Deliberately employed
*Se você descreve alguém como andrógino, quer dizer que essa pessoa não tem uma aparência ou comportamento distintamente masculino ou feminino.
Andrew Pearce olhava através das janelas de três andares de sua propriedade em Short Hills, onde ele havia se escondido há quase 10 anos, enquanto o crepúsculo caía sobre o local. Tons de roxo escuro e rosa choque se misturavam na escuridão que se aproximava. Seu coração se apertou com as luzes lindas que preenchiam o céu.
Os pesadelos o haviam acordado novamente na noite passada, suando frio; ele tinha gritado ao acordar, sendo puxado de volta para o odor sufocante de mulher ômega, o cheiro fétido de sua própria urina, a dor dos hematomas recentes cobrindo velhas cicatrizes em seus braços e costas, e o medo rastejando sobre sua pele...
Ele respirou fundo para se acalmar, virando as costas para o céu vítreo demais que repousava sobre o lago em sua propriedade.
Virando um copo de uísque, ele deixou a queimação forte arranhar sua garganta, enquanto as sombras se estendiam pelos móveis luxuosos da sala. O álcool brilhava em seu estômago vazio, mas não trazia calor algum para sua miséria eterna.
Seu telefone tocou de repente, fazendo seu coração disparar.
Levou vários segundos para que seus batimentos cardíacos trovejantes se acalmassem dentro de seu peito. Ele levou o celular ao ouvido, com a irritação dissolvendo o domínio da ansiedade.
"Andrew, como você está esta noite, cara?", perguntou Jonathan Down, seu amigo mais antigo e atual Diretor de Operações da Pearce Enterprises, com uma voz que soava curiosa e preocupada.
"Eu estava melhor antes de você ligar", rosnou Andrew.
"Ei, cara. Não seja assim, meu amigo. Escuta aqui, eu liguei para te avisar. Contratei uma governanta para você, eles começam amanhã."
"O quê?" Suor brotou em seu lábio superior e escorreu por sua espinha. Seus batimentos cardíacos, que momentos antes tinham se acalmado, dispararam e viraram uma cacofonia trovejante em seus próprios ouvidos.
Ele não podia conviver com pessoas. Ele não sabia como conviver com pessoas mais. E não queria. Mulheres, ele não as suportava; o cheiro delas, especialmente o das ômegas, o deixava enjoado e fazia seu peito parecer que ia explodir, dada a forma errática com que seu coração batia contra as costelas, e ele tinha sintomas de asma quando estava perto delas.
As memórias aterrorizantes de perguntas aos berros, as câmeras flamejantes e as multidões o sufocando quando ele saiu do jato particular no J.F.K, entrando em uma tempestade de publicidade, ainda faziam seu estômago revirar 10 anos depois, toda vez que ele pensava em deixar a propriedade. O dia seguinte a ele ter sido resgatado pela S.W.A.T da casa de um homem que fazia milhões com mulheres que queriam ter o bebê de um alfa dominante, mesmo que fosse através de estupro e o drogando.
"Você precisa sair daí, Andrew." A voz de seu amigo suavizou com preocupação. Andrew odiava a preocupação mais do que qualquer coisa. "Você está se tornando um eremita permanente, mas sem a caverna. Você precisa se acostumar com as pessoas novamente. Ou nunca vai superar o que aqueles bastardos fizeram com você."
Andrew praguejou baixinho, com a fúria aumentando. "Eu convivo com pessoas. Tenho uma equipe de jardinagem e limpeza que você insistiu em contratar para mim, lembra?" O pensamento ainda irritava, o fato de ele ter tido tão pouca voz em sua própria vida quando voltou. Porque ele não conseguia funcionar. Não conseguia nem andar ou falar nos primeiros dois meses de volta para casa.
"Com quem você nunca vê ou fala", retrucou Jonathan, "porque não os deixa entrar na casa se não estiver trancado no seu quarto."
"Eu não quero gente aqui quando estou dormindo. Eu te disse o porquê", disse ele rispidamente.
"Você ainda está tendo pesadelos?", perguntou Jonathan. "Talvez devêssemos chamar o terapeuta novamente?"
"Não!" A palavra explodiu de seus pulmões. "Chega de analistas. Chega de psicólogos comportamentais ou especialistas em trauma, ou qualquer coisa do tipo. Não quero mais ninguém dentro da minha cabeça." Já havia horrores suficientes lá dentro. "E também não quero ninguém invadindo meu espaço pessoal."
Especialmente não uma mulher, pensou ele amargamente. Conhecendo Jonathan, ele teria contratado uma governanta que parecia uma supermodelo — porque Jonathan, com sua sensibilidade masculina típica, achava que tudo que Andrew realmente precisava era transar.
Isso não vai acontecer!
Já se passavam mais de 9 anos desde que alguém o tocou sem seu consentimento. E ele pretendia que continuasse assim.
Ele estremeceu, forçado a reviver aquela última noite no Texas, 10 anos atrás... seu corpo nu e sem marcas vibrando com o prazer pós-coito, a linda ômega que o atraíra como uma viúva-negra, deitada na cama observando-o com luxúria escurecendo seus olhos, e então... Uma dor lancinante explodiu em seu crânio e ele acordou, grogue, machucado e sozinho no escuro, arrastado para passar 3 meses inteiros sendo drogado, estuprado e torturado se resistisse.
Ele espantou a dor, que ainda persistia emocionalmente e pelas cicatrizes sob as muitas tatuagens que ele fez depois de ser resgatado.
Ele sobreviveu. Contra todas as probabilidades. Voltou para casa e encontrou o império empresarial que possuía nas mãos competentes de Jonathan... Ele não saía da propriedade porque não precisava; ele não queria sair. A solidão era sua força agora; Jonathan podia cuidar da empresa sozinho com o mínimo de interferência dele.
"Eu estou falando sério, Jonathan", disse ele, colocando a raiva impotente que ainda o consumia em um tom cáustico. "Se você mandar essa mulher para cá, você e ela vão se arrepender."
Jonathan riu silenciosamente enquanto encerrava a ligação.