sentia. O desespero havia tomado conta dele e, então, ele viu o homem se aproximando, exatamente como no televisor. Mordeu os lábios, contraiu os músculos, saiu correndo em direção ao homem e pulou em cima dele para impedi-lo. Ao saltar em direção ao homem, Adauto foi tomado por um terrível pavor descontrolado: o homem era ele. E ele, Adauto, passou por dentro de homem, que caiu ao chão. Ao olhar para trás, o homem – Adauto – já estava disparando contra todos. Adauto levantou e correu entre as crianças e as balas, mas elas também passavam pelo seu corpo como se não estivesse ali e as crianças tombavam da mesma forma que no televisor. Adauto caiu no gramado, exausto, trêmulo e desesperado. Quando abriu os olhos, havia um garotinho com os olhos estalados a um palmo de seu nariz. Olhou para o homem e se viu estourando os próprios miolos. Não houve como conter a ânsia. O vômito jorrou pela sua boca sobre o jovem rosto ensanguentado e tudo escureceu.

Adauto desmaiou de verdade e também de verdade havia vomitado por todo o quarto e por todo o seu corpo. O doutor, agoniado do lado de fora, conteve-se e não entrou no quarto naquele momento. Aguardou alguns minutos para que Adauto voltasse a si por ele mesmo.

Pouco tempo se passou e a ansiedade do doutor o tomou por completo. Sem hesitar, adentrou no quarto subitamente para verificar os sinais vitais de Adauto. Adauto estava bem, mas o nível de estresse obrigou seu cérebro a provocar um desmaio. O doutor sentiu um alívio, mas se quer o suspirou. Pelos seus cálculos, os medicamentos não teriam efeito até a metade da próxima sessão, então, pessoalmente, aplicou mais, em dosagens proporcionais, para mantê-lo no estado desejado e voltou para seu posto do lado de fora.

Adauto demorou cerca de uma hora para retomar sua semiconsciência. O doutor esperou até que Adauto parasse de girar os olhos pelo quarto e os pousasse no televisor sem imagens. Assim que confirmou a atenção de Adauto, o doutor ligou o aparelho e continuou a exibição.

Daquela vez, uma multidão de pessoas se reunia diante de um líder militar que discursava um ostentoso oratório, cercado por seus militares das mais altas patentes e condecorações de guerra: seus braços direitos, braços esquerdos, pernas e todo corpo que o compunha, mas não sua mente. As pessoas tinham os olhos brilhantes e um semblante de alívio diante da empolgante visão de dias melhores. Pais desempregados com barbas por fazer e roupas surradas; mães cansadas com os filhos ao redor; viúvas famintas; jovens desenganados e tantos outros que ergueram aquela nação. Promessas, promessas e mais promessas saiam da boca daquele líder que, ao fim de uma impressionante e precisa descrição do futuro que estava por vir, acenou com orgulho e um sorriso sarcástico se formou em seu rosto, ao receber as cúmplices ovações delirantes. Ainda com aquele sarcasmo, retirou-se lançando um olhar aprovador a um de seus generais. Ao comando, o general se aproximou do microfone e, num tom firme e decidido, ordenou: “iniciar limpeza!”.

As pessoas não tiveram tempo de entender nada. As balas dos pelotões posicionados nas laterais começaram a rasgar seus corpos, dilacerar seus membros e a estourar suas cabeças. Metralhadoras dos mais variados calibres, velocidades e tamanhos cuspiam-lhes balas em uma ferocidade inacreditável. Em poucos minutos, toda a multidão se resumia a um enorme tapete vermelho e disforme sobre a praça. O discurso era transmitido para os demais locais daquele país e exibidos em grandes telas nas praças públicas, onde o mesmo aconteceu após a ordem do general. As imagens seguintes traziam os demais massacres nas praças públicas, tropas invadindo casas e comércio para executar os que sobraram. Homens, velhos, crianças, mulheres – todos que eram encontrados vivos eram fuzilados. Em uma das cenas, uma jovem mulher, grávida, de lenço na cabeça, vira-se de volta ao seu caminho, pondo o pequeno filho a correr, ao encontrar-se com os soldados. Mas eles vinham de todos os lados e ela sentiu o sangue da criança lhe espirrar no corpo. Eram tantos soldados e tantas balas, vindas de todos os lados, que mesmo sem vida – em si e dentro de si – seu corpo demorou a cair, escorado pelos impactos que recebia.

As imagens alternavam entre a matança e o líder recebendo cumprimentos de seus militares em uma recepção, com um charuto à boca e um copo de uísque à mão. E foi então, que mais uma vez, Adauto chegou ao seu colapso, vendo-se naquela recepção, sentindo a fumaça do charuto amortecer seus lábios enquanto apertava, com toda satisfação, a mão de um gordo e vermelho general.

Imagens de pessoas dentro das câmaras de gases, de doentes experiências científicas, de mutilados, aberrações e esqueletos cobertos por uma fina camada de pele; pilhas de corpos rijos embolados sendo sepultados por tratores em enormes valas comuns, paredões de fuzilamento, corpos sendo açoitados e dilacerados frente a soldados muito bem humorados.

Cenas de mulheres sendo estupradas. Estupros de guerra, por pelotões inteiros enfileirados e às vezes amontoados em uma única mulher ou o que sobrava dela. Meninas violadas em becos escuros por marginais sob o efeito de drogas, insaciáveis e abomináveis. Algumas até a morte, outras, com menos sorte, sobreviviam com sequelas físicas e mentais ou, ainda, com frutos do crime.

Necrófilos se lambuzando com carcaças frias e rijas, desprovidas de vida para reagir ao ataque moral. Fossem mulheres jovens, senhoras mães de famílias, recém-casadas ou meninas, tinham sua primeira estada do purgatório.

Gangues se enfrentando nas ruas, violentando-se feito animais em busca da garantia do seu território. Espancando-se com tudo que fosse possível, socos, pontapés, pedaços de madeira, barras de ferro, socos ingleses, correntes, facas e até pistolas. Usavam qualquer coisa que fosse suficiente para dilacerar carnes, quebrar ossos, jorrar sangue, abrir crânios, saltar olhos das órbitas, estourar órgãos por dentro.

O acervo compreendia as mais diversas violências, cruéis e hediondas, causadas pelo ser humano. O doutor estava munido de muitas fitas com as mais diversas imagens que coletou durante anos. As cenas não possuíam uma ordem lógica e eram exibidas na íntegra, com altíssimo e bom som. Adauto tinha crises em que gritava desesperadamente, relutando amarrado, chegando a todos os tipos de evacuações. Desmaiava diversas vezes e estava sempre sob o efeito de medicamentos, fosse para mantê-lo em um estado controlável e não muito realístico, fosse para restabelecer sua consciência e condições físicas. O doutor concedia pausas de vinte ou trinta minutos entre um vídeo e outro para estabilizar Adauto. Vez ou outra, de acordo com seu estado de semiconsciência, sopas e líquidos eram ministrados via oral e não por aparelhos especiais.

Durante todo o período desta fase do tratamento, que durou mais de uma semana, Adauto era levado bem cedo para o quarto e de lá só saia na hora do jantar. O ideal para o doutor seria na calada da noite, mas como Adauto tinha de ter uma noite inteira de sono e tinha de ser lavado devido a sua própria sujeira, ele era retirado no horário do jantar. Era a hora que os dois enfermeiros, acompanhados pelo doutor, praticamente arrastavam Adauto para o banho e o preparavam para dormir. O jantar era dado e mais medicação aplicada, assim, garantiam suas energias e um merecido sono de pelo menos nove longas horas.

Mas o sono não o descansava. A mente de Adauto era um emaranhado de pensamentos e imagens aterrorizantes. Era como um fosso onde despejaram todos os males da humanidade inteira. Tudo aquilo estava vivo ao longo da noite. Durante as exibições, com apoio dos medicamentos, a mente de Adauto absorvia profunda e plenamente as imagens e as tornava reais e Adauto sempre se via como o autor e responsável daquelas ações. Eram nestes momentos que tinha suas crises. O nível de estresse e desespero era tão alto que seu cérebro, por segurança, simplesmente o levava ao desmaio, quando seu corpo já não tinha controle algum sobre seu funcionamento. As imagens agora eram fatos, os quais ele havia cometido. Adauto passou a se sentir culpado e ter plena convicção de que aqueles foram seus atos nos últimos tempos. Tinha certeza de que havia cometido todos aqueles crimes, que era realmente uma pessoa digna de todas as penalidades. Sua mente o havia condenado e, então, sua consciência o punia pelos seus crimes. Nos poucos momentos em que se aproximava de um estado pleno de consciência, Adauto entrava em pânico, arrependido da pior e mais amarga forma possível de tudo que pensava ter cometido. Aquelas imagens se tornaram sua história e se misturavam, principalmente durante o sono. Suas noites eram tão terríveis quanto os dias no quarto. Talvez piores. Durante seu sono, as imagens permaneciam vivas, como se ele as estivesse vivendo naquele momento. Durante as noites, as misturas se faziam mais presentes e Adauto era o líder militar que estuprava meninas no beco, o assassino do parque que liderava multidões condenadas ao genocídio, o membro de gangue espancando criancinhas no parque, o padre pedófilo estuprando cadáveres no altar da igreja. Tudo se misturava e tudo passava a ser uma nova verdade, tudo se multiplicava e tudo era aceito por Adauto como sendo seus atos. Sua mente não parava e sua culpa crescia em um ritmo alucinado, assim como o ódio por si mesmo. A mente de Adauto consumia tudo o que lhe era mostrado, colocava-o como autor, registrando sua nova história. Isso o doutor não previra e talvez nunca tenha entendido o porquê Adauto ficara tão afetado, mas seu objetivo fora cumprido. Na metade daquela segunda semana, Adauto já havia consumido todo o mal humano que o doutor quisera lhe mostrar e também já temia de forma suficiente os resultados. O doutor queria que Adauto soubesse que as pessoas podem se tornar aquele mal se não tratadas a tempo, conforme sua convicção médica, mas, no entanto, não conseguiu o que queria: Adauto era um pecador confesso a si mesmo, e estava de coração aberto e puro pelo arrependimento de todos os males que nunca cometera.

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