PATOS

All Rights Reserved ©

Capítulo III

Os melhores tempos para Adauto eram os de verão, apesar das características frias da região. Eram dias longos e verdadeiramente quentes. Em dias assim, principalmente nos fins das semanas, Adauto acordava cedo e se sentava em um estreito banco rústico de meio tronco, moldado a machadas pelo seu avô e movido para um agradável lugar embaixo da copa da figueira que ficava ao lado da casa. Ali passava os primeiros minutos do dia em que a aurora pincelava o céu com misturas de azuis, laranjas e rosas. Adauto sentia no peito nu o ar resfriado e leve da madrugada sendo aquecido com o avanço do sol. Só saía dali quando a mistura de cores se tornava num azul puro e claro pelo sol esbranquiçado que lhe doía os olhos e lhe queimava a pele, ou quando sua mãe o chamava para tomar o café da manhã e aprontar-se para a escola. Adauto passava as aulas a olhar pela janela e a calcular a posição do sol desejando que subisse menos rápido do que subia. Durante o recreio, combinava com os amigos o que fariam durante a tarde – o que geralmente era nadar ou pescar na lagoa. Conversavam sob o rancho da escola enquanto comiam. Era um rancho baixo e abafado, o lugar mais quente da escola. Ficavam com as testas respingadas e com as camisas coladas às costas suadas. Após o recreio, as salas de aula, até então infernais, se tornavam agradáveis por terem as janelas abertas, o que permita a entrada de solitárias brisas secas e mornas.

Havia um professor que provocava as mais estranhas reações quando entrava na sala. Muitos tentavam esconder as risadas e os espantos diante do colarinho e sovacos molhados se sua camisa, do córrego na bunda e das goteiras no queixo, nariz e sobrancelhas, que resistiam ao lenço encharcado e encardido que as atacavam incansavelmente. Era um sujeito desengonçado, derrubava tudo o que tocava ou do que se aproximava, mas era um bom homem. Também era um homem inteligente que tinha plena ciência de seu modo de vida, suas manias, seus fracassos, seus vazios e suas diferenças perante outras pessoas e, por opção, talvez por desilusão, não se importava e mantinha tudo como lhe convinha. Limitava-se a ministrar suas aulas e não tinha envolvimentos mais afetivos com os alunos e, aparentemente, com ninguém mais. Era de outra cidade, devia ser um daqueles solitários desajustados que vez ou outra eram vistos por aí.

Em alguns daqueles fins de tardes, Adauto pegava seu cavalo e ia para um lugar que gostava de visitar, sozinho. Ficava a cerca de dois quilômetros depois do último talhão de oliveiras das terras de seu pai. Seguia pela estrada que pareava as cercas e virava ao segundo carreadouro à esquerda: um leve declive, degraus no terreno, uma saída à direita e, então, chegava à mata que contornava o rio. Enveredavam-se em alto trote na mata deitando-se e pendurando-se no lombo do tordilho para desviar-se de galhos e cipós que, vez ou outra, chicoteavam seu corpo. Os dois se divertiam naquele trecho. O cavalo procurava por galhos caídos para saltar sobre eles e puxava galopes de três pés. Antes mesmo de saírem da mata, já se podia ver formar o pequeno paraíso. A mata terminava a cerca de cinco metros da margem do lago. Era um pedaço de terra coberto por um carpete verde vivo e macio que escondia qualquer vestígio de terra e raízes. Alguns troncos simplesmente surgiam vigorosos do verde para sustentar as enormes e frondosas copas que sombreavam o chão e a água. Era um terreno ligeiramente inclinado e um pouco mais alto que a água, quase no mesmo nível ao sair da mata. Era como se a grama felpuda, repentinamente e sem critério, se desmanchasse em uma placa espelhada só não totalmente imóvel por culpa dos rebojos. No meio da lagoa, o sol era forte e denunciava os lombos de grandes peixes que cortavam a superfície da água produzindo os sons que mais agradavam Adauto. Ele soltava o cavalo para pastar e se sentava como de costume, abaixo de uma árvore, com as pernas esticadas de modo que os pés ficavam sobre a água e as costas apoiadas em um fino e liso tronco. Esticava as costas abrindo e fechando os ombros. Estalava as cervicais e desfazia-se de volta ao tronco. E ali permanecia por um longo tempo, tranquilamente imóvel, apenas olhando e sentindo.

A sua direita, a mata era cerrada à margem definindo o contorno ovalado da pequena baía. Algumas árvores atrasadas tiveram de encontrar seu lugar meio à terra meio à água. Algumas vezes, havia macacos pendurados nos galhos destas árvores bebendo da água esverdeada. Balançavam cuidadosamente até conseguirem levar as mãos às águas e as trazerem escorrendo até suas bocas, sem molhar mais que os pulsos. Nas copas, aves não muito coloridas criavam seus filhotes que eram cobertos com uma penugem rala que não era capaz de esconder a pele seca e enrugada. Somente os filhotes soavam enquanto os pais tentavam lhes calar os bicos entupindo-os com alguma refeição vitalizante.

Do outro lado, a mata não era tão próxima da água e dava lugar a um denso capão de capim-fino, onde algumas pernaltas camufladas metiam as cabeças n´água em busca de peixes. Entre suas pernas, peixes atacavam os insetos que rasavam descuidados o espelho d’água. Uns entravam no mundo dos outros em busca de comida. De tempos em tempos, antes que as ondulações desaparecessem, algum dos intrusos chacoalhava água para todos os lados, mantendo a inconstância. Mais adiante, a mata retomava seu lugar junto à água e continuava como um espelho do que se passava do outro lado. Mais à frente, a lagoa se estreitava formando um fino fio que terminava em um verde raso formado pela outra margem do grande rio, a margem que não tinha braço e era o fim de uma pastagem, onde Adauto nunca havia estado. Com a paisagem examinada e o esqueleto relaxado, Adauto punha-se a pensar em sua vida, não de uma maneira induzida pela razão, mas por sentimentos libertos diante do que vivia. Era o seu momento. Não teria interrupções e nem censuras, era dono de si.

Cerca de um ano antes da partida de Adauto, seu irmão, que nunca despertara nos demais familiares sentimentos afetuosos que não apenas aqueles indispensáveis pela sua existência, com exceção do pai do próprio Adauto, anunciava durante o jantar o fim do primeiro bimestre da gestação de seu herdeiro. O pai de Adauto teve um acesso imediato de fúria e arremessou o prato ainda cheio à parede, urrando feito um porco louco. Ninguém se atreveu a ter qualquer reação sobre a situação. Após alguns instantes, quando o pai se sentou trêmulo e vermelho, sua mãe e sua irmã, de cabeças baixas, se retiraram da mesa, enquanto Adauto, pela primeira vez, ainda sentado com o garfo a mão, assistia as lágrimas do irmão rolarem. Ele olhou para Adauto e permaneceu assim durante algum tempo, segurando o soluço enquanto sufocava as lágrimas insistentes. Foram apenas alguns instantes, mas era como se tivessem tido uma longa conversa de desabafo e seu irmão sentiu-se melhor. Percebeu que Adauto o compreendia e sua presença era como mourão em que se podia escorar sem medo. Os olhos avermelhados do pai calaram a boca do irmão que não conseguiu concluir o anúncio com a intenção de casar-se com a moça, o que poderia amenizar a “desgraça” daquela família. No dia seguinte, o pai não trocou nem mesmo olhares com o filho mais velho, e assim seguiu o resto da família. Adauto era o único que permanecia firme à vista do irmão. Adauto sabia que a situação não se prolongaria em demasia, afinal, era o filho bem quisto do pai que, por mais severo que fosse, tinha um bom coração. Seria apenas uma questão de tempo.

Três dias depois daquele jantar fracassado, Adauto viu o pai e o irmão em conversa, aparentemente difícil, que deveria ser o desfecho da história. Conversavam atrás do chiqueiro, bem próximos para manter as palavras entre eles. O pai já tinha a mão direita sobre o ombro esquerdo do filho, com o braço dobrado, falando-lhe à testa que estava inclinada para manter os olhos em direção ao chão. Os dois eram altos, quase da mesma altura. O irmão era como um reflexo do pai, diferente pela falta de rugas e pelo desmazelo nos gestos e nas vestes. Ficaram em silêncio e se olharam diretamente durante algum tempo. Deram um abraço forte e longo. O pai concluiu com algumas palavras diretas aos olhos do irmão enquanto segurava sua cabeça apontada para o seu rosto, olho no olho. Deram mais um abraço e caminharam para casa para o jantar, de braços dados, tentando manter um abraço contínuo enquanto caminhavam a passos lentos e arrastados, com expressões de alívio e tranquilidade. Era como se voltassem de uma sessão de limpeza em que foram virados aos avessos para retirar-lhes das entranhas toda impureza que pudessem carregar. Chegaram a Adauto olhando-o como se contassem o como estavam bem. Adauto gostou da cena, e sorriu quando o irmão sacudiu sua cabeça pelos cabelos e o pôs apertado debaixo do braço, levando-o, sem uma palavra, para dentro da casa.

O que Adauto não sabia era que aquele abraço não teria selado nada e que a situação não estava resolvida como parecia. Não fora naquele dia que teriam o jantar normal como antes e ficou claro que o pai tinha se entendido com o filho por vontade e conclusão própria. Ao ver os três entrando em casa daquele jeito, a mãe de Adauto compreendeu que a situação havia sido resolvida entre eles e que, ao invés da punição, vencera a absolvição. À porta da cozinha, a irmã ao lado da mãe sussurrou com sarcasmo:

- Não te disse!

O rosto da mãe ruborizou, as pálpebras vacilaram, os dentes se apertaram e as mãos se limparam no pano como se quisessem arrancar a carne que as encapava.

- Querida, teremos um jantar especial, capriche no pasto! Vou buscar uma de minhas garrafas de vinho, vamos comemorar - disse o marido.

A mulher com a voz áspera e sem censura perguntou:

- E o que poderíamos comemorar?

- Nosso filho já é um homem e nos dará um neto. Filho, amanhã falará com os pais da moça e no fim de semana comemoremos, as duas famílias.

O pai de Adauto não havia saído da sala quando sua esposa o interrompeu em voz alta:

- Então quer dizer que vocês se acertaram? Você decidiu o que seria melhor para nosso filho sem me consultar? Logo você, que é tão correto e impõe suas regras duras, que nos pune de nossos desejos para satisfazer os seus, vem agora passar por cima de tudo isso e aprovar a união deste moleque com “aquelazinha”?

O marido tentou impedi-la, mas ela continuou:

- Você já pensou o que dirão da sua moral e da moral da nossa família? Temos uma tradição a zelar, uma linhagem inteira a ser defendida! Esse moleque estúpido faz uma burrada com uma rapariga qualquer, filha de uma empregada doméstica, e provavelmente nem ler sabe e você vai lhe dar um lugar nesta casa? Terei eu de conviver com tal tipo de gente? Terei que limpar a sujeira desta criança fruto de uma aventura irresponsável? Deveria saber que acolheria a burrada deste seu filho inconsequente. Saiba desde já que não aprovo e me isento de qualquer participação deste devaneio.

O irmão de Adauto saiu marchando pela porta da frente e não ouviu as últimas frases. O pai foi tomado por tamanha ira e vergonha que teve medo de qualquer atitude mal pensada que pudesse tomar. Adauto, ao ver o pai, previu o pior. De onde havia sido interrompido, o pai de Adauto fechou a mão esquerda com força e estrangulou os dedos contra a coxa; com os dentes cerrados à vista, disse:

– Sempre pensei em manter nossa família aqui para evitar este tipo de pensamento típico do povo da cidade. Você não lembra o que você passou? Não se lembra de como sua mãe vivia a vida nas idas e vindas que seu pai tinha que fazer para garantir o sustento da nossa gente? Não se lembra da decadência em que seu pai terminou após consumir toda sua fama e acabar com o que lhe restava de dignidade? Não se lembra a quem eles recorreram e na casa de quem terminaram? Que sangue você pensa que corre nas suas veias? Não consigo acreditar que pensa isso desta moça que nem ao menos conhece. E, sim, vai ter conviver com essa moça aqui em nossa casa, limpar a sujeira do filho dela que será o seu neto, lavará as fraldas dele como fez com as de nossos filhos. Eles viverão aqui nesta casa enquanto nosso filho quiser e não tiver para onde ir. Saiba que não tomará uns tapas na fuça, apesar de muitos merecerem, pois estou suficientemente irado a ponto de perder meu controle e não conseguir parar de lhe punir. Preste bem a atenção, eles morarão e viverão felizes aqui, e se eu perceber que algo de errado está acontecendo ou que você está a prejudicá-los, quem sairá daqui será você.

Enquanto a mãe engolia inconformada as palavras e o medo que teve do marido – conhecia bem o peso daquelas mãos – a filha se manifestou:

- Não lhe falei que seria assim, o outro é o preferido dele!

O pai de Adauto, que já ia saindo, voltou-se e disse aos berros:

- Cala sua boca, infeliz! Você é como sua mãe e só serve de estopim para todas estas situações. Cala esta boca maldita ou lhe quebro ao meio!

A mãe abraçou-a e a arrastou para dentro da cozinha batendo a porta. As duas aos prantos ainda ouviram do homem:

- Sumam da minha vista, você e sua cria!

Levou as mãos ao rosto e nele as manteve até regular a respiração e parar de ofegar. Olhou para Adauto com uma expressão que ele nunca vira: desgosto e vergonha. Saiu em busca do outro filho. Adauto sentou-se na varanda e ficou lá até a hora de dormir. Nunca mais tocaram no assunto, mas as opiniões apenas se disfarçaram, nunca mudaram.

A família da moça não teve uma reação tão diferente da de Adauto, mas a conformação veio mais rápida por entenderem logo de início que o casamento aconteceria. Perceberam que o irmão de Adauto estava completamente disposto a assumir seu papel de chefe de família para com a filha e, principalmente, entenderam a empolgação que havia em seu rosto. Foi difícil para o irmão de Adauto dar a notícia aos futuros sogros, contudo, foi melhor recebido. O pai da moça também se revoltou e se envergonhou, mas ela era sua única filha e preferiu aceitar o companheirismo do futuro genro. O irmão de Adauto não escapou sem um bom sermão e um acordo verbal muito bem passado pelo futuro sogro sobre o que esperava dele e o que lhe aconteceria se faltasse com o respeito à filha. Ao mesmo tempo, mostrou-se disposto a ajudar conforme pudesse e, inclusive, ofereceu um quarto de sua pequena e simples casa.

A comemoração aconteceu na casa da família de Adauto e a família da moça compareceu. O pai de Adauto passou a maior parte do tempo conversando com o pai da moça, a fim de evitar quaisquer desentendimentos e estabelecer uma relação entre as famílias para amenizar toda a situação. Explicou também que daria todo seu apoio aos dois e ao neto, que poderiam viver na fazenda com ele e que eles, os sogros do filho, seriam muito bem-vindos sempre que quisessem visitar a filha e o neto na fazenda. Citar e constatar o neto fazia com que ambos rissem discretamente, pois, para os dois, era uma grande notícia, apesar dos pesares. Seriam avós e estavam radiantes, por mais que não quisessem demonstrar; mas ao fim daquele dia, estavam rindo e imaginando como seria um pequeno correndo entre eles. Tudo saíra bem, tudo estava encaminhado.

Depois daquele dia, foram poucas as palavras que seu irmão trocou com a mãe, apenas alguns “tudo bem”, “pode ser”, e raros “bom-dia” e “boa-noite”. Ela não se dedicou como o pai queria e mantinha-se, junto à filha, longe dos dois e vez ou outra apareciam apenas para manter as aparências. Na primavera, o pai de Adauto começou a construir uma casa para o casal dentro da propriedade da família, mesmo contra a vontade do filho, que queria sair e começar sua vida fora dali. Sabia que a mulher continuaria com sua decisão e atitude, mas ele não queria perder a família. Preferiu manter todos juntos, ao menos na propriedade, e separados por suas diferenças. Naquele tempo, a mãe de Adauto evitou ao máximo comparecer e oferecer as rotineiras festas de confraternização com as amigas.

Um ano depois, a casa havia ficado pronta e o garoto nascido. Foram tempos difíceis e não melhoraram tanto quanto o pai de Adauto e ele próprio queriam. Foram poucas as visitas, contra a vontade, que a mãe e a irmã fizeram ao garoto, que nunca foi tratado verdadeiramente como neto e, talvez, nunca o seria. Em contrapartida, o pai de Adauto era doente pelo neto. Adorava-o tanto quanto adorava o filho mais velho e era sempre gentil e educado com a nora. Nunca demonstrou, diante dela, qualquer sinal de ódio ou decepção que pudesse ter por qualquer que fosse o motivo. Lidava com ela de modo a abrandar quaisquer inconvenientes que pudesse sofrer por causa da mulher. Almoçava frequentemente na casa deles, por convite da nora, e todos os dias tomava seu café com eles, e o neto no colo. A cunhada de Adauto sabia de toda a história e por isso preferia permanecer distante da casa.

Este episódio vivido pela família e tantos outros de diferentes proporções e motivações, alimentavam em Adauto um sentimento que sempre tivera em seu coração, embora achasse que era coisa da idade. Era um sentimento que o tomava por inteiro; uma angústia que o corroía e o frustrava. Um sentimento confuso que ansiava por liberdade e por vazio, pela busca e pelo cárcere, por descobertas e contradições que chegavam a tonteá-lo. Essa mistura perigosa de sentimentos levava seus pensamentos para longe, em desenfreado devaneio. Era um turbilhão de emoções e necessidades; era como se sussurrassem coisas em sua mente, coisas que não conseguia entender, compreender sequer ver. Entrava numa espécie de transe e quando voltava a si sentia apenas angústia. Sentia que devia sair dali, apesar de saber que aquele era seu lugar, mas tinha que sair dali. Para onde não sabia, talvez até soubesse, pois era imediatamente surpreendido pelas histórias incríveis que ouvia da cidade grande, principalmente do filho do médico, amigo de seu pai, que estudara em uma grande cidade não muito longe para seguir o labor do pai. Ele contava sobre as maravilhas, as facilidades e as diversões daquele lugar. Descrevia as históricas com tanto rigor e emoção que pareciam acontecer exatamente naqueles momentos. No início, Adauto era apenas um espectador empolgado como os outros, mas ultimamente, aquelas histórias e outras que fantasiava vinham constantemente após seu transe. Tinha que sair dali e isso era uma ordem.

Adauto tinha uma visão prática da vida. Para ele, viver era, foi e deveria continuar a ser fácil; a complicação vinha do modo como as outras pessoas viviam e encaravam certos fatos. Costumava pensar que a vida é complicada por aquele que não a vive, mas apenas passa por ela. Ele sempre achava maneiras simples de lidar com fatos que os outros julgavam complicados. Vivia sua vida do jeito que queria, ou pelo menos como podia querer, considerando as barreiras de sua idade e da sua situação. Entre os amigos, era o pacificador, o companheiro de todos; na família, era neutro; entre as meninas, não era nenhum grande conquistador, mas tinha suas qualidades; no social, era educado e cativante; na vida, era autêntico. Vivia a vida nos detalhes, mas com simplicidade. Era feliz por viver, era feliz por ter tudo o que tinha por levar a vida como levava, mas de repente a invernada ficara pequena e, então, teria que varar a porteira.

A porteira! Era a partir dela que os sonhos da nova vida começariam. A felicidade e a liberdade de Adauto teriam de ser buscadas dali para fora – isso estava cada vez mais verdadeiro dentro dele – e, assim como tudo em uma vida, havia um preço a ser pago. Um preço que de barato não tem nem o nome e que não pode ser pago à vista, mas em parcelas vitalícias que Adauto não sabia se conseguiria assumir. Teria de cuspir no prato em que comeu, abrir mão da presença de tudo e de todos em sua vida pelas incertezas de uma vida sonhada e não planejada, por um lugar idealizado e não materializado, por situações ouvidas e não comprovadas. Contudo, a pior parte talvez fosse enfrentar a família. Não seria apenas uma expressa comunicação, ainda mais para quem vivia sob uma constante e rígida vigilância dos atos e pensamentos. Como convenceria o pai de que tudo o que ele defendia, todas as suas teorias, toda a sua conservação quanto à vida fora dali deveriam ser deixadas de lado, pois seu filho iria contra todas elas? Como diria ao velho que o filho mais obediente e estudioso seria aquele que lhe daria o maior dos tombos, aquele que abriria mão de sua proteção para algo absurdamente inconsequente, aquele que o faria se perguntar, pelo resto da vida talvez, onde havia errado, aquele que lhe apunhalaria com o pior dos desgostos?

Não era nada disso. Adauto não queria isso; queria ir e vir, queria cuidar do que era seu por natureza. Abriria mão de viver com todos, mas não de tê-los todos, não de amá-los, embora soubesse que não seria entendido dessa forma. Os irmãos teriam suas opiniões, mas somente o irmão, de coração e também por retribuição, não tomaria partido na história. Com a mãe seria mais fácil. Ela sempre deixou claro que Adauto seria o filho estudioso e que se tornaria um homem de respeito, um médico, um advogado, um juiz quem sabe, um homem de grande importância social e talvez histórica, como seu pai – pelo menos a parte boa. Poderia desfilar orgulhosa como um pavão débil pela cidade e pelas línguas imundas de suas amigas, esnobando o sangue do qual fazia parte, mostrando a nobreza e classe da família através do brilho do filho doutor, com o qual ofuscaria a existência e os fantasmas do filho errante. Era claro que a irmã ficaria do lado da mãe e se aproveitaria de toda a situação, principalmente para encontrar um marido digno de suas necessidades supérfluas. E, pela primeira vez, essas expectativas teriam um lado positivo para Adauto, pois eram as armas que usaria para deixar as duas do seu lado, tanto para a sua partida - convencendo e consolando o pai - como durante o tempo em que estivesse fora. Porém, Adauto não podia deixar de contar com o tão provável fato de perder o pai e, quem sabe, a família toda e nunca mais retornar ao lugar onde havia crescido. Este seria o preço da primeira parcela. Não era uma decisão fácil de ser tomada e menos ainda de ser executada. A cada dia, ela era mais cobrada de si e com isso seu sofrimento aumentava. Não escolheria entre partir ou ficar, escolheria entre seguir seu coração e correr o risco de ser feliz, mesmo que perdesse todos aqueles que amava e passasse o resto da mesma vida imaginando como teria sido.

O sol já havia se baixado, uma brisa fresca começara a soprar e, no céu, apenas uma faixa alaranjada fracassava contra a boca da noite. O tordilho já estava farto da comida. Adauto enxugou o rosto e voltaram para casa, teria bastante a ouvir pelo atraso para o jantar.

Continue Reading Next Chapter

About Us

Inkitt is the world’s first reader-powered publisher, providing a platform to discover hidden talents and turn them into globally successful authors. Write captivating stories, read enchanting novels, and we’ll publish the books our readers love most on our sister app, GALATEA and other formats.