PATOS

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Capítulo VI

Naquela manhã, Adauto acordou cedo apesar de ter ido dormir tarde. Ao contrário do que imaginou, não teve problemas com o colchão. Tomou um banho e se vestiu em frente à janela olhando para a rua, agora com outras cores, outras formas e outras vidas. Olhou em sua volta e sentiu-se confortável naquele quarto. Decidiu ficar mais alguns dias até que arrumasse um trabalho e depois partiria para um lugar melhor.

Desceu. A mesa do café da manhã estava posta e a velha, animada e revigorada, convidou-o a se servir. Mostrou-lhe o lugar em que deveria se sentar e apresentou-lhe a refeição. Adauto sentou-se e agradeceu educadamente. A velha o rodeou e começou a comer enquanto perguntava sobre como ele havia passado a noite. Adauto disse estar satisfeito e comentou que gostaria de ficar mais algumas noites, se não houvesse reservas. A velha demonstrou-se contente e sentou-se ao lado dele. Perguntou quanto tempo pretendia ficar. Ele respondeu que tinha dinheiro para mais três noites e que depois disso só lhe restaria dinheiro para voltar para casa. A velha disse que simpatizava com ele e que poderia ficar o quanto pudesse pagar, pois não havia reservas. Adauto tirou do bolso o dinheiro para a estadia e a velha aceitou apenas a metade com um sorriso carinhoso. Adauto a agradeceu dizendo que sairia para conhecer a região e procurar um emprego. A velha pediu que tivesse cuidado; explicou sobre as redondezas e onde poderia ter mais sucesso. Adauto agradeceu e subiu para seu quarto. Colocou o relógio, arrumou a camisa, pegou um pouco de dinheiro e desceu novamente. Saiu e parou nos degraus da entrada da pensão. A avenida já estava acordada, zunindo alto. Os passeios estavam se enchendo e o asfalto desaparecendo. Olhou para os lados, deu um profundo suspiro, vestiu seu boné e saiu empolgado pelo caminho que a velha ensinou.

A pensão ficava nos limites do centro da cidade, assim como a estação. A velha havia explicado a Adauto que aquela não era uma região muito confortável e muito menos confiável e que ele deveria ter cuidado ao andar por lá, principalmente quando chegasse às ruelas do centro. Pediu também que tomasse cuidado com as pessoas, pois corriam muitos comentários sobre as que tiveram pertences furtados ao esbarrarem com outras. Estes conselhos da velha fizeram Adauto se lembrar dos de seu pai, deixando-o descontente, pois achou que deveriam ser parte daquelas precauções exageradas que as pessoas têm depois de certa idade.

Ainda assim, sabia que seu coração, mais uma vez, queria falar mais alto que a razão. Sabia que a velha deveria ter fundamentos ao dizer aquelas coisas, afinal, ela morava e parecia conhecer aquele lugar muito mais do que muitos outros. Adauto tinha respeito pelas palavras dos mais velhos, pois em poucos casos eram inúteis ou exageradas. Entretanto, aquele era um momento novo para Adauto, de descobrimento, de desbravamento, em que ele se sentia imensamente feliz e excitado. Tudo deveria ser como sonhara e ele não sonhara alto, não com um mundo perfeito, muito menos com um mundo proibido.

Continuou seu caminho. Andou por avenidas largas cruzando tantas outras ora estreitas e escuras, ora tímidas e sedutoras. O comércio estava a todo vapor: as bancas montadas, as padarias cheirando a pão fresco, os sapatos reluzindo sob o arremate das flanelas lustradoras; os jornaleiros disputando com as notícias mais sensacionais, os barbeiros afiando as navalhas, os restaurantes preparando os ingredientes, as balanças medindo e roubando os pesos nas mercearias, as crianças ajudando as velhinhas a carregarem suas sacolas cheias daquilo que talvez nunca comeriam; o bonde fazendo as pessoas correrem de seu caminho, os operários saindo dos botecos após o trago matinal revigorante, os senhores importantes lendo jornais nos bancos de trás de seus luxuosos carros, as pessoas andando agitadas por entre as outras ignorando a existência de qualquer outro senão delas mesmas. Adauto estava fascinado e seu coração transbordava. Então chegou a um grande largo com uma enorme fonte central, cheio de desempregados, crianças e artistas de rua, oportunistas, turistas, casais românticos e poetas apaixonados. Tudo era cercado por edifícios altos de arquiteturas detalhadamente maravilhosas. Uns empunhavam bandeiras de outros estados e países; outros tinham a fachada vazada por enormes janelas; outros, ainda, se esgueiravam timidamente entre os grandes irmãos que se separavam apenas para dar lugar às alamedas e becos que afluíam ao grande largo de paralelepípedos. Depois da fonte, à direita, havia a grande catedral da cidade – conforme descrita pela velha – que ficava em um patamar mais alto do que o largo e os outros prédios e parecia talhada em uma rocha com incríveis arcos e pilares góticos.

Adauto passou a manhã toda caminhando pelas ruas do centro que julgava seguras, olhando os comércios de coisas e estilos que nunca tinha visto ou imaginado, experimentando novos sabores e aromas em cafés e tabacarias, parando para assistir apresentações de músicos e ilusionistas urbanos e tantas outras novidades. Já era quase duas horas da tarde quando caiu em si e lembrou-se de que tinha que comer. Entrou um restaurante simples e caseiro. Após o almoço, sentou-se em um banco da praça e relaxou satisfeito. Um senhor sentou-se ao seu lado e em pouco tempo estavam conversando sobre o tempo, sobre os caminhos do mundo atual que se desviavam absurdamente daqueles seguidos pelo velho e tantas outras banalidades. Adauto sentiu-se à vontade com o homem e a conversa durou quase a tarde toda, sendo interrompida somente quando o homem precisou partir.

Foi então que Adauto percebeu que havia desperdiçado praticamente um dia dos poucos que tinha. Sentiu-se um imbecil e se levantou sem ideia do que fazer, andando sem rumo pela praça. Tinha andado pouco e passado a maior parte do tempo admirando o novo cenário. Devido ao horário, decidiu retornar à pensão e recomeçar tudo no dia seguinte. No caminho de volta, tentou prestar atenção nos anúncios, mas estava tão danado consigo que não tinha atenção para outra coisa – inclusive, precisou pedir informações, pois se distraiu e avançou dois quarteirões de uma rua em que devia ter entrado.

Jantou com a velha e contou sobre os lugares que tinha conhecido e quase todos eram recordados por ela com algum acontecimento de sua vida. Adauto a ajudou com a louça e ficaram durante um tempo conversando após o jantar. Ao fim das histórias, a velha o repreendeu com delicadeza sobre o tempo desperdiçado com o passeio, justificando sua preocupação pelo fato de Adauto ter pouco tempo na cidade, podendo colocar tudo a perder. Adauto consentiu e disse que sairia cedo novamente para procurar emprego e que desta vez não haveria passeios. Desejaram boa-noite e foram para seus quartos. Aquela noite, Adauto dormiu mais cedo, mas antes fumou um cigarro à janela olhando para o prostíbulo que começava suas funções.

No dia seguinte, Adauto acordou agitado e rapidamente se aprontou; desceu para o café da manhã que tomou em segundos e saiu para rua. Mal falou com a velha, mas ela entendia, pois também estava ansiosa. Andou pelas mesmas ruas do dia anterior e prestou atenção nos lugares que lhe agradava. Procurou anúncios nas fachadas e portas, mas eram raros e quando os encontrava, solicitavam serviços que Adauto não se interessava. Mas Adauto estava animado e andava a passos largos, pleno de esperança. Sabia que era só questão de tempo e que acharia o lugar certo. Procurou por vagas de gerentes, vendedores, encarregados em hotéis, restaurantes ou lojas e outros lugares, e por empregos que seriam bem recebidos por aqueles que esperavam notícias em sua cidade.

Com o cair da tarde, Adauto começou a se preocupar. Lutava contra isso, mas era inevitável. Estava com a roupa úmida de suor e o corpo dolorido. Não havia encontrado nada. Parou em uma das esquinas, no cruzamento sob um viaduto, e enxugou a testa com um lenço. Olhou para os lados e avistou alguns edifícios que podiam ter algo reservado para ele. Pôs-se a andar novamente.

Ao atravessar uma ruela, o ar lhe trouxe um cheiro que nunca havia sentido e que nunca mais esqueceria. Era repugnante. Um cheiro forte de algo podre, mas não podre de decomposição ou de algo estragado, mas de algo incrustado das mais imundas sujeiras e sebos. O pior cheiro que Adauto já havia sentido foi o de um cavalo morto que encontrara quando era pequeno: o animal se contorcia pelos movimentos dos vermes que o devoravam. Mas aquilo que sentia naquele momento era pior, muito pior. Não era agudo como o do cavalo, que se fez presente como um soco no queixo assim que o sentiu. Aquele, por sua vez, era leve. Dava uma sensação espessa ao ar. Podia se dizer que era um pouco adocicado, tomando-lhe lentamente para não sair mais. Era como se o contaminasse e fizesse seus músculos e órgãos se contraírem de todas as formas, dando-lhe fortes náuseas e vertigens. Adauto diminuiu os passos e foi traído pela curiosidade – uma das características mais estranhas do ser humano, que retarda qualquer fuga ou ignora qualquer reação de autodefesa, simplesmente para ser satisfeita. Curioso, procurou, então, pela fonte pútrida responsável por aquele desacato aos cidadãos, mas Adauto não precisou se esforçar para encontrá-la. Precisou se esforçar muito para aceitar que o que sentia era cheiro de gente. Gente como ele, sobrevivendo em condições subumanas, não aceitáveis o suficiente para serem chamadas de condições miseráveis. Eram três homens de idade avançada, cobertos por crostas de sujeira e vergonha, largados debaixo de uma ponte em meio a insetos, ratos, lixos e trapos que usavam para se proteger, pelo menos da indecência. A cena era inesperada e Adauto não soube como reagir. Não conseguiu olhar muito. Ao ver a mão rachada e os dedos sem movimentos pelos nervos atrofiados, cobertos com unhas escuras e compridas sobre feridas e sujeiras pedindo-lhe dinheiro, Adauto saiu andando rápido, quase correndo, lançando o seu lenço sobre o nariz. Avançou por mais de um quarteirão até escorar-se na parede e recuperar o fôlego. Seus pensamentos e sentimentos não tinham sentido e teve vontade de vomitar, mas se conteve, pois estava em público.

Conseguiu reunir suas forças e continuou sua busca. Não encontrou nenhum emprego e voltou ao fim da tarde para a pensão de mãos vazias. Na volta, atravessou por baixo do viaduto novamente, mas dessa vez pelo outro lado da rua, poupando o seu nariz com o lenço amarelado e evitando olhar para a cena deprimente que havia presenciado há poucos minutos.

Ao entrar na pensão, tentou desviar da velha para que ela não percebesse seu estado, mas a malícia adquirida pelos anos, fez com que ela notasse que Adauto estava chateado e preferiu disfarçar. Mais tarde, quando havia tempo que o jantar estava servido, a velha foi até o quarto de Adauto e pediu para conversar. Perguntou o que havia acontecido e ele lhe contou.

A velha o consolou e explicou que ele havia procurado em lugares um tanto sofisticados demais. Disse a ele que deveria procurar em lugares “mais alegres”, como ela se referia à vida simples. Enfatizou que todos começam por baixo para depois subir, principalmente naquele lugar, e que se ele começasse do alto, seria mais fácil ser derrubado. Mas Adauto pensava em trabalhar em lugares conhecidos, de renomes, nos quais as pessoas pudessem se orgulhar dele. Naquele dia, havia escolhido a dedo os lugares onde queria trabalhar, ignorando quaisquer outras possibilidades que passassem pelos seus olhos. A velha lhe explicou que deveria começar por um lugar mais simples e que com o tempo teria o que fosse dele. Adauto sabia disso, mas sua empolgação e necessidade por trabalhar em um lugar de qualidade e de valor fizeram com que ele fosse ambicioso em demasia. Consentiu e disse à velha que procuraria melhor por um lugar que desse uma oportunidade a ele, independente de onde fosse. A velha ainda disse que os homens que ele havia visto eram apenas alguns de muitos outros e que a cidade estava cheia deles; eram como parasitas que só maculavam a aparência da cidade – não que a velha tivesse coração ruim, mas ela estava acostumada com aquela situação e já havia sentido a grosseria que se faz presente do desespero da fome. A velha o convidou – praticamente o obrigando – a jantar. Ele enxugou os olhos e desceu com a velha. Naquela noite, Adauto não foi para a janela e custou a pegar no sono.

O dia seguinte era o penúltimo dia que Adauto poderia pagar na capital. Novamente saiu cedo feito um furacão tomando apenas uma grande xícara de café forte. Estava decidido a abraçar qualquer oportunidade que aparecesse e pudesse mantê-lo na cidade por um tempo. Andou bastante, pelos mesmos lugares e outros novos, só que com um olhar diferente. Estava se tornando familiar àquela região e, por essa e outras razões, sentia mais necessidade de conseguir algo para ficar ali. Não queria e nem conseguia imaginar uma volta derrotada para sua terra. Teria que explicar a todos, inúmeras vezes, o motivo de sua derrota. Isso seria, além de exaustivo, doloroso demais e Adauto não estava pronto para se submeter à tamanha humilhação. Sua mãe não teria o orgulho que tinha plantado quando o aceitou em seu ventre e ele teria de baixar a cabeça para os afazeres da terra.

Lá pelas três horas da tarde, Adauto, teimoso, entrou em um hotel que postava um anúncio para recepcionista que tivesse o segundo grau completo. Parecia um trabalho digno da expectativa de seu povo e poderia mantê-lo ali em boas condições. Entrou no hotel e falou com o recepcionista de plantão sobre o anúncio. O gerente foi chamado. Adauto foi entrevistado e o gerente se mostrou muito satisfeito com sua formação e personalidade. O gerente também explicou todo o trabalho, as expectativas, as obrigações e os direitos. Adauto estava interessado e empolgado. O emprego foi garantido e o dinheiro e os horários acertados. O valor a ser pago era mais alto do que Adauto esperava e, ainda, seria adiantada a ele uma parte para que pudesse manter-se na cidade pela semana seguinte. Era a oportunidade que esperava. O gerente lhe garantiu o emprego a menos que ele, Adauto, recusasse, o que não foi o caso. O gerente lhe pediu as medidas e disse que tinha uniforme adequado ao seu manequim. Por fim, o gerente comunicou a Adauto que ele deveria começar suas atividades no dia seguinte, excepcionalmente, às sete horas da manhã, para que pudesse se arrumar e receber as devidas instruções.

Adauto retornou à pensão irradiando alegria por onde passava. Cumprimentou quase todas as pessoas com quem trocou olhares. Contornou fontes de praças. Quase dançou em torno de postes e riu muito e alto. Até ajudou velhinhas atravessando a rua com elas. Sentiu que não havia falta de capacidade de sua parte, mas sim, falta de oportunidade. Tinha encontrado o lugar certo que lhe havia sido reservado por Deus. Não precisaria mais se cobrar brutalmente como fazia nos últimos dias, dizendo a si mesmo que não era capaz, que não tinha responsabilidades, que nunca seria “alguém”, e tantas outras coisas que sempre ouvira dentro de casa.

Abraçou a velha e a ergueu em seu colo de tanta alegria. Imediatamente se desculpou, culpando a felicidade intensa que sentia. Disse que poderia ficar mais tempo e que a pagaria adiantado por isso. Naquela noite a velha caprichou no jantar para que Adauto se satisfizesse com uma boa comida. A pensão estava mesmo um tanto vazia.

Aquela noite Adauto passou quase toda acordado. Fumou vários cigarros à janela enquanto observava o deleite dos descuidados nos quartos do prostíbulo. Praticamente não dormiu.

Adauto levantou mais cedo, fez a barba e se arrumou da melhor maneira que pôde. Engoliu o café e saiu com um pão com manteiga na mão enquanto se despedia da velha.

Vinte minutos antes do horário combinado com o gerente, Adauto chegou e decidiu esperar. Tomou um café na cafeteria da esquina. Apresentou-se no hotel cinco minutos adiantado. O recepcionista pediu que aguardasse a chegada do gerente, em uma sala reservada. Quase oito e vinte da manhã, um empregado entrou na sala em que Adauto estava para lhe comunicar, pelas ordens do gerente, que a vaga já estava preenchida e que Adauto deveria se retirar. Adauto notou certo cuidado nos olhos e nas palavras do rapaz e logo percebeu sua boa índole, pois teve certeza de que as palavras do gerente haviam sido mais cruéis do que aquelas. As pernas de Adauto se enrijeceram e imediatamente tornaram-se trêmulas. Seus dedos se entrelaçaram para tentar manter as mãos unidas e seu coração começou a bater mais forte. Tentou argumentar:

- Mas combinamos que hoje eu começaria neste emprego!

- Sinto muito, senhor! – disse o jovem.

- Por favor, me chame o gerente! – apelou Adauto.

- Senhor, ele está ocupado neste momento.

- Eu insisto em falar com o gerente! Por favor!

- Senhor, por favor, contenha-se. Peço que saia.

- É aquele, não é? Eu vou falar com ele sobre o que você está fazendo!

Transtornado e vendo que Adauto não desistiria, o jovem então deixou escapar:

- Ele está instruindo o novo recepcionista!

Adauto inconformado continuou:

- Mas eu sou o novo recepcionista!

O rapaz, entendendo a situação, disse aos sussurros:

- Tudo já foi arranjado. Vá para casa, por favor!

Adauto entendeu e saiu do hotel, mas não foi para a casa. Parou no primeiro boteco que encontrou e pediu algo forte para beber. Era um lugar pequeno e estreito. Entre o curto balcão e a parede cabia apenas uma pessoa. Nos cantos do teto havia tralhas de pesca sujas pela falta de uso. Engradados de garrafas competiam com os clientes pelo espaço. Na prateleira, havia garrafas de bebidas de tudo quanto era tipo, das mais variadas marcas baratas. O homem do bar usava uma camisa xadrez completamente aberta para permitir a enorme barriga rígida. Tinha uma caneta atrás da orelha esquerda. Usava chinelos de dedo e não parecia muito limpo, mas tinha uma expressão amistosa e serviu a Adauto um rabo-de-galo, olhando seus olhos como quem vê algo errado por acontecer. Adauto ficou por cerca de meia hora e tomou mais três tragos em um só gole cada. Saiu a passos frouxos para a pensão que, naquela altura, estaria em qualquer lugar. Adauto chegou à pensão por instinto, sem prestar atenção ao caminho. Ao ver Adauto entrar, a velha veio ao seu encontrou cheia de curiosidade sobre seu dia:

- Como foi lá?

Adauto respondeu com os lábios frouxos e a língua preguiçosa:

- Não foi.

- Como assim?!

- Não deu certo, acabou! Vou voltar para onde não devia ter saído.

A velha continuou o interrogatório, vendo-o passar por ela com um olhar fixo e rosto pálido:

- Embora? Do que você está falando? Vamos conversar direito.

- Vou tomar um banho e arrumar minhas coisas! – disse Adauto enquanto subia para seu quarto.

A velha percebeu que ele havia bebido e o deixou subir. Depois conversariam.

Na manhã seguinte, a velha estava fechando a conta de um hóspede quando percebeu Adauto passar para cozinha. Adauto tomou mais água que o suficiente para sua sede. A velha fechou a porta após acompanhar o homem, cordialmente, até a saída. Virou-se e foi ansiosa até Adauto, que estava sentado comendo pão com geleia. Tinha a aparência horrível de quem havia passado a noite em claro acompanhado de lágrimas. Sentou-se a sua frente e encheu uma xícara de café, calada, mantendo os olhos baixos. Tomou um gole e perguntou:

- O que aconteceu?

Adauto engoliu grosso, olhou para a velha e disse em voz baixa:

- Bebi um pouco demais!

- Isso eu já sei! – disse a velha com certa alteração na voz desaprovando o acontecido. – Quero saber o motivo que o levou a isso.

Adauto vacilou em falar, principalmente pelo nó que se formou em sua garganta ao se lembrar do ocorrido. Com esforço, então, ele contou tudo à velha, poupando-a de alguns detalhes, mencionando apenas as frases mais pesadas. Ela meteu a boca no café morno. Não sabia o que dizer. Os olhos correram para os lados como se procurasse as palavras certas e confortantes. Inútil. Não sabia como confortá-lo e tinha certeza de que tinha que fazer algo para que ele não fosse embora antes da hora. Tentou improvisar insistindo no fato de que aquele era um dos lugares que ela dissera para ele não ir, que não deveria ter aceitado aquilo que lhe fora oferecido e que ele deveria ter desconfiado. A reação acuada de Adauto fez com que ela percebesse que estava piorando as coisas e que este tipo de comentário não cabia à situação já consumada. Ela estava há dois dias ao lado dele, apoiando-o e torcendo pelo novo emprego. Resolveu então tomar outra linha de raciocínio. Tinha que convencê-lo a ficar mais aquela noite que lhe restava, não pelo dinheiro da estadia, mas porque sabia o que ele enfrentaria se não tentasse até o último apito do trem:

- O que você pretende fazer?

- Não sei. – Adauto respondeu de cabeça e voz baixas.

- Vai tentar de novo?

- Não sei. – Ele colocou a xícara vazia na mesa e encostou-se na cadeira olhando para o teto em busca uma solução – Minhas coisas estão arrumadas, acho que vou embora.

A velha percebeu que suas palavras não tinham surtido efeito algum, talvez até piorado a situação. Ela tentou aproveitar a deixa:

- Vai voltar para a casa de seus pais? Vai desistir e voltar derrotado apenas tendo lutado uma pequena batalha? Vai voltar para lá e encarar tudo e todos sem saber se teria conseguido algo? Vai assumir sua derrota e passará o resto da vida imaginando o que teria acontecido se ficasse? Vai ficar imaginando se teria conseguido algo ou perdido tudo o que nunca teve? Viverá para sempre embaixo das asas de seus pais, certo de que diante de uma situação difícil a melhor decisão é dar as costas, fugir e desprezar a confiança e torcida que depositaram em você? Será mais um perdedor! E pior, conformado! A vida é curta, meu rapaz! Temos que guiá-la e não deixar que ela nos guie! Temos que enfrentar os problemas de cara, frente a frente. Somente assim conseguiremos alguma felicidade ou satisfação nesta porcaria de vida!

Então, com a voz enérgica e autoritária, a velha bateu com o punho à mesa e continuou:

- Você passou por um momento difícil. Pode ter sido o mais difícil da sua vida, mas lá fora existem pessoas em situações piores e que dariam muito mais do que têm para estarem na sua situação. Estão enfrentando a cada dia, cada hora, cada minuto, problemas maiores e mais complicados do que os seus. Então, meu rapaz, – ela se levantou e falou ainda mais alto, lançando gotas de saliva branca e grossa de seus lábios secos – termine logo o seu café e vá se arrumar imediatamente para continuar sua busca até quando puder ficar! – ela estava decidida a deixá-lo ficar uma noite a mais se fosse necessário, mas não disse nada. - Não permitirei que você se transforme em um covarde derrotado por toda a sua vida!

Adauto não gostava de comparações com situações piores. Achava que as pessoas deveriam medir suas situações com situações melhores e não com as piores. Achava que dizer que algo sempre podia ser pior fazia com que as pessoas se conformassem e se aproximassem deste pior. Deveria ser ao contrário. Somente assim poderiam falar em melhoria de vida. Mas dessa vez, as palavras da velha foram fortes e duras, principalmente pela situação emocional em que se encontrava. Conseguiram despertá-lo. Engoliu o caldo frio do fundo de sua xícara, limpou a boca enquanto se levantava e subiu para o quarto feito um bicho assustado, sem dizer uma só palavra.

Desembestado, subiu as escadas e a velha então completou:

- E vê se dá um jeito nesta sua aparência, que está horrível!

Ela encheu a xícara novamente e tomou um gole de café dando um suspiro aliviado seguido de um delicioso sorriso de satisfação.

Realmente aquele foi um bom dia para Adauto. Estava amedrontado, talvez mais do que quando chegara, mas o ocorrido do dia anterior e as condições que a cidade lhe apresentara lhe renderam algumas precauções, ou porque não dizer, desconfianças, que juntas ao azedume e à queimação que sentia em suas vísceras, davam a Adauto uma expressão mais séria.

Saiu e repassou as ruas, avenidas e alamedas das redondezas. Teve mais cuidado e mais calma. Não parecia ingênuo e nem desesperado como antes. Também não tinha a autoconfiança que apresentava, mas despertava a confiança das pessoas com quem conversava. Não enchia os pulmões de esperança e nem a mente de ilusões. Permanecia tranquilo e não se abalava e nem se humilhava ao receber um “não”. Foi neste dia que retornou à pensão com uma boa notícia. Contou à velha, que estava no balcão da entrada, que conseguiu um emprego em uma loja de tecidos. Estava muito contente e um pouco eufórico, apesar do esforço que fazia para se controlar e não se empolgar como da outra vez:

- Estava passando pela loja e não vi nenhum cartaz anunciando vagas, mas achei o lugar aconchegante e algo me dizia que deveria entrar. Entrei e falei com o senhor que estava no balcão enrolando alguns tecidos. A loja não é muito grande, mas é bem arrumada e limpa e tem um cheiro diferente, um cheiro que chegou a me dar uma leve vertigem, mas não é ruim; pelo contrário. Perguntei para ele se precisavam de alguém. Ele me olhou bem. Passou os olhos por toda parte de mim que podia ver. Perguntou se alguém tinha me mandado até a loja e eu disse que não, que estava apenas passando e, por ter gostado da loja, resolvi perguntar. Percebi que ele tinha alguma desconfiança nos olhos sérios e resolvi contar minha história para tentar confortá-lo. Depois que nossa conversa se passou a fluir, a mulher do homem nos serviu café. Ele me perguntou muitas coisas sobre mim e minha vida. Algumas vezes ele ameaçava um sorriso. Acho que ele gostou de mim. Ele quer que eu vá amanhã cedo para que ele mesmo me explique as coisas de lá. O que ele vai me pagar dará para eu continuar aqui e, conforme for, guardar um pouco!

E nesta euforia contida, Adauto passou um bom tempo após o jantar contando e recontando trechos da sua conquista, ignorando a ordem em que aconteceram. A velha, paciente, ignorava o cansaço e permanecia firme como plateia cativa pelas histórias de Adauto.

Adauto percebeu que estava abusando da paciência da velha, que já estava cansada, e decidiu parar. Além disso, ele teria de acordar cedo no dia seguinte. Naquela noite, mais uma vez, Adauto dormiu mal. Passou a maior parte da noite acordado pela ansiedade do novo emprego. O bordel estava fervendo.

No dia seguinte, Adauto acordou muito contente, mas com precaução para não criar expectativas excessivas. Pode-se dizer que, daquela vez, ao menos um dos seus pés estava no chão. Tomou café da manhã com a velha e, de novo, relembrou-a de toda a conversa com o homem da loja. Terminou o café e saiu um tanto apressado e empolgado para a loja.

A loja era como um corredor não muito largo, com dois balcões paralelos que iam desde a entrada até os fundos, onde havia uma porta, à esquerda, que levava à casa do casal. Atrás de cada balcão, havia prateleiras com muitos rolos de tecidos de todas as cores e tipos. O homem da loja era muito simpático e sério. Ele costumava usar calças de linho muito bem passadas, presas em suspensórios leves que lhe cruzavam as costas sobre a camisa branca. Pela manhã, ele entrava na loja vestindo um paletó e o pendurava; depois, o vestia após fechar a loja. Ele demonstrava respeito e educação. A mulher o respeitava e muitas vezes pareciam conversar entre olhares. Ela o ajudava na loja e quase não falava. Vivia bem vestida com roupas recatadas. Percebia-se nela postura e movimentos elegantes, não se sabia se herdados ou adquiridos, mas eram além da situação em que viviam. Era uma mulher bonita e discreta. Usava pouca maquiagem e os cabelos estavam sempre presos. Sob ordens do marido, ela nunca atendia homens, mesmo se a loja estivesse lotada. Nestas ocasiões, o marido direcionava as freguesas a ela ou, com um olhar, fazia-a ir para dentro.

Adauto seria um auxiliar da loja. Ajudaria o homem nas diversas tarefas corriqueiras necessárias para manter o estabelecimento. Assim, o homem teria mais tempo para se dedicar à venda e à contabilidade. Além disso, Adauto ajudaria na limpeza, na organização da loja e, vez ou outra, conforme necessário, segundo o homem, também faria entregas aos clientes.

O primeiro passo havia sido dado e não fora tão difícil: o emprego estava arranjado. Adauto concordou com o que lhe foi explicado pelo homem da loja. Ele começaria suas atividades no dia seguinte. Ambos estavam de acordo e se cumprimentaram com satisfação. O homem da loja até permitiu um discreto sorriso empolgado diante da pessoa que Adauto lhe parecia ser. Adauto sentiu naquele dia uma grande satisfação e pensou nas palavras da velha sobre a simplicidade. A loja era simples e de pessoas simples que pareciam ter um bom coração. Eram pessoas que em uma simples conversa permitiram a Adauto sentir-se confortável e, de certa forma, mais protegido. Adauto passou a ter boas notícias: arranjara um emprego e ficaria!

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