PATOS

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Capítulo XVI

A viagem foi mais longa do que deveria. O tempo parecia não passar dentro do carro e a estrada se alongava mais a cada curva. Pareciam andar e andar sem sair do lugar, como se após uma curva viesse a mesma curva.

Adauto permanecia calado, respondendo praticamente monossilábico uma ou outra pergunta que o amigo formulava com dificuldades para puxar uma conversa. Tentava manter um sorriso de satisfação por estar indo embora, mas ainda tinha aquele olhar desorientado que lhe dava uma expressão débil. A voz também não ajudava muito, a língua parecia sonolenta e os sons emitidos eram abafados e não eram claros. Isso deixava o amigo constrangido, sem saber ao certo como agir. Mas mantinha-se tentando animar Adauto enquanto lutava para compreender sua real situação. Tinha em mente as palavras do doutor sobre aquelas serem reações temporárias, presentes num curto período de recuperação. Entre uma curva e outra, o amigo variava entre a preocupação com o estado de Adauto e a certeza de que ele se recuperaria. Essa intermitência permaneceu durante toda a viagem.

Após cerca de uma hora de viagem, o amigo ofereceu uma grande maçã vermelha a Adauto, que a aceitou com muito prazer. Além do fato de gostar de maçãs, seria a primeira coisa que comeria além da comida do manicômio. Adauto pegou a maçã meio sem jeito. Suas mãos ainda estavam rijas e os dedos quase não se flexionavam. Do jeito que pôde, levou a maçã à boca com muita vontade e a mordeu com menos jeito ainda. Mastigou cada pedaço com prazer, já que controle e agilidade não eram tão necessários quanto seriam à mesa. Enquanto comia, alguns pedaços mastigados de maçã rolavam de sua boca pela sua camisa, parando nas dobras da calça, na altura da virilha. Pelas mãos duras e pelo queixo escorria o suco da maçã que escapava pelos cantos da boca. O amigo tentou ignorar o que acontecia, mas não conseguia deixar de olhar para Adauto. Quase o avisou sobre o que acontecia, mas a naturalidade de Adauto o fez entender que para ele estava tudo normal. Uma forte angústia cresceu no amigo, que fez um grande esforço para não demonstrar a emoção amarga ao ver a situação de Adauto, que se lambuzava feito criança, comendo da forma mais natural possível. Foi com a cabeça martelada pela pergunta “o que foi que fizemos com você?” que o amigo entrou em um dos raros postos de gasolina da estrada. Lá, levou Adauto até o banheiro e o ajudou a se limpar. Adauto permaneceu parado, com os braços estendidos, mãos arqueadas e sorriso infantil no rosto. Quando o amigo terminou de limpá-lo, Adauto disse:

- Que maçã gostosa! Não me lembro de ter comido uma tão gostosa assim!

O amigo quase se entregou. Precisou disfarçar e para isso foi até a cabine do banheiro. Mas logo se recompôs e voltou para Adauto.

Continuaram a viagem. Durante o percurso, Adauto ia apresentando melhoras, quase que imperceptíveis, mas não para o amigo que o conhecia há tempos e, então, o acompanhava minuciosamente. “O doutor estava certo, isso é temporário, tenho de me acalmar e conversar mais com ele”, pensava o amigo.

Conseguiram desenrolar algumas conversas. O amigo tentava propor assuntos que não os levassem a momentos difíceis, nem ao trabalho, ou aos comportamentos de Adauto, e muito menos à mesa do café, no dia em que Adauto foi entregue. Falavam de momentos bons, pessoas queridas e épocas boas. Adauto deslizava melhor a cada conversa, não apenas no conteúdo, mas também no falar e no olhar; as mãos ainda estavam arqueadas e isso funcionava como indicador negativo para o amigo.

Somente no fim da viagem Adauto esboçou algum interesse pela paisagem. Foi quando, ao longe, avistou a estação de trem de sua cidade. Não era uma vista clara, pois entre a estrada e a estação havia matos e árvores, mas o simples constatar da presença da estação foi o suficiente para lhe despertar uma sensação entranha. Não sabia se era algo bom ou ruim. Havia uma pitada da euforia de sua partida para a cidade grande e um pouco do pesar sobre o rumo que tudo tomou. Recostou-se cabisbaixo tentando entender as sensações, mas suas memórias e seu raciocínio ainda não estavam em plena forma. O amigo havia presenciado toda a cena e passou a acompanhar Adauto, que tinha uma expressão entristecida. Não havia entendido o que se passou, quando Adauto olhou empolgado pela janela por algum interesse diferente do amigo; não entendeu o que atraiu Adauto, mas compreendeu que algo imediatamente o entristecera. Tentou distraí-lo anunciando com alegria que estavam quase chegando. Adauto apenas consentiu com um olhar vago e um sorriso forçado e sem graça.

O pai de Adauto estava apreensivo na varanda esperando pela chegada do filho. Os empregados haviam sido dispensados e a mãe, a irmã e a noiva, que havia chegado logo pela manhã, estavam empolgadas na cozinha, preparando um jantar de recepção para Adauto. Prepararam arroz, feijão, saladas e muito frango assado – prato preferido de Adauto desde criança. A pedido do pai de Adauto, também prepararam um pernil suíno no forno redondo feito de tijolos que ficava do lado de fora da cozinha. O irmão de Adauto não havia confirmado sua presença para o jantar, apesar dos intensos pedidos do pai, mas disse que ao menos passaria para ver o irmão. O pai entendia o filho, mas queria ser entendido desta vez. Conteve-se quando pensou em apelar para o lado emocional. Tudo deveria fluir naquela recepção e nenhum peso deveria pairar.

Quando a vista da casa foi alcançada pelos viajantes e o pai de Adauto os havia avistado, ele já estava de pé com um sorriso trêmulo no rosto. Era um enorme sorriso de saber que o filho estava bem ali, de volta; mas carregado de nervosismo pela incerteza que crescia ao se aproximar do carro.

O ronco do carro chegou à cozinha e fez com que a mãe, a irmã e a noiva largassem o que estivesse em suas mãos e corressem para fora. Correram pela varanda e desceram os degraus quase atropelando o pai de Adauto que já estava descendo o primeiro degrau com seus passos incertos. Eufóricas, cercaram o carro ainda em manobra e tentaram abrir a porta de Adauto. Adauto ria como uma criança que recebe o anúncio de uma festa surpresa. O amigo parou o carro ali mesmo e Adauto foi praticamente arrancado do carro. Do lado de fora, a mãe o abraçava e o beijava em lágrimas, agradecendo aos céus pela volta do filho, sem dar espaço às duas que, apesar de compreenderem a prioridade, tentavam encontrar um canto em Adauto. Súbito, as três estavam penduradas em Adauto, que continuava às gargalhadas, completamente feliz e sem ar entre as palavras de agradecimento, de questionamento e outras que nem eram compreendidas. Em meio aos histéricos beijos, viu o pai que esperava impacientemente por sua vez – apesar de não querer demonstrar. Foi o próprio Adauto que, gentilmente, apesar de sua falta de fluidez nos movimentos, afastou as mulheres e caminhou ao pai, que vinha ao seu encontro. Foi um abraço longo e intenso. Encaixaram-se com uma perfeição escultural. O pai apertou o filho com todo o corpo de forma a senti-lo e fazer-se sentido. Adauto tentou fazer o mesmo, mas o pouco que pôde foi envolver os braços arqueados ao corpo do pai. Os dois choraram e o pai declarou com a voz embargada:

- Bem-vindo de volta, meu filho!

Rapidamente, Adauto foi tomado do pai e arrastado para dentro pelas mulheres. O pai permaneceu olhando-os subir os degraus e então se virou ao amigo de Adauto. Abraçou-o e o agradeceu. Garantiu sua presença no jantar e estadia, ao menos naquela noite.

A euforia tomou conta da casa durante algumas horas. Adauto apenas fluía risonho. Subitamente, a mãe se lembrou do jantar e animada enxotou as duas para a cozinha, ordenando-lhes que o terminassem e avisou Adauto que em breve a refeição seria servida. Levou o filho para seu quarto de infância que havia sido cuidadosamente limpo e arrumado. Passou minutos olhando para o filho sem conseguir dizer uma só palavra. Abraçava-o e o beijava, até o momento em que Adauto disse que queria tomar um banho antes do jantar. A mãe compreendeu, mas, avoada, demorou a lhe entregar uma toalha e roupas limpas. Ainda, ao sair, permaneceu na porta do quarto por alguns instantes, olhando para o filho com os olhos transbordantes. Adauto lhe disse que estava tudo bem e a voz oscilante e abafada foi muito dolorida para a mãe, que apenas assentiu com a cabeça e saiu rapidamente por não conseguir mais se conter. Caminhou aos prantos em direção ao marido e ao amigo do filho. Mas antes de se mostrar na sala de estar, parou por alguns instantes no corredor para se recompor.

Entrou na sala com os olhos e o rosto vermelhos e úmidos. Convidou o amigo de Adauto para ir até o quarto em que ficaria hospedado para que pudesse se acomodar. Ele a acompanhou agradecido. Ela lhe mostrou o quarto e lhe deu toalhas limpas para o banho. Um cobertor já estava sobre a cama preparada e ela fez questão de repassar com ele todos os demais detalhes, tudo o que fosse possível para que ele se sentisse à vontade, e ela conseguiu. Antes de sair do quarto, deu-lhe um forte abraço e o agradeceu de todas as formas que pôde naquele momento. Saiu do quarto fazendo um grande esforço para não desabar. Foi até a sala, parou de pé, de braços cruzados, ao lado do marido, mas permaneceu olhando pela janela, para o nada. O marido a puxou para junto dele, sentando-a a seu lado e a trouxe para o ninho dos seus braços. Ela chorou descontroladamente aos soluços, com a boca colada ao peito do marido para abafar o som. Ele concluiu com voz tranquilizadora, mas ainda embargada:

- Acalme-se, acalme-se, querida... Nosso menino está de volta, está conosco agora! Fique calma, está tudo bem!

Assim permaneceram por alguns minutos até a mulher se render aos poucos aos efeitos das palavras do marido. Resolveu que deveria ficar bem, pois seu filho estava de volta e tudo deveria ser uma comemoração. Levantou-se, deu um beijo agradecido e cúmplice no marido. Disse que estava voltando para a cozinha e que logo estaria tudo servido.

Ela adentrou na cozinha com passos rápidos e pesados, fazendo perguntas e dando ordens sobre os preparativos, o que acabou imediatamente com os murmúrios entre a filha e a noiva de Adauto. No fundo, aquilo servia mais para distrair a si mesma. Continuaram as tarefas com um clima menos pesado e até sorrisos entres as conversas.

O amigo de Adauto voltou de banho tomado e com roupas trocadas para a sala de estar e se sentou em silêncio no largo sofá colonial. Logo em seguida, chegou Adauto da mesma forma, mas com os cabelos despenteados. Pai e amigo não fizeram nenhum comentário sobre isso e os três ficaram sentados tranquilamente sem uma só palavra, até que o amigo resolveu quebrar o silêncio, dirigindo-se ao pai de Adauto sobre os negócios da fazenda. O pai de Adauto pôs-se a explicar como as coisas andavam, sempre se dirigindo aos dois. Dava ênfase às mudanças não conhecidas por Adauto, em lugares e atividades que sabia serem de seu gosto. A conversa correu tranquilamente e Adauto se mostrou ativo, fazendo perguntas e comentando os avanços. Mas o que realmente chamou sua atenção e fez seus olhos brilharem foi quando o pai comentou que seu cavalo estava em plena forma e que constantemente era usado pelo próprio irmão em seus passeios e afazeres. Adauto se demonstrou ansioso sobre este assunto e o pai aproveitou para lhe dar mais detalhes e contar sobre algumas situações interessantes sobre o cavalo, como o dia em que ele expulsou a violentos coices dois potros da fazenda vizinha, que haviam estourado a cerca em busca da égua do pai de Adauto. Um dos funcionários chamou o irmão de Adauto às pressas para que ele corresse com medicamentos para tratar do cavalo de Adauto, que estava ensanguentado. Mas somente ao chegar no pasto que o irmão entendeu todo o ocorrido: o cavalo de Adauto havia brigado e expulsado os dois potros – que nem sequer tocaram na égua – e todo o sangue espalhado pelas suas paletas era, na verdade, dos potros. No fim das contas, os dois potros assustados no outro lado do pasto, que não encontraram o caminho de volta, é que foram tratados pelo irmão de Adauto. Adauto estava em êxtase! O pai e o amigo estavam realizados.

Na leve pausa que fizeram entre sorrisos, a mãe de Adauto anunciou que o jantar estava servido. O pai de Adauto tomou a iniciativa levantando-se em um movimento brusco que acentuou o efeito do “então vamos?”, que saiu com ímpeto e bom humor. Adauto e o amigo se levantaram em seguida e todos caminharam para a mesa de jantar, que ficava em uma continuação da sala de estar, poucos metros atrás dos sofás. A mesa estava magnificamente posta. Além dos espetaculares pratos preparados que não permitiam espaços vazios na mesa, talheres e louças especiais seriam utilizados. Era um aparelho de jantar que nem mesmo o pai de Adauto se lembrava de tê-lo, mas compôs perfeitamente a cena e as intenções.

Antes de se sentar, o pai de Adauto falou ao pé do ouvido da esposa, que ainda estava em pé:

- Não vamos esperá-lo?

A esposa torceu o nariz e lhe diz com certa irritação:

- Oras, você conhece seu filho. Vamos, sente-se!

Todos se sentaram confortavelmente e aguardaram, conforme tradição da família, que a oração fosse feita pelo pai de Adauto:

- Ó Senhor, aqui estamos mais uma vez reunidos em família, por Vossa graça e compaixão, para mais uma excelente refeição. Agradecemos do fundo dos nossos corações por estes alimentos e com fé desejamos permanecer nesta união que nos proporciona, reunindo, em Vosso amor e sabedoria, toda nossa família! Amém.

E quando ele terminou estas últimas palavras, o pai de Adauto lançou um olhar acusador e reprovador a sua esposa, que superou, inclusive, o coro de “Amém” que se seguiu. A esposa se fez dar de ombros, apesar de internamente assustada, e proclamou:

- Comamos!

E comeram. Comeram deliciosamente. A felicidade que pairava sobre eles parecia causar um enorme apetite e todos se deliciaram com muito prazer. Foi um excelente e completo jantar como há muito não tinham. Tudo regado a conversas, brincadeiras, contos e memórias. Mas tudo cuidadosamente posto de forma a não causar lembranças ruins a Adauto. Como sempre, somente o que era bom era exposto; o que não era, era descartado, no máximo refeito e maquiado.

Mas outras coisas tiveram de ser disfarçadas, além dos assuntos propostos. Não foi o excesso de felicidade que ocultou as verdades e fez com que todos fingissem, mas a conveniência. Durante todo o tempo, desde a chegada de Adauto, todos perceberam suas sequelas – ditas e sabidas como temporárias – e todos ficaram assustados. É fato que o doutor havia avisado sobre isso e deixou claro que durariam apenas alguns dias, mas saber e constatar são coisas completamente diferentes.

O fato é que Adauto, desde sua chegada, ainda falava enrolado, agia com certo retardo e seus movimentos ainda estavam débeis, pelo atrofiamento muscular. Mas ninguém comentou, insinuou ou reagiu quanto a tudo isso – e também ninguém combinou, apenas reagiram da mesma forma: por conveniência e medo. Durante o jantar, uma cena chegou a ser terrível para a família. O amigo estava mais bem preparado - ou menos despreparado. Adauto deleitou-se com o frango e com o pernil, feito aquela criança no carro comendo a maçã, só que o alimento em si, tinha forma e consistências diferentes. Adauto babava e derrubava a comida do garfo para a mesa, para o seu peito e para suas pernas. Pedaços de pernil mastigados apareciam nos cantos da boca e voltavam para dentro. Vez ou outra caíam. Mastigava os nervos do frango com dificuldade, como uma morsa que aperta a comida aos poucos até o estouro, o que culminava em lançamentos esporádicos de pedaços pela mesa – um chegou a atingir o colo da noiva. Sua baba era mais consistente e passou a ter cores. Seu nariz expelia muco colorido pela comida e às vezes chegava aos lábios. Seus dedos estavam sujos por renunciar o garfo diante das dificuldades em firmá-lo. Mas, acima de tudo, Adauto estava rindo, feliz, e os risos vinham acompanhados de jatos de ar que lançavam pedaços de comida sobre a mesa. A cena era chocante.

Entretanto, ninguém esboçou uma única reação ou fez um único comentário sobre a situação, por mais discreto que fosse: ninguém. Todos trataram tudo com naturalidade, apesar do desespero e da revolta que os tomavam por dentro; ninguém reagiu, nem entre si. A única que se envolveu, de certa forma, foi a mãe, que vez ou outra limpava a boca ou as mãos de Adauto com um dos guardanapos de pano cor de palha. E quando o fazia, todos tratavam de garfar um pouco de comida, como se não estivessem vendo o que acontecia, dando liberdade à mãe e absolvição a eles mesmos. Adauto parecia não perceber a ajuda da mãe e agia mais naturalmente do que eles. Assim, convinha manter a alegria e a felicidade que deveriam pairar, e ignorar a situação de Adauto. Não deixar para depois, mas ignorar, de coração e visão. Assim, a cada minuto, o médico passava, obrigatoriamente, a ter mais credibilidade dentro da família: aquilo seria normal.

Quando o jantar terminou, o pai convocou Adauto e o amigo a irem se sentar na varanda. Recebeu um aceno de consentimento e gratidão da esposa. Sentaram-se confortavelmente nas cadeiras antigas de madeira com recosto e acento de pano suspenso. Ficaram alguns instantes calados, apreciando a digestão e o cheiro que vinha do mato. Novamente, o pai quebrou o silêncio:

- Comeu bem, filho?

- Mas claro, pai! Estava uma delícia, olhe como estou cheio! – e riu, espalmando sua barriga magra.

Todos riram e voltaram a conversar por cerca de meia hora, quando ouviram barulho de passos que esparramavam o pedregulho do caminho. Era o irmão de Adauto que chegava. Subiu os degraus e chegou a Adauto, que já estava de pé esperando por ele. Sem dizer palavra alguma, abraçaram-se como ninguém havia feito naquele dia. Foi um abraço caloroso e repleto de amor que emocionou não só o pai, mas também o amigo. Por mais força que fizesse o irmão, seu corpo começou a se entregar e a tremer. Apesar de não chorar, Adauto percebeu e entendeu a dor do irmão e tentou lhe acalmar com sua voz emborrachada:

- Está tudo bem, meu irmão! Está tudo bem! Estamos todos bem!

O irmão começou a tremer mais ainda ao perceber a voz de Adauto, mas se controlou como pôde ao ver o olhar do pai, por cima do ombro do irmão, que dizia tudo o que deveria fazer. Acalmou-se, deu beijo no rosto do irmão e disse o quão era bom tê-lo de volta. Sentou-se junto a eles, não na cadeira, mas no parapeito. E então, tinham novos assuntos a percorrer. Conversaram sobre a vida do irmão mais velho, sobre o casamento, sobre o filho, sobre as aventuras, sobre o progresso e tantas outras coisas. Adauto, durante todo tempo, apesar das dificuldades, manteve um olhar grato ao irmão, pois sabia ele o havia visitado e o quanto aquilo deveria ter sido difícil. Ambos entendiam.

Adauto expressou imenso interesse sobre a família do irmão e pediu para vê-los. O irmão hesitou e olhou para o pai em busca de conselho, que veio preciso e completo em um olhar:

- Amanhã você os verá! Ela estava pondo o pequeno para dormir e também está cansada, assim como você deve estar.

Adauto concordou e realmente sentia um grande cansaço em suas costas. Suportou por mais vinte minutos e então, levantou-se e anunciou sua retirada, precisava dormir. Todos entenderam e se levantaram, atestando que já era tarde e realmente hora de dormir. Adauto deu um beijo no irmão e foi para seu quarto. Na sala, estavam as mulheres que o observavam com sorrisos nos rostos. Adauto parou e beijou a mãe, a irmã e a noiva – todas no rosto – e foi para seu quarto. Aquela noite foi uma das mais tranquilas e aconchegantes que ele teve, devido ao cansaço e à euforia. Os outros também foram para seus quartos, mas mal conseguiram dormir.

Na manhã seguinte, todos levantaram cedo: Adauto, por ter tido uma noite tranquila e estar empolgado pelo retorno – ou pela saída do manicômio – e os demais por impaciência, depois de uma noite cheia de vira-se para cá e para lá. Quando Adauto chegou na sala de estar, a mesa do café da manhã estava quase pronta. Passou pela cozinha, cumprimentou as mulheres que já estavam na lida com um suave beijo em cada rosto, inclusive no da noiva, que desde a chegada, era tratada da mesma forma que a irmã. Era como se eles nunca tivessem namorado e fossem apenas bons amigos. Isso a incomodava e ficava nítido, pois era notado também pela mãe e pela irmã de Adauto, que a mantinham consolada. Ele foi até a varanda e se apoiou no parapeito, ainda de rosto inchado de quem acaba de acordar, enchendo profundamente os pulmões com aquele fresco ar matinal.

Enquanto apreciava a vista, procurava pela silhueta do irmão ou da cunhada. O pai apareceu atrás dele e o chamou para o café, que estava servido. Adauto queria descer até a casa do irmão para tomar café com eles, mas resolveu aproveitar tudo aos poucos e não causar embaraços ou chateações na família. Adauto variava entre olhares perdidos, pensamentos vagos e raciocínios friamente elaborados acerca de tudo que se passava ou que pudesse causar. Virou-se e foi com o pai para a farta mesa do café da manhã, onde todos o esperavam.

Tomaram o café com o mesmo clima do jantar. Adauto também manteve o mesmo comportamento chocante, apesar de uma sutil melhora, que de tão leve ainda não podia ser concluída como tal. Assim como os demais, a mãe se manteve com a mesma postura, acrescentando às suas responsabilidades a limpeza de Adauto, que estava alheio – não por opção – ao seu estado. Mal o café havia terminado, o amigo de Adauto formalizou sua partida, que já havia sido anunciada ao inicio da manhã. Suas malas estavam prontas esperando por ele na sala de estar. Adauto pediu que ficasse mais, mas o amigo lhe explicou que tinha muitos afazeres o aguardando naquele dia. Adauto compreendeu e pediu que voltasse assim que possível e que tão breve o levasse para um passeio na cidade, pois tinha saudades. Todos se aterrorizaram com o comentário e olharam um para o outro em busca de respostas que não podiam ser dadas: pensaram, no mesmo momento, no lago do parque e nos patos! Inclusive o amigo, que ao concordar com o pedido, olhou assustado ao pai e à mãe de Adauto em busca de apoio.

Despediram-se na varanda. Assim que o amigo manobrou o carro em partida, Adauto anunciou à família que faria uma visita ao irmão e desceu os degraus. A mãe se preocupou e tentou se manifestar, mas o marido a impediu com o braço gentilmente apoiado em seu ombro e a boca ao pé do ouvido dizendo que o deixasse, pois estaria bem cuidado. Adauto precisava daquilo. Todos voltaram para dentro da casa e Adauto caminhou arrastado até a casa do irmão.

Foi recebido pela cunhada, que saia pela porta da cozinha com seu filho ao colo e um largo sorriso formado instantaneamente em seu rosto. Veio imediatamente ao seu encontro, o beijou no rosto e o abraçou verdadeiramente:

- Adauto! Que coisa boa, seu irmão ficará muito feliz! Veja como nosso menino está grande! – disse a cunhada orgulhosa enquanto mostrava seu filho, ao mesmo tempo em que percebia as diferenças de Adauto e desistia de lhe entregar o menino, trazendo-o de volta ao seu colo.

Ela o convidou para entrar e gritou para o marido, que apareceu imediatamente depois de Adauto sentar-se em uma das cadeiras da pequena e simples cozinha. O irmão apareceu esbaforido à porta como se soubesse do que se tratava o chamado. Adauto levantou-se e os dois se abraçaram forte e prolongadamente, terminando com um beijo no rosto um do outro.

- Que bom que voltou! Que bom que veio até aqui! – disse o irmão segurando-o pelos braços e olhando em seus olhos – Não pude ir até a casa do pai ainda porque tinha algumas coisas para resolver já cedo aqui, mas que bom que veio!

Adauto não se importou. Não via problemas e não tinha queixas pelo fato do irmão não ter aparecido. Para ele foi extremamente natural ir à casa do irmão e encontrá-lo.

Passaram horas conversando. O irmão lhe contava empolgado sobre a evolução do filho, sobre as palavras, as brincadeiras. Contava sobre a esposa, com muito orgulho. Também contava sobre as coisas na fazenda, sobre as coisas que os agradaram durante a infância e relembraram muitas peripécias. Adauto ria e se deleitava com as recordações e com a companhia. Mais uma vez, o estado de Adauto foi ignorado, apesar de deixar o irmão e a cunhada extremamente inquietos. A forma como Adauto pegava a xícara de café quente e a dificuldade em sorver o café foram o que mais mexeram com os dois – uma porção considerável de ódio cresceu no peito do irmão, mas preferiu afogá-lo por um tempo para não incomodar Adauto. Contudo, como se entendesse claramente toda a situação, e pela primeira vez, Adauto se manifestou sobre seu estado e disse calmamente ao irmão, com um sorriso estranho no rosto:

- Está tudo bem, estou melhorando! – e baixou a cabeça propositalmente para mais um gole, permitindo que o irmão disfarçasse os olhos quase transbordantes. A cunhada se voltou para a pia e mexeu com as louças, tentando se recompor.

Adauto passou quase toda a manhã com eles conversando na cozinha. Depois saiu com o irmão para um passeio nos arredores da casa. O irmão não queria forçá-lo no primeiro dia. Teriam muito tempo juntos. E foi nesse clima que Adauto aproveitou cada momento daquela manhã com o irmão e sua família.

Era quase hora do almoço quando Adauto anunciou seu retorno à casa dos pais. O irmão pediu que ficasse para almoçar com eles, mas Adauto disse que a mãe estava esperando por ele e que teriam muitos outros dias para isso, o que seria um prazer. O irmão entendeu e preferiu assim, pois nem havia conversado com a mulher para preparar um almoço mais incrementado para receber Adauto. Ao se despedir, Adauto segurou as mãos do irmão nas suas, ainda rígidas, e lhe disse, olhando nos olhos e com certo pesar na voz:

- Quando eu melhorar, você me leva na lagoa? Vamos a cavalo, como antes?

O irmão tremeu todos os músculos. Mordeu forte para segurar o choro que parecia querer estourá-lo de dentro para fora. Com a voz trêmula e embargada, respondeu:

- Claro que levo! Claro que levo!

Adauto, olhando firme para o irmão, mas com a mesma expressão débil que chegara, disse:

- Obrigado por ter ido me ver. Sabia que você iria! – e beijou o rosto já molhado do irmão. Virou-se e foi para a casa dos pais, deixando o irmão parado com lágrimas a rolar rosto abaixo e uma enorme sensação de satisfação pelo que havia feito e por se sentir parte da recuperação do irmão.

Conforme as semanas passavam, os sentimentos foram se amenizando e as coisas começaram a voltar ao normal. Adauto apresentava melhoras consideráveis e sua presença se tornava cada vez mais habitual. Estava sempre com o irmão andando pela propriedade – quando o acesso não era muito difícil, pois ainda tinha dificuldades motoras –, em sua casa em longas conversas, em refeições ou para qualquer coisa com a mais desaforada desculpa para simplesmente estarem juntos. Acompanhava de perto a evolução do sobrinho que a cada dia o reconhecia ainda mais como um familiar. Os esforços da mãe e da irmã diminuíam e conforme sua situação e presença se tornavam comuns, a conveniência fazia-se cada vez mais presente.

Periodicamente, o doutor entrava em contato com a família para saber sobre Adauto. No início, ligava a cada dois dias e aos poucos, a cada semana. Preferia – e quase insistia – falar com o pai de Adauto, devido a sua postura mais centrada e menos emotiva do que a da mãe. Estava realmente contente com a melhora de Adauto, mas sua real intenção estava nos detalhes que compunham todo o final do seu trabalho, que em breve seria apresentado à comunidade médica. Cerca de um mês depois de Adauto estar com a família, o doutor anunciou que gostaria de visitá-lo em breve e o pai consentiu. O doutor, muito agradecido, disse que assim que tivesse uma folga iria, mas antes entraria em contato para avisá-los.

A noiva de Adauto tinha sua vida na cidade e apenas pôde permanecer a primeira semana de seu retorno. Depois passou a ir aos fins de semana, exceto naqueles em que lhe tomavam as obrigações e deveres que não podiam ser resolvidos durante a semana. Mas quando visitava Adauto, fazia o possível para ficar perto dele e ele se sentia bem ao lado dela. Também sentia um grande carinho e, de alguma forma, sabia e sentia uma ligação mais forte. Adauto se lembrava de como eram antes: namorados; mas não agia como tal. Conversavam sobre coisas que fizeram juntos, mas não continuavam a fazer. Sentia falta da moça e ficava até aborrecido quando ela não aparecia. E se não aparecia, ligava e conversavam por telefone. Nunca mais se beijaram como antes, mas ficavam longos períodos de mãos dadas conversando intimamente. Era verdade que a mãe e a irmã não mais contribuíam tanto. Mas o grande sentimento de culpa que a noiva carregava a mantinha firme e persistente na reconquista de Adauto, pois isto significaria sua absolvição.

O amigo ligava duas ou três vezes por semana e o visitava a cada quinze ou vinte dias. Não conversavam em todas as ligações; em algumas, o amigo conversava apenas com mãe para poder entender a real situação. Preferia a mãe, pois além da grande consideração que tinha por ela, suas ideias e pontos de vistas eram semelhantes.

O irmão de Adauto mantinha a distância segura da família que há muito mantinha, mas era o mais próximo de Adauto e, ao contrário dos demais, não aceitava a situação e muito menos a tratava como normal. Conversava frequentemente com a esposa sobre o irmão. Não se conformava com o que tinham feito com ele e vez ou outra se emocionava. Também mantinha proximidade com o pai e se viam e se falavam várias vezes durante o dia, como nas caminhadas com Adauto. O pai ainda frequentava sua casa e mantinha uma ótima relação com a nora. Gostava de tomar café da tarde com eles e comer o bolo de fubá que ela fazia. O irmão e o pai de Adauto tratavam de assuntos da propriedade, assuntos da sua família, do neto – pelo qual o avô era louco – e também de Adauto.

O pai tinha um papel de diplomata entre o filho e o resto da família. Tinha de acalmar o ímpeto do filho e de tentar convencê-lo à aproximação – além da varanda, onde conversavam nos fins de tarde. Quanto à família, o discurso era para aceitar as diferenças e a voltarem a ser como antes. Também levava o neto para a avó e a filha. Elas adoravam o menino e o mimavam com muita felicidade e naturalidade, mas as visitas duravam até iniciarem os comentários sobre a forma com que a nora o criava e o vestia, além de outras mediocridades, que faziam com o que o pai de Adauto constatasse o fracasso da tentativa de reconciliação e levasse o menino de volta.

Contudo, o maior esforço do pai estava em acalmar o filho mais velho em relação à situação de Adauto. O filho vinha a ele com fúria e revolta para com todos, mas sempre respeitou e ouviu o pai. Era uma tarefa difícil para o pai, que vivia em meio a uma guerra pronta a estourar. Mas vencia o filho pelo cansaço, que reduziu sua forte revolta – que depois de sua visita a Adauto o levou a estourar casa adentro feito boi bravo, acusando fortemente a mãe e a irmã – a breves comentários e reclamações com o pai, quando Adauto não estava presente.

As coisas pareciam ir bem, mas apenas pareciam. O íntimo de Adauto estava inquieto. As coisas ainda não se encaixavam; pelo contrário, tudo era confuso e isso permitia a Adauto manter a tranquilidade aparente encapsulada pelos retardos de pensamentos, raciocínios e movimentos. As melhoras eram resultados de uma intensa luta interior entre o seu eu de antes e o seu novo eu – ou novos “eus” – criados durante o tratamento, mas tão encravados em sua existência como os demais. A tortura interna não traspassava os limites e causava incompreensões do todo, alternando-se com entendimentos momentâneos. Adauto em si estava convicto de estar curado e tinha conhecimento de seu estado, sendo um paciente em recuperação pós-tratamento; porém, tinha consciência plena de um único passado real, aquele criado e somado durante o tratamento. Para ele, não havia dúvidas de que cometera todas aquelas atrocidades, fossem lá a ordem e a mistura com que sua mente as apresentava: eram verdades, eram “ele”.

Assim, Adauto convivia com toda a família e com todas as visitas, agradecendo infinitamente de todo o seu coração. Sentia-se absolvido dos piores crimes que qualquer ser pudesse cometer em qualquer mundo em que pudesse existir. Não era apenas uma absolvição simples dos seus queridos, mas uma absolvição universal e divina. Menos de si mesmo. Era o mais frio juiz e mais cruel carrasco de si mesmo. Sentia-se indigno daquela absolvição e frustrado por não poder retribuir seu agradecimento da forma como deveria, se é que ele a sabia.

Os conflitos internos de Adauto o acometiam, principalmente e mais intensamente, às noites. Começavam um pouco antes de dormir, ainda acordado, em que as lembranças e as sensações de culpa começavam a se apresentar, misturando-se em um turbilhão de fantasmas e imagens de um passado que já fazia parte dele. Algumas noites eram mais amenas, outras mais terríveis; em outras, raras, nem aconteciam. Proporcional às intensidades era a dificuldade de dormir de Adauto. Ele passava horas e horas rolando de um lado para o outro na cama lutando consigo mesmo, tentando se aceitar; não mais como criminoso, mas como absolto. Os crimes que achava ter cometido já haviam sido aceitos durante o tratamento, mas o retorno à vida com a família era uma absolvição. De alguma forma, Adauto via estes conflitos como uma parte necessária de sua punição, o que fazia com que sua dor e suas dificuldades ficassem em sua intimidade, para sofrer sozinho a penitência que lhe cabia.

Apesar de mal dormidas, as noites de Adauto eram melhores quando passadas em claro. O pouco que dormia era mais terrível do que a realidade, do que seus conflitos acordados. Durante o sono não havia conflito, pois Adauto não podia lutar. O que havia era um verdadeiro massacre. Todas as memórias verdadeiras eram misturadas às novas memórias embutidas em sua vida e se mostravam de todas as formas, agredindo-o, alternando o teor das crueldades, alternando as vítimas e, em alguns casos, criando novas situações. Em uma das noites, Adauto, em um de seus pesadelos, amassava o crânio da cunhada sobre o fogão à lenha com a marreta usada para matar o gado, enquanto, com a outra mão, amamentava o sobrinho que assistia a tudo sentado sobre a mesa da cozinha, respingado pelo sangue da mãe que era lançado por todos os lados.

As novas situações não eram absorvidas como realidade, mas o deixavam extremamente perturbado. Acordava suado, soltando um forte grito que saia com toda a força que seu corpo podia aplicar. No início, os pais chegaram a invadir o quarto assustados e Adauto apenas dizia que havia tido um pesadelo. Contudo, com o tempo, deixaram de ir ao quarto de Adauto e angustiavam-se na cama ao ouvir o filho gritar. Sabiam que era mais um pesadelo, mas passaram a tratar como resquícios temporários do tratamento. Como Adauto ficava mais isolado e calado nos dias seguintes a essas noites, o pai, com apoio da mãe, entrou em contato com o doutor, que os tranquilizou usando a própria sugestão deles, de que eram apenas efeitos temporários e normais pós-tratamento. O fato é que os gritos diminuíram e os pesadelos também, tornando-se mais amenos.

Os pesadelos de Adauto e as imagens que lhe vinham quando ainda acordado na cama nunca apresentavam os efeitos do tratamento; Adauto sempre gozava de extremo vigor e de perfeita coordenação motora, além de um porte físico avantajado em relação ao seu porte real. Durante os pesadelos, Ainda não se sentia mal praticando seus crimes. Parecia estar executando uma atividade comum e simples do dia a dia, com satisfação e prazer. Depois dos pesadelos, quando voltava a si, vinha a perturbação: os atos em si, o prazer e a frieza ao praticá-los o aterrorizavam. Daí o conflito em que Adauto se condenava realmente um criminoso.

Mas, como o doutor previra incertamente, Adauto melhorou. Os pesadelos eram esporádicos e as noites de sono eram mais frequentes e longas. Seus movimentos melhoravam consideravelmente, assim como seu raciocínio. Adauto passou a ser uma melhor companhia e a ajudar em atividades mais simples na propriedade e na casa. A relação com a família era muito mais real e, inclusive, passou a ter contatos mais carinhosos e românticos com a noiva. Durante este período, o doutor visitou Adauto duas vezes e ambos ficaram muito contentes em se verem. Conversaram muito sobre assuntos diversos, menos sobre o tratamento em si; Adauto, por mais que lutasse e conseguisse esconder de si mesmo, lembrava-se de tudo o que havia passado e muito mais do enfermeiro maior. Já na primeira visita, o doutor percebeu o desconforto quando o assunto rondava os dias do manicômio e passou a evitá-los. Na segunda visita, ambos tinham novidades para trocar. Adauto, que havia cavalgado com o irmão, tinha ido visitar a lagoa que tanto lhe dava prazer – o que podia ser visto em seu rosto e em sua voz, que já era mais firme. Já o doutor, que tinha definida a data da apresentação do seu trabalho com Adauto, explicou o quão importante ele seria para sua carreira e o quanto estava excitado, ainda mais por já ter recebido excelentes comentários dos colegas – os mesmos que um dia o acusaram. Ambos ficaram felizes, principalmente o doutor, que via seu paciente melhorando muito bem, o que solidificava o sucesso de seu tratamento. Afinal, as visitas não eram apenas formalidades, mas um levantamento detalhado de resultados para completar sua tese.

A citação da lagoa, com tanto prazer e alegria, intrigou o doutor que chegou até a estremecer a voz ao perguntar todos os detalhes da paisagem em busca de patos. Sem sucesso, sua inquietude não permitiu que ele apenas presumisse que tudo estava bem e por fim perguntou sobre os bichos. Foi direto e tenso. Perguntou a Adauto se havia patos na lagoa e Adauto respondeu que sim, que eram patos do mato, mas não lembrava quantos. Ao ser confirmada a presença dos patos, o doutor apavorou-se imediatamente, mas a força que fez para lembrar e o descaso no olhar e na voz de Adauto o tranquilizavam. O doutor estava calmo e convicto do sucesso do tratamento.

O período de melhoras foi uma época de ouro para toda família. Todos conviviam com sorrisos e Adauto estava cada vez mais engajado em toda e qualquer situação. O namoro recomeçou com bastante intensidade. Ajudava cada vez mais o irmão com a administração e afazeres da propriedade, pescavam, cavalgavam, caminhavam e conversavam. Sentavam-se todo fim de tarde com o pai na varanda e a mãe passou a dar um pouco mais de abertura, levando guloseimas para os três enquanto conversavam. Vez ou outra sorria ou perguntava alguma coisa simples para puxar conversa com o filho mais velho. Estava distante ainda de um restabelecimento da antiga relação, mas era um começo, em que o irmão hesitava muito em ceder, mantendo os dois pés atrás. Adauto ainda tinha certas dificuldades motoras e uma leve debilidade em seu rosto, mas já não eram assustadoras como antes. Não babava mais. Sua voz também era mais firme, sem aquela moleza assustadora de antes. Todas as datas importantes como aniversários, feriados e datas religiosas voltaram a ser comemoradas. Adauto, com uma aparência melhor, passou a acompanhar a mãe e a irmã em suas idas até a cidade. No aniversário da esposa, o irmão fez uma comemoração simples nos arredores de sua casa, em que participaram a família dela, alguns empregados e a própria família, que foi completa, com a própria mãe carregando uma bandeja de cuscuz que ela e a filha prepararam. Entretanto, uma expressão não muito satisfatória no rosto da mãe revelava a influência do marido, mas ela se esforçou.

Havia quase oito meses que Adauto estava de volta e essa época de ouro foi bastante intensa. Entretanto, como uma doença adormecida, os pesadelos e os conflitos latentes voltaram a acontecer novamente e cada vez mais com maior frequência e intensidade. As noites se tornaram maiores, os períodos de sono menores, os gritos no meio da madrugada voltaram e Adauto estava visivelmente perturbado. Começou a alternar seu estado emocional: havia dias em que tudo estava normal e havia dias em que ele andava paranoico pela fazenda, como se estivesse sendo perseguido, dizendo frases que não faziam sentido algum. Os pais já sabiam que os dias alterados eram os que sucediam os gritos na madrugada e neles Adauto passava a ter uma expressão assustada e desorientada. O olhar se tornou vago de novo, não pela debilidade anterior, mas pela apreensão de um herege que está sendo caçado. Além da própria agitação, as mãos ficavam inquietas, mexendo uma na outra o tempo todo, com os dedos se roçando como que procurando algo para se firmarem e consolarem um ao outro. A preocupação voltou a pairar sobre a família, que ainda assim resistia e tentava não ver – ou aceitar – o que acontecia. Pretendiam ligar para o doutor em todas as manhãs em que isso acontecia, mas inventavam uma desculpa para não formalizar a aceitação do declínio de Adauto. O irmão de Adauto conversou a sós com o pai para que tomasse uma atitude o quanto antes e evitar que Adauto piorasse, mas chegou a discutir com seu velho ao ver sua insistência de que aquilo fazia parte do processo que Adauto havia vivido durante sua recuperação. Por diversas vezes, segurou em si acusações sobre o que acontecera e o que aconteceria com o irmão. Frustrado, o irmão passou a acompanhar mais Adauto e a mantê-lo o mais próximo possível na tentativa de reverter a situação, mas a frequência daqueles dias perturbados aumentava.

Adauto passou a falar cada vez mais da sua nova realidade. Entre uma conversa e outra, citava momentos das atrocidades que achava ter cometido. Ninguém entendia, mas Adauto falava como se tudo fosse de conhecimento e lembrança de todos. Vez ou outra, quando se prolongava, alguém o impedia dizendo para não dizer bobagens ou perguntando de onde ele tirava aquelas ideias. Todos riam para dispersar o assunto, sem entender nada. O irmão se tornava cada vez mais preocupado e nas conversas duras com o pai acusava o tratamento de ter mexido com a cabeça do irmão. Dizia que aquilo era claro, mas que ninguém queria enxergar. Pedia ao pai que fizesse algo, que chamasse algum outro médico, ao menos para examinar o irmão. Apesar de concordar com o filho, o pai preferia manter a linha da esposa e dar de ombros, aceitando convenientemente toda a situação com normalidade.

O auge foi quando, durante uma das crises noturnas, Adauto começou a gritar a cada ar que tomava em sua respiração. Batidas vinham do seu quarto. O pai não teve dúvida e saltou instável de uma só vez da cama, correndo para o quarto do filho, seguido à distância pela esposa. Ao chegar no quarto, abriu a porta em um único solavanco sincronizado com o virar da maçaneta. A cena partiu o coração dos pais. A mãe entrou assim que a porta foi aberta e assistiu ao marido, com voz embargada e olhos marejados, segurar e tentar acalmar Adauto que, sentado em sua cama e com o corpo inclinado sobre os joelhos, batia violentamente a cabeça contra a parede. Com muito esforço, o pai conseguiu afastá-lo e acomodá-lo do outro lado da cama, falando com ele enquanto a mãe lançava-se desesperada, aos prantos, sobre o filho. Adauto chorava descontroladamente e não respondia às perguntas dos pais. Apenas chorava e subitamente sentiu o sangue melado que lhe escorria pela testa e lhe contornava o nariz, seguido pela dor na cabeça. Aos poucos, foi se acalmando e voltando a si. A própria dor se encarregou disso. Adauto não respondeu nada e demorou a olhar para os pais. Depois de ter o rosto limpo pela mãe, olhou para eles e disse de cabeça baixa e voz abafada:

- Tirem isso de mim, por favor!

Ninguém entendeu o que era “isso”. Perguntaram, mas Adauto não respondeu. A mãe o trouxe para o colo e ambos choramingaram. O pai ficou estarrecido olhando para os dois e algumas lágrimas rolaram. A esposa olhou para o marido e ambos, sem dizer nada, consentiram em chamar o doutor.

Naquele dia, Adauto não saiu do quarto. Passou o dia todo deitado com o olhar fixo e sem dizer uma palavra. Os pais revezavam-se nas constantes visitas. A mãe só conseguiu que ele comesse um pouco de uma sopa encorpada no fim da tarde.

Imediatamente após o ocorrido, o pai ligou para o doutor. Uma moça atendeu e disse que o doutor havia viajado para um congresso e forneceu o telefone do hotel em que estaria, assim que percebeu a urgência da situação. O pai de Adauto ligou em seguida para o número informado e conseguiu pegar o doutor de saída. Contou-lhe, com certa agressividade e acusação em sua voz, tudo o que havia acontecido naquela noite e o que vinha acontecendo durante as últimas semanas. O doutor tentou manter a calma e, discretamente, usou a seu favor o tempo que levaram para entrar em contato com ele. Mas continuou imediatamente a conversa, para evitar que o pai perdesse o controle. O doutor orientou que mantivessem Adauto tranquilo e que evitassem quaisquer menções sobre o que havia ocorrido. Deveriam agir naturalmente como se nada tivesse acontecido e receitou um medicamento fitoterápico para acalmá-lo. Retornaria em cinco dias e visitaria Adauto. O pai de Adauto se indignou e pediu que fosse imediatamente, mas o doutor explicou a distância de onde estava e o tempo seria insignificante para Adauto, contanto que suas orientações fossem seguidas. Tentou tranquilizar o pai, dizendo que isso poderia mesmo acontecer e que, apesar de estranho, eram normais as recaídas pós-tratamentos, apesar de fáceis de lidar e de nenhuma consequência ficar. Com a responsabilidade transferida, o pai se acalmou e pediu ao doutor que se apressasse. O doutor disse que faria o possível e que talvez conseguisse chegar um dia antes, rumando direto para a fazenda deles. O pai consentiu e desligou o telefone, preparando-se para sair em busca do medicamento. Do outro lado, o doutor, desesperado, suspirou profundamente e se acalmou; desligou o telefone e foi então tomado por uma forte onda de alívio, pois havia dois dias que apresentara seu trabalho, que fora tido como um sucesso. Apesar de questionamentos e críticas sobre seus métodos, as portas da comunidade foram novamente abertas para ele.

O doutor pensou por alguns instantes e examinou os compromissos e os eventos do congresso em sua agenda. Identificou as possibilidades. Pensou que uma saída dessas poderia, inclusive, ser favorável, pois deixaria os colegas a sós para comentarem tranquilamente sobre seu trabalho. Daria certa importância para suas relações com seus pacientes e deixaria evidente sua responsabilidade e dedicação ao trabalho médico. Pegou o telefone e ligou para o pai de Adauto, dizendo que chegaria dentro de três, no máximo de quatro dias. O pai de Adauto o agradeceu insistentemente e se despediu satisfeito.

O medicamento foi prontamente comprado pela irmã, que foi ordenada a ir à cidade em busca dele. Tão logo retornou, a mãe apressou-se em dá-lo a Adauto que tomou inclusive a dose extra dada pela mãe.

Adauto não respondeu ao medicamento e passou a ter um constante olhar atormentado, de quem é perseguido. Estava arisco e reagia com sustos a quase todos os eventos que o cercava: um chamado, uma porta que se abria, uma janela que batia... Ainda, quando prolongada uma conversa, Adauto vinha com os fatos irreais que, então, passaram a fazer parte de sua realidade. Um grande incômodo e uma intensa preocupação passaram a tomar conta da família que não sabia como reagir. A mãe usava isso como motivo para manter doses adicionais do medicamento além das prescritas pelo doutor. Adauto passava a maior parte do tempo em seu quarto dormindo ou simplesmente deitado, mas calmo. As poucas ocasiões em que o incômodo voltava à cena eram quando ele saía para as refeições – apesar das diversas tentativas de alimentá-lo no próprio quarto – ou quando ele insistia em se sentar na varanda com o pai. A insistência era veemente e todos tinham de respeitá-la.

O quadro de Adauto fez com que as visitas fossem proibidas. A mãe não queria que o filho fosse visto naquelas condições e muito menos que fosse submetido a quaisquer conversas que pudessem piorar sua situação. Somente o amigo, a noiva e o irmão – a contragosto da mãe e por imposição do pai – podiam visitá-lo. Nenhum telefonema lhe era permitido. Os passeios na propriedade estavam suspensos com o apoio do medicamento, o que era muito tranquilizador para todos, menos para o irmão.

No terceiro dia após a conversa do pai com o doutor, Adauto acordou por volta das quatro da manhã, sem os efeitos do medicamento dado na noite anterior, pois fora cuidadosamente escondido sob sua língua e escarrados pela janela do quarto.

Levantou-se e vestiu uma das roupas que usava para os passeios na fazenda. Saiu do quarto, caminhou pelo corredor, virou à esquerda em direção à cozinha e saiu pela porta dos fundos. Tudo feito com extremo cuidado e silêncio para não acordar ou chamar a atenção de ninguém. Não olhou para trás.

Uma vez fora da casa, caminhou pelo gramado até a goiabeira. Apoiou-se e calçou as botas sujas que carregava na mão direita. Olhou uma única vez para a casa a fim de verificar se alguém havia acordado, mas não havia sinal algum, tudo estava em pleno silêncio. Continuou ligeiro a sua caminhada até o estábulo, que ficava distante da casa dos pais e da do irmão o suficiente para que dispensasse os demasiados cuidados para não ser ouvido.

Entrou na selaria e sem se importar, pegou uma das selas penduradas, uma manta não muito grossa e uma cabeçada já pronta com as rédeas e um bridão leve. Levou tudo para o fundo do estábulo. Voltou para a selaria pegar um rebenque longo, um cabresto e uma corda de algodão usada para lidar com os potros, que ficava pendurada na parede oposta à das cabeçadas.

Ainda com cuidado e tranquilidade, Adauto abriu a porta da baia de seu cavalo. Sussurrando e com movimentos gentis, colocou-lhe o cabresto e o levou para o fundo do estábulo onde estava o restante do arreio. Selou-o e depois lhe colocou a cabeçada. Abriu o portão de madeira do fundo do estábulo, tirou o cavalo e o montou em um só golpe. Mais uma vez, Adauto certificou-se de que ninguém havia acordado ou notado sua ausência. Tudo continuava quieto e sossegado. Saíram em direção oposta às casas.

Cavalgaram por um bom tempo. Seguiram pela estrada que pareava as cercas e viraram no segundo carreador à esquerda, até a picada que levava à entrada da lagoa. Eram os primeiros minutos do dia em que a aurora começava a pincelar o céu com misturas de azuis, laranjas e rosas. O sol ainda não havia nascido completamente, mas o ar já estava amornado e o céu claro o suficiente para iluminar toda a vista. Entraram na picada, cruzaram o bambuzal, passaram por baixo de algumas árvores e saíram à beira da lagoa. O ar se resfriava a medida em que se aproximavam da lagoa e tudo se tornava ainda mais agradável. Sem desmontar, Adauto ficou observando e consumindo a paz que somente aquele lugar lhe proporcionava. O mato ainda estava molhado e o chão úmido estava coberto por folhas amareladas das árvores. Algumas aves despertavam em voos e cantos que rompiam o silêncio. Uma fina névoa brotava da superfície da água descansada, que parecia uma grande placa cristalizada, que se desfez com o ondular macio dos patos selvagens que deslizavam majestosamente da outra margem para o banho matinal.

Adauto permaneceu observando com longos suspiros e com brilho nos olhos. Era como se estivesse em outro mundo, completamente separado daquele em que vivia. Aquele ali era um mundo só seu. Naquele momento, não tinha lembranças, não tinha pensamentos e não tinha maldades ou crimes em seu coração. Apenas uma imensa paz lhe tomava todo o corpo, causando um profundo relaxamento e uma sensação de leveza única. Cada som, cada cheiro, cada movimento, cada detalhe eram saboreados com todos os sentidos. Os breves minutos passaram a se tornar longos momentos de pura entrega e deleite como ele jamais tivera.

Mas não havia muito tempo. Adauto voltou a si e terminou o laço com cuidado e capricho. A outra ponta da corda já estava bem amarrada à cabeça da sela durante todo o caminho que percorrera. Lançou o laço por cima do grosso galho sobre eles e o pegou do outro lado. Ajeitou-o e verificou o nó. Vestiu-o. Olhou mais uma vez para toda a paisagem e se espantou ao avistar, sentado do outro lado da margem, o velho de sapatos pretos e pasta marrom, com chapéu preto de feltro de abas estreitas, rodeado pelos patos que comiam as migalhas que lançava à flor da água. O velho olhava fixamente para Adauto e, sutilmente, contraiu um dos lados do rosto arrastando um sorriso tímido como se o entendesse. Adauto também entendeu e sorriu como há muito não sorria. Foi tomado por uma sensação de alívio e pureza como nunca sentira em toda sua vida e, em pleno êxtase, cravou os calcanhares nos vazios do cavalo e lhe desceu o rebenque nas ancas. Não ouviu o relinchar do cavalo, o correr da corda e nem mesmo o terrível estalo. Sua vida lhe passou completa por sua mente como verdadeiramente era, sentiu a leveza do flutuar liberto e se tornou perfeito.

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