PATOS

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Capítulo VII

Não se pode dizer que Adauto passou por momentos difíceis naquela cidade, pelo contrário, teve muita sorte. Encontrou poucas dificuldades principalmente se comparado às outras pessoas que chegavam à cidade grande em busca de uma nova vida, assim como ele. A dificuldade, o sofrimento e a derrota eram a regra, Adauto foi a exceção. Conseguiu abrigo, emprego e boa companhia sem demora. Não precisou passar nenhuma noite nas ruas, na chuva ou no frio. Não passou fome e muito menos sofreu com alguma enfermidade sem que pudesse contar com cuidados médicos. Realmente não tinha muito do que reclamar. Tudo caminhara melhor que o esperado. Tinha facilidade em fazer amizades, em conquistar as pessoas e em colher proveito das situações – não por maldade, mas por consequência natural de seus atos. Já era cumprimentado pelo nome na padaria, no boteco, na mercearia e no açougue. Sempre ajudava a velha da pensão com as compras. As pessoas simpatizavam com ele. Com o passar do tempo, ele andava mais sorridente, com o corpo mais solto e os passos muito mais largos. Era seu caminhar largo que provocava a brisa em seu cabelo.

Constantemente trocava cartas com a família, geralmente com a irmã. Vez ou outra a mãe e o pai escreviam cartas juntos, mas por fim decidiram deixar este serviço para a irmã, pois ela ficava muito empolgada em ser a portadora das notícias. Adauto mantinha a família informada. Contava das pessoas e dos lugares que conhecia, prolongando-se com os detalhes de suas relações e dos acontecimentos de sua vida, ao contrário da família, que preferia expor apenas as partes boas, com menos detalhes. Duas ou três vezes por mês, telefonavam uns para os outros. Não era barato usar o telefone e nem fácil conseguir conversar entre as duas localidades. Quando acontecia, durava o suficiente para um “Olá! Tudo bem? Como estão? Tudo bem! Aqui também. Saudades. Também. Tchau. Deus abençoe. Amém”, com cada um que estivesse na casa. Muito mais raramente recebia ligações de seu irmão, que ligava escondido da família do telefone de um bar da cidade. Eram apenas algumas palavras mais longas que aquelas outras, mas de tons profundos que faziam o coração forte e livre. Seu irmão costumava sair da casa do pai quando percebia que a família falava com Adauto. Seguia para a varanda quando ainda tinha o que conversar com o pai, ou simplesmente ia embora. Seu pai percebia isso, mas, apesar de chateado, preferia deixá-lo; as duas ficavam empolgadas demais para perceberem sua ausência.

Na loja de tecidos se demonstrou um empregado dedicado. Ouvia atentamente as orientações do homem e as aplicava da melhor forma possível. Concedia ao trabalho, que era simples, uma grande parte de sua atenção. Por incrível que parecesse, aqueles rolos de tecidos seguiam uma ordem nas prateleiras e esta foi a parte mais difícil de aprender. Os tecidos eram organizados por tipo e origem e não por cores, como Adauto achava. A paciência do homem não era uma virtude, mas era o suficiente para acompanhar o aprendizado de Adauto sem maiores aborrecimentos.

A organização dos tecidos começou a ser ensinada depois de três semanas de trabalho. Neste tempo, Adauto se dedicava exclusivamente à limpeza da loja, que incluía cerca de três varreduras do chão por dia, limpeza das prateleiras uma vez por dia e constante limpeza dos balcões. Tudo isso deveria ser feito sem atrapalhar as vendas e Adauto praticamente se tornava invisível quando havia um cliente na loja. Diante desta presteza, o homem começou a ensiná-lo sobre a organização dos tecidos. Na verdade, não se tratava apenas de ensinar sobre “organização”, mas sim “sobre tecidos”. O homem gostava de Adauto – apesar de não deixar isso muito claro – e via nele mais que um faxineiro, então, decidiu investir mais de seu tempo ensinando-o.

Na quinta semana, Adauto foi escalado para fazer a entrega de uma encomenda. Tratava-se de um enorme pacote bem embrulhado pelo patrão. Não era muito pesado, mas era grande e desajeitado. Deveria ser entregue a uma senhora costureira que o havia encomendado. Esta entrega teria dois problemas que preocuparam Adauto: a velha morava longe e ele nem fazia ideia de onde ficava o lugar; e a encomenda deveria ser entregue apenas mediante o pagamento. Quanto à distância, o homem lhe ensinou e lhe indicou como e onde pedir informações. Quanto ao dinheiro, deixou claro que deveria voltar com a mercadoria ou com o dinheiro. Ainda não era prova “de“ confiança e sim uma prova “para” confiança. Era o momento que o homem teria para testá-lo. Adauto foi com a bicicleta da loja, que tinha bagageiros na frente e atrás, e demorou quase a tarde toda. Chegou a se perder uma vez na ida e duas na volta, mas foram as orientações que ganhou de graça que fez Adauto cumprir sua missão. Selou sua confiança ao entregar ao homem da loja o dinheiro e a gorjeta que ganhou da velha. O homem pegou somente o dinheiro e fechou a mão de Adauto na gorjeta com uma expressão não muito amistosa, quase de alguém ofendido. Ele disse a Adauto que a gorjeta fora dada por gratidão da cliente para com seus serviços e, naturalmente, era dele e não da loja – sempre! Adauto sentiu-se contente e deu um sorriso ao homem, que também sorriu discretamente de canto. Contrariou o homem ao varrer a loja mais uma vez antes de ir embora, mas o fez por gratidão e, por perceber isso, o homem não insistiu.

Desde então, a confiança entre os dois só teve motivos para fortalecer. Em poucas semanas, Adauto já dava conta sozinho de todos os serviços e dispensava o acompanhamento do patrão que então tinha mais tempo para se dedicar aos negócios e aos clientes, com quem era muito simpático e afetuoso. Tratava-os pelo nome sempre olhando em seus olhos. Com os serviços de Adauto, a mulher podia passar mais tempo se dedicando às tarefas do lar. Estava agora sempre ao lado da filha pequena e, após alguma relutância do marido, podia levá-la e trazê-la da escola sozinha. Adauto quase não via mais a mulher, somente no meio da manhã e no meio da tarde quando ela trazia café e biscoitos para os dois na loja. Conversavam muito pouco; eram mais os cumprimentos formais entre olhares curiosos e sorrisos discretamente cordiais.

Com quatro meses na loja, Adauto foi convidado pelo patrão para almoçar com ele e sua família. Ficou atrapalhado em aceitar o convite. Achou que invadiria a privacidade deles e que a velha da pensão poderia se preocupar com sua ausência. Explicou a situação para o homem e este insistiu, dizendo que ele e a família ficariam muito contentes com sua presença. Adauto por fim aceitou o convite e correu até a pensão para avisar a velha. A comida estava muito boa – realmente a mulher tinha jeito para a coisa. Fizeram uma oração que Adauto não conhecia e permaneceram calados durante toda a refeição, exceto quando ofereciam ou pediam as tigelas uns aos outros. O patrão se mostrou contente pela presença de Adauto e tomaram um café juntos à mesa enquanto a mulher tirava os pratos e talheres.

Adauto só teve permissão de realizar as cobranças e trabalhar com o caixa quando a confiança e a amizade entre ele e o patrão atingiu seu ápice, o que aconteceu após um período econômico difícil que atingiu aquele estado. Como tecidos não eram materiais de primeira necessidade, a loja teve uma queda muito significativa em suas vendas. O dinheiro do homem estava ficando cada vez mais escasso e chegou ao ponto de ele ter de dispensar Adauto. Conversaram francamente e o homem explicou a Adauto o porquê de não poder continuar com ele. Adauto não aceitou a situação, não pelo fato de perder o emprego, mas porque sentia que devia ajudar o quase ex-patrão de alguma forma. Então, Adauto propôs ao homem que lhe pagasse apenas o valor da pensão, ficando então no emprego por mais alguns meses. O homem relutou:

- Isto não é justo, garoto! Não posso permitir que você se submeta a estas condições. Tenho conhecidos no comércio e talvez eles possam lhe ajudar.

Adauto não recuou e com um ar cômico disse ao homem que ele não tinha saída. O homem da loja relutou, pois não queria aceitar a proposta insana de Adauto, mas ele estava irredutível. O homem da loja entendia Adauto, pois teria feito a mesma coisa em seu lugar. Então, fez duas exigências: que isso deveria durar no máximo dois meses e se a situação não melhorasse, Adauto teria de sair daquelas condições; e que teria de almoçar com a família todos os dias daquele período. Adauto tentou recusar os almoços, mas diante da expressão inegociável do patrão, aceitou a proposta preferindo fazer sua vontade, pelo menos naquele momento.

Imediatamente, Adauto enviou uma carta à família contando sobre a situação em que a loja se encontrava e a nova posição que assumira. Deixou claro, também, que essa situação poderia acontecer em qualquer lugar e que não havia motivos para preocupações, pois tudo estava sob controle. Recebeu mais tarde uma carta escrita pela irmã com dizeres fortes da mãe, que desaprovava sua atitude. Ela enfatizava que ele não deveria se sujeitar a tais trabalhos escravos e que deveria procurar outro emprego, pois afinal de contas, ele deveria honrar seu nome e justificar o caminho que havia escolhido. Um pouco de dinheiro foi enviado, mesmo a contragosto de Adauto, que o reservou para eventuais emergências. No fim, aquelas palavras deixaram Adauto chateado. Era um momento em que, de certa forma, precisava deles como apoio e não como força plena, um apoio sobre uma importante decisão que moldava sua maturidade e que tinha que ser vivida plenamente. Adauto resolveu dar de ombros e não tentar entender os motivos daquele posicionamento. Pensou que se o pai tivesse recebido ou lido a carta, a situação seria diferente. O que Adauto não sabia era que o pai, apesar do bom coração, assumira o mesmo posicionamento da família quanto à decisão que tomara.

Não foi preciso esperar dois meses. Do fim do primeiro mês até meados do segundo, a situação começou a melhorar e Adauto recebeu parte do seu salário no final do período. Como forma de agradecimento pelo seu companheirismo, uma cesta de guloseimas fora entregue a Adauto com um forte e caloroso abraço do homem. A mulher ficou ao lado com um sorriso no rosto que demonstrava seu orgulho e gratidão.

Adauto passou a realizar as demais funções da loja. Passou a atender os clientes e a tomar conta de tudo quando o homem precisava sair. Participava de comemorações da família e às vezes fazia passeios com eles pela cidade aos fins de semana. Com as entregas e os passeios, Adauto começou a conhecer melhor a cidade. Conheceu pontos turísticos, culturais e de lazer. Esses passeios pela cidade passaram a ser constantes em suas manhãs de domingo, mesmo sem o pessoal da loja. Cada segunda-feira, uma carta era enviada à família contando as novidades e também os passeios dominicais que só não aconteciam quando o clima não lhe dava condições para sair às ruas.

Num domingo daqueles, Adauto foi visitar uma igreja antiga no subúrbio oeste da cidade, mas ela estava fechada para reformas. Adauto sentiu-se frustrado, pois não tinha outros planos e nem mesmo tempo para visitar outro lugar. Além do mais, igrejas eram seus pontos turísticos preferidos. Teria que voltar à pensão. Mas ao sair da igreja, notou, do outro lado da praça, uma avenida curta que terminava na entrada de um parque. Resolveu ir até lá para ver se havia algo interessante. Era um parque pequeno e definitivamente não era referência turística da cidade, principalmente por causa de sua localização. Era cercado por grades enferrujadas onde a tinta verde-escuro faltava. Do lado de fora, não se podia ter noção de como era e do que acontecia lá dentro. A rua da entrada principal era intransitável, cheia de carrinhos de pipocas, de algodões-doces, barracas de souvenires e doces. Por entre o comércio, pais de família, que gastavam horas de viagens durante a semana para ir e voltar do trabalho, acordando bem antes do sol nascer, aproveitavam o tempo livre para levar a família para passear. Sobre o portão de entrada, havia um arco escrito o nome do parque em ferro fundido. Dali iniciava um caminho largo de pedras assentadas que se ramificava pelo parque em outros caminhos que terminavam em mesas e bancos de madeiras para piqueniques, bicas d’água, fontes decorativas tomadas pelas mais diversas aves, banheiros públicos e comedouros para os pássaros, tudo sob as sombras frescas das árvores de enormes copas fechadas. No centro do parque, cercado pelas árvores, havia um lago pequeno, com água velha e esverdeada. Um gramado estreito cobria um trecho em declive da margem do lago, onde as pessoas se espalhavam sobre toalhas e lençóis velhos para tomar sol, conversar e comer. Conforme Adauto contornava o lago, outras cenas apareciam. O parque então começou a se tornar mais fechado e a partir dali, provavelmente, só os animais tinham acesso. Entretanto, o lugar começou a tomar a atenção de Adauto, que havia diminuído os passos inconscientemente. As margens laterais à sua visão tomavam formas e posições que fizeram sua testa franzir e o seu rosto enrijecer em uma expressão de desconfiança e dúvida. Depois de alguns passos frouxos, embaixo de uma das árvores da margem acessível, foi que Adauto, perplexo e estagnado, encheu os pulmões ao entender o motivo daquelas sensações. Estava diante de uma cópia, embora nada fiel, da lagoa que costumava visitar nas terras de onde viera. Seu coração bateu forte e, como se seu corpo estivesse sob um controle que não o dele, sentou-se sobre as pernas cruzadas. Encostou-se na árvore e ali ficou por horas apenas observando. Várias recordações vieram à mente, várias sensações vieram ao coração. A família, os amigos, as garotas, as brincadeiras, os passeios, enfim, os bons tempos em que viveu lá. Chorou. Foi um choro gostoso, saudoso, que lhe afagava o coração, mas que teve de ser interrompido quando notou um casal de velhos observando-o com uma inconveniente preocupação. Ainda tinha o rosto úmido quando percebeu que já havia passado do meio-dia e que precisava retornar à pensão. Daquele dia em diante, foram raros os passeios dominicais que não tinham o lago do parque como destino.

A primeira visita ao parque foi descrita em detalhes à velha da pensão e à família em uma longa carta. O patrão apreciou o relato, mas ele não tinha mais afinidades com este tipo de local, pois já estava urbanizado o bastante a ponto de não se comover pelo interesse de Adauto.

Adauto já era notado no parque pelos vendedores e por alguns aposentados que usavam os tabuleiros encravados nas mesinhas de concreto. Especialmente aquele lugar, que tanto o lembrava de onde passou sua infância. Vez ou outra comprava pipocas que comia debaixo da árvore, o que o fez conhecido também pelo pipoqueiro.

No lago havia alguns patos – por ser um parque do subúrbio e não de referência, ao invés de cisnes ou gansos, a prefeitura preferiu soltar patos de bom porte, que passavam o tempo todo na água limpando e engordurando as penas. Dificilmente se aproximavam da sombra em que Adauto se abrigava; preferiam a borda com gramado onde podiam encontrar uma ou outra migalha ignorada pelos visitantes. Num domingo nublado, o parque estava quase vazio e um dos patos foi em direção a Adauto. Nadava de um lado para outro, olhando de canto como se não tivesse interesse, ao mesmo tempo em que se exibia para obter atenção. Mas Adauto estava interessado no que lia em sua revista e não percebia o pato. Adauto somente o percebeu após algum tempo, quando parou a leitura para uma relaxante espreguiçada. Percebeu que o pato não estava apenas passando e que havia certo interesse em seus movimentos. Adauto também se interessou e achou divertida aquela situação. Adauto tinha um saquinho embrulhado com algumas pipocas que não havia comido e arremessou uma delas ao bicho. Acompanhando a trajetória da pipoca com a cabeça e, desconfiado, o pato permaneceu onde estava. Adauto, um pouco interessado, agitou a água com as pontas dos dedos fazendo sons com boca para atrair o pato, que ainda permanecia parado, apenas mexendo a cabeça de formas estranhas para poder ver Adauto e a pipoca. Era uma cena engraçada.

Frustrado, Adauto resolveu deixar o pato de lado e voltou à revista. Ao virar uma das páginas, notou, em seu campo de visão, o vulto do pato se mexendo na água. Movendo apenas os olhos, viu o pato, agora mais perto, olhando-o com os mesmos movimentos estranhos e desconfiados, porém, algo estava diferente: a pipoca não estava mais lá. Adauto examinou cuidadosamente a água e as bordas próximas e sorriu. O pato havia comido a pipoca! Agora, mais empolgado, Adauto arremessou outra pipoca. O pato continuou desconfiado. Os movimentos eram os mesmo. Outra vez, quando Adauto deixou de olhá-lo para voltar à revista, o pato a comeu. Então, Adauto lançou outra pipoca, agora bem próxima à margem. O pato ergueu mais o pescoço, olhou para a pipoca, para Adauto, para a pipoca novamente, virou-se e pôs-se a nadar em direção aos outros. Adauto achou-se estúpido por querer que o pato desconfiado viesse tão perto dele em tão pouco tempo.

Já era hora. Levantou-se para ir embora. Adauto jogou na água as poucas pipocas que ainda murchavam no saquinho para caso o pato voltasse. Prestes a entrar no caminho de pedras que o levaria ao portão principal do parque, virou-se e olhou para onde estava sentado. Como se tivesse adivinhado, o pato estava embaixo da árvore, na água, comendo as pipocas.

Ao fim daquele ano, Adauto tinha conseguido dinheiro suficiente para visitar a família. O patrão lhe deu três dias de folga para que pudesse passar o natal com eles. Adauto foi tomado por uma enorme euforia na semana anterior à partida de seu trem. As horas eram maiores que antes e seus pensamentos adiantavam sua viagem. Logo estaria nos braços da família novamente. Poderia rever os amigos. Cavalgar. Nadar. Pescar. O tempo que teria não seria suficiente e ele se apressava em montar uma agenda em sua cabeça.

Naquelas manhãs, recebia um “Bom-dia, faltam tantos dias...” da velha da pensão. Isso o animava e fazia seu dia melhor. O patrão ria de canto ao ver seus movimentos soltos nos passos largos e na expressão de satisfação. Adauto estava radiante.

A viagem durou muito mais do que deveria, não por imprevistos, mas pela ansiedade que revirava seu coração. As paisagens que vira em sua viagem de ida eram diferentes quando eram notadas agora, na volta. Adauto olhava, mas não via. Imaginava. Mas foi quando reconheceu a roça que passava por sua janela que percebeu que o trem estava chegando e que podia ser facilmente visto da plataforma da estação. Ajeitou-se na poltrona. Alisou sua camisa – usava sua melhor roupa que somente usara em um jantar especial na casa do patrão – e pôs a cabeça para fora para ver se via quem teria ido buscá-lo.

O trem estava lento o suficiente para que ele pudesse ver os pais e a irmã na plataforma, mas a ânsia embaçou sua vista. Apenas desconfiou tê-los vistos. Desembarcou na plataforma antes da composição parar e correu ao encontro da família que vinha a passos rápidos em sua direção. Jogaram-se desengonçadamente uns nos outros, machucando-se inocentemente e acolhendo-se em um abraço que os uniu mais uma vez depois de tanto tempo. A celebração terminou quando o pai de Adauto julgou melhor continuarem a festa em casa, mais aconchegante do que na plataforma da estação. Quando o carro partiu, Adauto viu seu irmão dentro da caminhonete, observando-os de longe. Parecia feliz.

O que se sucedeu era de certa forma esperado. Era o reencontro de uma família com o filho que há muito não viam. Tudo foi recheado das melhores comidas, bebidas e utensílios. Tinham muito que conversar. Conversavam sobre tudo, inclusive sobre o que já haviam conversado nas cartas. Adauto era quem mais falava, afinal, era quem mais tinha novidades. Descreveu sua chegada, as pessoas, a pensão, a velha da pensão, o trabalho, a loja, os patrões, o boteco, a cidade, enfim, tudo o que passara a fazer parte de sua vida. Percebeu, com espanto, a forma com que o fazia. Parecia um vendedor negociando um terreno em um paraíso tropical com os últimos habitantes do planeta. Deu-se conta disso e sentiu-se traído pelos próprios sentimentos, que revelavam a transformação que havia acontecido, nunca antes percebida. Era estranho e bom, ao mesmo tempo.

Sua família não havia mudado, com exceção da irmã, que estava muito mais crescida; estava se transformando em uma moça linda de silhueta de dar inveja a muitas mulheres. Apesar de ser proclamada ótima aluna e excelente dona de casa, Adauto não a achou tão inteligente. Em sua ausência, a mãe continuava seu domínio e, mais do que nunca, a filha e ela viviam uma mesma vida com os mesmos pensamentos. Os relatos da mãe se resumiam às virtudes únicas de sua filha e aos escândalos e deslizes comprometedores de algum conhecido da vila. Adauto retribuía com uma atenção falsa e momentânea que era interrompida com alguma tentativa de conversa com pai.

As conversas com o pai só foram mais concretas na sala ou fora da casa, onde ficavam mais à vontade. Achou que o pai estava mais tranquilo do que já era. Adauto pensava que deveria ser a idade que acalmava seu espírito e o presenteava com sabedoria. Os dois tiveram ótimas conversas sobre a fazenda, sobre os negócios, sobre a vida e sobre o irmão de Adauto. Seu pai lhe confirmou que a situação era praticamente a mesma de quando partiu. Mas assim foi apenas nas primeiras conversas com o pai, pois nas outras o irmão participou. Adauto e seu irmão se encontraram com um abraço apertado e beijos esmagados nos rostos, que foram interrompidos por tapas fortes do irmão em suas costas para evitar o derrame das lágrimas que lhe enchiam os olhos. Os três tiveram ótimos momentos. Visitaram a casa do irmão de Adauto. Reviu a cunhada que parecia melhor do que antes – tinha um olhar mais vivo e um sorriso mais presente. Não era mais cabisbaixa. O sobrinho era enorme e tinha os olhos do pai e os lábios da mãe. Adauto ficou contente ao ver o pai na cozinha do irmão sentado à mesa enquanto comia um pedaço de bolo imposto pela nora – havia uma relação muito boa entre eles. A família não permanecia completa nem nas refeições e nem nos fins de noite, quando o irmão e sua família retornavam à sua casa. A mãe de Adauto nunca comentava a situação e atuava esplendidamente a ponto de parecer que nada acontecia. Adauto preferiu não perguntar nada e deixar a tudo como estava.

A única refeição que tiveram todos juntos foi a ceia de natal. O pai de Adauto lhe disse que era a única em que seu irmão e sua mãe não se opunham, mas sentavam-se longe um do outro e não trocavam palavras nem olhares. E foi nesta santa refeição que Adauto, imensamente feliz por estar novamente entre a família – completa – resolveu fazer a oração. Orou como de costume, mas cometeu um grande erro ao resolver improvisar a conclusão. Pediu a Deus que mantivesse a família unida como estava. Pediu que ajudasse a todos a superar as divergências e que a paz pudesse reinar novamente e tantas outras coisas que só fizeram constranger a todos. Quando terminou, o irmão estava trêmulo tendo a esposa segurando seu braço direito; o pai parecia saber o que estava por vir; a mãe tinha um olhar frio e reprovador, que penetrava o interior do crânio de Adauto como um furador de gelo através de seus olhos, paralisando-lhe a alma. Foi então que a irmã, boca da mãe, completou aquele “ataque” aos sussurros:

- Fica tanto tempo fora e agora volta querendo se meter na vida dos outros!

Ao ver uma lágrima suicida num dos olhos de Adauto, ainda resmungou:

- Pronto, agora vai chorar!

Adauto não se mexeu e nem mesmo tentou consertar – naquele ponto, sabia que aquilo não tinha conserto. Havia acabado com a ceia de Natal e com o reencontro da família. Por mais constrangedora que fosse aquela situação, não conseguia enxergar maldade no que havia dito. Estava feliz e seu coração batia forte como tambores em dias de festas. Exalava felicidade e prazer. Queria muito que tudo fosse como era antes, sem os problemas que eles viviam e tentou inocentemente reconciliar todos. Foi então que percebeu que a irmã podia estar certa: ele não fazia mais parte da vida deles. Neste momento de revelação, desejou não ter dito nada. Desejou estar no seu quarto da pensão, onde seus sentimentos não seriam questionados.

Após a conclusão da irmã, ninguém disse mais nada. Todos abaixaram as cabeças e comeram mais do que a fome restante lhes permitia. Ao terminarem, a mãe e a irmã foram para a cozinha cuidar da louça aos cochichos, o irmão e sua família levantaram-se para ir embora e o pai sentou-se na varanda para amargurar sua incompetência em unir a família.

Adauto acompanhou o irmão e sua família até a varanda. Pensou em se desculpar, mas o olhar compreensivo do irmão proibia qualquer atitude deste tipo. Abraçaram-se e combinaram de se encontrar pela manhã. Beijou a cunhada e o sobrinho. Voltou-se e apoiou os cotovelos no parapeito da varanda, próximo ao pai. Permaneceram assim longos minutos até que Adauto resolveu ir dormir. Beijou o pai, que também o beijou e abençoou seu sono, dizendo com um sorriso que não devia se preocupar com o ocorrido no jantar, pois aquelas coisas aconteciam. Adauto foi para o quarto e sentou-se no batente da janela. Fumou um cigarro e, sem pensamentos, apenas assistiu aos movimentos da fumaça no ar gelado da noite se misturando com a neblina e, então, quis não estar ali. Sentiu-se um estranho naquele lugar e, pela primeira vez, pensou em seu quarto na pensão como o seu “lar”.

O dia seguinte foi um dia de natal comum na família, considerando as emoções de se ter um filho de volta ao lar. Era como se nada de errado tivesse acontecido durante a ceia. Apenas Adauto parecia ter vivido os horrores da noite anterior. Todos agiam como se a ceia tivesse sido memorável. Foi neste momento que Adauto se sentiu mais estranho ainda àquele lugar e àquelas pessoas. Depois de todo aquele constrangimento, tudo parecia normal.

Adauto tentou fazer parte daquela hipocrisia e terminar o fim de semana sem conflitos familiares. Fez o passeio que combinara com o irmão. Conversou sobre banalidades com ele, apesar de terem tanto que conversar um com o outro. Talvez fosse o clima do “maravilhoso fim de semana” que os fizera agir daquela forma. As bocas falavam de coisas que os olhos não queriam. Ambos sabiam disso e, mais ainda, estavam conscientes disso. O pai, que assistiu à partida de Adauto para o passeio, estava pronto em sua chegada.

Naquele fim de semana, Adauto conseguiu encontrar alguns colegas, mas não todos que queria, principalmente, sua última amante. Desejava muito tê-la encontrado, ainda mais depois de tudo que acontecera. Achou que com ela teria um ombro, um abraço onde se aconchegar, mas ela não estava na cidade. Ele pensou que podia tê-la avisado que iria, afinal, tinha a sensação que todos parariam para recebê-lo.

Ademais, tudo correu como planejado por sua família. Encontrou as pessoas que eram destaque naquela sociedade, pessoas que tinham importância na vida dos demais, mas dignas de contestação na dele. Parecia uma peregrinação em que Adauto, entre chás e cafés, era reapresentado às pessoas das quais nunca sentiu o mínimo de falta e nem mesmo se lembrava de que existiam. Ele nunca havia desejado tanto a plataforma da estação.

O tempo que conseguiu livre na agenda pré-definida foi usado para passar com o irmão e sua família. Conseguiu almoçar e jantar na casa dele. Brincou com o sobrinho e dele tirou lindas e inocentes gargalhadas usando as mesmas técnicas que seu pai usava com ele, com os irmãos e com outros bebês. E soube que disso sentira falta.

Enfim, chegou o dia da sua partida e Adauto sentiu uma forte ânsia de chegar à pensão. Passou na casa do irmão para se despedir. Dos amigos já o havia feito de forma superficial, para caso de não se encontrarem novamente por aqueles dias – o que realmente não aconteceu devido às visitas que teve que cumprir. Já era quase onze horas e seu trem partiria às doze. Apressaram-se e partiram todos da casa de seu pai para a estação. Mais uma vez, Adauto estava com uma sacola enorme de quitutes para sua viagem. Iniciou-se o ritual de despedida com fortes abraços, beijos e todos os tipos de bênçãos que só terminou ao segundo apito para embarque, quando Adauto se arrancou para dentro do vagão. O trem partiu e Adauto estava na janela acenando para a família frenética na plataforma. Seu coração batia cada vez mais apertado e sentiu certo alívio quando a máquina fez a curva aos berros. Foi pego de surpresa por uma sensação de abandono e ficou confuso como se não houvesse um norte para sua bússola. Não sabia se devia partir ou se devia ficar. Todos sofriam, uns prendiam as lágrimas, outros não. Pensou em correr de volta para os braços deles, mas o trem acelerava e a plataforma já estava longe. Não tinha mais nada a ser feito. Assim que os perdeu de vista, desmontou-se na poltrona. Os ombros afrouxaram e tímidas lágrimas rolaram rosto abaixo. Adauto tentou dormir para encurtar a longa viagem.

De volta à cidade, Adauto se preparou durante toda a semana para visitar o lago do parque. Apesar de ter matado as saudades em suas terras, aquele era, então, um novo refúgio. Somente os acontecimentos bons foram contados à velha da pensão e à família da loja. A outra parte Adauto preferiu esquecer. Foi uma semana difícil, não pelos afazeres, mas sim pela ânsia pelo domingo, que só o fazia tardar a chegar.

Enfim domingo. Adauto acordou bem cedo. Foi para o parque, apesar do tempo nublado. Levou migalhas de pães que raspou da mesa do café na pensão, embrulhadas em pedaços de um saco de papel. Eufórico, sentou-se sob a árvore e vasculhou o lago em busca dos patos, mas demorou a encontrá-los. Abrigados em uma moita de capim-fino, eles se protegiam das brisas geladas que se transformavam em ventos mais fortes e que balançavam gentilmente as árvores. Quase não havia gente no parque. Pelo menos havia o pipoqueiro para caso das migalhas de pães não serem suficientes. Sabendo agora onde estavam os patos, Adauto começou o ritual que havia desenvolvido para atraí-los em suas últimas visitas. Foi até um lugar em que os patos podiam vê-lo e arremessou algumas migalhas à água. Mesmo estando do outro lado do lago, isso serviria para mostrar aos patos que ele havia chegado. Permaneceu alguns instantes em pé, apenas aguardando alguma demonstração de reconhecimento por parte deles. O pato maior, que devia ser o líder, foi o primeiro que se manifestou, erguendo a cabeça e olhando de lado. Timidamente, o bando respondeu com uma modesta movimentação. Logo, Adauto notou que o primeiro pato, aquele de semanas atrás, o mesmo, havia saído do meio dos outros e se fez visto. Adauto soube, então, que o contato havia sido feito e retornou para debaixo da árvore, mas antes garantiu com o pipoqueiro um saquinho de pipocas.

Demorou, mas logo os patos vieram. E como peixes na ceva, disfarçaram uma parada onde ainda havia algumas migalhas jogadas e rumaram próximo à árvore. Quando estavam à distância que sempre mantinham, Adauto semeou o resto das migalhas. Atacaram-nas desconfiados, mantendo os olhos em Adauto, que se mantinha calmo e com movimentos macios. Aquele era um momento gratificante e aconchegante para ele. Os patos, comendo ao seu redor, demonstraram uma confiança que, apesar de mínima, era sincera. Eles comiam, olhavam-no, desgarravam-se e voltavam mais perto para vê-lo, e logo voltavam ligeiros ao bando. Adauto sorria e se sentia feliz com essa dança. Não conseguia livrar-se dos problemas, mas os fazia menores. Pensava neles, mas com mais tranquilidade.

Foi neste dia que Adauto, embaixo da árvore, virou-se e viu o pipoqueiro e um senhor olhando-o como se tivessem visto fantasmas. Adauto não entendeu o que acontecia. Pensou em ir até eles e perguntar se havia algum problema, mas foi aí que ele percebeu algo estranho. A voz que constantemente ouvia ali havia se calado. Olhou de volta para os patos que comiam menos desconfiados. Adauto olhou novamente para os homens, que desviaram os olhares percebendo o constrangimento do rapaz. Adauto, assustado, jogou o resto das pipocas aos patos, levantou-se e, sem se firmar completamente, saiu em passos rápidos e incertos, tropeçando e esbarrando nas pessoas, bancos e outros objetos do caminho. Somente quando se sentou na poltrona do ônibus para a pensão consentiu:

- Meu Deus, eu estava conversando com eles!

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