Aesria: Parte 1

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Resumo

Um romance erótico slowburn. Aesria conhece o marido pela primeira vez no dia do casamento. Um matrimônio arranjado pelo pai. Ela aceitou porque isso significava uma chance de ter uma vida melhor, mas será que aquele homem, agora seu marido, seria apenas o começo de outro carcereiro? Só o tempo dirá.

Status
Completo
Capítulos
46
Classificação
4.7 50 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1

Aesria

Aesria soltou o ar em direção ao véu de renda que cobria sua cabeça. Assim que a renda se acomodou, ela espiou pelos furinhos e notou a vastidão do espaço ao seu redor. Velas tremeluzentes projetavam sombras ameaçadoras e dançantes pelo quarto, mas os tons de marrom-noz a envolviam em um calor reconfortante. Lembrava um pouco sua casa. Só que, supostamente, ali era sua casa agora. Aesria agarrou os lençóis vermelhos e grossos abaixo dela – algo para segurar, para impedir que seus dedos acabassem com o vestido. O vermelho quente e convidativo dos lençóis parecia infinito, fazendo Aesria perceber o quão pequena era, empoleirada na beirada como um pássaro em um campo vasto. O quarto inteiro era um campo vasto, o que a impedia de ficar parada; o medo constante do que ela não conseguia ver latejava em seu subconsciente. Ou será que sua visão limitada estava tirando proveito de sua imaginação, transformando seu medo em uma fera selvagem?

Antes que a cama ou seu medo do desconhecido pudessem engoli-la, Aesria se levantou e caminhou sobre a madeira macia do chão o mais silenciosamente que pôde. Felizmente, seus passos eram abafados pela maciez do tapete sob seus pés. Aesria parou ao lado das portas duplas. Seu olhar se deteve nas maçanetas douradas, lindamente arqueadas, e nos entalhes da porta. Ela escutou. Tentou ouvir algo além das batidas erráticas de seu coração, apesar de seu medo de se mexer ou respirar. Seu medo de fazer qualquer barulho. Nada. Vários momentos se passaram. Aesria finalmente se moveu. Ficou na ponta dos pés e tirou o véu da cabeça. Seu olhar devorou o cenário — os belos entalhes de madeira nos bancos e na mesa redonda central, a penteadeira do outro lado da cama com um vaso de flores vermelhas. Era como se alguém a tivesse levado para um mundo completamente estranho, um lugar que a deixava tonta, incapaz de acreditar que estava começando uma nova vida. A percepção enviou um arrepio excitante por sua espinha, e ela caminhou até o meio do quarto, virando-se para ter uma visão completa do ambiente.

Click. Aesria parou. Seu coração congelou. Seus olhos se voltaram rapidamente para as portas duplas. E, com certeza, a maçaneta dourada que ela admirava se moveu. As portas se abriram. Uma escuridão imensa surgiu na entrada. Ele era alto, ou talvez fossem os fios grossos de seu cabelo que acrescentavam altura extra. O que quer que fosse, ele quase tocava o topo do batente da porta. Cada fibra de seu ser a incitava a correr. Era um sentimento com o qual ela estava muito familiarizada. Mas, por algum motivo, algo a manteve presa ao lugar. Ela só conseguia encarar, absorvendo as sombras que assombravam o corpo dele.

Quando ele entrou no quarto, a luz fraca das velas lhe deu o primeiro vislumbre de seu rosto. O coração dela disparou. O estômago afundou. Tudo em seu rosto era um ângulo reto e duro. E mesmo no calor do brilho das velas, havia uma frieza impenetrável, incapaz de derreter. Talvez fossem seus olhos fundos — colocados tão profundamente que as sombras preenchiam suas fendas e tornavam a cor de suas íris indecifrável. Aesria só conseguia ler a ameaça que emanava deles. Era uma emoção tão fria e dura vinda de alguém que ela via pela segunda vez, que ela recuou. Ela se recompôs e engoliu em seco.

“L – L – Lord H-Hartridge”, ela gaguejou.

Nenhuma resposta. Alguns momentos se passaram. Aesria temeu que não sobraria nada dela se o homem continuasse a encará-la, seu olhar sombrio devorando sua alma. O homem deu mais um passo à frente, aproximando-se da luz. Aesria engoliu em seco diante da enormidade de seu tamanho. Ele não era apenas alto; seus ombros eram largos, como se pudessem carregar o peso de várias rochas. Sem perceber, seu corpo começou a encolher. Como era irônico ela ter achado este quarto tão grande antes e, agora, mal conseguir respirar com sua presença opressora ocupando o espaço.

Mais um passo — Aesria tornou-se a presa sendo caçada pelo predador.

Lord Hartridge parou. Sua testa se franziu e Aesria se perguntou o que ele estava pensando. Ele estava com raiva? Aesria era especialista em ler sinais de raiva — conseguia senti-los em um piscar de olhos, mas nunca tinha conhecido aquele homem, a menos que se considerasse o encontro anterior de troca de votos com o rosto coberto. Ela não conseguia imaginar o que poderia ter feito para irritá-lo, mesmo que a morte emanasse de todo o seu ser…

Oh! Seu véu. O coração de Aesria caiu com a percepção. Ela engoliu o nó que se formou em sua garganta. Deveria ter esperado que ele o tirasse? Ela não conhecia os costumes típicos, pois ninguém lhe contara. Ou teria sido a visão de seu rosto descoberto que ele desprezou?

“Não me espere.”

O estrondo profundo de sua voz percorreu seu corpo. Aesria engoliu em seco, incapaz de decifrar o significado de suas palavras. Antes que ela pudesse chegar a uma conclusão, ele se virou e as portas se fecharam com um bang! barulhento.

Por alguns segundos, Aesria não se moveu, chocada demais com o encontro. Então, do nada, suas pernas vacilaram e cederam. Aesria não sabia o que esperar em sua noite de núpcias, mas lhe disseram que fazia parte da iniciação do casamento e aconteceria após a cerimônia. Para fazer um bebê, Fedelia dissera com um sorriso de escárnio. Ela saberia, pois Fedelia era casada com o irmão de Aesria há quase três anos. Aesria tinha vinte e um anos, mas não fazia a menor ideia de como um bebê era feito. Apenas que os bebês apareciam magicamente no corpo da mãe, crescendo a cada dia. O nascimento de sua sobrinha era prova disso. Aesria não entendia como todas as mulheres não morriam no parto. Sua própria mãe morrera ao dar à luz a ela.

Aesria tentara descobrir mais sobre o que o processo de ter filhos envolvia, mas ela e Fedelia nunca foram próximas. Era vital que soubesse, já que seu pai a encarregara de dar à luz a três herdeiros de Lord Hartridge. O anúncio de seu casamento com o Lorde viera apenas dias após ela ter cortado seu próprio bolo de aniversário — não que seu pai soubesse do bolo.

Aesria nunca imaginara se casar, muito menos o que a vida de casada implicaria. Somente quando Fedelia se casou com seu irmão é que Aesria testemunhou as interações de um casal pela primeira vez. Ela não era particularmente contra o casamento, nem tinha qualquer afeição pelo conceito. No entanto, desafiar o pai não era uma opção, e seu casamento com o Lorde já estava decidido. Aesria não sabia como seu pai chegara a tal acordo com o homem, nem como ele o conhecia, já que sua casa era tão isolada de outros habitantes que ela nem achava que eles interagiam com mais ninguém. Sinceramente, ela não sabia das intenções de seu pai, mas não esperava ser entregue em casamento assim que atingisse a idade núbil. De qualquer forma, desafiar o pai não era uma opção.

Aesria sentou-se na cama, mas decidiu que era grande e luxuosa demais para ela. Não havia como dormir em um colchão sobre pedra fria e mudar para uma cama com dossel oito vezes maior do que estava acostumada. Se a cama não a engolisse primeiro, o quarto logo o faria. Por fim, ela puxou uma camada de manta de lã da cama e se acomodou no único lugar confortável: o armário da cômoda. Como era irônico ela estar em um espaço tão amplo e aberto — uma liberdade que sempre quis, mas só se sentiu segura ao estar naquele espaço pequeno e apertado. De lá, ela podia observar o espaço aberto e não ficar de costas para ninguém nem para nada. Não ser pega de surpresa.

Aquele lugar era sua casa agora, mas Aesria mal conseguia imaginar o dia em que dormiria confortavelmente naquela cama, pelo menos não sem todos os sentidos em alerta, esperando. Pronta para pular ao menor sinal. Era cedo demais para dizer se Aesria tinha finalmente escapado daqueles dias, mas ela mal ousava ter esperança. Talvez aquele homem que agora era seu marido fosse o começo de outro carcereiro. Só o tempo diria.