Prólogo
Lucas
“Lucas, por favor. Abra os olhos”, ela implora, com a voz rouca e carregada de emoção. “Você não pode me deixar assim. Está me ouvindo? Você precisa lutar. Você me prometeu que lutaria!” Seus gritos de angústia perfuram a escuridão como ecos irregulares de desespero.
O que eu não daria para fazer o que ela pede, se fosse apenas para ter um último vislumbre do seu rosto lindo e daqueles olhos cor de uísque. Mas, depois de semanas neste inferno subterrâneo, quase morrendo de fome e à mercê de homens determinados a me quebrar, meu corpo não aguenta mais. Espancado. Quebrado. Torturado até o limite da morte iminente. Sei que isso deveria me assustar. A quase certeza de que estou perto do fim da minha vida. Mas, depois de ser acorrentado a esta parede — deixado para definhar na minha própria sujeira, com o fedor de sangue, podridão e desolação ao meu redor —, a ameaça do meu fim parece ser o escape definitivo.
“Lucas, por favor.”
A agonia na voz dela desliza pela minha pele. O desconforto ajuda a dissipar a névoa mental que se agarra a mim como um torno. Por mais que eu tente, estou fraco demais para abrir os olhos, quanto mais para lhe dar um sinal de que ainda estou aqui. É como se eu estivesse paralisado. Congelado e preso sob as garras geladas da morte iminente. Uma sensação que vem como um alívio bem-vindo, pois há conforto em saber que meu tempo neste lugar está chegando ao fim rapidamente.
Sem nada além dos meus pensamentos e arrependimentos para me fazer companhia, não consigo evitar refletir sobre a minha vida. Começando pelos meus pais incríveis. A infância perfeita que criaram para minha irmã e para mim. Como um erro aparentemente insignificante na minha adolescência causou a morte deles e arrancou tudo de nós.
Meus pensamentos sombrios mudam então para os homens que confiaram suas vidas a mim. Eles dependiam de mim para tomar as decisões certas. Meu trabalho era levá-los até o fim da missão para que pudessem voltar para casa, para suas famílias. O fato de eu ter falhado com eles. De terem sofrido pelos meus erros e de ser por minha causa que seus entes queridos nunca mais os verão... a culpa é como ácido me queimando por dentro.
É pior do que a tortura física que suportei. É a mesma dor familiar que me persegue desde a morte dos meus pais, tantos anos atrás. Que alguém com o meu histórico tenha se prontificado a ser responsável pela vida de outros homens é algo imperdoável. Foi tolice assumir que esse era o meu caminho para a redenção e, agora, por causa da minha arrogância, eles também estão mortos.
É mais uma razão pela qual mereço o fim que me espera. Não sou digno de uma segunda chance nesta vida. Coisas como casamento. Filhos. A cerca branca de jardim. Nunca farei nada disso, o que é melhor, mas então o nó de arrependimento aperta quando imagino os rostos das pessoas que nunca mais verei. Pastor David, o homem que me tirou das ruas e me ofereceu um caminho diferente. Minha irmã Jenny, a quem abandonei anos atrás com a promessa de que um dia voltaria por ela. E minha Embree. A única mulher que amei de verdade, e cujo coração certamente despedacei quando ela acordou e percebeu que eu tinha ido embora, na manhã seguinte àquela em que tirei sua virgindade.
Eu me pergunto se eles sabem onde estou. Será que fazem ideia do que aconteceu comigo?
“Lucas, por favor, tente. Por mim. Abra os olhos e olhe para mim.”
Como um farol de esperança na escuridão, o apelo dela alcança aquela parte de mim que nunca foi capaz de lhe negar nada. Depois de tudo o que fiz, depois de tudo o que arruinei, não devo a ela pelo menos isso? Mesmo que doa como o inferno. Mesmo que isso me mate.
Acessando o que restou das minhas reservas, luto pelo controle do meu corpo. Minha garganta está seca demais e dolorida pela desidratação para falar, então faço uma última tentativa desesperada de, pelo menos, fazer o que ela pede e lhe mostrar meus olhos. O que vejo através das fendas das minhas pálpebras inchadas quase rouba meu fôlego. Uma lágrima solitária escapa do canto do meu olho quando o rosto angelical dela se materializa na escuridão e ganha nitidez diante de mim.
Deus, o que eu fiz? Por que raios ela está aqui? Ela não pertence a este lugar.
“Eu... eu sinto muito”, sussurro, mesmo que o esforço faça a dor irradiar pelas costelas quebradas no meu peito. Quando ela se inclina para beijar minha testa, fecho os olhos, esperando absorver o máximo do seu calor que puder.
“Está tudo bem. Nós estamos bem. Só preciso que você aguente firme, porque não posso te perder. Não depois de tudo o que aconteceu. Agora abra os olhos novamente, Lucas. Por favor”, ela soluça, “não ouse desistir de mim agora.”
Convocando cada grama de força que me resta, faço o que ela pede. O medo intenso vindo dela arranca meu coração e corta outra ferida de remorso na minha alma. Eu fiz isso com ela, e é assim que concluo que não tenho outra escolha a não ser dar a ela também o que ela quer. Tenho que lutar. De alguma forma, devo encontrar a vontade de sobreviver. Empurrar meu corpo falido além do limite, se não por outra razão, porque não consigo suportar o pensamento de deixá-la sozinha neste inferno.
“Eu... estou aqui, querida”, digo com a voz rouca e dolorida, tentando tranquilizá-la. “Não vou a lugar nenhum.” O esforço que faço para falar é recompensado, felizmente, quando, entre lágrimas, ela me dá um sorriso triste.
Segurando minha mão, ela me diz: “Isso mesmo, apenas aguente firme. Juntos, eu sei que podemos superar isso.”
Exausto e confortado pela fé dela, fecho os olhos e caio de volta nos recessos escuros da minha mente. A névoa entorpecente que me cerca parece muito com a pior doença que já tive. Percebo que meu corpo está no seu limite. As lesões internas, somadas à infecção persistente de feridas não tratadas, me deixaram tão esgotado que parece que estou apodrecendo lentamente.
Ainda assim, faço o que posso para me agarrar à voz dela, que de alguma forma se prendeu à minha força vital. Uma força vital que cresce mais e mais fraca a cada respiração que luto para dar e, pela primeira vez, estou com medo. Enquanto tremores percorrem meu corpo, sou dominado pela devastadora constatação de que a sobrevivência pode não estar nos planos para nenhum de nós.
Como minha busca por redenção, a esperança de uma segunda chance não passa de um sonho de tolo.
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Nota da Autora:
Meu Deus, essa foi difícil de escrever! Esta cena surgiu em um sonho e repetiu-se na minha cabeça até que finalmente me sentei para escrevê-la. O que Lucas vivenciou é traumático e terrível, e embora eu seja quem a escreveu, odeio que ele tenha tido que passar por isso.
Sei que muita coisa ficou sem explicação, mas você tem minha palavra: até a metade da história, você terá todas as respostas.
E o que você achou? Mal posso esperar para ler todos os seus comentários!
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