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Capítulo II

Adauto era parte da terceira geração de imigrantes que, em busca de paz e dignidade, fundaram uma vila ao leste daquele estado, tornando-se então uma cidade de porte considerável com qualidade de vida desejável. Resultado merecido. Aquela gente passou por muitas dificuldades, tanto na terra natal quanto no novo mundo. Perdeu a dignidade, foi submetida a situações subumanas e constrangedoras que a maioria nem ousava lembrar. Era como um pacto selado não com palavras, mas com dores vivas guardadas dentro de si, de um tempo que deveria ser esquecido, apagado, engolido. Só era quebrado pelas lembranças descontroladas que irrompiam os sonos de seus personagens, levando-os a espasmos noturnos que terminavam em gritos de desespero de quem diz “me ajude”, abafados pelas lágrimas e gemidos que os seguiam. Todos os que ouviam seus conterrâneos durante estes períodos noturnos sabiam do que se tratavam, e o máximo que podiam fazer era fechar os olhos e se proteger contra as próprias lembranças. Mesmo os parceiros de cama não davam uma só palavra, nem mesmo para dizer que tudo era só um sonho ou que aquilo já havia passado e que, enfim, os tempos eram outros. Naquele momento, qualquer palavra confirmaria a real existência daquele tempo; então, para não caírem na mesma situação, viravam-se para o outro lado da cama, fechavam-se os olhos para sufocar as lágrimas ou tentavam pensar em outras coisas, esperando o surto vizinho terminar para poder dormir novamente.

O avô paterno de Adauto imigrara ainda menino, junto da mãe e da irmã mais velha. A decisão de seguir com o grupo para uma nova terra foi tomada pela sua mãe, assim que soube que a guerra tragara seu pai. Passou a ser o único homem da família e não tinha força suficiente para trabalhar com a enxada, mas tinha idade suficiente para entender o que acontecia. Juntaram-se a um grupo de concidadãos próximos e conhecidos, inclusive um tio, cunhado de sua mãe, que tinha informações vindas de outro grupo que havia ido à frente para encontrar um ponto de partida. Na nova terra, estabeleceram-se como puderam e passaram a viver em regime cooperativo, em todas as coisas, desde o cultivo de oliveiras, a produção de azeites, a construção do grande galpão que servira de abrigo coletivo, até às construções das casas e terras de cada família. Foi a busca pela paz, pela dignidade e, acima de tudo, o medo que mantiveram aquele povo unido em todos os momentos, ajudando uns aos outros, como se fossem uma mesma família. E foi esta família que acolheu a de seu avô e permitiu que ela vingasse.

Sua avó paterna nunca se soube ao certo se nasceu na terra nova ou à caminho dela – era o que uns diziam e outros contradiziam. Mas era filha do tio do avô de Adauto. Com o tio morto e mãe inválida pela idade, o avô de Adauto uniu-se a ela em matrimônio para manter suas terras na família. Apesar de uma união praticamente comercial, tinham respeito um pelo outro e aprenderam a se amar e a viver como os demais casais daquela vila. Sua avó nunca teria as lembranças amargas e sangrentas que todos sufocavam dia após dia e que atormentavam as noites de seu avô. Talvez por isso ela foi uma das pessoas mais meigas que Adauto conheceu.

Seu avô materno era um dos desbravadores que chegaram naquela terra. Foi um dos pioneiros e fundadores da vila e carregou as mais pesadas responsabilidades. Ele e seus companheiros tiveram que encontrar um lugar seguro e próspero para onde pudessem levar suas famílias; depois, tiveram que vender as produções daquela gente, correndo as vilas e cidades vizinhas procurando compradores, vendendo e negociando na língua local; passavam noites ao relento sem ter o que comer; e quando não conseguiam nada, tinham a pior das tarefas: voltar e encarar os rostos esperançosos e os olhos ansiosos de seus concidadãos que aguardavam notícias sobre a compra de seus produtos. Estas viagens fizeram com que aqueles homens se tornassem conhecidos nas outras localidades. E foi uma destas viagens que apresentou a avó de Adauto àquele seu avô. Ela era filha de um dos compradores de azeite, dono de um grande armazém da cidade. Trocaram olhares e sorrisos algumas vezes e então deu-se início uma longa e bonita história de amor.

O avô materno faleceu antes mesmo de Adauto nascer. A única lembrança que tinha era uma única e surrada foto que a mãe guardava. Conhecia-o mais pelas incríveis histórias que o povo contava sobre um de seus grandes heróis, às vezes falsificadas ou destorcidas. A avó ainda viveu vários anos e acabou esclerosada quando Adauto era apenas um bebê. Os outros avós o acompanharam até a adolescência, quando a avó deu um último e terno suspiro na madrugada de um sábado. O avô suportou alguns meses, mas a desolação pela perda da esposa o fez definhar descontroladamente até a morte. Entregou-se.

A vida daquele povo melhorou muito com a chegada da estrada de ferro, que trouxe progresso e muitos outros conterrâneos que sobreviveram como puderam na terra natal. A comunidade tornou-se vila e a vila tornou-se cidade. O pai de Adauto, então, era dono de um bom pedaço de terra, união das de seus pais e de seus sogros. Era um homem vigoroso, sempre disposto ao trabalho. Não era um homem alto, mas de uma força maior que seus músculos demonstravam. Seus cabelos eram grisalhos e compunham uma espessa franja cuidadosa e constantemente penteada, mesmo que debaixo do chapéu. Seus olhos eram claros e atentos. Estava sempre bem vestido, não importava a roupa, estava sempre cuidadosamente disposta. Com charme e orgulho, exibia um volumoso bigode que sempre acariciava enquanto a mente funcionava quieta.

Conforme as terras foram se tornando mais produtivas e a produção melhor aproveitada, a idade começou a pesar e os empregados a aumentarem. Eram eles que o ajudavam com a produção e o livravam dos serviços pesados. Os braços cansados tiveram descanso e o cérebro então era o que mais trabalhava. Ele passou a ser o estrategista, o administrador, o patrão. Não era um “senhor” de terras, mas tinha uma boa condição de vida. Mesmo assim, preferiu manter a família o mais longe possível da vida vadia e decadente que levavam as pessoas da cidade. Não aprovava aquele modo de vida, por mais que tentasse aceitá-lo nas outras famílias. Não se tratava da cidade em si, mas da falta de respeito entre as pessoas, da carnificina, da falsidade e, principalmente, da falta dos tradicionais valores de família, os quais tentava manter na sua. Acreditava na criação ao modo antigo, com o respeito dos filhos pelos pais e da mulher pelo seu homem; acima de tudo, acreditava na família como uma entidade sagrada que devia ser protegida de tudo e de todos. Mantinha e provia tudo para a família do jeito que achava mais conveniente. Respeito. Esta era a palavra que melhor o descrevia. Não era uma pessoa romântica, mas tinhas suas maneiras de se fazer presente.

A esposa era uma mulher sutil e temerosa ao marido, sempre elegante e com uma imponência majestosa – algumas vezes chegando à arrogância. Era da altura do marido, com cabelos louros encaracolados – sempre muito bem arrumados – olhos esverdeados e amendoados que se moviam de modo soberano. Tinha um corpo esguio e muito bem conservado, considerando a idade e três partos. Estava sempre bem vestida com elegância e requinte, mesmo quando na cozinha ou em outros afazeres domésticos. Teria um rosto angelical se não fosse pelo olhar quase que diabólico. Era uma mulher tradicional que também gostava de manter os valores, principalmente aqueles relacionados à vida social. Preocupava-se incansavelmente com a aparência, não apenas em sua forma física, mas também na comportamental. Neste âmbito era ela quem ditava as regras e fiscalizava toda a família.

Criou a filha à sua imagem. Era como um prêmio muito buscado, tendo primeiro dois filhos homens. A filha parecia, inclusive, sua miniatura: tinha uma estatura um pouco menor, mas agia, pensava e se comportava como a mãe. Fazia parte também da fiscalização sobre a família, trazendo à mãe os resultados de suas investigações quando esta não estava. Contava os desleixos do pai ou dos irmãos. Tudo era imediatamente incorporado pela mãe e utilizado como munição sobre eles.

A mãe e a irmã de Adauto sempre demonstraram o desejo de morar na cidade para poder desfrutar de conforto e do luxo e para estar mais perto das famílias respeitadas que eventualmente as convidavam para alguma badalação. A esposa tinha um gênio forte e não eram raros os momentos em que ela se impunha de forma dura e atrevida, mas ele persistia e conseguia lidar com a situação. Não era um homem vingativo e soberano, sabia também ouvir as vontades de desejos da esposa. Era tudo uma questão do momento em que viviam. As mudanças das condições as faziam odiar e praguejar contra a vida naquele lugar, inclusive em suas intimidades. Mas o pai de Adauto tinha fixa a sua ideia e reformou a casa em que moravam e a tornou bastante confortável, com certo luxo que lhe era possível. Fez tudo de forma que a esposa pudesse, ao acaso, oferecer momentos agradáveis às amigas ali mesmo, dos quais ele nunca participaria.

O irmão de Adauto era o que menos desejava sair daquele lugar. Era como se tivesse nascido para ali viver. Era sete anos mais velho que Adauto e acompanhara o pai desde jovem na lida com as terras. Era mais alto que Adauto e que o pai. Tinha um corpo forte e ágil, com braços musculosos, mãos calejadas e rosto afilado, cujo queixo destacado e olhar sedutor por natureza, eram atração para as mulheres. Vestia calças justas, camisas de flanela, botas e chapéu tipo caubói. Desistiu dos estudos com consentimento do pai, ainda no início. Queria dedicar-se às terras. Faria jus ao que seria um dia chamado de herança. Foi uma grande força com a qual o pai pôde contar e assim assumiu uma posição importante e ativa nos negócios da família, sendo um dos grandes responsáveis pela situação atual, estável e confortável. Era forte, trabalhava feito um cavalo. Estava sempre pronto e disposto para quaisquer necessidades que o pai viria a ter. Naturalmente, tudo funcionava melhor com o pai por trás, lapidando e direcionando suas ideias, o que evitava que seu ímpeto juvenil o fizesse trocar os pés pelas mãos em algumas situações. Adauto nunca conseguiu definir se o irmão era uma pessoa de bom coração ou se não passava de um potro redomão que, vez ou outra, distribuía coices em todos ao seu redor. Era amparado pela mão do pai que nunca, ao que Adauto se lembrava, a teria usado contra ele. Era um pouco dos dois em um só. Também era certo que o irmão sucederia o pai na família e por isso o pai o preparava conforme achava certo. Eram como unha e carne; como a cabeça e o corpo.

Adauto tinha uma ótima relação com o irmão; admirava-o, respeitava-o e adorava estar com ele; fosse qual fosse o motivo, bastava estar. Passava a maior parte da infância com a irmã e se divertiam muito, ainda mais quando eram surpreendidos pelo irmão que os carregava nos ombros e se jogava com eles na lagoa do fundo da fazenda. Momentos não raros, mas não tão frequentes em que o irmão, após o dia de trabalho, resolvia distrair-se brincando com eles, agarrando-os, arrastando-os, arremessando-os no ar, girando-os pelas pernas e pelos braços, fazendo todos os tipos de brincadeiras que lhes davam frio na barriga, alternando medos e prazeres. Sempre acabavam estirados ao chão, ofegantes, até que a mãe orgulhosa os chamava da varanda para que viessem rapidamente tomar seus banhos para o jantar que estava quase pronto.

A irmã era apenas dois anos mais nova que Adauto. Era o retrato físico e emocional da mãe. Frequentava a escola com Adauto. Nunca lhes seria permitido desistir. O próprio pai fazia questão de deixar isso muito claro, já que tinha um ressentimento, nunca admitido, por ter privado o filho mais velho dos estudos. A irmã era uma espécie de boneca que estava sempre atrasada por culpa da mãe, que lhe despejava arrumações e enfeites como um confeiteiro em busca o bolo perfeito. E sempre atrasava Adauto. Nos degraus da entrada da frente da casa, ele tinha paciência em esperar. O irmão os levava e este sim impaciente, apertava a buzina dezenas de vezes inutilmente tentando apressá-las. Esperava com a velha caminhonete carregada com o leite a ser entregue na cidade. Assim que o irmão disparava a primeira buzinada, Adauto entrava na boleia e assistia a histeria do irmão contra o descaso das duas, que algumas vezes eram surpreendidas pelo pai de Adauto, que ordenava que terminassem logo com aquilo antes que o leite talhasse. O velho sempre fazia sua vontade se valer de uma forma não rude, mas clara sobre quem mandava ali, com tons que variavam de um grito a gracejos.

Adauto era um garoto feliz. Gostava de onde vivia e não só se sentia bem com a família, como a amava de todo o coração. Também tinha amigos e com eles se divertia muito. Na adolescência, dormia na casa deles em noites de bailes na cidade, buscando os olhares das meninas e trocando confidências durante as semanas na escola. Os amigos dormiam na sua casa quando planejavam pescar antes do sol nascer, nadar na lagoa, caçar rãs ou aventurar-se na mata dos fundos da fazenda vizinha. Sempre juntos se divertindo, rindo e chorando. Sim, chorando. Adauto sabia chorar: chorava de tristeza ou de alegria; chorava também por repreensões feitas por seus amigos ou quando tinha que repreendê-los. Não aguentava encarar uma discussão com eles sem que os olhos se alagassem. Aliás, contra ninguém. Adauto não sabia brigar e as palavras ofensivas que recebia sempre lhe atravessavam o peito. Não chorava por ódio ou pela força das palavras, mas sim pela situação. Em muitos destes momentos, desligava-se das agressões e sua cabeça começava a girar, como se estivesse fora do corpo, mostrando-lhe de longe o cenário no qual se encontrava. As palavras nunca saíam e ele não as deixava sair. Pois sabia que se qualquer sílaba escapasse, não conseguiria segurar o choro; depois, o choro aumentaria e isso resultaria em um ciclo quase vicioso, completando a humilhação de um menino-homem por chorar descontroladamente diante de uma situação que deveria ser considerada normal em sua vida viril. Definitivamente, não sabia discutir, não sabia brigar e por isso era o pilar dos amigos e das pessoas que conviviam com ele. Sempre dava a cara à tapa e colocava o pescoço na guilhotina, assumindo e contornando qualquer situação que não era de sua responsabilidade para evitar brigas e desentendimentos que pudessem atrapalhar o bom andamento daquelas vidas.

Adauto era vulnerável e sabia disso. Tinha desespero de ter a atenção chamada. Sempre, sempre as lágrimas eram as primeiras a tentar externar qualquer sentimento e isso o envergonhava. Não tinha controle sobre elas: o máximo que podia fazer era manter a boca calada e sacudir a cabeça, consentindo com tudo o que lhe fosse acusado ou imposto para escapar o mais rápido possível daquela encurralada, pelo silêncio e aceitação. A qualquer murmúrio mais desavisado, as lágrimas rolariam e o soluço afogado revelaria o que nunca deveria ser mostrado, causando-lhe a mais profunda vergonha e atestando sua incompetência como homem de verdade. Sua própria fraqueza já era suficiente para fazê-lo sentir vergonha de si mesmo e desviar o pensamento, perguntando-se como venceria essa barreira.

Uma vez, quando era mais menino, estava na festa de aniversário da filha de uma amiga de sua mãe, que completava a mesma idade de sua irmã. Havia uma regra explícita naquela festa que fora dada pela avó da aniversariante: todas as crianças deveriam ficar longe das gaiolas no fundo do quintal, onde três cães estavam presos. A velha, feita uma bruxa raivosa, ficava a todo tempo vigiando as crianças que brincavam por perto. Adauto não conhecia as outras crianças, mas foi se misturando e conseguiu brincar com elas e com os brinquedos distribuídos na festa para mantê-los ocupados. Enquanto isso, as mães poderiam colocar a fofoca em dia e discutir os últimos acontecimentos das vidas das pessoas que não estavam na festa, sem ter que se lembrar de suas crias. Lá pelas tantas, uma das bolas rolou para perto das gaiolas e Adauto foi buscá-la. Quando se levantou, viu dois garotos abrindo as gaiolas e os cães puseram-se a correr, latindo delinquentemente para onde estavam os convidados. Os cães tinham certa agressividade em seus comportamentos, mas, na verdade, eram descontroladamente travessos: derrubaram algumas crianças, que começaram berreiros histéricos e estrebuchavam feito lagartixas sob ataque; subiram nas mesas dos convidados pondo abaixo tudo que estava acima - enfeites, doces, salgados; até que um deles voou por cima do bolo de aniversário e com um cálculo falho, ou perfeito, aterrissou feito um albatroz reumático sobre ele. Mais altos que os gritos das mulheres e o choro inconsolável da aniversariante, eram os berros da velha bruxa, que saíam de suas ventas bufantes enquanto ela cercava e prendia os cachorros. Adauto embranqueceu e nem respirou de tão congelado que ficou ao ver a velha, que acabara de trancar os cachorros e se dirigindo a ele, meteu-lhe o dedo em suas fuças e disse palavras que Adauto não conseguia entender pelo estado que estava. No fundo, sabia que estava sendo acusado de soltar os cães. Por respeito ou por medo, nenhuma das mulheres interrompeu a cólera da velha contra o garoto petrificado, inclusive sua mãe, que assistia tudo com espanto e embaraço, não entendendo como Adauto tinha feito aquilo. Se fosse o mais velho, entenderia; mas não Adauto. Quando a velha terminou, a festa também terminou. Todas pediram desculpas e inventaram pretextos esfarrapados para justificar a saída imediata. Adauto ia arrastado pelo braço, mudo e seco, e só quando chegou à rua, fora da visão dos demais, conseguiu dizer, aos prantos, que outros meninos haviam soltado os cães e não ele. A caminho de casa, longe da vista das pessoas, tomou alguns tapas enquanto era alvo de um sermão cujo tema principal era a vergonha passada diante de todas aquelas pessoas, sem desconsiderar o comportamento em público, as inconveniências e os desapontamentos. O longo e humilhante sermão foi concluído com a notícia de que se iniciaria uma semana de castigos para que ele pudesse pensar direito no que havia feito e para aprender a se comportar. Adauto achou que cumprir o castigo em silêncio e se comportar de forma exemplar seria melhor para todos e assim o fez, torcendo para que nunca mais fosse levado a outras festas como aquela.

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