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Capítulo XV

Fase 5 – Remissão

Entusiasmado, o doutor examinou Adauto e solicitou uma série de exames mais específicos e detalhados. Era hora de trazê-lo de volta e teria de fazê-lo com todo o cuidado para apresentá-lo à família em plena forma e aparência. Durante os três dias seguintes, Adauto era mantido sob o efeito de leves calmantes, não a ponto de levá-lo à inconsciência, mas de mantê-lo calmo e sonolento. Alimentos passaram a ser especificamente preparados e admitidos. Adauto já estava um pouco corado quando o doutor o retirou dos sedativos, mas ainda não era o suficiente. Os funcionários foram instruídos quanto à alimentação de Adauto. O doutor sabia que quanto a isso não teria problemas e lhes confiou o dever.

Com um pouco mais de rigidez, o doutor deu ordens quanto à limpeza e higienização do quarto e, principalmente, à do próprio Adauto. Queria o quarto limpo, o chão lavado, as roupas de cama e as de Adauto trocadas por limpas. Com um tom enérgico e autoritário, ordenou que lavassem Adauto. Queria que ele fosse cuidadosamente limpo e ficasse em decentes condições de higiene. Pediu a uma das funcionárias que ajudassem os enfermeiros – não que houvesse a necessidade, mas o doutor queria evitar qualquer tipo de atitude que injuriasse Adauto naquele momento do tratamento – a funcionária seria uma vigia. Ordenou, também, que durante o banho, o colchão de Adauto fosse levado ao sol e depois colocado virado na cama, pois sabia que não havia outro em melhores condições.

Tão logo estavam prontos os exames detalhados, o doutor concluiu que faltava pouco para a saúde de Adauto estar plena novamente. Os resultados eram o suficiente para que o doutor se convencesse de que era chegada a hora de colocar Adauto em pé e devolvê-lo à sua vida. E mais convencido ainda estava quanto aos resultados do tratamento, não só pela confiança em seu trabalho, mas também pela ansiedade em apresentar-se novamente à comunidade.

É fato que não teria como verificar a eficácia do tratamento nas condições disponíveis no manicômio e nem mesmo no tempo prometido à família. Os resultados psicológicos poderiam ser mais rapidamente notados com Adauto inserido em seu meio. Para o doutor, não havia dúvidas do sucesso atingido, seria apenas necessário coletar os dados pós-tratamento – o que tornava ainda mais tentador que Adauto voltasse à sua vida e permitisse que estes dados fossem mais rapidamente produzidos. Tudo era apenas uma questão de tempo, mas o doutor queria um atalho.

O doutor, sob muito custo, conseguiu se conter por mais um dia após a chegada dos exames. Pretendia, na verdade, ter Adauto em plena condição de saúde e consciência para então ligar para a família. Mas naquela manhã estava tomado por uma ânsia incontrolável. Era como iniciar a divulgação dos resultados do seu trabalho e após tantos anos poder sentir o prazer de devolver felicidade às famílias e comprovar-se como um profissional de respeito e talento.

Naquela manhã, em pé, atrás de sua mesa, alisou e ajustou o jaleco ao corpo antes de sentar-se ao telefone. Sentiu certo embaraço de si ao notar o que fizera, mas logo o ignorou e atribuiu a atitude a um sinal do retorno da própria dignidade. Achou graça e se sentou. A agenda estava aberta exatamente na página em que estava anotado o número do telefone da família de Adauto – por conta do dia anterior, que passou se corroendo para não fazer a ligação. Deu um forte suspiro e com um leve sorriso de satisfação, discou calmamente os números e se recostou. Não demorou muito, a irmã de Adauto atendeu, o que não estava nos planos do doutor. Tratava-se de uma ligação de extrema importância, pela qual confirmaria suas promessas e eficiência e deveria ser dada a um dos pais. Chegou a hesitar por um leve instante, o que fez com que a moça dissesse “alô?” mais uma vez. O doutor identificou-se e pediu para conversar com o pai. Não solicitou a mãe de imediato, pois preferia o pai. O fato de a irmã ter atendido já o deixava em dúvidas do que poderia vir.

- Olá doutor, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – perguntou a irmã, que apesar das perguntas, mantinha-se calma diante da voz tranquila e macia do doutor.

- Está tudo bem, não se preocupe. Tenho boas notícias sobre seu irmão e gostaria de dá-las ao seu pai, ele está? – neste momento, o doutor torceu internamente por um “sim”.

- Sim, ele está aqui, mas creio que está nos fundos com meu irmão!

- Será que você poderia chamá-lo, por gentileza?

A polidez e a firmeza com que o doutor terminou a frase foram claras para a irmã de Adauto, que teve a certeza de que ele não falaria com ela. Isso a deixou, de certa forma, irritada, mas não tinha como questioná-lo e julgou, naquela situação, ser melhor chamar o pai para que tivessem notícias logo. Continuou em um tom não tão amável e deixou a decisão nas mãos do doutor:

- Se o senhor puder aguardar um momento, posso chamá-lo!

- Posso sim, não tem problema. Aguardo! – enfatizou o doutor, que não quis demonstrar afobação alguma.

O telefone ficou mudo do outro lado e o doutor sentiu prazer em ter conseguido passar pela irmã sem maiores dificuldades.

Após alguns minutos, o doutor ouviu ruídos de algo se arrastando com dificuldades no chão de madeira. Tomou um fôlego e preparou-se para a conversa com o pai, que atendeu ofegante e excitado:

- Alô? Doutor? Sou eu, alô? Está tudo bem?

- Olá! Sim, está tudo bem, tenho ótimas notícias. E o senhor, como tem passado? – a pergunta do doutor não tinha real intenção sobre como o homem estava, mas quis ser gentil e percebeu depois que ela não cabia naquele momento.

- Então diga, doutor! Como está meu filho? – o homem tornou o tom áspero e ignorou o rodeio do doutor.

O doutor percebeu e tratou logo de continuar:

- Adauto está bem, realmente bem, pode ficar tranquilo. Estou ligando para dar a boa notícia de que o tratamento foi um sucesso e o dou por concluído! – estas palavras foram quase que declamadas pelo doutor, que estava ansioso pela reação do pai de Adauto. O doutor permanecia olhando para cima com o nariz empinado e orgulho transbordante de si após terminar de falar.

- Graças ao bom Deus! Os céus sejam louvados, meu filho está de bem!

O homem eufórico esqueceu-se do doutor diante de sua fé, mas corrigiu-se a tempo, massageando por completo o ego do doutor:

- E graças ao senhor também, doutor. Foi através do senhor que Deus cuidou de meu filho! O senhor não faz ideia do tamanho da felicidade que está nos dando neste momento, doutor! Que maravilha! Que maravilha!

Ao fundo, o doutor ouvia também os gritos de felicidade da mãe e da irmã de Adauto. Em gargalhadas e vozes embargadas pela emoção, comemoravam e agradeciam aos céus pelas notícias. O doutor foi tomado por uma sensação extrema de satisfação e dever cumprido. Irradiava também atrás da sua mesa. Suspirava aliviado e tinha vontade de gritar aos ventos.

- Obrigado doutor, muito obrigado. Já vamos buscar nosso menino!

Sem perder a alegria e tomando todo cuidado, o doutor acalmou a situação diante da proposta:

- Realmente não posso imaginar a felicidade dos senhores, mas não é possível Adauto sair daqui ainda hoje. Precisaremos de mais dois ou três dias para lhe dar a devida alta. Quero garantir sua plena recuperação física antes que saia dos meus cuidados; mas fiz questão, conforme prometido, de lhes avisar imediatamente. Só mais um pouco de paciência e logo terá seu filho em seus braços novamente. É isso que lhes peço.

O homem entendeu a necessidade do doutor. É verdade que ficou desapontado em não poder buscar o filho imediatamente, mas ficou mais calmo ao entender que seria melhor que se recuperasse por completo.

- Está certo, doutor. Aguardarei um contato do senhor amanhã para nos informar quando poderemos buscar nosso filho, pois não quero que ele tenha de esperar por nossa chegada.

Entre as palavras, podia-se ouvir o homem tentando replicar a conversa para a esposa e a filha, que estavam eufóricas ao seu lado. O doutor concluiu a conversa:

- Com toda certeza. Amanhã retornarei ao senhor para informar com detalhes sobre a alta do seu filho. Comemorem enquanto isso, pois seu filho está de volta!

O homem agradeceu ao doutor de todas as formas que podia e a ligação foi encerrada. O doutor afundou-se em sua cadeira e permaneceu por minutos relaxado, olhando para o teto e se deliciando com as sensações que o tomavam.

Ao se recompor, o doutor chamou os enfermeiros. Confirmou com eles se tudo estava limpo e pronto, então lhes ordenou:

- Parem com sedativos. Tragam-no de volta!

Na manhã do dia seguinte, o doutor foi avisado pelo enfermeiro maior que Adauto havia acordado e que estava sendo alimentado. O doutor controlou-se diante do enfermeiro, mas deu um salto de sua cadeira assim que ele saiu e quase urrou de satisfação. Pegou sua prancheta, prontuários, caneta, ajeitou o jaleco, colocou os óculos, passou a mão por todo o rosto como se o limpasse de uma gosma invisível e partiu para o quarto de Adauto.

Entusiasmou-se ao chegar ao quarto. Surpreendentemente, tudo estava devidamente limpo conforme solicitou e Adauto estava sentado em sua cama, recostado em dois travesseiros velhos, mas de fronhas limpas, sendo alimentado pela funcionária que levou o desjejum. O doutor preferiu esperar que a refeição estivesse completa, aproveitando que Adauto não conseguia vê-lo na posição que estava.

Adauto comia bem devagar. Não tinha dificuldades para engolir ou aceitar a comida, mas seu corpo estava em ritmo lento, de quem acaba de acordar de um longo e profundo sono. Assim que terminou, o doutor fez questão de se tornar imediatamente evidente no quarto, dizendo em alta voz e em um tom de felicidade e satisfação:

- Mas vejam só quem está acordado e se alimentando! Muito bem, Adauto. Seja muito bem-vindo! Como está se sentindo?

O doutor terminou estas palavras dirigindo-se ao lado da cama de Adauto para que ele pudesse vê-lo, enquanto espremia-se para que a funcionária pudesse passar com a bandeja. Conforme se aproximou, Adauto virou em sua direção e tentou olhá-lo. Mas foi apenas uma tentativa porque Adauto não tinha firmeza em seus movimentos, sequer em seu olhar. A cabeça virou-se lentamente e sem firmeza, como se estivesse apenas equilibrada sobre o pescoço. A mandíbula não estava completamente encaixada e estava levemente deslocada para a direita. Um fio de um líquido grosso e amarelado de comida escorria no canto da boca, secando ao atingir o queixo. Os olhos pareciam soltos dentro das órbitas. Movimentavam-se sem precisão, independentes de suas vontades. Adauto firmou-se no travesseiro e permaneceu virado para o doutor. Não era possível afirmar que estava vendo o doutor. Quando os olhos paravam, tinham um olhar nulo, como se nada existisse a sua frente, apenas um nada branco. A imagem de Adauto era perturbadora e assustou o doutor, que tentou manter o controle sobre suas reações para não levantar desconfianças dos funcionários e nem causar alarde em Adauto. Ele permaneceu alguns segundos em pé olhando para Adauto, tentando entender o que estava acontecendo, o que poderia ter saído errado, porque ele estaria daquele jeito. Sem conclusões e tentando se convencer de que não era nada de grave, ele tentou conversar com Adauto:

- Olá, Adauto! Como está se sentindo?

Adauto reagiu à voz do doutor. Firmou-se melhor e os olhos fixaram-se no doutor, após procurá-lo por um instante. Mas a resposta não veio e o doutor ficou um pouco eufórico. Fez sinal para a funcionária que tinha todos seus utensílios acomodados sobre a bandeja, autorizando sua saída. Retornou para Adauto e insistiu:

- Está se sentindo melhor?

Adauto levou a mão frouxa à boca e a limpou da forma que pôde. Respondeu ao doutor com voz abobada e pronúncia difícil, já não olhando para ele, mas para a mão que repousou sobre a barriga:

- Um pouco. Corpo mole.

O som da sua voz e a forma com que estas palavras foram pronunciadas apavoraram o doutor por completo. Chegou a cogitar a possibilidade de ter errado ou superestimado alguma parte do tratamento, mas concentrou-se em achar uma explicação mais razoável para a situação de Adauto que não fosse desvios do tratamento e conseguiu. Adauto havia passado muito tempo sob os pesados sedativos que variavam de quantidade e de tipo. Isso possivelmente teria feito o corpo ficar um tanto sem controle. Controle! Pensava o doutor. Controle era o que faltava e isso era facilmente atribuído ao uso intensivo dos sedativos. Adauto se recuperaria rapidamente. Conseguiu avaliar que ele estava um pouco melhor e que o corpo estava mole. Não tinha o pleno controle dos movimentos, mas estava consciente. Esta conclusão foi tão rápida e forçosamente obtida que o doutor se tranquilizou. E, para ele, tudo foi confirmado com a seguinte pergunta de Adauto, que atestava todo seu entendimento e clareza sobre a situação:

- O que está acontecendo comigo? Por que o senhor fez isso comigo? O senhor disse... Eu não queria ter feito aquelas coisas... Eu não quero mais ser assim... – Adauto se perdeu nos pensamentos e na dificuldade de falar plenamente.

O doutor interveio tentando lhe poupar:

- Acalme-se! Está tudo bem agora! Você está bem, entende? Olhe para mim.

Adauto levantou a cabeça vagarosamente para o doutor que o olhava fixamente nos olhos, como quem quer provar estar dizendo a verdade:

- Já passou! Terminamos, Adauto! O tratamento acabou e você está bem. Agora precisa apenas se alimentar direito e retomar as forças para voltar à vida. Acabou!

Tremendo, Adauto esboçou certo alívio e chegou a sorrir levemente para si. Ainda estava confuso e não conseguia definir a realidade. Não se lembrava por completo de tudo o que havia passado, mas algumas imagens começavam a aparecer na cabeça de Adauto. Uma aflição lhe tomou o peito. Não conseguiu controlar o choro e aos prantos disse ao doutor:

- Doutor, eu não queria ter feito aquelas coisas. O senhor tinha razão: sou um perigo! Doutor, eu não queria, não queria mesmo. Aquelas pessoas... Doutor, me ajuda!

Essa era exatamente a reação que o doutor queria de Adauto. Tentou engolir a satisfação e manteve o semblante tranquilizador:

- Acalme-se, filho! Você não fez aquelas coisas. Mas não seria difícil que as fizesse se não tivesse sido tratado. Sua mente corroborou para que aquelas cenas se tornassem verdade em você, pois ela, lá no fundo, tendia a isso. Era exatamente desta mudança, desta transformação de que lhe falei no começo do tratamento. Você não era aquilo, mas poderia vir a ser, com muita probabilidade. Agora sua mente está preparada para este tipo de situação e bloqueará qualquer reação ou tendência. Mas agora você pode e deve relaxar. Isso acabou. Você está bem e tenho plena certeza de que sua mente está curada. Você apenas precisa recuperar sua condição física e voltar à sua vida!

As palavras do doutor não foram salvadoras e nem ele tinha essa pretensão. Adauto ainda estava confuso. Sentia que tudo era improvável e real ao mesmo tempo. O doutor lhe explicou que tudo o que sentia era natural, pois o tratamento teve uma intensidade considerável – essa foi a palavra utilizada – e levaria algum tempo para que aquelas sensações o abandonassem por completo. Trabalhar com a mente exige certa paciência, ainda mais depois do trauma a que fora submetida. Frisou que esta recuperação seria mais rápida do que parecia e que logo estaria em plena forma mental, contanto que não se deixasse levar por estes pensamentos, estas sensações. Explicou com certa arrogância proposital, para acalmá-lo, que aquela sensação era completamente normal e que Adauto deveria apenas se preocupar com a recuperação física para que pudesse logo voltar à casa dos pais e se recuperar totalmente. O que mais confortou Adauto foi saber que, com dedicação, ele poderia sair dali em dois ou três dias. Durante toda a conversa, Adauto não falou muito, apenas uma pergunta ou outra. Permaneceu cabisbaixo, com as mãos juntas, dedos se roçando insistentemente e a mente pulando de pensamento em pensamento, imagem em imagem, todas regadas pelas palavras do doutor, que tranquilizavam mais pela forma com que eram proferidas do que pelo conteúdo que carregavam.

A conversa toda durou cerca de uma hora e meia. Adauto realmente se acalmou e conseguiu acreditar no doutor. Durante a última meia hora, o doutor realizou alguns exames e constatou grandes melhoras físicas em Adauto, que se alegrou em saber. Mas toda a conversa e o pouco tempo de plena consciência o cansaram. Informou ao doutor que queria descansar. Sem hesitar, o doutor o incentivou, ajudou-o com os travesseiros e saiu da sala. Antes de apagar a luz, disse voltaria para verificar como estava tão logo ele acordasse.

Adauto dormiu profundamente durante o resto do dia, acordando somente por volta das nove da noite, quando a funcionária, a mando do doutor, o acordou para que tomasse um pouco de sopa morna com um pequeno pão macio. No fim daquela tarde, o doutor voltou para realizar novos exames. Os resultados eram empolgantes, Adauto se recuperava com rapidez e consistência, o que só confortava ainda mais o doutor, que estava decidido a dar alta para Adauto no dia seguinte. Estava com tudo planejado: visitaria Adauto durante o desjejum, realizaria alguns exames e conversaria com ele. Sendo boa a conversa, anunciaria a alta; do contrário, esperaria um pouco mais, deixando claro para Adauto que sua força de vontade seria primordial para que ela acontecesse.

Mas antes mesmo de o doutor ter a chance de acomodar seu plano em seus sonhos, a funcionária que deveria dar o jantar a Adauto, irrompeu consultório adentro, assustando o doutor, fazendo com que ele desse um salto em sua poltrona.

- Doutor, doutor, ai doutor! – gritava histérica a velha funcionária que parecia não ver o doutor, mesmo ele estando em sua frente.

O doutor ficou de pé em um único movimento, deu a volta em sua mesa e pegou apressadamente a mulher pelos ombros tentando acalmá-la, enquanto a guiava para uma das cadeiras de visitas. Quando percebeu que a mulher demonstrava sinais de calmaria e que teria sua atenção, o doutor perguntou com certa tensão na voz:

- O que foi, mulher? O que está acontecendo? Foi algo com o Adauto, é isso? O que foi? Como ele está?

Estava sendo tomado pelo desespero e quase largando a mulher sozinha para ir até o quarto de Adauto quando tentou se acalmar, percebendo que estava começando a assustar a pobre funcionária. Acalmou-se e se sentou junto à mulher, que já estava com os olhos estatelados, mas começou a falar:

- Ai, doutor, que coisa horrível, que coisa horrível!

- Acalme-se e me conte tudo o que aconteceu. Calma! – o doutor tentou acalmar a mulher ao mesmo tempo em que se questionava por que ainda estava ali tendo aquela conversa ao invés de ter ido ao quarto de Adauto.

- Então, doutor – começou a mulher recompondo-se -, eu preparei o que o senhor pediu e fui até o quarto do menino, que ainda estava dormindo – a mulher, pela sua idade avançada e dedicação, chamava Adauto carinhosamente de menino –. O enfermeiro maior chegou para revezar com o menor, que passara a noite acompanhando o menino. Pedi ao maior que me ajudasse a acordar o menino para lhe dar de comer e ele me ajudou. O menino já devia estar quase acordando, pois não precisamos nos esforçar. Conforme o menino começou a enxergar direito, ele me olhou, porque eu estava na frente dele. Então, doutor, ai, doutor, que coisa! Então, ele se virou para o maior, que o segurava ajudando a sentar-se e então, doutor... Ah, doutor, que coisa... Que coisa, pobre do menino...

O doutor impacientou-se pelo rodeio da mulher, que começava a se perder na narração e a se tornar eufórica novamente, e disse com tom forte e duro:

- Vamos mulher, conte-me de uma vez, o que aconteceu?

A mulher engoliu o início de um choro e continuou, entendendo que estava complicando a situação:

- Ah, doutor, o menino virou-se para o maior e quando o viu, transformou-se! Engoliu seco, arregalou os olhos, precisava ver, doutor! O menino ficou branquinho e depois vermelho, muito vermelho e começou a tremer. O maior ficou olhando para ele, que queria se soltar, como se estivesse preso, acredita doutor? E quando o maior sorriu e falou para ele se acalmar, foi aí que ele ficou mais descontrolado ainda, doutor. O menino começou a se debater olhando para o maior como se ele fosse o próprio chifrudo, Deus me perdoe, e o maior o segurou mais ainda para que ele se acalmasse. Nisso, ele até chutou a bandeja com a comida que lhe preparei, doutor. Olhe, olhe minha roupa, doutor, toda suja de comida!

A mulher percebeu que o doutor ignorou a sujeira na roupa dela e franziu a testa impaciente. Ela retomou o rumo da conversa.

- O menino viu que não conseguia escapar, doutor, aí, aí doutor, ele cravou os dentes no maior, doutor! O senhor acredita? Na bochecha, doutor, mordeu fundo, muito fundo e forte e não largava, aí, doutor, o maior é que teve que tentar escapar e fez tanta força que um pedaço da bochecha ficou na boca do menino, doutor. Ai, doutor, que coisa horrível! O menino parecia possuído, com todo aquele sangue escorrendo pela boca e pela roupa.

O doutor, ainda inconformado por não entender porque continuava estagnado, perguntou:

- Mas como ele está lá agora? Ainda desse jeito? Não posso acreditar que ele ficou lá sozinho desse jeito!

A mulher apressou-se para emendar a história que ficou mal contada, acalmando-o:

- Não, não, doutor! O maior começou a gritar muito forte e alto quando o menino o mordeu e o menor estava passando, pois tinha ido se trocar para ir para casa. Ele entrou com tudo e – nunca vi aquilo, doutor – num piscar de olhos, preparou uma seringa bem grande e aplicou com tudo na perna do menino. Acho que se não fosse isso e a carne rasgar, meu Deus, o menino ainda estaria grudado no maior. E depois, doutor, o senhor me desculpe, não pretendo falar mal das pessoas, mas deu um trabalhão danado para segurar o maior. Ele queria bater no menino, eu acho. Mas o menor tem jeito com ele e pedia para ele não estragar tudo. Foi isso, doutor, foi isso que aconteceu.

O doutor não falou mais nada e nem mesmo continuou junto à mulher. Levantou-se e saiu bufando rumo ao quarto de Adauto. Rasgou os corredores a passos apressados e entrou no quarto feito um touro bravo.

Adauto estava deitado dopado de lado, virado para a parede. Ainda havia sangue em seu lençol e na roupa hospitalar que vestia. Somente seu rosto e pescoço haviam sido limpos. Aos pés da cama, na velha cadeira, estava o enfermeiro menor, com expressão de cansaço e desolação de quem vela um parente próximo por toda a madrugada. O doutor permaneceu de pé olhando Adauto. Estava assustado e temia por todo tratamento. Depois de alguns instantes, virou-se para o enfermeiro menor e lhe perguntou, com toda arrogância que sua autoridade lhe permitia, o que havia acontecido. O enfermeiro menor disse que não sabia o porquê de tudo aquilo, que talvez Adauto tivesse tido um momento de loucura, descontrole ou coisa assim. A resposta deixou o doutor ainda mais furioso, não pelo fato do enfermeiro esconder o que o doutor já sabia, mas pelo fato de um enfermeiro canalha e desordeiro determinar que um de seus pacientes estava fora do seu controle. O doutor engoliu seco e preferiu não questioná-lo naquele momento. Perguntou-lhe quanto sedativo havia sido aplicado. O enfermeiro lhe disse que não havia sido muito, pois no desespero, ele não conseguiu preparar uma dose adequada e que talvez o efeito durasse algumas poucas horas. O doutor mordeu os dentes e lhe ordenou que garantisse que Adauto passasse a noite toda dormindo, pois trataria melhor a situação no dia seguinte. Terminou estas palavras quase fora da sala, de onde se arrancara rumo à enfermaria.

Entrou na enfermaria com uma grande irritação estampada em seu rosto. Estava praticamente cego de raiva e demorou a entender o cenário todo. O enfermeiro maior estava sentado sobre a maca velha, com sangue grosso por toda a barba e pela camisa, na região do peito. Uma funcionária, sem muita prática, tentava limpar o ferimento – ou melhor, o buraco – que tinha no rosto. Era tão grande e profundo que o doutor chegou a sentir preocupação, mas imediatamente lembrou-se do motivo de tudo aquilo e foi novamente possuído pela raiva. O enfermeiro, ao notar a presença do doutor, endireitou-se e o olhou como um menino olha o irmão mais velho após levar uma surra na escola. Antes que ele dissesse uma palavra sequer, o doutor começou a falar, ignorando a presença da funcionária:

- Que porcaria você fez dessa vez, seu imprestável?

- Mas doutor, aquele desgraçado... Olha o que ele fez...

Não conseguiu concluir. O doutor não queria conversa e ele sabia muito bem o motivo daquilo tudo. Sabia porque Adauto havia se revoltado daquela forma e sabia muito melhor ainda a conduta dos dois enfermeiros. Por mais que quisesse dar uma surra no enfermeiro maior, e sua mente lhe servia de possibilidades, continuou:

- Cale a boca! Não quero ouvir uma só palavra de sua boca maldita, seu imbecil! Estou farto das suas bobagens, está o tempo todo fazendo besteiras! Eu fui claro quando disse que queria um tratamento diferenciado para este paciente, mas você não consegue se conter, tinha que se lambuzar com ele, não é, seu doente? Isso foi pouco, você merecia mais! E merecia inclusive de mim! Limpa essa droga de cara, some da minha vista e nunca mais apareça na frente de Adauto, entendeu?

O enfermeiro maior nunca havia visto o doutor daquela forma. Era nítido o esforço que o doutor fazia para se controlar. Diversas vezes, com o rosto e olhos vermelhos, veias do pescoço e das têmporas saltadas, a mão esquerda do doutor se fechava trêmula como que para o ataque. O enfermeiro preferiu se calar ao entender que o doutor sabia o tempo todo de suas farras noturnas. Abaixou os olhos e permaneceu acuado. Entendeu também que, por mais que não houvesse alguém disposto a se candidatar à sua vaga, o doutor iria demiti-lo e isso seria terrível, pois tinha uma família para cuidar. Enfermagem era a única coisa que sabia fazer e ninguém daria emprego para um ex-presidiário, apenas o doutor. Sentiu vergonha e arrependimento de seus atos, mas não deixou de se sentir injustiçado diante da situação. Mesmo assim, a instabilidade do emprego falou mais alto.

Os dois dias que se seguiram foram decisivos para o doutor. Tudo poderia ser perdido por conta da situação. Teria de falar com a família que já estava ansiosa para a prometida saída de Adauto e teria de lidar com o próprio Adauto. Não sabia como ele iria reagir ao acordar.

O doutor passou aquela tarde arquitetando como iria lidar com a família. O que estava claro era que teria de lidar com o pai de Adauto que, por mais que estivesse desconfiado, era o mais sensato e estável. Assim, o doutor preferiu lidar primeiro com a família e só então com Adauto.

Depois de considerar todas as possibilidades de reação e o como lidar com o pai, o doutor fez a ligação. Teve sorte do pai de Adauto ter atendido a ligação e, por algum motivo desconhecido, ele estava muito compreensivo. Não que a ligação tenha sido tranquila, mas o doutor esperava que fosse pior. O pai de Adauto o interrogou feito um detetive, questionou indiretamente todas as promessas da ligação anterior, fez perguntas que tentavam apenas cercar o doutor e tentar tirar quaisquer indícios sobre o estado de seu filho e possíveis mentiras. Toda essa situação despertou uma irritação muito forte no doutor, o sangue fervia e ele mordia constantemente os dentes. Isto o deixou mais centrado e persuasivo, o que lhe facilitou a conversa com o pai de Adauto. O doutor explicou que precisaria de mais alguns dias para ter certeza absoluta de que Adauto estaria bem para voltar. Ainda não se sentia confortável o suficiente para assinar a alta de Adauto e ele era responsável pelo rapaz até o momento de sua partida. O doutor conversava com o pai de Adauto enquanto a mente já pensava no que fazer com Adauto e nas consequências daquele episódio perante o tratamento.

A ligação durou cerca de dez minutos e foi muito bem concluída com a promessa renovada de alta dentro de mais dois ou três dias. O pai de Adauto parecia satisfeito e inclusive tranquilizou o doutor quanto à sua esposa e à sua filha. Ele esperaria aqueles dias para ter o filho de forma definitiva, mas não poupou palavras, no fim da ligação, em deixar bem claro que estava começando a se preocupar com a situação.

O doutor incumbiu a velha funcionária de cuidar de Adauto durante aquela noite. Faria visitas durante todo o tempo para ver como ele estava e chamaria o doutor caso houvesse algum problema. O doutor passou a noite no escritório, estirado no velho sofá do fundo da sala. Também insistiu que fosse chamado assim que Adauto acordasse. Antes de se recolher, conversou asperamente com o enfermeiro menor sobre o estado físico de Adauto e para confirmar se os sedativos haviam sido corretamente aplicados para que ele tivesse uma noite bem tranquila. Adauto estava bem.

Conforme combinado, por volta das seis e meia da manhã, a funcionária entrou no escritório do doutor para lhe avisar que Adauto estava acordado. O doutor estava com sono leve e acordou quando a porta se abriu. Estava com o rosto amarrotado como quem passa a noite em claro, com o corpo e mente cansados. Sentou-se e, massageando o rosto a fim de despertar por completo, perguntou à mulher como Adauto estava. Ela lhe respondeu que parecia bem, que estava com um olhar estranho, mas que deveria ser por conta dos sedativos. O doutor pediu que ela servisse um café da manhã reforçado para Adauto e disse que ele logo iria visitá-lo.

O doutor lavou o rosto e ficou por um momento olhando seu reflexo molhado no espelho, enquanto sua mente lhe projetava toda sua vida. Voltou a si, enxugou o rosto, alisou a roupa e foi ao quarto de Adauto.

Adauto estava sentado recebendo a refeição. Em alguns momentos, ele mesmo se servia, não dispensando a ajuda da funcionária, mas tentando confirmar sua capacidade de fazê-lo sozinho. O doutor ficou parado junto à porta com o mesmo sorriso do dia anterior, mas quieto, esperando que Adauto terminasse. Adauto o notou e o cumprimento com um grande sorriso no rosto. Adauto terminou rápido e a funcionária saiu para que pudessem conversar. O doutor não foi incisivo e não tocou no assunto da manhã anterior. Fez perguntas de praxe, as que um médico faz a seu paciente, fez medições em Adauto, que respondia muito bem e também não tocou no assunto, o que deixou o doutor intrigado. Era como se nada tivesse acontecido, era como se a manhã do dia anterior estivesse acontecendo bem naquele momento, só que algo estava diferente. Adauto respondia melhor às perguntas, não questionava nada, sua dicção havia melhorado. Parecia estar muito contente. Por outro lado, seu olhar estava mais perdido e sua expressão não era das melhores. O doutor permaneceu por cerca de meia hora e chegaram até a uma conversa fiada sobre pescarias – coisa que o doutor há muito não fazia, embora muito gostasse. Apesar da forma prazerosa com que a conversa era conduzida, o doutor resolveu deixar Adauto sozinho.

Além do olhar de Adauto, a desconsideração sobre o fato da manhã anterior também intrigava muito o doutor. Como podia ele ignorar tão descaradamente o que havia acontecido? Não apenas o que ele fez ao enfermeiro, afinal, não é todo dia que alguém arranca a bochecha de outrem; mas também pelo que poderia tê-lo levado a fazer aquilo. Tudo era estranho. O doutor chegou a considerar a possibilidade de Adauto estar encenando a situação para que pudesse se aproximar novamente do enfermeiro maior, mas descartou diante de seu olhar. O que lhe parecia mais provável era algum bloqueio mental por algo extremamente difícil e de grande impacto para Adauto, ainda mais considerando seus outros fatores históricos. E foi por essa linha que o doutor resolveu conduzir a situação. Se fosse realmente um bloqueio, tudo estaria bem e precisaria apenas manter o enfermeiro maior longe de Adauto.

Naquela tarde e naquela noite, o doutor foi visitar Adauto. Verificou sua situação física e mental e conversaram bastante, novamente conversas aleatórias. Adauto permanecia o mesmo. Empolgado, contente e confiante. Sua situação física estava bem e estava ganhando peso e corando cada vez mais, mas o olhar continuava o mesmo. O doutor estava muito confiante da estabilização de Adauto e da situação no geral. Na visita da noite, Adauto questionou o doutor sobre quando poderia ir embora. O doutor não prolongou a conversa e foi subjetivo ao dizer que mais um ou dois dias poderiam ser suficientes. Adauto sorriu e lhe desejou boa noite.

O doutor estava realmente contente com a situação e decidiu que a manhã seguinte seria fundamental para determinar a alta. Lembrou-se novamente do olhar de Adauto e chegou a considerar essa condição como uma possível sequela.

Como em muitas outras, o doutor passou aquela noite praticamente acordado. Por mais que tentasse negar, havia uma ponta de preocupação em relação a Adauto: o olhar. Seria uma sequela? Irreversível? Por quê? O que isso representaria na recuperação? Como estaria Adauto na manhã seguinte? Eram perguntas que o incomodaram a noite toda. A alta de Adauto seria o grande desfecho para todo o tratamento e o gatilho para iniciar a retomada de sua carreira. Parecia aquele detalhe areia escapando por entre os dedos no vendaval?

Na manhã seguinte, o doutor aguardou com certa impaciência e angústia o chamado da funcionária, que anunciaria que Adauto acordara. A impaciência se dava à ansiedade em descobrir como ele acordaria; a angústia à possibilidade de tudo ter sido em vão. Os sentimentos se tornavam cada vez mais intensos ao passar dos minutos, que se tornaram insuportavelmente longos para uma véspera passada às claras.

Por volta das oito horas da manhã, a funcionária anunciou que o “menino” havia acordado com muita fome e que já havia terminado sua refeição. Parada à porta, apenas avisou o doutor e a fechou, sem aguardar qualquer confirmação do entendimento. Por mais alguns minutos, o doutor ainda permaneceu sentado no sofá, com as mãos cruzadas, os cotovelos aos joelhos e a cabeça baixa. Já não tinha mais uma linha regular de raciocínio, seus pensamentos apenas iam e se misturavam a todos os fatos e, inclusive, traziam memórias de sua vida, de quando ainda era respeitado como médico e como pai de família. Mas em um único suspiro, o doutor voltou a si, pôs-se de pé, ajeitou o jaleco, pegou seus instrumentos e partiu para o quarto de Adauto, desta vez com passos lentos e incertos.

Quando o doutor entrou no quarto, Adauto estava se recostando. Já havia acabado a refeição e sua aparência estava muito melhor; contudo, o olhar ainda se perdia. Não era constante, mas vez ou outra, por alguns instantes, o olhar perdido se apresentava, conferindo-lhe uma expressão alienada. A intensidade ainda era a mesma. Algumas vezes, vinha acompanhado de uma perda ou confusão de pensamentos, como se ele fosse levado para outro mundo durante aqueles instantes e, subitamente, retornava ao seu mundo, continuando exatamente do ponto em que havia parado.

- Bom dia, doutor! – disse Adauto com entusiasmo ao notá-lo à porta.

- Bom dia, Adauto! Como tem passado? Vejo que aparenta estar se sentindo bem, estou certo? – começou o doutor impaciente tentando verificar as reações de Adauto.

Adauto ajeitou-se na cama para poder se direcionar melhor ao doutor e continuou com um sorriso:

- Sim, o senhor está certo, doutor! Sinto-me muito bem, parece até que descansei por toda uma vida.

- Isso é uma grande notícia. É muito importante esta recuperação de energias e posso ver que realmente está muito disposto. Vamos fazer alguns exames rotineiros?

- Mas é claro, doutor! – respondeu Adauto estendendo o braço e puxando a manga, muito bem adestrado aos rotineiros exames do doutor.

Convenientemente, o doutor se entusiasmou com a intermitência dos olhares de Adauto. Ainda existia, mas passava a ir e vir, e isso deveria ser encarado como uma melhora significativa e, muito provavelmente, seria extinta com Adauto ao lado da família. Nenhuma sequela existiria, na opinião do doutor.

Realizou os exames e concluiu que Adauto estava em plena forma física, ainda um pouco magro, era verdade, mas estava bastante saudável. Fez diversas perguntas a Adauto para entender como realmente ele se sentia e também para verificar seu raciocínio. O doutor parou por alguns segundos como se estivesse lendo o prontuário, mas na verdade estava pensando sobre a alta e disfarçou estar estudando as anotações. O doutor percebera que Adauto entendia que se tratava de um estudo geral e que poderia resultar na informação que tanto desejara. Após aqueles pensamentos, o doutor engoliu seco, encheu o peito e, como quem toma uma decisão muito mais fundamentada na intuição e na esperança de poder arcar com as consequências, abriu um sorriso carinhoso e paternal e disse a Adauto:

- É isso, filho! – o doutor fez uma breve pausa para tentar entender de onde tirou o “filho”, mas já tinha sido dito e ele resolveu continuar – A não ser que você tenha algo a acrescentar, dou o tratamento por concluído e com sucesso. Você está de alta!

Adauto irradiou um grande sorriso, fechou os punhos em comemoração e olhou para o alto em agradecimento. O doutor sorriu satisfeito e Adauto, tentando encontrar as palavras certas, disse-lhe:

- É sério, doutor? Vou embora? – o doutor assentiu com a cabeça – Que bom, que bom! Vou agora mesmo? Preciso avisar minha família, obrigado, doutor!

E Adauto foi sendo cada vez mais tomado por uma invejável euforia. O doutor interveio e lhe explicou que ainda não havia contatado a sua família, mas que faria isso imediatamente. Também disse que providenciaria que alguém de perto viesse buscá-lo para que pudesse esperar menos tempo. Explicou-lhe também que teriam de se encontrar periodicamente para fazer um acompanhamento e todos os demais detalhes que atestariam o sucesso do tratamento. Ao concluir, o doutor sugeriu que, enquanto ele tomasse todas as providências, Adauto fosse caminhar no pátio, com a ajuda da funcionária, e tomar um pouco de sol, pois faria bem um pouco de movimento já que toda sua musculatura ainda estava rija por conta do longo período de medicação administrada. Adauto concordou. Tinha disposição e um passeio seria bom para ajudar o tempo a passar. Adauto estava livre dos tubos, vestia chinelas, tinha o cabelo jogado para o lado, apresentava um sorriso enorme no rosto e seguia no corredor a passos inseguros, pernas enrijecidas e de braços dados com a funcionária. O doutor contemplou a cena por alguns segundos, satisfeito e com uma grande sensação paternal que não esperava e que nunca tivera, senão para seus filhos.

Foi para o escritório tomar as providências. Imediatamente ligou para a família de Adauto, torcendo muito para que o pai atendesse. A torcida deu certo. O doutor pôde perceber que o pai de Adauto entendeu o motivo da ligação ao se entusiasmar com a entonação do doutor quando se anunciou.

- Olá, doutor! Como estão as coisas?

O doutor mais que satisfeito, anunciou ao pai de Adauto que seu filho tivera alta e que então deveriam providenciar o transporte, pois a clínica não dispunha deste tipo de serviço.

O pai de Adauto deu um grito ao telefone quando o doutor lhe contou sobre seu filho. Questionou inúmeras vezes como estava o filho e o doutor sempre lhe respondeu em detalhes. O doutor também lhe explicou como deveria ser conduzido o acompanhamento de Adauto fora do tratamento. O pai de Adauto concordava com tudo, eufórico, mas prestava atenção, como o próprio doutor fez questão de verificar com perguntas subentendidas. O doutor ficou sério e com tom de voz invariante quando explicou ao pai de Adauto sobre o olhar de Adauto e a rigidez de sua musculatura. A euforia do pai de Adauto fez com que essas condições se tornassem menores do que realmente eram, ainda mais pelo fato do doutor ter explicado que elas estavam diminuindo e que sumiriam com o tempo. Dadas todas as explicações e detalhes, o pai de Adauto anunciou sua ida para buscar o filho, mas o doutor interveio e perguntou se não haveria alguém na cidade que pudesse buscá-lo, como o amigo ou a noiva, pois seria mais rápido e tornaria a angústia de todos menor, principalmente a de Adauto. O pai de Adauto concordou e disse que iria verificar e assim que possível retornaria ao doutor, que informou que esperaria ao lado do telefone.

Enquanto o pai de Adauto tentava encontrar alguém para trazer o filho até sua família, o doutor dava andamento ao preenchimento da papelada necessária.

O pai de Adauto não demorou dez minutos. A primeira ligação que fez foi ao amigo de Adauto, que prontamente se disponibilizou para levar Adauto até eles. Informou que passaria em casa para pegar algumas roupas e dinheiro e partiria imediatamente para o manicômio buscar o amigo. No mais tardar, após o almoço, os dois estariam na estrada. O pai de Adauto ficou extremamente gratificado, agradecendo ao rapaz sem parar, dizendo-lhe o quão importante e inestimável era o favor que ele estava por fazer.

Imediatamente, o pai de Adauto retornou a ligação ao doutor e lhe informou quem buscaria Adauto. Quis passar os dados do rapaz para que não houvesse problemas, mas o doutor lhe respondeu que não era necessário, pois ele o conhecia muito bem, afinal, o rapaz sempre ligava em busca de informações e pagava as despesas de Adauto, o que deixou o pai de Adauto perplexo, pois a filha havia explicado que não haveria gastos com despesas. Preferiu deixar esse assunto para depois.

O doutor voltou ao encontro de Adauto que ainda caminhava no pátio com o auxílio da funcionária e o informou:

- Está tudo acertado, Adauto. Conversei com seu pai e seu amigo já está a caminho para lhe levar até sua família. Já preparei toda a papelada e em breve você estará com todos os seus. Sugiro que tome um banho relaxante e se vista para a viagem, o que acha?

Adauto hesitou por um instante e perguntou ao doutor por que seus pais não viriam lhe buscar. O doutor, pronta e convincentemente, explicou-lhe que havia sido sua sugestão que alguém da cidade o levasse, assim poupariam tempo de viagem e espera desnecessária. Adauto concordou e sorrindo anunciou: “Então, vou tomar meu banho!”

Era um grande dia para o doutor, que se sentou em um banco do velho pátio e, como há muito não fazia, respirou sem preocupação, com leveza e semblante do dever cumprido. Ali ficou por mais vinte minutos.

Quando a porta da sala de espera se abriu novamente, o coração do amigo de Adauto disparou, pois via que Adauto vinha em companhia do doutor e da funcionária, e ele temia uma reação não muito boa de Adauto. Contudo, Adauto, com os passos enrijecidos, alargou prazerosamente o sorriso ao ver o amigo, que imediatamente se sentiu aliviado, até que ficou sem reação ao ver um daqueles olhares de Adauto se manifestar, tornando aquela cena assustadora. Notou também que as mãos de Adauto estavam arqueadas, como se fossem garras, mas aquilo não passava de músculos endurecidos pela medicação. Todo esse temor foi-se embora quando Adauto o chamou pelo nome como em qualquer reencontro entre dois grandes amigos que há muito não se viam. Abraçaram-se e riram um com o outro. O amigo ajudou a funcionária com os pertences de Adauto, para que ela própria pudesse conduzi-lo até o carro e, ao mesmo tempo, o amigo pudesse conversar com o doutor para obter mais informações sobre a situação de Adauto. O doutor lhe disse as mesmas coisas que dissera ao pai de Adauto e com muito convencimento. E deixou claro ao amigo que evitasse falar com Adauto sobre estes resquícios do tratamento e muito menos sobre os motivos e a maneira como foi levado até a clínica. O amigo entendeu e aliviado concordou com o doutor.

O amigo acomodou as coisas de Adauto no porta-malas do grande carro, conferiu se o amigo estava bem acomodado, fechou sua porta e foi até o doutor agradecer e garantir que manteriam contato. O doutor concordou e despediu-se, desejando uma boa viagem aos dois. A funcionária se despedia de Adauto na janela do carro, dando-lhe recomendações maternais e com os olhos quase transbordando. Ambos partiram, a funcionária entrou apressada – provavelmente para chorar – e o doutor ficou assistindo a imagem do carro indo ao longe, enquanto sua mente projetava os próximos passos para a retomada da sua carreira. Muito haveria de ser feito, muito já havia sido feito e muito já estava encaminhado. O doutor não queria perder tempo.

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