PATOS

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Capítulo VIII

No ano seguinte, assim como os negócios da loja, a vida de Adauto havia melhorado, atingindo certa estabilidade financeira, o que o permitiu economizar algum dinheiro para visitar a família duas vezes até o fim do terceiro semestre. Já tinha a plena confiança do dono da loja e da velha da pensão, que lhe ofereceu um quarto melhor pelo preço que pagava pelo seu. Mas Adauto recusou. Gostava de seu quartinho, de cada móvel surrado, de cada ranhura dos tacos, de cada trinco dos azulejos do banheiro, dos rangidos das torneiras, das maçanetas quebradas do criado-mudo e da cabeceira cafona da cama; gostava das manhãs no chuveiro, das manchas que faziam parte do reflexo do seu espelho, da penumbra da lâmpada central e das formas e movimentos das sombras trêmulas que dançavam com a luz do lampião, dos barulhos cansados das molas deformadas do colchão, do ar pesado e mofento que sentia ao chegar do trabalho e dos guinchos que rasgavam seus tímpanos ao abrir a janela. Todas as suas coisas se encaixavam naquele mundo. E ainda havia a vista noturna da avenida.

E foi ao lado da janela com o lampião aceso que Adauto passou quase todas as noites que viveu na pensão, olhando tudo que a janela lhe revelava. Olhava as pessoas que voltavam para casa, os bêbados que cambaleavam e falavam em voz alta, as brigas, namoros, descasos, miséria, podridão, luxúria e as luzes da cidade. Mas Adauto também tentava ver. Em cada pessoa, ele tentava ver o que seus olhos, gestos e expressões demonstravam. E via os trabalhadores que voltavam para casa, ansiosos pelo encontro com a família, com olhares vazios e expressões infelizes após cumprir sua árdua rotina que logo recomeçaria e nada lhes traria, a não ser o eterno fracasso de uma vida condenada; via os bêbados que exaltavam a vida e tudo o que fosse motivo para mais um gole, que escondiam suas dores e temores na embriaguez que lhes permitia o alívio necessário para que conseguissem começar mais um dia; via os amigos e amantes que terminavam e recomeçavam relações entre tapas e pontapés, lágrimas e sorrisos, por contas de problemas secretos, que ora eram escarrados à rua, ora ditos por olhares cúmplices; e também via os que apenas apertavam o passo ou mudavam de calçada sem olhar para os lados para manter a pureza de seus fétidos pensamentos, se afastando daqueles que julgavam pecadores imorais ou vermes condenados a sobreviver do resto das migalhas dos que se viam em atos nobres de doações hipócritas, que por sua vez salvariam e dignificariam suas almas para mais tarde se lambuzarem como porcos no cio com as prostitutas que trabalhavam na casa da frente. No fim de tudo, Adauto sabia que tudo isso era o que ele tentava ver e que talvez não o que realmente fosse, mas apenas o que podia ser.

A localização da janela da pensão e o terreno da cidade permitiam que Adauto pudesse ver, além da rua e sobre os telhados das casas, uma faixa estreita de pontos brilhantes e latejantes, de tonalidades variadas e de distribuição desordenada. Eram luzes de postes, janelas de casas e de apartamentos e veículos, que para Adauto sinalizavam vidas. Muitas precisavam ou esbanjavam necessidades, outras eram direitas ou esquerdas. Vidas louváveis ou malditas, corretas ou sombrias, contadas ou escarradas. Adauto imaginava que sob cada luz havia famílias que tinham histórias, problemas, felicidades, discórdias, festas, injustiças e tantas outras coisas que ocorrem às pessoas que ainda respiram. Esta perspectiva permitia a Adauto ter uma mísera noção da real extensão do outro mundo que existia além dos limites de sua vida. Isso o fazia sentir-se pequeno, não desprezado, mas não único, e seu coração se enchia de algo indefinido que ele não sabia se era pena ou fraternidade, só sabia que era bom. Na verdade, o que Adauto não sabia era que, antes de qualquer coisa, ele tinha certas necessidades obscuras à sua compreensão, sedentas pelos sentimentos alheios que ele colhia à janela do quarto, com o lampião aceso, com os olhos atentos que queriam ver e entender por horas e horas.

O prostíbulo era outro foco da atenção de Adauto durante esses momentos ao lado de sua janela. Dependendo do dia da semana e da hora da noite, o bordel borbulhava excitação. A porta da entrada praticamente não se mantinha fechada. Havia um interminável entra e sai do salão principal e das demais dependências, muitos panos coloridos, risos, enfeites cafonas, jogos, violências, exposição de mercadorias, tudo sob uma pesada mistura de fumaça de cigarros, embriaguez e perfumes baratos que completavam o ambiente. A maioria das janelas ficava acesa e às vezes, por calor ou displicência, tinha as cortinas abertas, revelando a luxúria de corpos entrelaçados em movimentos vorazes e desordenados, que tentavam se fundir violentamente em histeria total até o êxtase pleno, quando trêmulos e exaustos se separavam como se nunca tivessem se tocado.

E diante do que lhe revelavam as janelas, Adauto tinha seus desejos despertados. Desfazia-se ao ver as moças serem tomadas de todas as formas e jeitos – as desejava intensamente. Não lhe sobravam o dinheiro e a coragem suficientes para visitá-las. Sim, ele já havia sondado o casarão sobre os serviços que prestavam. Apesar de a ideia nunca lhe abandonar, apenas aguardava a hora que lhe coubesse. Porém, o simples fato de imaginar uma visita às moças causava-lhe sensações descontroladas. Ao passar do carnal desejo para a simples ideia de atravessar a rua e bater à porta do prostíbulo como um cliente, sentia um imenso frio na barriga. Um vazio lhe dava calafrios que desciam a espinha e lhe causavam tremulações descontroladas nas pernas. Não tremiam simplesmente, mas chocalhavam, pulavam intensamente, batendo os pés nos móveis e no assoalho, fazendo barulho suficiente para incomodar o hóspede debaixo. O frio aumentava e as pernas se agitavam ainda mais fazendo com que Adauto usasse o peso do tronco sobre as mãos pousadas sobre os joelhos para tentar diminuir os espasmos. Sua excitação não diminuía, pelo contrário, sua mente continuava desenhando como seriam os próximos passos após a porta do casarão. A histeria continuava aumentando e lhe revelava a barriga através de uma enorme incontinência que se fazia cada vez mais insuportável. Os intestinos vacilavam e Adauto tentava se enrijecer como podia para manter-se dentro de si. À primeira reação dos intestinos, Adauto se arrastava ao banheiro. Depois, lavava-se com água fria e ia para cama, vergonhoso, e deitava para dormir pensando em como poderia prestar alguma visita às moças se o simples pensar o fazia passar por esta situação patética.

Ao fim daquele ano, Adauto escreveu orgulhoso para os pais dizendo que iniciaria um curso de contabilidade. Era um curso noturno e ele poderia ir à pé à escola após o trabalho na loja. Por seus pais não conhecerem a região, Adauto não precisou contar sobre o cuidado que ele deveria ter no retorno tarde da noite pelas ruas próximas à escola. Contudo, teve de dizer que visitaria menos a família. Não disse que o motivo era o dinheiro, mas sim que os estudos lhe tomariam muito tempo e que ele pretendia usar os fins de semana para isso – essa desculpa funcionaria melhor para diminuir a ansiedade da mãe.

Em resposta, recebeu várias perguntas sobre onde jantaria, se não tomaria banho antes de ir à escola, que horas chegaria a casa, se contabilidade daria dinheiro, além de recomendações sobre as roupas, cabelo e comportamento na escola. Apesar das preocupações estavam felizes. Seu pai deu um leve sorriso orgulhoso e aliviado quando a filha leu a carta.

Felizes também ficaram a velha da pensão e o dono da loja, que se viu em Adauto relembrando sua trajetória naquele país. Bateu em suas costas desejando a merecida sorte e recomendou que batalhasse e não desistisse fácil.

E assim o fez. Trabalhou na loja durante o dia, frequentou as aulas durante a noite e estudou para as provas nos fins de semana. Antes de sair para a escola, a mulher da loja pedia para o marido chamar Adauto e lhe servir café com torradas, para que não fosse de estômago vazio. O café era servido na cozinha da família e a mulher permanecia em pé cuidando do jantar. A velha da pensão deixava o prato de comida de Adauto pronto no forno da cozinha e quando podia, aguardava-o para conversarem enquanto comia.

Adauto retomou suas visitas aos patos, que haviam sido suspensas temporária e conscientemente durante o início do curso. No começo, tomava o máximo de cuidado para evitar aquelas conversas. Percebeu estar sob a vigia mal disfarçada do pipoqueiro. Não era fácil, pois quando percebia estava quase depondo sua vida aos patos. Com o passar do tempo, vendo que era inevitável, assumiu consigo e falava aos sussurros, quando não havia alguém por perto. O pipoqueiro tornou-se um bom colega, trocando palavras gentis e brincadeiras comportadas. Adauto sabia que o pipoqueiro sabia de suas conversas, mas este último tentava não demonstrar isso a Adauto e sempre agia como se Adauto lá não estivesse. Ora ou outra, Adauto se descuidava e se tornava alvo de risadas e espantos de outras pessoas que o viam conversando com os patos. Ele os ignorava, não ligava, mas preferia evitar. Certa vez, pipocas foram arremessadas a Adauto por um velho grande e vermelho, com poucos cabelos brancos, que se mostrava diante dos amigos desocupados gozando Adauto, chamando-o como se ele fosse também um dos patos.

A confidência dos patos, que o ouviam pacientemente sem acusá-lo, dava a Adauto a profunda sensação de paz e de tranquilidade e, com o tempo, fez com que ele deixasse os cuidados de lado e passasse a proclamar sua vida a eles. As pessoas o viam, inconformadas, e traziam os amigos e familiares descrentes para que testemunhassem com os próprios olhos. O parque ganhara mais um atrativo, o melhor, Adauto, que passou a ser conhecido como o “rapaz dos patos”.

Adauto conheceu várias pessoas e fez muitas amizades na escola, mas nenhuma podia ser comparada com a que teve com o rapaz que se sentava ao seu lado na sala de aula. Tornaram-se grandes amigos e construíram desde o princípio uma amizade verdadeira e companheira. Passaram a se conhecer plenamente, conheciam as pessoas com quem conviviam, os lugares que frequentavam, as coisas de que gostavam e as famílias, inclusive. O amigo de Adauto conheceu a sua família, participando de duas de suas viagens de trem. A família do amigo foi a mais visitada, pois ele morava com ela naquela mesma cidade. Adauto estava sempre presente nas comemorações que aconteciam na casa dele. Era uma família rica, mas com diversos problemas. Adauto sempre estranhou a relação entre eles. Os pais do amigo pareciam ter o filho como uma etapa da vida a ser cumprida. Adauto tinha a referência do carinho familiar como algo diferente daquilo e sabia que a exceção não era sua família. Presenciou algumas situações em que o pai cobrava o filho por aquilo que ele não precisava e nem tinha como ser, mas que representaria menos débito em seu balanço mensal. O dinheiro ditava as regras naquela casa. O filho só tinha acesso às coisas que pudesse restituir caso causasse danos. Adauto presenciou um destes momentos em que o pai dizia ao filho:

- Você tem dinheiro para consertar isto se você o quebrar? Então, quando você tiver este dinheiro, poderemos conversar novamente sobre isso!

O amigo nunca fez queixas a Adauto e sempre tentava não demonstrar o desconserto que isso lhe causava. Mesmo diante destes momentos, o rapaz ainda mantinha o mesmo respeito e amor pelos pais.

O pai do amigo era duro com a família e mole com os outros. Todos os outros. Esta postura custou um bofetão na cara do filho, cessando o fim de uma conversa cuja última frase soltou aos berros:

- Enquanto o senhor nos cobra a roupa que vestimos, permite que os outros lhe façam de idiota, de empregado!

Foi a única reação contrária e evidente do amigo que Adauto presenciou. Nas demais situações, o rapaz defendia os pais de uma maneira que pudesse convencer a si mesmo que aquilo estava certo.

Como o rapaz tentava aceitar a situação, Adauto permanecia calado – e estupefato – e tentava distrair o amigo nestes momentos.

Após um almoço dominical, sentados na varanda da casa tomando um café fresco, o pai do garoto propôs um emprego a Adauto. Disse que precisava de um contínuo em seu escritório e que este contínuo deveria cursar, no mínimo, o penúltimo ano do curso técnico em contabilidade, pois havia grandes chances de crescimento profissional e, a seu ver, Adauto era o mais indicado, pela confiança que exalava e pelo provável adequado perfil, farejado pelo pai do amigo.

Adauto assustou-se com a proposta. Além de ser uma grande chance para ingressar na área para a qual se preparava, o salário oferecido era muito maior do que o da loja. Com a boca cheia de um “sim” decidido, viu o amigo com olhos arregalados para o pai e uma expressão de indignação:

- Como assim, papai? Pensei que eu fosse...

Foi interrompido pelo pai, que disse sem virar-se para o filho:

- Cale a boca, moleque, seu futuro já está guardado. Deixe de ser imbecil!

E o homem continuou, dirigindo-se a Adauto:

- Não ligue para ele! A mãe o mima demais. E então, o que me diz, meu rapaz?

Depois de entender a reação do amigo, Adauto não tinha mais como soltar aquele “sim” presente em sua boca. Disse que precisava pensar melhor antes de lhe dar a resposta.

O homem continuou:

- Sei que é muito amigo do meu filho, mas não deve se preocupar com isso. Ele não consegue entender que ele será o único a me substituir. Se ele entendesse, daria atenção às minhas tentativas de prepará-lo. Ele é mimado e prefere levar a vida na diversão, mas ele é novo e ainda vai entender isso. Mas você já entende isso e sabe muito bem da oportunidade que estou lhe oferecendo e deve aceitar. Proposta melhor não há de encontrar. Você é de confiança e eu sei disso muito bem.

Adauto olhou para o amigo, que já tentava pensar melhor na situação, já que o pai nunca havia exposto estes planos tão diretamente para ele. Tinha um olhar de espanto e dúvida. Adauto continuou olhando-o para tentar decidir alguma coisa. O rapaz olhou para Adauto e entendeu que esta era uma daquelas grandes chances que a vida nos dá e que muitas vezes desperdiçamos. Naquele momento, Adauto estava recebendo-a em sua vida. Após alguns instantes refletindo consigo, o amigo suspirou e pareceu compreender toda a situação. Aliviado e decidido, sorriu para Adauto e disse:

- Aceite, amigo, esta é uma ótima oportunidade e você deve abraçá-la!

- Isso mesmo, garoto, não seja tolo! – completou o pai do amigo.

Adauto ainda se debateu um pouco, mas não tinha alternativa. Pensou em se haver melhor com o amigo depois, mas tinha de aceitar.

- Está bem. Aceito! – desabafou Adauto.

- Ótimo! Começará na próxima semana. Enquanto isso, desfaça-se do seu emprego e eu providenciarei tudo no escritório.

Mais tarde, Adauto conversou com o amigo para entender se havia algum ressentimento em sua decisão, mas o amigo lhe confortara:

- Deixe disso! Não estava interessado na sua proposta, só pensei que meu pai não me faria uma um dia. Você ouviu? Prepare-se, pois logo serei seu chefe!

E riram muito sobre disso.

No dia seguinte, Adauto passou o dia todo tentando arrumar um jeito de contar ao homem da loja que ele logo seria seu ex-patrão. Fugia dos olhares do homem, estava inquieto e quando se tornava pronto para falar, algum cliente ou a esposa lhe tomavam o tempo.

No fim da tarde, o movimento estava fraco e o homem chegou até Adauto perguntando se havia algum problema, pois parecia que tinha algo a dizer.

Adauto se atrapalhou, a língua enrolou, os olhos procuraram um ponto fixo que lhes agradassem, mas não sabia como fazer. Então foi direto e explicou toda a situação ao homem da loja. Este abriu um grande sorriso e deu um forte abraço em Adauto, que não entendia nada. Então, o homem lhe disse, satisfeito:

- Meus parabéns, garoto!

Adauto o abraçou sem entender nada e ao se soltarem, continuou:

- O senhor está feliz?

O homem lhe respondeu:

- E por que não estaria? Por algum acaso, você pensou que passaria toda sua vida aqui na loja? Eu não. Sempre precisarei de alguém como você, mas sempre soube e torci para que esta hora chegasse. Você não vê? Chegou sua hora, rapaz. Sua vida está apenas começando! Você foi além e tornou-se uma parte desta família. Torcemos muito por você! Continue indo além! – e o abraçou novamente.

Adauto sentiu-se extremamente aliviado, apesar de ainda confuso com a reação do então ex-patrão. Adauto disse que terminaria a semana com ele para deixar tudo em ordem, para que houvesse menos trabalho quando ele saísse.

O homem concordou e chamou a mulher para lhe contar a novidade. A mulher ouviu atenta, mas não demonstrou nenhum entusiasmo e voltou-se à cozinha após dizer um simples e forjado “Que bom! Parabéns”.

Apesar de incomodado pela atitude da esposa, o homem não se desculpou e trouxe uma garrafa de vinho barato para tomarem. Naquela noite, Adauto não foi à escola e contou do novo emprego à velha da pensão, com a língua enrolada pelos vinhos.

Adauto não demorou a subir para seu quarto. Era o começo de uma longa noite quente e ele estava cansado do dia cheio que tivera. Era um cansaço diferente, não era apenas físico, mas também emocional. Sua mente ainda tentava se organizar diante de tudo o que acontecera e todas as novidades que se apresentaram. Precisava de um banho demorado. E o tomou sem pressa, relaxando por um longo tempo, sentindo o cair da água por todo o corpo tenso, que se renovava à medida que a mente desacelerava.

Após o banho, Adauto apagou as luzes do quarto, acendeu o lampião e sentou-se à janela apenas de cueca. Ficou olhando o que se passava na rua enquanto sua mente ia ao longe, sem uma lógica compreensível, por entre diversos pensamentos e os novos fatos de sua vida, permeando todo o seu desenrolar desde que saíra de casa. Os principais eram os pensamentos sobre a mudança de emprego, que representava os novos rumos desejados até então não planejados. Algo ainda o incomodava com o fato de deixar a loja e aceitar o emprego novo; mas naquele momento, estava relaxado o suficiente para compreender que o amigo entendera e aceitara plenamente a oferta de emprego de seu pai para Adauto e que o homem da loja tinha uma sapiência de vida tão grande quanto à generosidade de seu coração. Então, enquanto tragava seu cigarro, sorriu satisfeito e grato à vida que se abria plena de oportunidades e de grandes pessoas. Naquela noite, em meio àquela euforia de pensamentos, o prostíbulo era apenas mais um edifício da avenida.

Adauto ainda estava em meio daqueles pensamentos quando a porta do seu quarto foi timidamente batida. Ele estranhou, pois a noite já era longa e a única que lhe batia à porta era a velha da pensão. E exatamente por isso, pensou que podia se tratar de uma emergência. Correu até a porta metendo-se em um calção e a abriu sem questionar quem batia. Abriu a porta bruscamente e a imagem formou-se imediatamente por completo à sua frente. Não era a velha! Era alguém coberto por uma longa capa preta que escondia todo o corpo, e um capuz largo que cobria a cabeça, sombreando o rosto ao ponto de não ser possível reconhecê-lo. Adauto não foi tomado por um pavor imediato que o impediu de qualquer reação. De tão inusitada, a situação não lhe permitiu definir se sentia medo, espanto ou simplesmente curiosidade – talvez fosse um pouco de cada. Mas antes mesmo que Adauto conseguisse ter qualquer reação, o visitante deu um passo adiante e tirou o capuz. No mesmo instante em que o rosto foi totalmente descoberto, como que propositalmente sincronizado, um lampejar do lampião ao fundo do quarto revelou a Adauto quem ele era: a mulher do homem da loja. Apesar de vê-la diante de si, Adauto não conseguia aceitar que aquela pessoa estava realmente ali. Era como se aquela imagem não aderisse ao local, como um mar em pleno deserto.

Mas antes que conseguisse iniciar algum tipo de raciocínio, ela o olhou profundamente em seus olhos e sem dizer nada se lançou sobre ele, abraçando-o não apenas com os braços, mas com todo seu corpo trêmulo. Entre lágrimas, beijou sua boca com extrema intensidade. Um beijo sedento e apaixonado, que não dera a Adauto opção alguma que não fosse entregar-se à sua suculência. Ela apertava seu corpo contra o dele, como se quisesse invadi-lo, fundir-se ao dele. Seu corpo estava trêmulo e extasiado, transbordando libido. Adauto não pôde, e nem tentou, resistir àquele esfregar-se incontrolável que o tirava de si. Com um rápido e preciso chute, Adauto fechou a porta e os dois, quase um, se arrastaram para a cama, despindo-se e se esfregando um no outro como bichos no cio. Adauto a arremessou na cama, mas antes de voar sobre ela, conteve-se em pé, diante da revelação da inesperada beleza de seu corpo, pincelada pelos lampejos do lampião.

Ela estava deitada e pulsante na cama de Adauto. Seus longos cabelos estavam espalhados pelo travesseiro, pelo pescoço e pelo rosto de mulher que se misturava a um lascivo juvenil, deixando-a ainda mais desejável. Seus olhos brilhavam. Sua boca molhada ofegava. Seus perfeitos seios estavam excitados. Seu abdômen afilava seu corpo e tremulava em ondas de desejo e prazer. Suas delineadas pernas se entrelaçavam e se contorciam sobre o sexo úmido e clemente.

Adauto observou todos os detalhes da cena como se nada mais existisse a não ser a mulher do homem da loja em seu quarto. Então, foi tomado por um incrível instinto e voou para ela. Pegou-a em seus braços, trouxe-a firmemente contra o seu corpo. Sentiu sua pele jovem e macia. Sentiu seus seios contra seu peito e as suas pernas envoltas em seu quadril. Adauto percorreu cada centímetro do corpo dela, cada canto, cada ondulação, cada ponto; com as mãos, com a boca, com a língua e com o próprio corpo.

Ela se desfez na boca de Adauto e quando se recompôs saltou sobre ele e o sugou profundamente, enquanto lhe rasgava o peito e as coxas com as unhas que estendiam toda sua excitação. E com a mais deliciosa das safadezas, montou-o e o cavalgou como o varão monta um potro xucro. Adauto a possuiu de todas as formas, de todos os jeitos, e a fez mulher como nunca havia sido. Naquela noite, por longas horas, foram dois corpos fundidos, despejando desejos, êxtases e longos e incontroláveis gozos por todo o quarto.

E quando se entregaram exaustos, permaneceram entrelaçados, apenas sentindo seus corpos e a respiração aconchegante um do outro. Adauto tinha muito a perguntar, muito a falar, mas preferiu continuar calado e apenas viver, em todos os detalhes, aquele momento que sabia ser único. Trouxe-a mais perto de si e lhe cheirou profundamente a região entre a maçã do rosto e a orelha, para sentir seu cheiro. Não seu perfume, mas seu verdadeiro e único cheiro. Ela sorriu de canto e se aconchegou nele. Adormeceram juntos ao bailar da chama do lampião.

Ela acordou algumas horas depois. Com movimentos delicados e cuidadosos, ela se vestiu. Adauto estava acordado, mas fingiu o sono. De olhos úmidos, ela beijou os lábios dele e saiu. Adauto ainda foi à janela para vê-la ir, mas ela tinha seus métodos e não foi vista. Havia neblina e o ar gelado da madrugada aquietava o corpo e a mente de Adauto. Ele acendeu mais um cigarro e suspirou ironicamente diante de toda a situação. Apesar de adorar o homem da loja, Adauto não sentiu remorso algum. Olhou para o prostíbulo e soube que aquela noite fora a sua janela que exibiu os melhores momentos entre um homem e uma mulher. E, ao olhar novamente para a rua em busca do simples vulto da mulher, entendeu que realmente a amara durante todo o tempo em que estiveram juntos.

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