PATOS

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Capítulo V

Devidamente alimentado pelo farto café da manhã, Adauto retornou à sua cabine e se aconchegou em sua poltrona. Tirou os sapados e se aliviou do paletó e de mais um botão da camisa. Ouvira uma passageira comentar que deveriam chegar à capital nas próximas horas, talvez após a hora do almoço. Tentou descansar mais um pouco, mas sua cabeça não deixava. Estava cada vez mais ansioso. A cabine estava muito quente e ele abriu as janelas para aproveitar a brisa que se formava com o movimento do trem. Os cabelos banhavam-se no suor que brotava da testa e descia até o queixo pelo rosto avermelhado. Ainda estava muito calor: abriu mais um botão, dobrou cuidadosamente as mangas da camisa e tomou um copo cheio de água. Repousou no encosto e fechou os olhos para relaxar e talvez, ao menos, cochilar. Permaneceu assim por alguns segundos e descobriu que seria impossível. Estava próximo de iniciar um grande sonho que havia morrido e há pouco parecia renascer. Começou a ser tomado por uma inexplicável tensão. Inquieto, tentou achar uma posição aconchegante, mas todas o incomodavam. Tirou a camisa de dentro das calças e fez mais uma dobra nas mangas. Jogou-se à frente, abriu as pernas, apoiou os cotovelos nas coxas e encaixou a cabeça nas mãos, com os dedos penetrando-lhe a cabeleira preta e brilhante. O suor começou a pingar agora também de seu nariz.

Os sons se tornavam barulhos insuportáveis. Os sopros macios das brisas viravam violentas rajadas estrondosas. Os guinchos das rodas pareciam lanças de ferro que lhe perfuravam os ouvidos. As batidas das engrenagens e dos pistões pareciam sinos que badalavam dentro de sua cabeça. O que ele temia naquele momento aconteceu, mas a máquina gritou tão alto que abafou o berro que Adauto soltou ao ser plenamente tomado por uma dor que lhe contraiu todos os músculos. Sentia medo. O tronco balançava com a pressão dos fluxos de sangue bombeados freneticamente. A barriga doía. As pernas estavam frias e bambas e as mãos começaram a tremer. Respirar estava cada vez mais difícil. Adauto escondeu o rosto atrás das mãos e o massageou tentando se recuperar. Cada vez mais a barriga doía e parecia estar recheada com um único órgão enfermo e latejante. Suava frio e tinha calafrios. A camisa estava banhada. Sentia o suor melado escorrer-lhe pelas virilhas, pelas partes e pelas pernas. Pôs a cabeça na janela. Então foi traído pelos olhos que doeram por somente revelar uma luz branca e brilhante, sem formas, tons ou manchas. Sentiu vertigem e se voltou para dentro agarrado aos braços da poltrona. A respiração era curta e acelerada e o mal-estar aumentou.

Adauto estava dominado pelo medo e achou estar sofrendo um ataque cardíaco, um derrame cerebral ou algum outro tipo de ataque mortal. Pensou estar diante da morte justamente a poucos quilômetros de sua nova vida. Queria que tudo acabasse logo e que não sentisse mais aquelas coisas, ou melhor, que deixasse de sentir qualquer coisa imediatamente. Sem sofrimento. Pensou em pedir ajuda, mas julgou ser tarde demais para isso e aceitou o seu destino, já que ela poderia apenas mantê-lo naquela situação, que chegava a ser cômica. Depois de tantas incertezas, medos, confrontos, desistências e lutas, tinha diante de si a grande oportunidade de uma vida tão sonhada e a própria morte. Apavorou-se.

Chegou a pensar que tudo aquilo seria um castigo que Adauto merecia por ter mudado os rumos da vida planejada por seus pais. Deveria ter ficado por perto e não renunciá-los aos cuidados dos irmãos. Seu pai tinha razão, deveria abster-se de seus desejos pueris. Seria importante como sua mãe desejava, lá mesmo. Não tinha nada de sair de lá. Teria apoio, teria companhia, teria certezas, teria facilidades e talvez a felicidade que julgava não estar lá. Poderia se apaixonar por uma moça de família conhecida. Pediria permissão para namorá-la. Ele a levaria para passear na cidade, iria aos bailes e aos parques. Terminaria seus estudos. Montaria seu próprio negócio com subsídios da família e teria os amigos da família como clientes ou, mais provavelmente, trabalharia em alguma empresa local. Seria chefiado por algum gordo imbecil suador de quem receberia e acataria as mais cretinas ordens de cabeça baixa e com sorrisos hipócritas. Seria um servo dedicado, mesmo contra suas vontades e opiniões. Reclamaria, mas teria um orgulho fabricado de seu trabalho. Acordaria todos os dias no mesmo horário. Teria que se preparar da mesma forma. Seguiria o mesmo caminho, cumprimentaria as mesmas pessoas dos mesmos modos, responderia da mesma forma aos mesmos estímulos. Aparentaria sempre a mesma satisfação. Chegaria ao trabalho e tomaria um longo segundo café com os colegas, falando mal dos outros, invejando o carro do colega, as roupas e a vida do chefe e de outros em cargos e situações superiores, os quais nunca teriam as competências reconhecidas e seriam tratados como sortudos ou interesseiros e bajuladores. Almoçaria com as mesmas pessoas todos os dias no mesmo horário e no mesmo restaurante pedindo “o de sempre” ao mesmo garçom. Faria uma longa pausa após o almoço. Enrolaria durante a tarde. Mexeria em alguns papéis, trabalharia um pouco no fim da tarde e arrumaria todas suas coisas quando faltassem dez minutos para a hora de ir embora. Faria o mesmo caminho de volta. Chegaria a casa, tomaria um banho, jantaria na casa da namorada. Voltaria cedo para casa com o pretexto de acordar cedo para o trabalho pesado e se estenderia feito um monte inútil no sofá até ser acordado pelas dores nas costas, ou pela baba elástica e pôr-se-ia rastejando a caminho da cama.

Continuaria o cronograma padrão. Noivaria. Construiria uma casa. Pediria sua noiva em casamento. Casariam na igreja matriz. Desfilariam elegantes em uma grande festa farta bancada pelo sogro. Receberiam cumprimentos de todos, até mesmo daqueles com quem nunca tinham trocado um cumprimento, com quem nem sequer tinham estado. Seriam alvos das críticas das mais famosas velhas fofoqueiras da cidade que reparariam e comentariam sem pudor sobre o vestido da noiva, sobre a quantidade de fotos tiradas, os tipos de comidas servidas, a maquiagem das convidadas, a embriaguez dos convidados e sobre o futuro dos noivos. Fariam uma viagem inesquecível para uma praia ou algum outro lugar cafona. Seriam tratados como rei e rainha nas primeiras semanas de seu retorno e depois ninguém lembraria sequer que haviam estado em seu casamento. Teriam filhos e fundariam uma família. Uma família normal com brigas, mágoas, alegrias, arrependimentos e tudo o que uma família qualquer tem e que seria mantido em segredo atrás do papel que assumiram da porta para fora. Mostrariam a todos que formavam uma família perfeita. Acenariam sorrindo às pessoas. Estariam publicamente sempre juntos, sem discutir ou expressar descontentamento. Iriam à missa todos os domingos, onde desfilariam as melhores vestimentas em competição com os irmãos de fé. Fariam as leituras sagradas imponentes no pequeno púlpito. Passariam metade do sermão analisando e comparando as roupas e os comportamentos alheios. Colocariam na sacola de oferendas as melhores notas que separaram ao sair de casa e a ênfase do movimento seria proporcional às das notas dadas pelos vizinhos de banco. Passariam a leitura do missal olhando para os folhetos, somente lendo a parte em que entoariam a voz mártir. Invejariam ao retornarem da comunhão. Sofreriam no Pai Nosso. Simpatizariam ao cumprimentar e desejar a paz. Ansiariam pela conclusão da benção final. Ao fim, acompanhariam os movimentos do padre para tentar um cumprimento particular que transbordaria os corações já plenos de orgulho. Declamaria uma pausa em frente da igreja para cumprimentar alguns conhecidos. As mulheres falariam elogios mútuos, comentariam como as crianças estavam grandes e bonitas, fofocariam sobre alguma outra amiga que não estivesse por perto, mas que fizera parte dessa mesma reunião na missa passada e, para finalizar, enquanto se despedissem, combinariam alguma reunião em suas casas e que na verdade nunca aconteceria. Os homens falariam de negócios, de política, de como a vida é sempre difícil, talvez do tempo, dariam um jeito de esnobar a ultima aquisição, trocariam algumas palavras tolas enquanto arrastassem suas esposas embora para casa.

O tempo passaria, mas não os costumes e nem as rotinas. Envelheceriam e se encheriam de estrias e flacidez. Tornar-se-iam gordos estressados da vida. Teriam previsões climáticas como o principal assunto. Reclamariam todo o tempo de tudo e de todos. Das dores que seriam proclamadas mais fortes do que realmente seriam. Dos acontecimentos do mundo. Dos barulhos da vizinhança. E principalmente, reclamariam dos comportamentos dos jovens. A juventude do mundo estaria em decadência comparado àquelas que eles tiveram que seriam totalmente camufladas entre pudores, exemplos, obediências, respeitos e orgulhos que provavelmente nunca teriam existido da maneira que eram expostas. Esqueceriam que foram jovens e que ouviram a mesma coisa dos mais velhos enquanto se prometiam nunca atuar aquele papel. Seriam cada vez mais rabugentos e passariam a suportar a presença um do outro. Viveriam inúteis aguardando a chegada do último trem. Ocupariam o tempo em reuniões religiosas, em tricôs, em hortas, em jogos de damas, bochas ou qualquer outra coisa que pudesse aliviar a presença incômoda do parceiro. Talvez tudo melhorasse com a chegada dos netos. Tornar-se-iam menos inúteis e menos amargos, e eles, os netos, seriam uma ótima desculpa para o dito alívio. Sonhariam com uma morte silenciosa e sem sofrimentos durante o sono como as de seus bisavôs – mesmo nunca sabendo se realmente morreram de forma tão agradável. Talvez conseguissem tal morte ou tivessem que, ainda, antes do descanso eterno, lutar contra alguma doença cruel que os consumiriam e os levaria ao paraíso, com o eterno e irreversível arrependimento de terem vivido vidas medíocres regradas por expectativas hipócritas de uma sociedade alheia às próprias vontades e prazeres.

A visão infernal que Adauto teve da vida e o balanço dos carros sobre as suspensões pioraram sua situação tornando inúteis quaisquer esforços para controlar o corpo rebelado, que parecia querer expurgar a própria alma. Seus olhos estavam a saltar das órbitas, vermelhos e pegajosos. Seu nariz derramava muco em sua boca e se misturava com a baba escorrida pelo queixo. Era a visão de um doente mental em pleno ataque epiléptico. Teve um incontrolável enjoo e se atirou contra a porta do pequeno banheiro da cabine e deu de encontro com o lavatório. Caiu e ao cair acertou a maçaneta com o ombro. A dois passos do urinol, parou. Não pôde continuar o rastejo devido à forte contração abdominal que explodiu em uma onda que vencia todos seus músculos e válvulas, inundando todos os seus dutos internos. Fazendo-o sacudir para todos os lados, um forte jorro de vômito foi lançado às paredes, ao chão e às bordas do longínquo urinol. A pasta quente jorrava pela boca e pelas narinas. A respiração era impedida. Dos olhos saíam lágrimas misturadas ao suor que lhe caía pela testa. A vista estava embaçada. Mais quatro longos jorros ainda vieram. Adauto tentava inalar o ar elevando o tronco, como se o ar só existisse acima do chão pegajoso, e, justamente quando estava quase ereto, com o ar entrando pelas narinas, vinha outro jato sufocante e asqueroso. A pasta se tornava cada vez mais líquida e os dois últimos foram apenas de um líquido cuja cor não soube distinguir, já seus olhos não definiam mais nem cores nem formas. No último, sentiu apenas os movimentos do corpo em vão. Estava vazio. Roxo, pôde respirar novamente, o que fez em desespero para manter a vida dentro de si.

Estabilizou-se. Permaneceu por algum tempo ajoelhado, sentado sobre os pés, apoiando-se na espinha com a cabeça pendida para trás para melhorar a entrada do ar. Engoliu a grossa saliva azeda e granulada. Arrepiou-se. Os ombros estavam pendidos, sem vida, apenas grudados ao corpo. Exausto, despencou para frente e adiantou os braços para usá-los como colunas. Ao baterem no chão, as mãos espirraram vômito pelos punhos, fundindo-os ao chão. Os braços estavam trêmulos e ruíram. Os cabelos caíam sobre os olhos. Adauto se estatelou no chão enterrando seu rosto pálido no azedo café da manhã. Apagou. Alguns minutos depois, começou a recobrar a consciência. Sem abrir os olhos, sentiu bolhas formando-se das narinas semi submersas na porcaria. Conforme abria os olhos, era tomado pelo nojo da aparência e do cheiro do próprio vômito, o que fez com que ele suspendesse a cabeça imediatamente. Fios pegajosos se formaram entre o rosto e o chão e só começaram a se romper quando a cabeça continuou a subir puxada pelo tronco que também se descolava do chão. Quando Adauto se sentou, descobriu que sua situação era ainda pior. O fedor podre subiu imediatamente com o movimento da pasta quente e repugnante que se esparramava entre as nádegas e virilhas. O fedor e o nojo de Adauto foram amenizados pela vergonha e humilhação da condição impotente em que se encontrava. Em meio àquela tempestade de contrações e espasmos musculares, o esfíncter havia vacilado e o traído. Estava sujo e vazio. Feito uma criança assustada e descontrolada, Adauto começou a chorar em desespero. Contraiu-se em posição fetal. Os braços estavam abandonados entre o peito e os joelhos. Desfez-se em lágrimas e gemidos que concorriam com soluços descompassados enquanto o resto escorria pela parte de trás de suas coxas.

Quando controlou o choro, Adauto não pôde limpar o rosto porque não tinha parte limpa na frente de seu corpo que pudesse usar como lenço. Tinha de se limpar por completo e isso seria uma tarefa difícil, visto que sua cabine, apesar de ter banheiro, era conjugada e não tinha chuveiro como as das classes superiores; e teria de fazê-lo logo, pois se a mulher do café da manhã estivesse certa, eles chegariam ao destino em poucas horas. A primeira providência foi tirar toda a roupa. Não teria como lavá-la ou levá-la consigo. Despiu-se. Amontoou as roupas e usou-as como pano de chão arrastando o que pôde da mistura que cobria parte do chão. Repetiu o movimento algumas vezes, pois conforme limpava um rastro, outro surgia, como uma brincadeira de criança, o que fez com que Adauto murmurasse alguns xingamentos. A parte externa do vaso foi limpa com as meias que foram amontoadas junto com as roupas e a sujeira atrás do vaso, onde ficariam abandonadas até que algum funcionário, ou até um passageiro, as notasse e tivesse condições de tomar as devidas providências.

Estava nu e sujo. Era hora da segunda providência: limpar seu corpo. A pasta fecal e o vômito estavam secando e endurecendo, dando às partes afetadas uma textura enrugada, feito um paquiderme. Havia, então, a sensação de cascas gosmentas lhe repuxando a pele. Adauto usou a água da torneira do lavatório para banhar-se, levando-a aos poucos com a mão em forma de concha. Parou na terceira tentativa. A água estava piorando as coisas. A placa começou a liquefazer e escorrer, o que sujaria ainda mais seu corpo e o chão e não havia como limpá-los. Desistiu da água. Precisava de um chuveiro. Fuçou com cuidado nos bolsos da calça amontoada e encontrou um lenço xadrez branco e vermelho que parecia intacto. Usou-o com cuidado para remover a sujeira de seu corpo. Teve pressa, pois parecia que o corpo e a sujeira estavam se fundindo. Removeu o que pôde antes de o lenço ficar inutilizável. Mas ainda havia muito a ser limpo. Usou a tolha de rosto de forma mais cautelosa que o lenço e a deixou junto às roupas. Terminou o serviço com as folhas de papel higiênico. Não conseguiu ficar completamente livre da sujeira, pois ainda restavam algumas manchas agarradas que exalavam um fedor que Adauto não mais sentia. Teria de vestir roupas limpas, mas ele não tinha tantas a ponto de desperdiçá-las – já tinha perdido uma calça, uma camisa, meias e a cueca. Então, forrou as partes ainda sujas com o restante do papel higiênico para tentar evitar o contato com as roupas que colocaria até que pudesse se banhar dignamente. Os braços, o rosto, o pescoço e parte do peito foram limpos diretamente no lavatório.

Saiu do banheiro e vestiu-se com as roupas menos novas que levava. Colocou o menos que pôde para manter os pudores. Saiu ao corredor em busca de alguma solução. Encontrou um dos funcionários que trabalhavam no trem. Deduziu ser uma funcionária da cozinha - fato que deixou Adauto mais encabulado – e, de forma discreta, lhe pediu um banheiro com chuveiro para resolver um problema.

- As cabines da primeira classe são providas com chuveiros, senhor. – disse a mulher.

- Mas não viajo na primeira classe e preciso de um banho. – tentou explicar sem entrar em detalhes.

- Neste caso, o senhor deverá aguardar até chegarmos à próxima estação.

- Mas não há outro chuveiro para os demais passageiros?

- Desculpe-me, mas há somente outro chuveiro para os funcionários e é de acesso restrito, por favor, aguarde a próxima estação, já não falta muito.

Ao perceber a careta da mulher que provavelmente sentiu o problema, Adauto engoliu seco e decidiu explicar melhor seu problema:

- Você não entende. Tive um problema intestinal e preciso de um banho urgente!

A mulher compreendeu a situação e, com discrição, conduziu Adauto até um banheiro dos funcionários. Deixou-o à porta dizendo que teria de ser rápido e que lhe traria uma toalha.

Adauto não se lembrava de ter tomado um banho tão prazeroso em sua vida. Era como servir-se de um banquete depois de dias em jejum. Tomou-o rapidamente como lhe foi pedido e esfregou-se fortemente como se livrasse da própria pele. Ouviu a mulher bater a porta dizendo que a toalha estava pendurada do lado de fora. Secou-se e vestiu-se. Não viu mais a mulher. Queria agradecê-la ao mesmo tempo em que preferia não vê-la mais pela vergonha que sentia.

De volta à cabine, tomou dois copos transbordantes de água e relaxou-se na poltrona. Respirou fundo e sentiu-se aliviado. Deixou a porta do banheiro fechada para que ele não fosse denunciado pelo cheiro e que também não sofresse com ele. Enfim, conseguiu dormir. Cochilou pesado durante alguns minutos e acordou com o grito da máquina que anunciava a chegada à próxima estação, o seu destino.

Adauto olhou pela janela e a vista o fez esquecer o acontecido por instantes. As árvores se ausentavam dando lugar a edifícios imponentes, com arquiteturas memoráveis, mais altos do que Adauto imaginava, um ao lado do outro. Às vezes parecia que estavam uns sobre os outros. A grande composição se tornava insignificante diante daquele mundo. Edifícios residenciais exuberantes, com sacadas enormes, pareciam competir entre si; edifícios comerciais traziam enormes letreiros de identificação; torres fantásticas de igrejas surgiam como lanças entre os demais. De onde estava até o horizonte, somente era possível ver construções, edifícios, casas, enfim, a cidade. Adauto só tinha visto o horizonte terminar em terras e matas, mas nunca em uma cidade grande o suficiente para ultrapassá-lo. Nenhuma barreira ou formação natural poderia ter tamanho poder e resistência quanto o que via. Entendeu que o que julgava exageros das histórias era apenas uma pequena carícia da realidade indescritível daquela metrópole. Mais adiante, observou um pouco das ruas plenas de gente bem vestida, comércios, carros e bondes. Um grande alvoroço em todas as ruas pelas quais passava. Calmaria não havia nem mesmo nas alamedas estreitas que cruzavam as grandes avenidas. Os postes de iluminação tinham um valor público que lhes rendiam formas detalhadas e elegantes, ao invés de apenas altas estacas com uma luz na extremidade. Os detalhes se aperfeiçoavam conforme a estrada se pareava e a máquina reduzia, mas eram tantos que Adauto se perdia. Estava tão encantado que precisou lembrar-se de respirar. Já não sentia os vestígios do seu mal-estar, nem sequer se lembrava do ocorrido. Sentia-se feliz como há muito não se sentia.

O trem parecia rastejar pelos trilhos quando a máquina deu o último gritou anunciando sua chegada. Adauto olhou adiante e ficou imóvel em frente da estação ferroviária. Já tinha conhecido outras estações de respeito, além da tão conhecida de onde havia partido - que, diga-se de passagem, era digna de ótimos adjetivos arquitetônicos. Estações que encobriam o brilho de tantas outras mais simples e de maiores valores históricos. Mas nenhuma, definitivamente nenhuma, era digna de comparação com qualquer parte que fosse daquela posta à sua vista, nem sequer os trilhos que eram mais brilhantes – brilhavam pela ilusão que sua mente estava lhe pregando diante de tantas novidades; a diferença era a quantidade de trilhos: para manobras, para cargas, para trocas e junções de ramais; tantos e de diferentes bitolas.

A estação estava à esquerda e era de um tamanho monumental. Era alta, muito alta, mais pela necessidade de manter o ângulo do telhado do que pela necessidade de uso. O telhado era triangular e as telhas eram finas e precisamente encaixadas umas às outras. Eram cinzentas quase pretas de fuligem e não havia rastro de sua cor original. Pelo telhado, havia saliências parecidas com pequenos casebres, que serviam apenas para sustentar as vidraças que permitiam a entrada de luz, como em alguns sótãos. O telhado acabava em calhas camufladas com rendas de metal, que formavam uma espécie de babado e escondiam a divisão com as paredes rosadas que simplesmente surgiam abaixo. Eram arcos sobre pilares longos e esguios. As extremidades de cada arco dividiam o topo de cada pilar que tinham detalhes em forma de ramos moldados no próprio cimento e pintados de branco para destacarem-se das outras formas. No ponto mais alto de cada arco, havia um brasão da ferrovia com as iniciais da cidade, todos feitos da mesma maneira que os adereços que uniam pilares e arcos. Alguns arcos não estavam sobre paredes, mas sim sobre grandes e grossas portas de madeira de lei recém envernizadas e enfeitadas com grandes barras de metais que serviam de maçanetas, fechaduras e dobradiças coloniais – todas estas peças metálicas eram pintadas de um preto brilhoso, como óleo queimado. Deste ponto à extrema direita da estação havia uma alta torre, como uma torre de igreja, só que mais alta e esguia. Tinha sinos e grandes relógios, um em cada uma das quatro faces, com números romanos e acabamentos brancos moldados em concreto. As paredes tinham o mesmo estilo das paredes da até atingir os adornos que se fundiam com o telhado. Abaixo de cada relógio, a parede era vazada em três arcos semelhantes aos das portas, por onde pombos entravam e saiam aos bandos. Andar por andar, os arcos desciam as paredes da torre e através dos vitrais era possível ver uma frágil escadaria em forma de caracol junto às paredes internas da torre.

A pressão das mangueiras foi liberada e os pistões dos freios apertaram-se totalmente às rodas estacionando a composição. Adauto estranhou a parada, pois entre seu vagão e a estação havia quatro linhas. Foi então que olhou melhor e entendeu que o trem parara em uma das quatro plataformas menores distribuídas por entre os trilhos do pátio – cobertos, na região das plataformas, por um largo telhado menos sofisticado, com escadas que desciam por caminhos subterrâneos, passando por debaixo dos trilhos e brotando dentro da estação. Adauto pegou sua mala, vestiu a bolsa e o boné, enganchou o lampião no braço e desceu do trem. Ficou um tempo parado na pequena plataforma olhando o telhado, a quantidade de linhas e os trens estacionados. Deu um suspiro profundo e sorriu verdadeiramente. Ajeitou o boné e desceu as escadas com os outros passageiros, ainda encantado com tamanha ideia e estrutura das plataformas espalhadas e ligadas à estação por caminhos seguros e subterrâneos.

Os corredores eram revestidos de azulejos brancos, com uma única faixa azul, pouco acima da metade das paredes. O teto era arredondado mantendo o formato arcado. Cerca de dois palmos acima das faixas azuis, corriam por toda a extensão do túnel cabos que conduziam energia elétrica às luminárias comuns.

As escadas do fim tinham menos degraus do que as da entrada e a pouca distância era possível ver traços internos da estação. Ao subir os degraus, Adauto encontrou-se em um saguão retangular comprido, não muito largo e com pé-direito muito alto. Na lateral, à sua frente, havia uma banca de jornal, lojas de souvenires, lojas de roupas, barbearia, bilheteria, café, lanchonete, restaurante e uma engraxataria. Todos os estabelecimentos eram de madeira envernizada escura e tinham as entradas contornadas por formas luxuosamente talhadas – com exceção do restaurante que tinha apenas a entrada de madeira. A cor e as formas da madeira dos estabelecimentos trouxeram a Adauto a imagem de confessionários ao longo da lateral de uma catedral. Acima, na região dos estabelecimentos havia um mezanino com cadeiras conjugadas onde as pessoas aguardavam a partida lendo, comendo, conversando, cochilando ou apenas existindo. As pessoas eram, em geral, bem-vestidas. Eram variadas as expressões que passavam: rígidas, alegres, ansiosas, tristes, cansadas, derrotadas, inocentes, maldosas. Adauto nunca tinha visto e sentido tantos sentimentos em um lugar só. Eram grupos de no máximo cinco ou seis pessoas, quando se tratavam de casais com filhos. A maioria estava sozinha, no máximo com um companheiro. Alguns carregavam maletas pequenas; outros, grandes malas; alguns, muitas malas de tamanhos variados e ainda outros, os menos bem-vestidos, enormes pacotes precariamente amarrados e embrulhados, que pareciam acomodar toda uma vida.

Atrás de Adauto, estava a saída do túnel da plataforma em que desembarcara, ladeada pelas saídas dos túneis das outras plataformas. Ainda, mais adiante, à sua esquerda, estavam as grandes portas de madeira abertas dando acesso à plataforma principal. Foi então que Adauto viu a grande porta principal da estação, que lhe serviria de saída dali e entrada para a nova vida.

Na porta da estação, Adauto estava diante de uma longa rua, mas não muito larga. Era uma avenida muito movimentada, que tinha as laterais tomadas por várias barracas que formavam uma grande feira de produtos de todos os tipos – nem mesmo se podia ver o passeio. Pessoas transitavam sem compromisso entre as barracas examinando os produtos com as mãos, algumas faziam perguntas, outras compravam, outras faziam caretas de desprezo e continuavam perambulando e se esbarrando umas nas outras. Os comerciantes nas barracas gritavam ofertas de última hora, acordos únicos, qualidade incomparável e outras coisas recém-nascidas para promover seus produtos. Os gritos pareciam parte de um duelo amistoso entre as barracas que definiam um compasso bem arranjado. Pelas vestimentas e atos, percebeu que eram pessoas simples, de uma classe social da qual sua mãe evitava participar. Adauto retirou um pedaço de papel do bolso interno do paletó e memorizou o endereço escrito. Tomou fôlego e meteu-se na avenida. Era espremido entre ombros e largos quadris. Virava-se de lado, contorcia-se, esticava-se para abrir seu caminho. Agarrava com força a maleta e abraçava a bolsa e o lampião com força e delicadeza ao mesmo tempo para não quebrar o vidro. Vez ou outra pisava ou esbarrava nas pessoas e pedia desculpas que não eram ouvidas, assim como o “bom-dia” e o “olá” que desejava aos que, por acaso, lançavam-lhe um mísero olhar. Ninguém o ouvia, mesmo quando resolveu aumentar a voz. Todos o ignoravam assim como todos se ignoravam. Era tanta gente, eram tantos corpos a serem desviados que Adauto nem sequer conseguia olhar os produtos nas bancas. Além disso, estava preocupado em encontrar logo o endereço e garantir sua hospedagem naquela noite. Àquela hora, pairavam sobre a avenida os mais variados aromas de frutas e legumes frescos e também os odores de podridão daqueles que jaziam, como os peixes já passados, vindos aos montes abandonados de barrigadas, cabeças e escamas. Relembrou-se dos fins das pescarias com os amigos, quando limpavam os peixes nos fundos da casa do pai.

Já havia andando três quarteirões adentro quando ouviu um tilintar vindo de trás. Voltou-se e viu, pela primeira vez, um bonde que vinha em sua direção, abrindo o conglomerado de pessoas que, em movimentos mecânicos, saltavam para todos os lados com naturalidade e descaso. O bonde tilintou novamente e o motorneiro fazia movimentos com o braço, gritando para que as pessoas saíssem de sua frente. Adauto permaneceu imóvel e quando o bonde estava bem próximo dele, uma mulher gorda e muito forte o arrancou dos trilhos para junto de si, com apenas um dos braços e um forte puxão. Adauto olhou assustado para a mulher enquanto o bonde passava atrás. A mulher tinha a cabeça coberta por um lenço velho que deixava mechas molhadas de suor caírem pelo rosto redondo. Ainda segurando Adauto, branco, contra sua enorme barriga, disse-lhe com voz alta e dura:

- Quer morrer?

Adauto respondeu gaguejando, enquanto olhava o buço grosso da mulher:

- Desculpe-me! Não sabia que vinha um bonde!

O som tinha saído abafado, pois Adauto tinha a cabeça entre dois enormes seios.

- Muito obrigado, meu nome é Adauto e estou...

E foi interrompido rudemente pela mulher que o afastava grosseiramente:

- Preste mais atenção por onde anda, capiau!

Adauto, de cabeça baixa e sem dizer palavra alguma, virou-se e continuou seu caminho. Sentiu-se mal pelas palavras de sua salvadora. Andou quase quatro quarteirões pensando no que ouvira e se esqueceu de verificar a numeração dos edifícios. Quando o fez, percebeu que tinha se adiantado. O endereço havia ficado para trás. Provavelmente estava no quarteirão anterior. Voltou apressado. Olhou os dois primeiros edifícios e não tinham o número do papel. Estava assustado e apertou ainda mais os passos. Olhava para os dois lados lunaticamente enquanto passava pelos prédios até que se sentiu aliviado ao encontrar o tal número. Era um prédio antigo com a fachada deteriorada e encardida. Tinha quatro andares. Algumas janelas estavam quebradas e outras lacradas com tábuas e isso deixou Adauto assustado novamente. Foi até a porta de entrada que estava fechada e tentou abri-la, sem êxito. Estava trancada. Olhou por um dos buracos da madeira podre e não viu nada senão uma profunda escuridão. Virou-se e perguntou ao comerciante da banca ao lado se sabia por que haviam fechado àquela hora. O comerciante mediu-o bem e com certo espanto o informou que há anos o edifício havia sido incendiado e, então, condenado pela prefeitura, que tomou como únicas providências lacrar e retirar as pessoas do edifício. Adauto olhou para as paredes pretas do incêndio dos dois últimos andares que eram apontados pelo comerciante. Desolado, com os lábios trêmulos, os olhos cheios e o coração palpitante, perguntou ao comerciante se havia outra pensão ou coisa parecida onde pudesse se alojar e ele lhe indicou uma avenida, três quarteirões à direita, que, devido à sua importância, tinha edifícios como estes. O comerciante sugeriu que ao chegar a tal avenida, tomasse à esquerda, pois tinha lembranças de hospedagens por ali.

Adauto retomou o caminho que havia feito e o percorreu no mesmo ritmo avançado, cruzando as ruas com atenção desta vez, observando os quarteirões pelos quais passava. Chegou à avenida realmente de importância. Extremamente larga, era preenchida por linhas de bondes, carros e muitas pessoas que andavam apressadas. O sol estava se preparando para deixar o céu e Adauto, encantado no meio-fio, virou à esquerda. Entrou no segundo edifício e perguntou sobre vagas ao recepcionista mal vestido e malcheiroso que apontou, sem dizer uma só palavra, a plaqueta “Não há vagas”. Adauto recuou e, atento, passou por mais alguns edifícios que tinham as mesmas plaquetas. Parou para tomar um ar e observou a longa avenida. Olhou para os prédios como se buscasse pessoas acenando e placas com os dizeres: “Por aqui, venha que temos as melhores vagas para o senhor!”.

Estava apavorado e começou a pensar que teria de dormir ao relento. Caminhou entre as pessoas, ora contra o fluxo, ora a favor. Os olhos se encheram e os dentes se arranharam; Adauto queria chorar. A virilha e as partes inferiores estavam assadas e o incomodavam com ardências e coceiras, provavelmente por causa de alguns restos do desarranjo matinal. Entrou no edifício seguinte, que estava a mais de três quarteirões da avenida da estação. Subiu os poucos degraus e entrou na recepção vazia. Aguardou um momento para que o responsável tivesse tempo de terminar seja lá o que estivesse fazendo e retornasse ao seu posto. Limpou a garganta em alto som. Forjou tosses. Ninguém apareceu. Nervoso, não conseguiu aguardar nem mais um minuto e então tocou duas vezes uma pequena sineta que encontrou entre outros objetos em cima do balcão.

Em seguida, ouviu-se o som do arrasto de chinelas velhas. Pela cortina de tiras plásticas, surgiu uma senhora roliça de cabelos brancos com formas de algodão sob um lenço fino com desenhos de toalha de mesa desbotados. Tinha pele avermelhada pelas manchas de sol de uma vida inteira. Usava um vestido que lhe cobria os joelhos e que era amarrado na cintura por uma tira do mesmo tecido. Vinha cantarolando uma música que Adauto não conseguiu reconhecer. A senhora passou por trás do balcão. Parou na frente de Adauto e sacou os óculos de lentes grossas. Tinha um longo nariz revestido por uma pele grossa e áspera e bochechas volumosas sem rigidez alguma. O queixo também era protuberante e a boca já sem lábios. Os olhos castanhos eram enterrados entre bolsões de pele enrugada. O resto do rosto era todo marcado por rugas e outros sinais da idade e de uma vida dura. Tinha uma expressão gentil e calma. Colocou os óculos e os olhos ficaram menores, dando-lhe uma expressão irônica. Mediu Adauto delicadamente e com um leve sorriso de canto falou docemente:

- Pois não?

Adauto sentiu-se confortável na presença da velha e desejou que ela pudesse acolhê-lo.

- Cheguei agora a pouco na cidade e estou procurando por um quarto.

A velha o mediu novamente e olhou bem em seus olhos antes de continuar:

- Ah, um quarto! Estamos em tempos difíceis na cidade. Tenho ouvido que além daqui, muitos outros lugares estão sem vagas. Têm receio de hóspedes desagradáveis. Aqui mesmo já recebemos alguns jovens que viviam em baderna. Ah, os tempos mudaram! As pessoas não são mais como antigamente.

Conforme a velha continuava, Adauto começou a se inquietar com a demora na resposta e, então, a maciez e a calma de sua voz sumiram e ele se irritou:

- Então a senhora não tem vagas?

Ela fez uma pausa e sorriu com o carinho e a compreensão de uma pessoa que já viveu o suficiente para compreender a ânsia juvenil. Além disso, ela havia se simpatizado com Adauto desde o começo e respondeu gentilmente, como se não tivesse se importado com a irritação dele:

- Até semana passada eu tinha duas, mas foram ocupadas por um casal que chegou do outro lado do país com três crianças pequenas, acredita? Que loucura!

Adauto engoliu a grosseria que estava para soltar e continuou:

- E a outra vaga?

- Ah sim, a outra vaga. A outra vaga também foi ocupada por um senhor que está a serviço e que talvez vá embora semana que vem.

Adauto abaixou-se para pegar suas coisas quando a velha o interrompeu:

- Mas ontem pela manhã outro quarto vagou. Não é o nosso melhor quarto, mas a limpeza já foi feita. Talvez o senhor gostasse de vê-lo!

Um alívio o tomou. Iria vê-lo com certeza e o acharia ótimo, pelo menos por uma noite. Se fosse muito ruim, continuaria sua busca na manhã seguinte.

- Sim, por favor! Gostaria muito de vê-lo.

A mulher virou-se para apanhar a chave no chaveiro e conduziu Adauto pela escada, passando pela pequena sala de estar. Adauto pode ver, na outra sala, uma grande mesa onde deveriam ser servidas as refeições.

O quarto era no terceiro e último andar. A velha cansada pela vida e pelo peso do corpo parava vez ou outra para tomar o fôlego e soltava um: “Nossa, não tenho mais idade para isso!” Chegaram ao terceiro andar. Era um corredor curto e estreito com luz fraca e uma porta de cada lado. A velha explicou que no quarto da frente estava uma mulher que havia muito que morava ali e quase nunca saia se não fosse para as compras. A falta de claridade prejudicava o resto de visão da velha que demorou a enfiar a chave no buraco da fechadura. Com algumas sacudidas na chave e na maçaneta, a porta se abriu. A velha entrou na frente. Ficou parada entre os batentes enquanto fuçava a parede em busca do interruptor. Acendeu uma luz tão fraca quanto à do corredor. Abriu passagem e convidou Adauto a entrar.

O quarto era pequeno e tinha um aspecto bruto. Por ser uma espécie de sótão daquele edifício, o teto era baixo e as paredes estreitas. Adauto entrou e o examinou ignorando as descrições dadas pela velha que falava sozinha. À esquerda, havia uma cama de solteiro de madeira, com colchão de molas levemente côncavo pelo tempo de uso. Na parede contígua à cama, havia um crucifixo com o Cristo – devia ser uma decoração padrão que a velha impôs a todos os quartos. Aos pés da cama, junto à parede da entrada, havia um guarda-roupa muito antigo com duas portas – com arranhaduras e com o verniz já sem brilho - e quatro gavetas na parte de baixo, que seriam suficientes para a bagagem. À direita, uma porta estreita levava ao banheiro. Adauto se aproximou. Havia uma pequena pia com dois registros, um para água quente e outro para a fria. Logo acima da pia, havia um espelho simples e esfolado, cobrindo um pequeno armário embutido na parede. As paredes eram estreitas o suficiente para que o vaso fosse usado sem que os joelhos se espremessem contra o azulejo branco. Após o vaso, um chuveiro aparecia por cima da cortina de plástico usada para impedir que a água de um banho lavasse o resto do banheiro. De volta ao quarto, havia um móvel escuro, bem servido de verniz quando comparado ao guarda-roupa. Era uma espécie de escrivaninha, não tão equipada como tal e nem tão simples como uma mesa. Vinha acompanhada por uma cadeira de assento e encosto de palha trançada tirada de algum conjunto de jantar. Ao fundo do quarto, entre a cabeceira da cama e a dita mesinha, atrás de uma cortina florida feita de um velho pano grosso e velho, havia uma janela. Adauto aproximou-se e viu, sem detalhes, a avenida principal por onde havia chegado.

Adauto voltou-se para dentro e a velha ainda não havia terminado de explicar os procedimentos da pensão. Era um lugar diferente do que havia imaginado. Na verdade, era bem pior. Nunca imaginara que encontraria algo como seu quarto, sabia que seria pior, mas não tão pior. Aquilo era uma espelunca em sua concepção e imaginou a reação de sua mãe ao ver aquele lugar. Por outro lado, havia algo de agradável ali; algo delicado e simples do tamanho exato às suas necessidades. Assim, não contestou o que lhe era apresentado, mesmo preferindo um lugar melhor, pois se lembrou de que ele poderia dormir ao relento sob a cobertura de um comércio qualquer. Adiantou-se à conclusão da explicação da velha perguntando-lhe o preço da diária. Adauto julgou ser um pouco mais caro do que o justo, mas aceitou por não ter outra opção e também porque havia, internamente, uma curiosidade pelo lugar.

A velha, com uma simpatia de avó, agradeceu e recebeu o dinheiro de Adauto. Anunciou que iria buscar roupas de cama e banho para ele. Informou também que a faxina fora feita logo após a saída do hóspede anterior, no mesmo dia.

Adauto afundou ao sentar-se à cama e, ainda com as bagagens presas ao corpo, permaneceu em silêncio com o pensamento e o olhar voltados para o nada. Estava de certa forma em um transe ou em choque. Voltou a si para atender a velha que lhe trazia as roupas, informando-lhe, com um riso de avó que dá um doce proibido ao neto, que aquelas eram umas das melhores que tinha em sua pensão. Adauto agradeceu gentilmente.

Tomou um refrescante e merecido banho, depois de todo aquele dia tenso e adverso. Ainda não havia desfeito as malas e as deixou aos pés da cama. Colocou um calção para dormir e sentou-se diante da janela. A parede onde ela estava chumbada era a mais espessa do edifício e, por isso, sobravam partes do lado de dentro e do lado de fora. Adauto resolveu usar a parte interna como uma prateleira e colocou o relógio e o lampião que ganhou de seu irmão. Abriu a janela. Entrou uma brisa refrescante com diversos sons e cheiros da avenida que se calava para a noite.

Estava quente. Passou os olhos pelo quarto e voltou-se para a janela para ver o que se poderia ver. Alguns carros ainda passavam, o bonde devia ter parado e alguns ônibus levavam as poucas pessoas para suas casas – poucas para aquelas dimensões. As pessoas cruzavam as ruas, se enfileiravam nas calçadas, nos pontos de ônibus e desapareciam aos poucos. O comércio estava quase todo fechado, exceto por uma farmácia que estava quase pronta para fechar e um boteco na esquina que, aparentemente, pelo entra e sai e pela animação, ficaria aberto mais um bocado.

A maioria das pessoas usava roupas surradas e sujas. Eram operários, pedreiros, marceneiros e outros trabalhadores da classe baixa. Pela padronização dos trajes, as mulheres pareciam ser recepcionistas, balconistas ou mesmo outros serviços mais leves e menos valorizados que a elas restavam. Também se podiam ver alguns casais e grupos menores, mais bem vestidos em trajes elegantes e até pesados para o calor que fazia. Andavam tranquilamente por calçadas menos movimentadas.

Adauto se serviu das sobras dos quitutes feitos por sua mãe. Acendeu um cigarro e olhou novamente pela janela. O movimento diminuía rapidamente. No boteco nascia a boemia. Homens que ainda não haviam tomado seu caminho para casa se embriagavam entre jogos, discursos e conversas que não se ouvia dali. Somente gargalhadas e gritos eufóricos conseguiam atravessar a rua e chegar tímidos à janela de Adauto. Mais à esquerda da avenida, outras gargalhadas chamaram a atenção de Adauto para uma pequena luminária avermelhada acesa, instalada sobre uma larga porta de madeira de um edifício de dois andares. Adauto não havia percebido quando a luz fora acesa, mas manteve a atenção ao que acontecia ali. Uma larga janela revelava parte de uma festança animada com muita bebida. A porta se abriu para dois homens que trançavam as pernas e que foram recepcionados por uma mulher loira de cabelos fartos. Ela usava saltos altos e um vestido pequeno e curto que se apertava em seus contornos, mal definidos daquela altura, mas capazes de revelar longas pernas e volumosos seios. Entraram os três abraçados; a mulher ia entre eles. Os olhos de Adauto brilharam, seu coração palpitou e sua virilidade se fez presente ao perceber que ali, bem à sua frente, estava um bordel. Naquela noite, praticamente não dormiu. Havia a ansiedade pelo dia seguinte e a atenção prestada nos movimentos da porta e das janelas do bordel. Já era tarde da noite e a avenida estava praticamente deserta, a não ser por alguns bêbados que deixavam o boteco rumando para onde nem eles sabiam, a passos incertos, resmungando coisas incompreensíveis e escorando seus corpos nos postes, nas paredes ou no que quer que estivesse por perto no momento do balanço. A desatenção de uma das mulheres do bordel em fechar as cortinas permitiu que Adauto a visse exibindo-se ao seu cliente, que a possuiu imediatamente feito um animal no cio. Adauto aliviou-se e só então conseguiu dormir.

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