PATOS

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Capítulo XIV

Fase 4 – Redenção

Naquela noite, o doutor também descansou. Dormiu profundamente, sem sonho, pesadelo ou nada que pudesse incomodá-lo. Levantou-se um pouco mais tarde do que de costume, sem muita pressa. Teria uma tarefa difícil já pela manhã, apesar de necessária e de certa forma, satisfatória, como julgava. Explicaria o andamento do tratamento à família, sem deixar transparecer sua satisfação com os resultados e nem mesmo os métodos utilizados. Teria de ser uma conversa calma, clara e cuidadosamente planejada, assim evitaria quaisquer desconfianças ou simplesmente curiosidades que pudessem fazer com que a família fizesse uma visita fora de hora.

Pegou uma xícara com café na cozinha, caminhou pelo manicômio tranquilamente, passou por todos os corredores, cômodos e quartos dos pacientes. Reviu uma ou outra ficha, examinou um ou outro paciente, conferiu uma ou outra medicação, cumprimentou um ou outro funcionário. Tudo feito sem interesse aparente, apenas para passar o tempo e distrair um pouco a cabeça. Assim também deixaria os funcionários um tanto mais tranquilos – havia sido avisado pelo enfermeiro menor dos comentários e murmúrios que ecoavam pelos corredores.

Já era suficiente. O doutor encheu sua xícara com mais café e retornou calmamente ao consultório. Sentou-se, tomou um gole com cuidado e relaxou. Pensou por alguns instantes e pôs-se imediatamente a discar os números da agenda já aberta sobre sua mesa.

A mãe de Adauto atendeu ao telefone com a voz macia e disposição. O doutor identificou-se informando que ligava para informá-la sobre a evolução do tratamento. A calma da voz da mãe de Adauto deu lugar a uma euforia autoritária:

- Já não era sem tempo! Tem sido muito difícil falar com o senhor, doutor, e acho que sabe muito bem disso, não é?! Como está meu filho?

O doutor podia perceber a ansiedade da mulher se transformando em irritação, não apenas pelo tom da voz, mas também pela respiração. Respondeu com certa animação, sem sorrir:

- Concluímos com sucesso a terceira fase do tratamento. Seu filho está indo muito bem: sua saúde é boa, seu estado psíquico está sob controle e suas respostas ao tratamento têm sido muito animadoras. Acredito que concluiremos o tratamento antes do previsto e logo, logo, a senhora terá seu filho de volta.

- Acredito que sejam boas notícias, doutor. Mas quero ver meu filho!

O tom do doutor tinha funcionado e a mulher parecia mais calma.

- Peço que a senhora entenda: ainda não é o momento ideal para uma visita. Uma visita neste momento poderia prejudicar o andamento do tratamento. – mentiu o médico para evitar outra correria para ocultar o estado de Adauto.

- Mas doutor, até quando isso vai durar? Está sendo uma tortura não podermos ver nosso filho. Ficamos aqui esperando notícias e quando não suportamos mais, tentamos falar com o senhor, que nunca está disponível.

O doutor sabia que ela estava certa, mas não podia permitir uma visita naquele momento. Esse era o ponto delicado em que sabia que teria de enfrentar aquela conversa de modo a acalmar os ânimos e evitar surpresas.

- Entendo o que a senhora está me dizendo e tento imaginar o que todos vocês estão passando, mas temos que nos acalmar e manter tudo sob o controle que está para que não prejudiquemos o tratamento. Não estamos lidando com um tratamento simples, cujos problemas ou retrocessos possam ser remediados. Pelo contrário, devem ser fortemente evitados. Um leve desvio sequer seria um desastre neste tratamento. E não apenas no tratamento, mas na saúde de Adauto. Reverter uma situação destas, sem deixar sequelas, seria impossível clinicamente. Adauto está indo bem, garanto-lhe isso. Vamos concluir todo o tratamento e prometo que lhe avisarei assim que for possível uma visita! Mas vamos aguentar um pouco mais para garantir que Adauto logo esteja de volta e para sempre.

- Pois bem, doutor. Saiba que não gosto disso tudo. Não acho certo meu filho ficar aí sozinho e nós aqui, agoniados. Mas como o senhor diz que assim é melhor e que adiantará o tratamento, faremos o que for preciso. Quero meu filho logo aqui: são. Está cada vez mais difícil conter as pessoas que nos visitam e nos ligam para saber do meu menino. Tem sido extremamente embaraçoso conviver com todos os tipos de boatos sobre Adauto, que já percorrem as bocas de toda cidade. Por isso, peço ao senhor que se apresse e nos informe assim que for possível vê-lo!

- Com toda certeza senhora! Pode ficar despreocupada que assim o farei e como prometi: logo terá seu filho como antes, para sempre!

- Passar bem, doutor!

- A senhora e os seus também!

Com a despedida da mulher, o doutor sentiu um alívio, soltou o telefone no gancho e jogou-se no encosto da poltrona. A conversa, apesar de curta, fora cansativa. Demandou cuidado com as palavras, paciência e mentiras e tudo isso de certa forma, ainda o incomodava. Permaneceu naquela posição por alguns instantes, olhando para o teto, com o pensamento distante e ofuscado. De repente lançou-se para frente e pôs-se em pé, tentando deixar para trás o ocorrido e preparando-se para uma visita a Adauto.

Adauto estava de volta ao seu conhecido quarto do manicômio: pequeno, úmido e não ventilado. O doutor o observou por alguns minutos da porta, recostado no batente. Adauto tinha uma aparência ruim: estava branco, com olheiras, mas não tão ruim quanto antes do início do tratamento. Suas roupas, apesar de lavadas, estavam encardidas – provavelmente pelo desleixo e falta de recursos dos funcionários. Estava totalmente debilitado, novamente alimentado por tubos e mantido conectado a aparelhos que monitoravam seus sinais vitais. O soro da bolsa era mantido recheado de medicamentos de todos os tipos. O doutor sentou-se ao lado da cama de Adauto. Estava preocupado com a saúde de seu paciente. Não planejara uma queda tão brusca em suas condições. A debilitação fora esperada de modo suficiente para fazer Adauto sentir a necessidade e as dificuldades da recuperação, enquanto sua mente poderia livremente processar tudo que lhe foi plantado. Entretanto, fora esperada em menor grau, sem tanta significância. A única reação visual que vez ou outra se manifestava era um leve e contínuo tremer das pálpebras produzido sua pela mente, absorvendo intensamente as imagens e os momentos. O doutor sentiu pena de Adauto e se questionou quanto ao que estava fazendo. Sentiu-se mal e pensou ser uma pessoa de má índole ao fazer aquilo a alguém. Questionou-se sobre seus verdadeiros escrúpulos. Conforme esses pensamentos se aprofundavam, ele reagiu e se firmou no seu entendimento inicial do que era necessário e, em pensamento, disse a si mesmo que aquilo não era fácil e nem ortodoxo, mas necessário para o bem-estar da vida de Adauto. Uma vez foi o suficiente para livrar-se dos pensamentos e sensações de culpa. Focou-se na situação e no fato de ter de trazer Adauto de volta. Decidiu que não forçaria sua melhora. Precisaria de uma melhora consistente que não pusesse o tratamento em risco e que ainda permitisse a assimilação pela mente de Adauto.

Verificou os medicamentos, prontuários, aparelhos e, gentilmente, em um gesto paternal, arrumou a franja de Adauto. Levantou-se precipitadamente ao notar que já tinha o corpo inclinado sobre ele, como se fosse lhe beijar a testa. Desconcertado, passou a mão no rosto tentando recompor-se e saiu rumo ao seu consultório.

Adauto permaneceu cerca de três semanas no quarto em recuperação. Sua recuperação física foi lenta, por necessidade e por vontade do doutor, que mantinha fixa a ideia de que Adauto não consciente, pelo menos completamente, estaria se purificando melhor. Sedativos foram aplicados quando o nível de consciência começava a se elevar mais do o doutor julgava necessário. As aplicações dos medicamentos e sedativos estavam sob responsabilidade dos dois enfermeiros que, entediados e displicentes, não as faziam conforme definido pelo doutor. Adauto alternava entre momentos de inconsciência e consciência.

Durante o período de recuperação, Adauto estava mergulhado em contínuos pesadelos. Toda a sua vida era distorcidamente repassada em diversas versões. Todo o seu passado eram todos os passados, mas nunca o passado real. Tudo se misturava às imagens que lhe foram impostas. Elas passavam a fazer parte de sua vida, como se tivessem se tornado reais de alguma forma. Em um processo degenerativo e punitivo, sua mente as transformava em eventos de sua infância, de sua adolescência e de sua vida adulta. Eventos falsos que eram meticulosamente mesclados com os eventos reais. E cada vez mais, Adauto perdia seu passado e sua história para uma mistura insana de fatos violentos e deploráveis que o constituía em outra pessoa. Nos lapsos de consciência, Adauto era tomado por uma crise incontrolável de arrependimento e desespero, que o fazia se odiar e se enojar de si mesmo. Espancava seu corpo e seu rosto aos gritos e soluços, tentando arrancar os fios e os tubos, o que fazia com que os enfermeiros invadissem o quarto em pânico pela possibilidade do doutor notar a falha, e imediatamente lhe aplicavam doses cavalares de sedativos. Houve casos de tanto desespero em que Adauto gritava continuamente, e o enfermeiro maior o segurou, calando-lhe a boca, enquanto o outro lhe aplicava os sedativos. E Adauto cada vez mais perdia a noção da realidade.

No fim da primeira semana de recuperação, o doutor recebeu uma visita totalmente inesperada: o irmão de Adauto apareceu no manicômio por volta das dez da manhã. Usava uma calça jeans surrada, uma camisa xadrez de flanela, uma jaqueta de camurça tão surrada quanto à calça e uma pequena bolsa à tira colo. Tinha uma expressão inquisitória e impaciente. O doutor fora avisado de sua presença pelo enfermeiro maior, que estava assustado como se fosse o culpado por não evitar a presença do rapaz. O irmão de Adauto não deu margens à discussão ao se apresentar à recepção. Queria falar com o doutor naquele exato momento e ainda blefou que sabia que ele estava por lá. Assim que se anunciou, sentou-se no sofá de espera sem dar chances para qualquer resposta. O enfermeiro maior foi chamado e informado da situação ao pé do ouvido, na entrada do corredor ao lado. Esse também não teve chance de responder ou argumentar nada. Pôs-se rumo ao consultório com a testa molhada. E assim, suado, assustado, com as palavras engasgadas, comunicou a presença do irmão de Adauto ao doutor. Sentado em sua poltrona, o doutor se recostou profundamente com a notícia desagradável e inesperada que necessitava ser enfrentada. Permaneceu por alguns segundos em silêncio e dispensou o enfermeiro, solicitando que avisasse o irmão de Adauto de que ele seria recebido tão logo o doutor concluísse alguns procedimentos. Também ordenou que em seguida fosse ao quarto de Adauto ajudar o enfermeiro menor, o qual foi imediatamente orientado a limpar o quarto o mais rápido possível, incluindo a troca das vestimentas de Adauto e as da cama e uma nova dose de sedativos.

O doutor esperou alguns minutos para dar tempo aos enfermeiros de, ao menos, iniciarem a limpeza. Levantou-se, abotoou o jaleco e somente após um suspiro profundo, com os dedos roçando a testa tensa, dirigiu-se à recepção. Mas não foi direto ao visitante. Parou atrás de uma das portas. Pela pequena janela, estudou o irmão de Adauto que estava sentado no sofá, com a pequena bolsa entre os pés, de mãos entrelaçadas sob o abdômen e uma expressão séria e firme.

Aguardou ainda alguns instantes e saiu a passos firmes em direção ao rapaz:

- Bom-dia! É realmente uma surpresa a sua visita! Como tem passado?

Imediatamente o rapaz se levantou, lançou a bolsa ao ombro esquerdo e cumprimentou o doutor que lhe estendia a mão:

- Estou bem, doutor, mas deixemos de rodeios. Vim até aqui para ver meu irmão.

O doutor notou a ansiedade e rispidez do rapaz que não estava sendo grosso, mas sim direto. Teve que mudar a linha de raciocínio:

- Creio que você não está a par do tratamento que estamos conduzindo com seu irmão. Conversei ainda esses dias com sua mãe. A situação ainda é delicada para visitas, ainda mais de pessoas queridas como vocês.

- Conversei com meu pai, doutor. E é exatamente por isso que estou aqui. Não sou como eles. Não vou me contentar com um telefonema vago e questionável. Estamos falando do meu irmão e o senhor não vai me impedir de vê-lo.

O tom da voz do irmão de Adauto ficava mais firme a cada palavra e o doutor notou até certa imposição física. Percebeu que não conseguiria contornar a situação e que provavelmente teria de conceder a visita, como imaginara, mas precisaria de mais tempo.

- Entendo sua ânsia em ver seu irmão. Isso é totalmente natural, mas é preciso que saiba o que isso tudo envolve. Por favor, me acompanhe até meu consultório e poderemos conversar mais à vontade.

O irmão de Adauto atendeu ao pedido do doutor, fingindo participar de seu jogo, e acompanhou o doutor que o guiava por um caminho mais curto, com menos exposições do manicômio. No consultório, o doutor pediu que o irmão de Adauto se sentasse, enquanto o próprio doutor dirigia-se para sua poltrona. Ofereceu-lhe café, que foi aceito.

- Peço que me ouça atentamente antes de decidir a manter sua decisão.

O irmão de Adauto assentiu discretamente com a cabeça e recostou-se. O doutor explicou-lhe:

- O ritmo atual da evolução do nosso mundo tem imposto um preço muito alto às nossas vidas. Um estilo de vida, não mais uma opção, senão uma imposição. Prazer e satisfação no lazer e na diversão são sentimentos pelos quais justificamos nossos atos e deveres. Lutamos contra tudo e todos para atingir estes ideais que, na verdade, não são possíveis de serem vividos, se atingidos. Não nessa realidade. Cada vez mais nos preocupamos menos com os outros, com os sentimentos alheios, com as vontades alheias e, o mais incrível, com os nossos próprios. Valores nem podem ser mencionados, são dizimados no jardim da infância. Enfim, viver hoje em dia é apenas um roteiro a ser seguido, um pouco mais pesado para alguns, menos para outros, mas um padrão.

“Este ritmo de vida e estas situações impostas mexem muito conosco, internamente. É fácil deixar-nos corromper. É fácil nos perdermos no meio do caminho. Mas mais estranho ainda é a capacidade do ser humano de ignorar essa perda, ou simplesmente sabotar a si mesmo, transformando-se em algo diferente daquilo que realmente se é. E dessa maneira, as coisas tornam-se suportáveis. Essa é a realidade da maioria. Transformam-se naquilo que não são e conseguem suportar. Suportar significa conformar-se. Conformam-se com aquilo que lhes é imposto, com aquilo que lhes resta e nunca mais se perguntam o que realmente deveria ser, o que lhes estaria reservado. A vida passa a ser algo executável, de uma maneira linear e predita. Os sentimentos não estão mais em evidência, nem mesmo em terceiro plano, quando são considerados. Dinheiro e posição é tudo e nada. Pois todos lutam por tudo, contra tudo, contra todos, para tê-los e quando os têm, não conseguem desfrutá-los.”

O doutor faz uma pausa para repensar as palavras. Falou de uma forma aberta e não encontrava razão para se desviar da postura pretendida. Entretanto, durante o discurso, ele projetou toda aquela abordagem à sua própria vida. Dando-se conta disso, livrou-se dessa projeção, tornou o foco ao seu objetivo e continuou:

“Mas como eu disse: isso acontece com a grande maioria das pessoas e o seu irmão não está incluso nesta maioria. Alguns simplesmente não conseguem se adaptar por completo. Outros, como é o caso do seu irmão, até conseguem, mas de forma alternada e temporária e, porque não dizer, de forma superficial. Enfim, não é sustentável. Para estas pessoas, o aparente suportável sai de cena e entram os antigos valores e conceitos, sentimentos esquecidos e deteriorados, até então enterrados. E tudo isso volta como uma tempestade, em doses leves ou em doses mais agudas, tudo misturado, desconexo, causando uma pane geral. E, acredite, estamos falando de loucura total, de perda da realidade, do conceito do certo e do errado e de questionamentos sobre a própria existência. Por incrível que pareça, é um caminho sem volta. Temos todos os casos: depressivos, suicidas, esquizofrênicos, assassinos, lunáticos, estupradores, criminosos das piores espécies, enfim, as piores condições psíquicas a que as pessoas podem ser acometidas.”

Nesse momento, o doutor suspirou e olhou bem nos olhos do irmão de Adauto, que permanecia ouvindo-o atentamente, com a mesma expressão inicial, impassível. Algo em sua postura e imposição, algo que o doutor não entendia, estimulava-o a falar com maior clareza e profundidade sobre o assunto, fugindo do próprio controle. Essa falta de controle incomodava o doutor, que constantemente fazia breves pausas para recompor o raciocínio.

- Seu irmão estava neste caminho. Estava próximo do ponto de onde o retorno torna-se impossível. Podemos dizer que o tratamento iniciou-se no último momento. Um pouco mais de demora e seu irmão nunca mais poderia ser o mesmo.

“O tratamento não é fácil, nem para ele e, acredite, nem para mim; mas é necessário. É a única maneira de garantirmos um retorno estável e sustentável. É a única maneira de Adauto voltar ao que era antes, mas de uma maneira mais firme perante estes fatos.”

“Manter Adauto longe do contato das pessoas que o conhecem, das pessoas próximas é um requisito para o sucesso do tratamento. Um contato fora de hora poderia misturar todos estes fatores condicionais da pior forma possível, tornando o retorno impraticável ou até mesmo impossível.”

O doutor tomou um pouco de café, demonstrando sua conclusão. O irmão de Adauto tomou um gole rápido do café e disse ao doutor:

- Doutor, acredito que as coisas que me disse aqui fazem sentido. Não estudei, sou ignorante e lido apenas com a terra e com os bichos. Confesso que o senhor me surpreendeu. Pensei que fosse uma pessoa mais arrogante e seca, como a maioria dos seus amigos, que conversam com a gente numa língua que só vocês conhecem e fazem com que não questionemos as coisas por vergonha da nossa ignorância. Eu não confio em vocês. De qualquer forma, não tenho como questionar o que me diz, mas de uma coisa eu tenho certeza, doutor: eu conheço meu irmão, eu sei bem quem ele é, bem a fundo, e sei que ultimamente não era o meu verdadeiro irmão que ia nos visitar. Apesar disso, sei muito bem que meu irmão nunca se tornaria o que o senhor diz que ele poderia ser ou se tornar. Meu irmão não é desses, doutor. Mas lá em casa todos estão decididos e mancomunados. Sim, doutor, eu sei como armaram a arapuca para ele – mas isso é um problema nosso. Não concordo com o que o senhor acha do meu irmão, não concordo com esse seu tratamento e não concordo com minha família que mantém o moleque aqui, lavando as próprias mãos sobre a situação, porque é mais fácil para eles. Mas eu disse para o senhor quando começamos nossa conversa: eu vim aqui para ver meu irmão. Então, doutor, por favor, leve-me até ele.

O doutor frustrou-se, pois tinha dito bastante ao rapaz, mais do que aos pais dele. Estava sendo bastante sincero, mas de nada havia adiantado. O rapaz estava decidido e o doutor entendeu que seria melhor que ele visse o irmão e se fosse, do que ser impedido e se tornar um problema maior. O que o doutor não sabia é que sua explicação ficou gravada na cabeça e no coração do irmão de Adauto e que o rapaz era esperto o suficiente para não deixar isso ser uma vantagem do doutor. É no que resultavam os anos de experiências em negociações com os mais diversos tipos de gente.

O doutor assentiu e levantou-se da poltrona em um suspiro de lamentação:

- Se é assim que prefere, vamos! Mas entenda que seu irmão não está consciente, devido à medicação ao qual está submetido.

O irmão de Adauto seguiu o doutor pelos corredores. O doutor ia à frente ditando o melhor caminho a ser mostrado e desejando, intensamente, que os dois enfermeiros tivessem conseguido arrumar as coisas no quarto de Adauto. Ao chegarem no quarto, como quem tentasse garantir os últimos segundos necessários, o doutor, com a mão na maçaneta, virou-se para o irmão de Adauto e disse:

- Este é o quarto em que seu irmão está. Peço que entenda que sua aparência não é das melhores, mas lhe garanto que sua saúde está bem e sob controle. E mais uma coisa: por favor, evite conversar com ele, evite tocá-lo, enfim...

O doutor não concluiu a frase e abriu a porta. Apenas o enfermeiro menor estava no quarto, ao canto, lendo uma revista, como um guardião que velava o sono de Adauto. O quarto estava limpo – claro que não da forma como o doutor desejara, mas o suficiente –, Adauto estava limpo e as suas roupas e as da cama trocadas. O doutor sentiu um alívio e se escorou na parede.

O irmão de Adauto entrou. Olhou para o irmão atentamente, para cada centímetro quadrado de seu corpo, para todos os tubos e fios ligados a ele, para cada detalhe do quarto e do enfermeiro. Sentiu uma imensa vontade de chorar, de quebrar tudo e todos e salvar o irmão, mas suas pernas ficaram trêmulas ao ver o pequeno naquelas condições. Então, manteve-se firme o tempo todo, como a vida lhe ensinara. Ficou não mais que cinco minutos, que foram suficientes para ignorar e atropelar as instruções do doutor. Debruçou-se sobre o irmão e beijou-lhe a testa sussurrando:

- Ei, pirralho, sou eu! Vim dar uma olhada em você. Vê se fica bom logo. Estou lhe esperando, tenho muita coisa nova para lhe mostrar, temos muito que conversar. Assim que sair daqui, vamos pescar de novo!

Deu mais um beijo no irmão e virou-se ao doutor, com os olhos avermelhados e voz embargada:

- Podemos ir, doutor!

O doutor abriu a porta e cordialmente aguardou a saída do rapaz que, antes de sair, olhou novamente para o irmão e viu um leve sorriso de satisfação em seu rosto, o que nunca soube se fora coisa de sua mente ou se realmente Adauto havia percebido sua visita.

O retorno do irmão de Adauto para casa não foi tão tranquilo quanto a sua visita ao manicômio. Ele estava profundamente afetado por ver seu irmão naquela situação. Toda a história deles lhe passou pela mente e se repetiu intensamente no caminho de volta. Isso lhe consumiu tanto que praticamente desmaiou ao volante, o que lhe rendeu energias para a chegada.

Ao chegar, o irmão de Adauto foi direto para a casa dos pais. Era bem cedo ainda e ambos haviam acabado de se sentar à mesa para o café da manhã, quando o irmão de Adauto irrompeu porta adentro em uma fúria angustiante. Dirigiu-se à mesa, de onde os pais olhavam perplexos para ele, cujos olhos negros e estarrecidos, brilhavam inconformados. Parou no meio da sala, preferindo não se chegar mais próximo, e proferiu a plenos pulmões:

- Como vocês puderam? Como tiveram coragem? Como conseguem viver como se nada tivesse acontecido?

O pai percebeu o descontrole do filho e não teve noção do que acontecia, mas sua esposa estava com os olhos vermelhos e as mãos trêmulas. O pai segurou a mão do filho e se dirigiu a ele com os olhos cheios de dúvidas e o coração apertado:

- O que foi, meu filho? Do que está falando?

- Eu sabia que ele não estava como vocês disseram, que a situação não era bem essa, como sempre!

E o filho lhes deu as costas e saiu batendo as botas sem fechar a porta. Então eles entenderam onde o filho havia ido.

Após ouvir os berros / gritos, a irmã entrou correndo na sala e ao ver a mãe aos prantos nos ombros do pai perguntou, sem pista alguma do que tinha acontecido:

- O que houve?

E após ver o irmão passar bufando pela janela rumo à sua casa, ela entendeu que teria sido mais uma atuação do irmão e esvaziou-se:

- Ah! Para variar!

O doutor sabia que pelos corredores do manicômio, durante as noites, pairavam certas esquisitices e bizarrices provocadas não apenas pelos internos, que normalmente estavam recolhidos, mas também pelos funcionários. Exceções eram os casos de internos praticamente perdidos ou abandonados, apenas ali mantidos vivos, já que ninguém se importava com eles. O doutor sabia desses fatos não de forma concreta ou documentada. Ele tinha suas conclusões pelos movimentos que vez ou outra encontrava pelos corredores ou pelo que ouvia de seu consultório, nas noites em que passava acordado no manicômio. Nunca presenciara nada, mas também nunca fizera nada para evitar; pelo contrário, preferia não interferir. Sabia que era uma forma de extravasar aquela vida medíocre e sofrida a que estavam submetidos. Tirar isso deles seria como tirar a única coisa que ainda era permitida para que suportassem continuar naquele lugar. Preferia fazer vista grossa. Mas quando internou Adauto, deu sérias e precisas recomendações a todos os funcionários, principalmente àqueles que acompanhariam o tratamento de perto. Apesar de em momento algum demonstrar seu conhecimento sobre tais eventos, deu a ordem a todos para que não se atrevessem a nenhuma farra nas proximidades de Adauto. O aviso do doutor teve efeito apenas nos primeiros dias, mas decantou-se. As coisas aos poucos voltaram a ser como sempre foram e, então, Adauto passou a ser visitado.

Adauto não era mais visto internamente como um paciente tão especial e a negligencia tornara-se presente. Não foi a primeira e nem a última vez em que ele recebeu visitas no meio da madrugada, mas naquela noite os sedativos não corriam pelo seu corpo na quantidade prescrita pelo doutor e ele pairava em um estado de semiconsciência. Imagens, sensações e sons se misturavam pelo quarto de uma forma que não era possível para ele definir realidade e delírio. Apesar de não sentir os detalhes do seu corpo, passou a perceber uma sensação de pressão em suas costas, por movimentos intensos e contínuos, até agressivos. Isso o trouxe um pouco mais próximo à realidade e o fez forçar sua atenção. Tentou abrir melhor os olhos, esforçando-se para focalizar as imagens turvas. O que era escuro começava a clarear e tomar forma, apesar de nunca nítida. Com muito esforço e tempo, pode identificar, ainda sem foco, à esquerda da cabeceira da cama, esparramado em uma cadeira no canto do quarto, o enfermeiro menor, avermelhado, contorcendo-se e mordendo o lábio enquanto se tocava. Imediatamente tudo se clareou na cabeça de Adauto. Apesar de não sentir plenamente o corpo, ele entendeu desesperado que estava sendo violado pelo enfermeiro maior, que lhe cavalgava esfregando seu cavanhaque babado no seu pescoço feito um bode e roncando feito um porco. Adauto foi tomado por uma repugnância avassaladora que não lhe permitia acreditar no que estava se passando. Tentou se libertar ao mesmo tempo em que tentava se enganar da realidade. Mas era real e ele passou a ter plena convicção disso. Com todo o asco e revolta que lhe tomavam, reuniu toda sua força e tentou escapar em uma explosão muscular que seria suficiente para jogar o enfermeiro ao longe. Contudo, esse era o desejo de sua mente. Seu corpo não respondeu conforme ordenado. Apenas o braço esquerdo respondeu com um pequeno espasmo, que lhe cerrou o punho. Apesar de não ser suficiente para fazer o enfermeiro maior notar, foi o bastante para chamar a atenção do enfermeiro menor que tentava se recuperar. Ao notar o movimento de Adauto, o enfermeiro menor levantou-se imediatamente, ainda de calças arriadas, e gritou algo que Adauto não pôde entender, enquanto corria para os pés da cama, fora da visão de Adauto. Lágrimas de raiva e impotência escorriam pelo rosto de Adauto para o lençol amarelado. Sentiu o enfermeiro maior apear. Ouvia sons que oscilavam entre sussurros desesperados e gritos abafados. Sentiu-se pego por mãos fortes que prendiam seus braços e viravam bruscamente seu corpo, mas mal pôde sentir os olhos doerem pela forte luz branca do teto. Apagou com uma forte dose de sedativos mal aplicados pelo desespero.

Adauto passou a viver um verdadeiro pesadelo. Não conseguia atingir consciência plena e pelo desleixo constante, estava submetido a um verdadeiro massacre mental. Em frangalhos, lidava com mundos criados pela sua mente. Mundos que misturavam a realidade com fantasias, fossem pelos momentos reais e atuais, fossem pelos resgatados do passado próximo ou remoto. Ou por simples criação. Adauto passou a enfrentar todos os seus medos, todos os seus traumas, todas as suas decepções. Tudo aquilo que escondeu de si mesmo e tudo aquilo que desviou de seu caminho passou a se materializar em sua mente e era posto diante de si: sua queda de um potro em frente aos mais preparados e conhecidos peões das redondezas, que desenhou a decepção no rosto do pai; colegas de escola que lhe ridicularizavam diante das meninas mais desejadas; as palavras, pensamentos e comportamentos reprovados pelo perfeccionismo da mãe; os medos enfrentados em seu quarto pelos barulhos das árvores em noites de ventos; a rejeição pela garota adorada por tanto tempo; a traição da primeira namorada idealizada como a mulher de sua vida com o sujeito mais famoso do colégio; as traições de amigos mantidos tão próximos; as costas que lhe foram dadas quando decidiu ir para a cidade grande; as dificuldades em se estabilizar; a vontade de voltar; a constatação da monstruosidade corporativa incorporada em si; a vingança dos amigos patos abandonados por ele; a cilada preparada pela irmã e pela noiva e então a personificação permutada e mesclada dos vídeos do doutor. Era o assassino do parque em corpo de criança, com toda sua família morta no chão por seus tiros; era um vingador com boca e corpo ensanguentados pelas vísceras do enfermeiro maior devorado no chão do escritório; era um estuprador que violava a velha da pensão em plena luz do dia; era um condenado no paredão metralhado pela irmã aos risos da noiva; era o ditador, apenas de cueca, sendo satirizado no pátio da escola pelos colegas que tinham cabeças de patos. Tudo se misturava e se transformava e era vivido e revivido das formas mais cruéis que sua mente doentia conseguia elaborar.

Em meio a tanta confusão, nos instantes mais próximos da lucidez, tinha a sensação da visita do irmão. Podia sentir e idealizar sua presença e ouvir sua voz. Era uma sensação diferente das outras e permitia que Adauto acreditasse que seu irmão estivera em sua busca. Outra vez seu herói. Mas antes que pudesse se deleitar com esta certeza, era tomado pela mais profunda angústia, que lhe causava dor – mesmo sem sentir o corpo – diante da impotência de, ao menos, defender-se da pena que cumpria.

Como tudo na vida, por descuido ou simplesmente por comodismo e conveniência, Adauto havia se tornado comum na clínica. Vez ou outra, era mencionado entre os funcionários, que passaram a tratá-lo como um paciente qualquer. Surpreendentemente, até mesmo o doutor se descuidou e passou a não se preocupar com os mecanismos diferenciados que ele próprio institucionalizou lidar com Adauto. Suas visitas de acompanhamento ainda aconteciam, mas não com a mesma frequência e dedicação. O doutor se limitava a monitorar seus sinais vitais e aspecto físico, sempre se conformando com a ideia de que fisicamente seria impossível manter as mesmas condições durante todo tratamento. O doutor sentia a vitória correndo por suas veias. Não que sua prepotência tivesse um grau tão intenso, mas a ansiedade lhe trazia uma convicção nunca saboreada com tanta antecedência. Seus pensamentos já se voltavam para como lidaria com o seu retorno à comunidade, aos encontros com aqueles que um dia o baniram e com o reconhecimento que certamente viria. Tudo isso era tão forte que ele, algumas vezes, se encontrava amassando e jogando folhas de papéis que continham o rascunho do seu discurso de agradecimento no congresso através do qual regressaria ao meio. Isso o deixava constrangido consigo mesmo, mas ao mesmo tempo, perdido ao sabor daquele momento idealizado. Durante uma destas viagens mentais em que recebia os cumprimentos dos colegas em um coquetel, foi interrompido pelo telefone que tocava sobre sua mesa. Atendeu com certa irritação por ter sido acordado de seu devaneio, mas teve de se recompor imediatamente ao identificar que do outro lado da linha estava o pai de Adauto. Esperava uma ligação de qualquer um deles, inclusive do irmão, mas não do pai, que sempre se mostrara passivo em toda a situação:

- Estou ligando para saber do meu filho, para saber realmente o que está acontecendo com ele. Não estou com paciência para ouvir suas evasivas e projeções questionáveis, baseadas apenas nas suas intenções.

O doutor ficou encurralado. A voz do pai de Adauto não era irritada como suas palavras, pelo contrário, era calma e mantinha um único tom, o que dificultava mais ainda a resposta do doutor. Teria de ser mais franco, mas não por completo. Fez um apanhado de todo o cenário e entendeu que o outro filho havia deixado o recado.

- Antes de tudo, gostaria que o senhor soubesse que entendo completamente a situação e que estou fazendo tudo o que posso para acelerar o tratamento sem desviar do objetivo principal, que é reestabelecer seu filho de uma forma eficiente e definitiva. Sei que já pedi paciência inúmeras vezes a todos vocês, mas continuo insistindo nisso. Temos que manter o controle da situação. Será apenas neste período, depois poderão gozar da presença de Adauto como nos velhos tempos. E eficiência do tratamento está toda baseada nisso, não apenas nos procedimentos.

Ao fim das frases, o doutor fazia breves pausas para tentar receber um retorno do pai de Adauto, para saber como estava sendo sua reação e definir o rumo do discurso, mas o homem permanecia em completo silêncio, o que dificultava mais ainda a situação do doutor, que tinha que continuar:

- Não estamos falando de um tratamento convencional, muito menos de algum experimento, saiba disso. A situação em que seu filho se encontrava demandou necessidades especiais de tratamento. Conduzir esse tratamento não é uma tarefa fácil e exige uma grande atenção de nossa parte, motivo pelo qual tenho passado a maior parte dos meus dias, quando não todos, aqui, acompanhando-o de perto.

“Até agora posso lhe dizer, tecnicamente, que o tratamento está sendo um sucesso. Ainda não é possível estabelecer um nível de conversa consciente com seu filho devido aos procedimentos. Mas ele tem respondido conforme o planejado e em algumas situações de formas ainda mais satisfatórias. Não houve desvios e nem eventualidades que necessitassem de intervenções. Como disse anteriormente, o tratamento não é convencional e nem fácil, e a medicação e o tempo de resposta abalam um pouco as aparências – explicou de forma a tentar contornar o que o outro filho poderia ter reportado. Olheiras, abatimento e emagrecimento são normais, afinal, ele não está levando a vida normalmente. Mas ele está bem, sua saúde está boa. Posso lhe garantir que em breve teremos Adauto sorrindo novamente em plena sanidade mental.”

O pai de Adauto não estava realmente interessado nas respostas do doutor. Sabia que independente de quais fossem, nada mudaria a opinião da esposa, que estava ao seu lado tentando acalmar o marido para manter a situação como estava e continuar o tratamento de Adauto. Ele sabia também que a ordem da internação havia sido dada por ele, em nome da família, mas quando soube, não havia mais o que ser feito, frente à posição dela. Cedeu e teria que ceder novamente, assim, seu único objetivo com a ligação era deixar claro ao doutor que não mais concordava com a situação e com o tratamento em si. E isso ele conseguiu, pois até então, o doutor apenas se preocupara com a posição da mãe de Adauto, que era favorável e, de certa forma, mais fácil de lidar. Agora tinha de se preocupar também com o irmão e com o pai de Adauto, o que verdadeiramente inquietou o doutor.

Mantendo a linha inicial e a fim de terminar a conversa de forma que o recado estivesse bem claro, o pai de Adauto perguntou em tom bastante firme e seco:

- Quanto tempo?

Essa resposta, o doutor tinha por conta do planejamento, mas quase gaguejou diante à forma que a pergunta foi feita:

- Acredito que cerca de duas ou três semanas no máximo. – Tentando estabelecer uma cumplicidade, continuou em tom de satisfação – Há uma grande possibilidade de a última fase ser concluída fora da clínica, aí com vocês, mas dependerá das respostas que tivermos nestes próximos dias que finalizarão a fase atual do tratamento.

- Voltaremos a nos falar em breve, doutor. Passar bem. – Ao concluir estas palavras, sem hesitar, desligou o telefone, batendo-o com irritação.

O doutor permaneceu alguns segundos com o telefone colado ao ouvido, tentando se encontrar. Parecia ter sido atropelado por algo que não sabia ao certo o que era, mas que lhe causou grande pavor. O recado havia sido muito bem dado. O doutor decidiu que teria realmente que se apressar e somente deixou de sentir aquele pavor quando entendeu isso também poderia apressar seu reencontro com a vida profissional.

Ao término da terceira semana, o doutor chamou o enfermeiro menor e lhe ordenou que os sedativos fossem suspensos gradualmente. Queria Adauto em plena consciência em três dias. Quando o enfermeiro estava fechando a porta, o doutor acrescentou em tom forte e com um olhar fulminante que deixava claro que sabia o que se passava:

- E tratem de cuidar melhor dele!

O doutor nem sequer se atreveu a entrar no quarto de Adauto. Sabia que tinha se acomodado e sabia melhor ainda o que isso significava nas mãos de seus funcionários. Não ir ao quarto evitaria que constatasse, se revoltasse e iniciasse um confronto com os funcionários; então, preferiu simplesmente não ver e, assim, não se responsabilizar.

O quarto de Adauto estava deplorável, não apenas em relação à arrumação, mas à higiene também. Havia muito que o chão não era sequer varrido e acumulava seringas usadas, embalagens e tampas de agulhas, frascos de soros, luvas descartáveis, ampolas vazias, lenços de papéis e tantos outros objetos utilizados que transbordavam da pequena lixeira, espalhando-se pelo chão. Adauto também não recebia mais cuidados higiênicos. Sua pele estava amarelada pela situação física e incrustada por excreções. Suas e alheias.

Mas eram os lençóis e o colchão que estavam na pior das situações. Haviam deixados de ser amarelos para se tornarem completamente encardidos. Pareciam nunca terem sido trocados. Estavam marcados por vômitos, urinas, suores. Provavelmente não foram trocados desde que Adauto entrara no quarto. Um verdadeiro depósito de todos os tipos de excremento, mas que ainda tentavam confortar o corpo debilitado de Adauto. O quarto não tinha ventilação. A única e ineficiente troca de ar que acontecia era quando alguém entrava no quarto e a porta permanecia aberta por conta do mau cheiro. Algumas vezes, os enfermeiros a deixavam aberta minutos antes das raras visitas do doutor. O ar era cada vez mais pesado e denso: suor, sujeira, podridão, abuso, mofo.

E era naquela atmosfera que Adauto voltava aos poucos a si, ainda entre lapsos de consciência e pesadelos. Certa manhã acordou com mais firmeza no corpo e mais clareza em sua mente. Levou as mãos ao rosto, massageando-o por completo e expirando profundamente, esvaziando-se como quem desperta de uma longa e necessária noite de sonho. Massageou as pálpebras e esticou as costas e pernas. A porta estava levemente aberta, revelando apenas uma fresta de luz do corredor. O quarto estava iluminado por uma fraca e trêmula lâmpada fluorescente. Seu braço direito estava penetrado por uma agulha ligada a uma bolsa de soro vazia. Sentou-se lentamente. Algumas lembranças começavam a vir à sua cabeça enquanto tentava identificar onde estava. Tinha a sensação de ter saído de um terrível pesadelo e estar acordando no seu quarto da casa dos pais em uma manhã de domingo. Ao se sentar, de olhos fixos no chão imundo, começou a se lembrar de tudo o que havia acontecido e, ainda com as primeiras lembranças indefinidas sobre o que era ou não realidade, começou a ser tomado por um angustiante pavor que vinha de seu estômago, que fazia com que levantasse seus olhos e a sua cabeça. Durante o movimento, avistou um par de sapatos pretos bem engraxados que terminavam em pernas cobertas por uma calça preta recém-alisada. Sobre as coxas, estava apoiada uma pasta marrom, coberta por um chapéu preto de feltro e abas estreitas, seguro entre brancas mãos enrugadas. Adauto se recordou desta imagem e rapidamente olhou para o rosto do velho que retribuía o olhar fixamente, mantendo um agradável sorriso torto com seus quase lábios.

Adauto perdeu-se completamente. Após alguns instantes, enfim lembrou-se completamente do velho, mas não entendia sua presença naquele lugar. Também não tinha nexo com seus últimos momentos, suas últimas lembranças, que também não podiam ser definidas como reais ou imaginação. Tudo se tornou ainda mais confuso quando a imagem do velho começou a se propagar por estas lembranças, tomando forma e lugar nos acontecimentos que ainda se misturavam. Adauto sentiu tontura e agarrou-se com firmeza à grade da cama.

O velho, com a mesma posição e expressão, disse em tom macio e calmo, com voz rouca e idosa:

- Não tenha medo, acalme-se, filho!

De uma forma espantosa, Adauto se acalmou. Relaxou os músculos e os pensamentos e as dúvidas lhe deixaram. Percebeu que estava realmente mais calmo quando o velho lhe sorriu por completo, atestando o resultado de suas palavras.

Adauto foi tomado por uma paz e uma leveza que há muito não sentia. Teve vontade de sorrir de volta ao velho, mas ainda havia a desconfiança que o impedia. Quando os pensamentos e as dúvidas começaram a voltar, Adauto tentou falar ao velho, mas teve que parar. Teve que limpar a garganta e forçar toda a musculatura da boca e da garganta, pois não lhe obedeciam por completo. Esforçando-se, com a voz ainda abafada, continuou:

- Quem é o senhor? O que quer de mim?

O velho, ainda sorrindo, moveu os dedos cansados e calejados que se arrastaram sobre a pasta, causando um som de arranhado:

- Sou um amigo, filho. Vim apenas ver como você está.

Adauto continuou:

- Amigo de onde? De onde nos conhecemos?

O velho o ignorou e disse:

- Você ainda não está pronto, mas logo estará. Fico satisfeito com o que vi aqui hoje.

Adauto ficou sério:

- Pronto para quê? Por favor, me responda! Alguém tem de responder às minhas perguntas!

O velho, mantendo a mesma calma, apenas sorriu satisfeito.

Mas naquele exato momento, o enfermeiro maior e o doutor entraram no quarto e o interrompeu. Espantaram-se ao ver Adauto sentado sobre a cama e falando em voz alta.

Com o olhar sério lançado pelo doutor, o enfermeiro maior pôs-se para fora e iniciou a preparação de uma dosagem de sedativos.

O doutor aproximou-se de Adauto e lhe sorriu amigavelmente. Colocou a mão cuidadosamente em seu ombro e lhe perguntou com quem estava falando. Adauto permaneceu paralisado e, somente após a pergunta ser repetida, apontou extremamente trêmulo e incrédulo para a cadeira vazia no canto do quarto. Em seguida, desmontou sem sentidos nos braços do doutor.

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