PATOS

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Capítulo I

O sol novo e não muito alto estava quente o suficiente para queimar o rosto de Adauto e incomodar seu sono. Com os olhos ainda fechados, começou a despertar, remexendo-se e endireitando seu corpo. Sentiu dores nas juntas e nas costas que lhe atacavam por causa da posição sinuosa em que se tinha postado. Com uma das mãos, limpou a baba viscosa que, quase seca, parecia melado repuxando seu rosto. Sentiu nojo e vergonha de ter sido visto naquela situação. Precisou de força para tentar abrir os olhos, mas uma pasta encorpada se formou durante o tempo em que as pálpebras não trabalharam. Uma luz inimiga o atacou e elas lutavam com força para vencer essa batalha. Doeu-lhe a fronte. Uma cegueira temporária o fez espreguiçar. Repousou novamente e aguardou que a ofuscação terminasse.

A luz começou a diminuir e tudo ganhava forma e cor. Com a saliva grossa, inspecionou todo o interior da boca com a língua. De maneira incompetente, comprovou a presença de todos os dentes e em seguida engoliu. Tratou de repetir o movimento algumas vezes até a que a saliva raleasse. Passou as mãos na cabeça como se fossem pentes banguelas que colocavam os fios de cabelos em posições mais apresentáveis.

Com a visão quase normal, virou-se para a janela da cabina e tentou descobrir onde estava e constatou uma subida. Era um terreno rochoso. Sua vista era cortada por árvores e moitas que desapareciam tão subitamente quanto apareciam. Sem dar chance de identificar quaisquer detalhes, apenas revelava tons esverdeados que se formavam com as cores misturadas pelo vento e pela velocidade. Eram plantas que teimavam em crescer em terreno onde não deveria haver nada que precisasse de terra e água para vingar. Ao fundo, morros traçavam um horizonte sinuoso definido pelos cumes rochosos e pelo céu azul-esbranquiçado do amanhecer de um dia quente. No céu sem nuvens, bandos de aves fantasmas iludiam sua existência em amontoados que definiam formas irregulares e destoantes. Talvez fosse a mistura da claridade com as remelas que as distorciam. Esfregou os olhos para remover as manchas que via. Continuou. Abaixo dos cumes rochosos, sem mais nem menos, verdes cobertores aveludados escondiam as intimidades da serra que se fundiam uns aos outros, cravados em um estreito vale que a cortava. De onde estava, parecia um tapete de um verde intenso e vivo. Algumas árvores tornavam o relevo imperfeito. Como uma fina e delicada gargantilha prateada derramada sobre o colo, rasgava um córrego, talvez um rio mais largo – não se tinha a noção precisa daquela distância. Refletia de uma forma intermitente e irregular. Ao seu redor, majestosas árvores e volumosos feixes de colonião abriam alas para sua passagem pelo vale. Era uma vista virtuosa, mas não um paraíso. Lá embaixo, talvez predominasse o som de ventos e de folhas roçando umas com as outras num balé desengonçado na estreita planície, vazia de lembranças ou sentimentos pesados.

Os pensamentos de Adauto deixaram de ter sentido. Olhava, mas não via. Tudo ficara embaçado como se tivesse perdido as formas e então era um amontoado de manchas que tentavam se definir. Adauto nada via e nada pensava, apenas estava ali, alienado, sentindo. Sentia o calor na face, sentia paz, sentia-se livre. Como se pudesse ir aonde quisesse, enquanto para nenhum lugar queria ir. Como se tivesse aberto uma porteira para que seus pensamentos saíssem para se divertir, sem se lembrar do que realmente eram. Sentia paz: era só ele e o mundo. Há tempos não conseguia estes momentos. Havia tentado, mas quando se tenta os pensamentos não ficam livres; com muito esforço, apenas o corpo. Mas os pensamentos mantêm a ligação com a realidade e ainda trazem um turbilhão de “e se...?”. Apesar disso, definitivamente, sentia-se bem.

Os guinchos agudos das rodas arranhando o trilho e as batidas das engrenagens chacoalhando incansavelmente começaram a ficar cada vez mais altos. Os pensamentos começaram a voltar e as manchas a se definirem e mostrar o que escondiam. Adauto sentou-se e, agora olhando para frente, com os olhos tontos pela falta de luminosidade da cabina, levou as mãos ao rosto e o massageou. Sem pressa, relaxou e nutriu cada músculo, repousando as em seguida em suas coxas. Os olhos começaram a limpar as manchas brancas que apareceram sem sentido em um fundo negro devido à massagem nas pálpebras, e um vulto formou-se em sua frente. Havia um homem sentado ali. Adauto assustou-se. Não havia ninguém naquele lugar quando dormiu e não notara nada de diferente desde que acordou. Devia ter embarcado durante a noite ou trocado de lugar. Não importava, havia um homem sentado em sua frente e o olhava nos olhos. Então Adauto percebeu que era um senhor, um homem de idade avançada. Um velho que não parava de olhá-lo. Adauto começou a olhá-lo também. Quis saber a quanto tempo estava sendo observado. Tentou lembrar se tinha feito algum movimento ou expressão de que deveria se envergonhar enquanto estava olhando pela janela. Não conseguiu, mas mesmo assim sentiu vergonha. Baixou os olhos e os voltou para o velho que mantinha os seus fixos, nas mesmas posições de antes, sem movimentar qualquer outra parte do corpo. Adauto então pensou que podia estar morto. Morrera durante a noite. Então sentiu medo. Um morto em sua cabina; um morto que só parecia morto, não fossem pelos olhos muito vivos. Os sentimentos começaram a se misturar e iludir, então, Adauto decidiu se acalmar e examinar melhor o velho. Usava sapatos novos e bem engraxados, apenas alguns arranhões, provavelmente, por mexer as pernas e os pés durante a noite em busca de posições cômodas para relaxar ou, ao contrário, por enrijecimentos e contrações que tivera enquanto agonizava. Respirou fundo e se acalmou novamente. O terno era preto; um tanto surrado pelo tempo, mas ainda apresentável. Tinha a aparência de recém-alisado. As mãos repousavam em uma pasta marrom acomodada sobre as pernas. Estavam em uma posição que permitiam encaixar o chapéu de feltro de abas estreitas. A gravata estava frouxa e do colarinho saia um pescoço amassado e marcado por sulcos. Por debaixo do paletó, via-se uma camisa larga que tentava se encaixar a uma cintura fina, abarrotada por um cinto apertado. O rosto era menos penoso. Barba aparada. Os lábios finos quase não havia; apenas um risco definia sua boca. Nariz grande e afilado. Largas narinas de onde saiam longos pelos grossos. Os olhos estavam afundados no rosto magro e as pequenas bolsas abaixo deles apenas serviam para destacar as ondas que os seguiam até a região de um provável bigode. Ainda fixos, os olhos tinham tristeza. Sofrimento. Talvez uma vida cansada, cheia de problemas que ainda a atormentavam. Dificuldades financeiras? Solidão? Nunca saberia, a não ser se perguntasse, mas isso não o faria. Ainda não sabia se estava vivo e lembrou que ao passar o olhar pelo pescoço, pôde perceber o movimento de sua respiração e até uma engolida discreta. Continuou. Os poucos e ralos cabelos que lhe restavam eram brancos e finos. Todos cuidadosamente penteados tombavam à direita e exprimiam certa elegância.

Adauto retornou as costas ao encosto. Concluiu que o velho estava vivo e pronto para o próprio velório. Sem dúvida, era uma figura misteriosa, cheia de fantasmas de uma longa vida. Adauto teve pena. Olhou-o com ternura procurando alguma maneira de ajudá-lo. Mas ajudá-lo com quê? Como falar com ele? O que perguntar? E se conseguisse, o que faria? Para quê? Como? Talvez estivesse apenas cansado. Talvez fosse marcado por anos de trabalho pesado. Ou talvez estivesse indo ao encontro da família ou de um amor do passado. Adauto desistiu de qualquer tentativa ao entender que tudo em que pensava eram apenas especulações sobre um senhor que se sentara em sua frente durante uma viagem. Então, sutilmente, o velho contraiu um dos lados do rosto num sorriso tímido, como se adivinhasse os pensamentos de Adauto.

Pelo corredor, o grito do cobrador anunciou a cidade da próxima parada. O velho, com a mão esquerda, vestiu o chapéu, firmou a pasta na mão direita e se levantou, tentando firmar os joelhos trêmulos que não tinham a mesma sustentação de antes. Já em pé e de frente a Adauto, levou a mão direita ao chapéu e o tocou levemente em reverência, dizendo de forma macia e calma, sorrindo:

- Tenha um bom dia, filho!

Adauto engasgou, apavorado. O velho curvo estava quase no corredor. Adauto tentava dizer um “Obrigado, bom dia para o senhor também”, mas não conseguia. Estava assustado. Contorceu-se agitado tentando dizer algo com o corpo, mas o velho sumiu de vista.

Estava sozinho e cansado. Ainda trêmulo, percebeu o trem parando, mas não via a estação; devia estar do outro lado. Queria ver o velho desembarcar, ver como seria recebido, se teria de carregar muita bagagem e tantas outras coisas que passavam pela sua cabeça. Desistiu. Achou melhor ficar quieto onde estava. Sentia medo e vergonha. Desmanchou-se na poltrona e apertou os olhos agora encharcados, sufocando qualquer lágrima desnecessária que teimasse se formar. Tinha de se recompor para o café da manhã.

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