PATOS

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Capítulo IV

Cerca de quatro meses depois, o pai de Adauto fazia sua ronda matinal pelas terras no lombo de sua égua. Só percebeu que bateu a bota em um enxame quando a égua deu o primeiro galão e tapou de pulos descontrolados e urros histéricos. O homem não tinha mais a agilidade de antes e no terceiro solavanco do animal, não encontrou a sela abaixo de si. Como um traidor, o estribo esquerdo agarrou o seu pé e o levou ao chão, onde bateu forte feito um galho podre. A égua ainda deu mais dois pulos antes de disparar em galope, coiceando o ar. O pai de Adauto, enroscado como um saco de lenha, inconsciente, era pisoteado e arremessado para as pernas do animal, que se assustava ainda mais, até que o estribo deu trégua e estourou. Os dois se separaram. A égua avançou assustada mais alguns passos e logo parou ao se ver livre. Meia hora depois, a égua foi encontrada exausta por um dos empregados, próxima ao córrego do fundo e no canto da estrada, amontoado em si, o pai de Adauto.

A estadia no hospital foi longa e dolorosa. O pai de Adauto tinha hematomas e queimaduras por todo o corpo, causadas pelo atrito com a terra. A parte de trás da cabeça, escalpada; costelas quebradas, nariz quebrado, ombro deslocado, dentes e ossos da face quebrados e uma grave fratura na coluna vertebral que lhe roubara os movimentos da cintura para baixo, condenando-o um bom tempo à cadeira de rodas e à caridade das pessoas, mas lhe garantindo sequelas perpétuas em seu caminhar. A égua não sofreu nada mais do que algumas esfoliações nas canelas traseiras e o susto que durou alguns dias. Mantiveram-na sob observação e cuidados dedicados por duas semanas.

Os meses seguintes foram difíceis tanto para o pai quanto para a família de Adauto. O homem não tinha vontade de nada, não queria receber visitas, não queria os filhos por muito perto e se negava a falar sobre as terras, as quais não tinha mais visto desde que tivera alta. Negava-se inclusive a ficar na varanda. Tudo estava por conta do filho mais velho. A inutilidade e a dependência causavam vergonha e amargaram a vida do pai de Adauto. Fora possuído por uma constante instabilidade emocional. Em certos dias, era quieto e tudo aceitava sem expressão e contestação; em outros, reclamava e se irritava com tudo e com todos. Eram comportamentos e sentimentos naturais de um homem que passou uma vida toda na lida com trabalhos pesados, sob sol e chuva, frio e calor. Lutou bravamente para manter a dignidade e a união da família e agora não conseguia nem ir ao banheiro sozinho – algumas vezes, tinha de pedir à mulher, em murmúrios, que lhe trocasse suas vestes imundas de seus dejetos. Contudo, sua situação e seu sofrimento não se limitavam a ele e a família não suportava mais a vida e a situação em que viviam. A mulher e a filha cuidavam do trato e dos serviços mais sujos e a situação delas piorara quando o filho mais velho insistiu intransigentemente que sua esposa as ajudasse a cuidar do pai. Além dos difíceis tratos para com o seu marido, a mãe de Adauto tinha de suportar encontros constantes com sua a nora, enroscando-se pelos corredores e batentes da casa e, ainda por cima, tentava manter as aparências e a gratidão aos serviços da moça. Entretanto, a presença da esposa do irmão de Adauto animou o pai. Não era nenhuma melhora considerável, mas notava-se certo ânimo que antes não existia e se manifestava principalmente com sorrisos à presença da moça. O irmão de Adauto, desconfiado da situação, conversou com Adauto e decidiram que deveriam contratar uma enfermeira para ajudar com o pai. Tinham livres os quartos dos avós e poderiam abrigá-la. Assim o fizeram, a cunhada de Adauto voltou para a casa e o pai teve de encarar a pior parte daquela situação: entregar seu corpo nu aos banhos desengonçados da velha enfermeira gorda, permitindo que aquelas mãos fortes o libertasse das próprias escórias pastadas em sua pele assada. Após a chegada da enfermeira, o pai de Adauto piorou. Qualquer sinal de ânimo desaparecera e sinais depressivos tomaram seu lugar; concordava com tudo, falava menos que o necessário e com os olhos estavam sempre vermelhos. Mas os irmãos acreditaram na solução e insistiram com a enfermeira. Em questão de duas semanas, o pai de Adauto começou a melhorar e, então sim, consideravelmente. A enfermeira era uma senhora de aparência e gestos assustadores, mas conseguia dispersar um clima de otimismo pela casa. O tempo todo caçoava do pai de Adauto comparando-o a uma criança mimada que se recusa a passar diante dos desafios naturais da formação. No começo o homem se revoltava e resmungava, mas eram nesses momentos que intervinham os braços fortes da enfermeira, que o obrigavam a fazer o que tinha que ser feito. Momentos que eram sempre seguidos de uma gostosa gargalhada que ela soltava com muito prazer e que não soava como gozação; pelo contrário, despertava graça em todos que participavam. E foi assim, entre brincadeiras e empurrões, que os dois tornaram-se cada vez mais próximos. E essa proximidade fazia bem ao pai de Adauto, que começou a demonstrar uma melhora rápida e consistente, inclusive, fazendo-o abrir o coração à enfermeira durante as longas conversas que tinham enquanto ela fazia o trabalho – sempre bem humorada e atenciosa. A relação chegou a tal ponto que o pai de Adauto não mais permitia que alguém cuidasse dele que não fosse a enfermeira.

Nesse meio tempo, o coração do pai de Adauto começou a amaciar-se e ele aceitava melhor sua situação. Tivera tempo o suficiente para refletir sobre sua vida e seu destino. Teria de se recompor às suas medidas e retomar o rumo das coisas e principalmente da família. Tinha mais disposição e punha-se aos fins de tarde na varanda em entrevista ao filho mais velho sobre os acontecimentos e providências da produção e, mesmo orgulhoso dos resultados do rapaz, metia-lhe uns berros e uns puxões de orelhas para mantê-lo atento.

Restava pouco mais da metade do ano letivo para Adauto concluir seus estudos e este era o momento em que teria de tomar aquela decisão, mas a decisão a ser tomada se tornara outra: decidiria em decidir ou em não mais decidir. E decidiu não mais decidir. Ficaria e não desgraçaria mais o pai. Ajudaria o irmão, seguiria seus passos e tomaria seu lugar quando ele tomasse o lugar do pai e ponto final. Acordou com o irmão que o ajudaria na parte de tarde, após o almoço e no ano seguinte, com os estudos concluídos ou não, trabalharia todos os dias. Combinaram com a família e com a enfermeira e os outros empregados que o pai não deveria saber, pelo menos por um tempo.

Em uma noite quente, após o jantar, Adauto saiu à varanda para sentir as brisas frescas que premeditavam chuvas e encontrou o pai em sua cadeira se refrescando. Adauto apoiou-se nos cotovelos sobre o parapeito e o olhou rapidamente. Seu pai estava acomodado prazerosamente. Sua barba estava mais esbranquiçada que antes, as entradas nos cabelos estavam maiores, as mãos repousavam sobre as coxas inúteis, a testa franzida e as rugas espremidas compunham uma expressão pensativa com olhos fixos no nada. O homem deu um profundo suspiro e Adauto virou-se para frente. Ficaram em silêncio por alguns minutos ouvindo os galhos e folhas da figueira que dançavam com a brisa que se transformava em vento. Como de costume em muitos lugares, para não dizer em muitas pessoas, Adauto quebrou o silêncio com previsões climáticas:

- Vem aí uma chuva das boas.

O pai de Adauto deu um leve sorriso para si mesmo, de quem compreendia a falta de assunto do filho, e respondeu no mesmo tom:

- É... Essa será das boas!

Permaneceram alguns instantes em silêncio até que o pai, com um suspiro acolhedor e voz macia e firme, disse sem olhar para o filho:

- Quando você vai me contar sobre seu trabalho?

A barriga de Adauto congelou e parecia ter se livrado de todo seu recheio. Trêmulo, endireitou-se e perguntou gaguejando:

- Trabalho?

Ainda na mesma posição e com a mesma expressão, seu pai disse:

- Não minta para mim. Sou um aleijado, não um tolo. Sei que tem ajudado seu irmão e isso há quase dois meses.

Encurralado, Adauto não resistiu:

- Está certo, pai! Mas juro que ia contar ao senhor. Só estava esperando o momento certo.

- E quando seria este momento? Quando eu me levantasse desta cadeira? Sabe que isso não acontecerá.

- Não sei quando, pai, estava ainda procurando o melhor momento. Mas pelo jeito já fizeram isso por mim, contando ao senhor.

- Você não foi traído por ninguém além de suas mãos e seus olhos. Você tinha mãos finas, mãos de doutor como diz sua mãe. E seus olhos perderam o brilho.

Adauto achou graça. Sentou-se no parapeito em frente ao pai, com as pernas dobradas e os braços caídos por cima das coxas, ombros encolhidos e cabeça baixa.

- Por que está fazendo isso?

- Para ajudar meu irmão a cuidar das nossas terras, oras! – Adauto disse essa frase em tom trêmulo pelo alto teor de falsidade aplicada.

O pai parou por alguns segundos para reorganizar os pensamentos e palavras, e também para permitir que Adauto se recompusesse, pois não pretendia pressioná-lo em demasia. Então continuou:

- Mas a elas você não pertence.

- O que o senhor quer dizer com isso?

- Você não nasceu para este tipo de coisa.

- Como não? Trabalho bem, entendo como as coisas funcionam, não tenho a força do meu irmão, mas isso logo vem.

- Isso é porque você foi criado no meio destas coisas e não porque tem isso no sangue.

- Hora ou outra teria que ajudar meu irmão.

- Seu irmão sabe se virar sozinho e tem empregados para ajudá-lo. Ele sim tem isso nas veias e fui eu quem colocou.

- O senhor está recusando meu trabalho? Coloque isso em mim também!

- Recusando não, proibindo.

Mas o inevitável aconteceu: os olhos de Adauto se encheram e o pai disse:

- Não chore. Neste mundo não há lugar para homens que choram, deixe isso para as mulheres, pois disso elas entendem bem.

Agora Adauto tinha mais dificuldade em falar, a próxima sílaba poderia desencadear o choro, mas aguentou firme, limpou os olhos e continuou:

- Mas por que me proíbe, pai?

- Para o seu bem.

- Como assim?

- Você não tem que trabalhar nestas terras.

- Não quero ficar de papo para o ar vendo meu irmão trabalhar feito um cavalo para que possamos comer do bom de do melhor.

- Isso também não quero.

- E o que é então?

- Você bem o sabe.

- Não, não o sei.

- Quando você nasceu, a primeira coisa que sua mãe me disse quando entrei no quarto foi “este vai estudar e será doutor!”. Entendi naquele momento que sua mãe já tinha traçado seu destino e não achei isso justo, mas concordei com ela para evitar complicações. Decidi que descobriria para o que você fora feito. Percebi que, ao contrário de seu irmão, você ia muito bem com os estudos, como se dedica a eles. Você aproveita os melhores momentos e lugares daqui, é como se você fosse um turista descobrindo as novidades num mundo que você conhece de cor e salteado. Um homem tem um brilho nos olhos e uma gana quando faz aquilo para o quê foi feito. Assim como eu, seu irmão sempre teve isso aqui, mas você não. A primeira vez que vi isso em você foi quando você voltou do seu primeiro dia de aula. Depois, via quando você estudava, quando você lia seus livros e quando você ajudava sua irmã com os estudos dela. O inverso é verdadeiro. A decepção que eu e seu irmão temos ao perder um animal, ou ver um talhão sendo engolido por alguma praga é a equivalente à que você tem ao receber uma nota baixa, ao não compreender plenamente algum assunto ou matéria. Enquanto não nos preocupamos tanto com suas notas baixas, você não se preocupa tanto com estes acontecimentos lamentáveis e inevitáveis que temos por aqui. E não acho que isso seja algo ruim ou descaso da sua parte, sei muito bem como se importa com todos aqui. Mas é por isso que digo que você não nasceu para ficar aqui.

- Mas pai, tudo isso é só uma questão de tempo!

- Tempo para quê?

- Para que eu passe a sentir estas coisas que o senhor disse.

- Você quer dizer para se acostumar e isso é pior coisa que pode acontecer a um homem. É sua sentença de morte. É o que leva um homem para a desgraça. Nada mais funciona: seu coração bate o suficiente para mantê-lo vivo apenas, seus olhos não brilham nem com o nascer de um sol quente de verão, sua cabeça está sempre baixa, seu corpo se arrasta podre por cima desta terra apenas aguardando a hora do último trem da sua vida, e isso não quero para você.

Adauto sentiu arder o estômago e teve em sua cabeça todos aqueles pensamentos que o atormentavam. Ficou confuso, pensou em dizer ao pai o seu verdadeiro sonho, mas teve medo, não sabia se realmente ainda queria. Seu pai continuou:

- Sei que tem algo dentro de você que diz o que tem de ser feito. Sei também que isso lhe incomoda muito e deve ser isso que fazia você ir àquela lagoa do rio; deve ser isso que fazia você evitar me encarar e deve ser a desistência disso que faz com que você não tenha mais os brilhos nos olhos. Você não me encarar quando tinha esta vontade no coração me diz que é algo que não aprovo, algo que me parece óbvio agora.

O pai de Adauto aguardou que ele falasse, mas isso não aconteceu, então prosseguiu:

- Vi várias vezes você sendo a melhor plateia das histórias contadas pelo filho do nosso médico. Você incorporava as histórias e nada desprendia sua atenção, parecia que você vivia aqueles momentos como se o protagonista fosse você. Por isso, diminui nossas visitas e tentei evitar aqueles discursos, que ainda acho que de verdadeiro nada tinham, mas vejo que não adiantou. Aqui, condenado à inutilidade nesta cadeira, tenho tempo suficiente para ver e rever os fatos, as decisões, os valores, enfim, as coisas da vida. E vejo e entendo que você não pertence a este lugar e daqui pretende sair, que quer ir para a cidade e se aventurar naquele tipo imundo e desprezível de vida, não estou certo?

- Em partes.

- E quais são?

- Realmente quis sair daqui, mas não quero mais.

- Então, olhe nos meus olhos, na minha cara e, com o todo o respeito que um filho deve ter por seu pai, me diga que não quer mais.

Adauto engoliu seco, enxugou os olhos que começavam a banhar-se novamente e desviou o olhar.

- Nos meus olhos, filho!

- Quero pai, mas sou mais útil aqui. Sei que não me perdoaria se o fizesse e que, talvez, não me aceitaria como antes, me trataria como mais um da cidade os quais tanto despreza. Tenho medo de perder meu lugar nesta casa, nesta família e nos seus corações. Não poderia lhe trazer mais problemas do que já tem. Então desisti e resolvi ficar. Está decidido. – explanou Adauto, novamente com a voz trêmula.

- O único coração com que deveria se preocupar é o meu. Sabe que sua saída daqui para se tornar um doutor em muito agradaria sua mãe e creio que é por isso que ultimamente ela anda chateada e irritada, pois vê o destino de seu irmão em você e os desejos dela contrariados. Apesar de seus anseios, ela lhe entende muito bem e também vê que algo o incomoda. Quero que saiba que vai sair daqui sim, para ir atrás do que quer, mas não posso dizer que aprovo. Sabe o que penso sobre a cidade e como desaprovo os modos de vida e, naturalmente, nunca quis isso para nenhum filho meu, mas não posso aceitar e colaborar com sua desistência e a ruína de sua vida. Quero que parta, quero que vá e lembre-se de quais são seus valores e de onde eles vêm, lembre-se de como foi criado e tente ao máximo não se submeter a tipos de vida diferentes do seu e muito menos a ninguém. Se algum problema acontecer, alguma dificuldade tiver e você se vir encurralado, volte imediatamente para cá, está me ouvindo? Imediatamente de volta para casa! Prometa-me!

- Mas pai...

- Prometa!

- Prometo.

- Eu lhe enviarei dinheiro; não será muito, mas será o que poderei te dar, e nunca, nunca, esqueça-se da sua mãe e da sua irmã, está me entendendo? Lembre-se de que elas devem também desfrutar de suas conquistas e de sua companhia.

- Esta bem, mas há mais uma coisa... – e foi novamente interrompido.

- Há uma pensão na cidade que é de um conhecido meu e que me deve uns favores. Falarei com ele e poderá se alojar lá até que arrume outro lugar.

- Pai!

- Poderá partir no fim do ano, assim que completar os estudos, é claro. Passará o natal e o ano novo com sua mãe e depois poderá partir. Pedirei ao seu irmão que o leve. Pronto, é isto!

Com o pai satisfeito, Adauto atreveu-se:

- Pelo que vejo, mais uma vez minha vida está decidida, mas não por mim.

- Ingrato! O que pensa que está fazendo?

- Tentando decidir a minha vida, pelo menos um pouco.

O pai de Adauto suspirou e tentou se acalmar.

- Está bem, então me diga o que está errado.

- A cidade.

- Como assim?

- A cidade para onde eu iria.

- Mas o que tem a cidade?

- Não penso em ir para esta cidade aqui do lado.

- Não me diga que as conversas do filho do médico lhe influenciaram mais do que eu pensei?

- Não digo, pois não sei se foram as conversas... Mas creio que sabe que eu quero ir para a capital!

- Para a capital?

O pai questionou com voz alta e espantada. Desmontou o que ainda tinha sob controle no corpo e permaneceu olhando para o chão tentando se reencontrar.

Adauto tentou convencer o pai explicando que na cidade vizinha não havia como se formar, já que queria estudar para se tornar um advogado. Não seria um doutor de pessoas, mas um doutor da lei, pois era uma profissão muito procurada e conseguiria trabalho fácil. Poderia mandar bastante dinheiro para ele, e, como advogado, precisaria da capital onde haveria mais oportunidade do que na cidade ao lado. Tentou explicar tantas outras coisas, muitas tolas, que vinham em sua cabeça, mas desistiu ao ver que o pai não lhe dava mais ouvido.

Após sua última pergunta, com a coluna ereta, o homem pressionava os dentes uns nos outros fazendo ruídos que arrepiavam Adauto. Os olhos avermelharam-se, a testa parecia uma quadra arada, as mãos apertavam descontroladamente o apoio da cadeira, a respiração era ofegante e às vezes parecia vacilar; os lábios se esfregavam em tentativas de aparar palavras que não saíam. Adauto achou que o pai iria sofrer um ataque ou produzir um, então, Adauto abaixou a cabeça como quem aceita seu pecado e se oferece a misericórdia do carrasco.

Não houve carrasco. O pai de Adauto apenas desmontou na cadeira como se tivesse levado um tiro. Agora estava pálido e com as mãos bobas sobre o rosto. Estava levemente trêmulo. Adauto sentia-se culpado. Quis abraçar o pai e pedir-lhe desculpas, dizendo que não faria aquilo e que era melhor que ficasse com a família. Diria que seria melhor para todo mundo, já que este desejo era coisa de moleque e que passaria logo; que não deveria ser levado a sério, que era uma bobagem muito grande e que ele agradecia ao pai por ter ensinado o que era melhor, mas temia não conseguir controlar seu choro e então ficou imóvel. Seu pai tirou as mãos do rosto e deu um forte suspiro olhando para cima. Após instantes, a cor e a respiração voltavam ao normal, mas a expressão ainda era de um desapontamento profundo que Adauto nunca vira, mas imaginara que viria um dia. Um pouco mais recuperado, o pai virou para ele. Olhou-o bem nos olhos. Mediu-o. Pegou em sua mão e com extrema tristeza e desolação em sua voz, disse-lhe:

- Está bem. Vá para a capital. Saiba que não será fácil e lembre-se de sua promessa. Estarei aqui, sempre! A um passo de você!

Adauto o abraçou. Sentiu o peito forte do pai contra o seu e as mãos trêmulas em suas costas. Não se lembrava de nenhum outro momento tão próximo com seu pai em toda sua vida, nem de um abraço tão acolhedor e sincero. Ficaram um bom tempo assim até se olharem de frente, quando o pai finalizou a conversa dizendo que falariam com o resto da família e que tomariam as devidas providências, mas sem pressa.

A família foi comunicada pelo próprio pai de Adauto. Foi no almoço de domingo quando estavam todos reunidos, inclusive a nora e o neto. As reações foram conforme previstas. O irmão de Adauto não se manifestou, talvez seu pai tivesse conversado com ele ou simplesmente, como o pai, ele já havia percebido o fato. A nora se espantou, apenas manteve um sorriso tímido por gostar da ideia. A irmã ficou com clara expressão de interrogação e não entendeu muito bem. A mãe se levantou e abraçou seu filho delicada e carinhosamente – adjetivos aos quais fazia jus com grande competência. Chegou a chorar em seu ombro lamentando sua ausência, questionando como seria sua vida sem o filho, como seria a vida do filho sozinho naquele inferno da capital e se consolou declarando os passos que por ele deveriam ser seguidos – que estavam definidos antes mesmo da sua gestação. Imaginou as reações das amigas quando vissem o filho doutor desfilando pelas ruas da cidade vizinha e também viu em sua mente os rostos das filhas das amigas que seriam noras dignas dela. Viu outro tanto de sonhos se realizando. Desejou muita sorte e proteções divinas ao filho, disse que torceria e rezaria muito por ele e que dele se orgulhava muito. Ao concluir estas palavras, abraçou-o novamente e, por cima do ombro de Adauto, mediu com desprezo, sem ser percebida, o outro filho e a nora.

As providências foram tomadas, mas não eram muitas. Reuniram-se com o filho do médico que indicou um lugar onde Adauto poderia se hospedar no início. Era o mesmo lugar em que tinha ficado. Deu-lhe dicas, conselhos e advertências. Explicou-lhe procedimentos administrativos e financeiros, métodos de abordagem dos cidadãos e seus jeitos de serem, também inclui localizações e informações sobre lazeres, endereços e referências de amigos; enfim, tudo e muito mais do que Adauto poderia necessitar no seu começo, mas que confortaram o coração do pai.

Adauto concluiu os estudos. Junto da família, teve um natal e um ano novo como nunca tivera antes. Seu pai fez questão de esbanjar fartura e colocar à mesa as melhores das ceias de que a família já tinha se servido. Tudo foi tão bem arranjado que houve momentos em que Adauto viu sua mãe demonstrar uma ponta de carinho para com a nora. Foram grandes despedidas.

Quando o grande dia chegou, a família se enfileirou na varanda à espera de Adauto. O irmão o levaria à estação e todos se despediriam ali mesmo. Adauto apareceu usando as melhores roupas que tinha: um boné de seu avô que ganhara de sua avó, uma pequena mala de roupas e uma bolsa a tiracolo cheia de quitutes para a viagem. A irmã lhe beijou o rosto e o sufocou com um abraço apertado. A cunhada lhe desejou tudo quanto foi bondade e proteção que se desejam nestes momentos e Adauto pode ver o medo em seus olhos. O irmão lhe deu o lampião que usavam para pescar à noite. Só que não se tratava de um lampião apenas: era o lampião do irmão, o que eles usavam para pescar, o qual Adauto tanto admirava pela luminosidade trêmula e pacificante que produzia. Esse era um dos primeiros itens que Adauto conferia na tralha dos dois antes de partirem para a pesca. A tonalidade e a vibração da chama do lampião provocavam uma suave sensação de paz que era consumida por Adauto quando o tinha ao seu lado. Sentia como se aquele presente sempre tivera sido seu e poderia bem representar o conhecimento do irmão pelos seus desejos, vontades e prioridades.

O pai lhe fez recomendações intermináveis e lhe deu um forte abraço, desejando muita sorte e lhe lembrando, em sussurros, da promessa que fizera. A mãe o abraçou, beijou-o histericamente, alisou sua roupa e novamente demonstrou seu orgulho, abençoando-o com a voz embargada.

O irmão o levou à estação de caminhoneta. Na entrada da estação, deixou Adauto. Disse, com os olhos vermelhos, que teria de deixá-lo ali, pois tinha um compromisso na cidade. Adauto entendeu que não havia um compromisso tão exigente e que na verdade o irmão não aguentaria a despedida. Concordou com um movimento da cabeça. Seu irmão apertou-lhe a mão e depois o abraçou. Desejou sorte, pediu que tivesse cuidado e que se precisasse de algo era só chamá-lo que estaria pronto para o que precisasse. Adauto sabia que seu irmão nunca pisaria na capital, mas entendeu suas boas intenções. Adauto desceu da caminhoneta e não a viu sumir.

A plataforma estava cheia, ao contrário do que Adauto imaginara. Maridos despediam-se das esposas e dos filhos; jovens partiam para viagens; famílias retornavam após visitar parentes há muito não vistos; pessoas sozinhas apenas esperavam: pairava um clima de tristeza e despedida. Adauto sentiu um frio na barriga e teve medo. Começou a pensar na família, no sofrimento deles e sentiu vontade de voltar; mas seus pensamentos foram interrompidos pela batida pesada da máquina que vinha surgindo entre as árvores, chamando a atenção de todos que, naturalmente, se movimentaram e deram outra visão à plataforma. A locomotiva era enorme e vinha baforando vapor por tudo quanto era lado. Berrava cada vez mais alto ao se aproximar, anunciando sua chegada. A batida remetia Adauto às batidas graves de um piano de beira de estrada. Dava para senti-las no peito. Os freios começaram a guinchar mais alto do que as outras engrenagens, disputando com os apitos. Adauto pôde ver o maquinista encardido que o olhou rapidamente e da mesma forma acenou com cabeça. O trem parou. Adauto ficou observando as pessoas entrarem, adiando sua partida, como se ainda pudesse decidir o que já estava decidido. Entrou somente depois do último apito do agente. Ao entrar, pediu orientações sobre sua cabina, que estava próxima. Acomodou-se em uma das poltronas da janela. Ficou observando a plataforma quase vazia, com apenas aqueles que ficaram tentando encontrar seus queridos nas janelas para o último aceno. Sentiu medo novamente e quis desistir. Pensou que talvez estivesse cometendo uma loucura, mas o bilhete havia sido validado pelo cobrador e deixou de ser uma possibilidade para ser um contrato irrescindível acordado formalmente. Olhando para o bilhete, Adauto teve novamente o frio na barriga e o medo começou a tomá-lo, até que a máquina gritou e a plataforma começou a se mover. Adauto deu um suspiro trêmulo e recostou-se tenso. Estava feito.

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