Um novo começo.
O vento mordia suas bochechas, um lembrete cortante da mudança de estação, enquanto Anna apertava o cachecol em volta do pescoço. O som do cascalho sob suas botas ecoava na quietude da noite; cada passo parecia uma rachadura no muro que ela tinha construído em torno de seu passado. O ar cheirava a terra úmida e folhas apodrecidas, carregando o frio característico do início do outono. As árvores ao seu redor haviam se transformado em uma paleta brilhante de vermelhos e laranjas, com as folhas balançando na brisa, como se a própria natureza sussurrasse uma promessa de mudança. Mas nenhuma quantidade de cores vibrantes conseguia lavar o peso sombrio dentro dela. Algumas feridas eram profundas demais para o tempo ou a distância curarem.
Anna parou diante da casa. A estrutura parecia quase tão cansada quanto ela — pequena, com vigas de madeira desbotadas e um jardim coberto de mato que denunciava o abandono. O caminho que levava à porta da frente estava coberto de folhas caídas; o estalar delas sob seus pés era o único som. Uma rajada de vento a fez estremecer, e ela puxou o casaco para mais perto do corpo. Anônima. Isolada. Segura. As palavras se repetiam em sua mente, mas soavam mais como um pedido do que como realidade. Ela não tinha vindo para cá por escolha — ela veio para fugir. Para se esconder.
Seu olhar passou por cima do ombro. A estrada atrás dela estava vazia, a vila quieta e silenciosa. Ainda assim, ela não conseguia afastar a sensação de que seu passado pairava, invisível, mas sempre presente, como uma sombra que ela não conseguia ultrapassar. Ela se forçou a virar e seguir em frente. Ninguém ali sabia das cicatrizes que marcavam seu corpo, ou dos pesadelos que assombravam seu sono. E ela pretendia que continuasse assim.
Seus dedos subiram até a gola do casaco, roçando o tecido que escondia as linhas irregulares logo abaixo do pescoço. Mesmo catorze anos depois, elas pareciam sensíveis sob as pontas de seus dedos. Ela piscou para afastar as memórias, mas elas se agarravam teimosamente, recusando-se a desaparecer.
“Acabou”, ela sussurrou para si mesma, mas as palavras soaram vazias, engolidas pelo vento frio.
Com um suspiro trêmulo, Anna alcançou a maçaneta e empurrou a porta. As dobradiças rangiam, um som agudo no silêncio. Ela entrou, sentindo o cheiro de poeira e velharia encher seus pulmões. A casa estava fria e vazia, com poucos móveis. Caixas se alinhavam nas paredes, ainda por abrir. Ela jogou o casaco em uma cadeira perto da porta, seus dedos roçando a madeira áspera e gasta do batente enquanto caminhava mais para dentro. O silêncio ali era diferente — mais pesado, porém reconfortante em seu isolamento. Sem ecos do passado, apenas quietude. Ela colocou a bolsa no chão e olhou ao redor para o espaço pequeno e simples. O silêncio parecia denso, como se esperasse por algo. Suspirando, Anna tirou o telefone do bolso. Ela sabia que sua mãe estaria preocupada, mesmo que não tivesse dito muito sobre seus motivos para partir.
Eu deveria avisar que estou bem.
Ela hesitou por um segundo, o polegar pairando sobre a tela antes de tocar no nome de sua mãe. O peso familiar da culpa pressionou seu peito. Ela não tinha contado muita coisa à mãe sobre essa mudança, apenas que precisava de um recomeço. Mesmo depois de todos esses anos, Anna lutava para decidir o que compartilhar e o que manter escondido.
Com uma respiração profunda, ela tocou o nome da mãe e levou o telefone ao ouvido. A linha chamou duas vezes antes que a voz calorosa de sua mãe respondesse.
“Anna, querida! Você chegou bem?”
Anna sorriu, embora o sorriso não chegasse aos seus olhos. “Sim, mãe. Estou aqui. A casa é… bem, é pequena, mas serve.”
“Pequena é bom! Menos para limpar, não é?” A risada de sua mãe estalou através do telefone, leve e reconfortante.
“É, acho que sim.” Anna olhou ao redor, seus olhos pairando sobre as caixas empilhadas contra as paredes. Ela caminhou lentamente até a janela, olhando para a noite escura. “É muito quieto aqui. A vila é bem isolada.”
“Isso é bom, não é? Você queria um lugar tranquilo”, respondeu sua mãe gentilmente. “Algum lugar onde você possa descansar.”
Anna assentiu, embora sua garganta apertasse com a palavra descansar. Ela não se sentia descansada há anos. “Sim, esse é o plano”, ela disse, tentando manter a voz firme. “Acho que vou gostar daqui. Os vizinhos parecem amigáveis, e o lugar… parece seguro.”
Houve uma pausa do outro lado, e Anna quase pôde ouvir a preocupação da mãe, apesar da distância entre elas. “Estou feliz, Anna. Você merece se sentir segura.”
O aperto de Anna no telefone aumentou, e a dor familiar rastejou para o seu peito. Ela não queria preocupar sua mãe, não mais do que já tinha preocupado. “Eu vou ficar bem, mãe. De verdade. Eu só preciso de tempo.”
“Eu sei que precisa, querida”, disse sua mãe suavemente. “Mas você não precisa passar por tudo sozinha, sabe. Pode me ligar a qualquer hora. Dia ou noite.”
“Eu sei.” Anna forçou um sorriso, embora sua voz vacilasse. “Eu vou ficar bem. Só preciso me instalar e… me acostumar com as coisas.”
“Vá com calma consigo mesma, Anna. Não tem pressa.”
O peso das palavras de sua mãe se alojou em seu peito, mas, em vez de conforto, elas apenas a lembraram de quanto caminho ela ainda tinha pela frente. “Vou fazer isso”, ela prometeu, embora tenha soado mais como uma mentira do que como a verdade.
“Tudo bem, querida. Eu te amo. Me ligue se precisar de qualquer coisa.”
“Pode deixar. Te amo também, mãe.”
Ao desligar, o silêncio da casa voltou, mais pesado do que antes. Anna se inclinou contra a moldura da janela, encarando a rua vazia. Ela apertou o telefone contra o peito, respirando fundo como se pudesse, de alguma forma, absorver a força das palavras de sua mãe. Mas a quietude ainda pesava muito, como se as sombras do seu passado estivessem à espreita do lado de fora da porta.
Ao explorar a casa, seu olhar encontrou o espelho encostado na parede distante, com a superfície embaçada de poeira. Ela encarou seu reflexo, suas feições iluminadas pelo brilho amarelo suave da lâmpada. Cabelo escuro puxado para trás, pele pálida, olhos profundos. Ela mal se reconhecia mais. O cachecol, o suéter largo e as calças grossas que vestia pendiam em sua estrutura, escolhidos cuidadosamente para esconder cada centímetro de sua pele.
Mas mesmo ali, sozinha, ela não conseguia se esconder de si mesma. Sua mão se moveu para o botão superior de sua blusa, sua respiração prendendo enquanto ela o desabotoava, revelando as linhas retorcidas de suas cicatrizes. Os sulcos profundos de garras e dentes se destacavam em um relevo nítido, um lembrete brutal da noite que mudou tudo. Ela engoliu a onda crescente de pânico, forçando-se a desviar o olhar.
Uma batida súbita na porta a fez congelar. Seu coração batia dolorosamente no peito enquanto seus dedos agarravam o tecido da blusa. Ela encarou a porta, a respiração acelerando. Era tarde — quem poderia ser? Sua mente disparou, o medo que ela havia enterrado subindo rapidamente para a superfície. E se…? Não. Isso não era possível. Eles não a teriam seguido até aqui.
Forçando-se a respirar, Anna caminhou cautelosamente até a porta e a abriu uma fresta. Uma mulher mais velha estava do outro lado, enrolada em um casaco grosso, seus olhos gentis franzindo em um sorriso.
“Boa noite, querida. Eu sou Sophia Harris”, disse a mulher calorosamente, embora sua voz carregasse uma pitada de curiosidade. “Moro logo ali na rua e ouvi dizer que alguém novo tinha se mudado. Vi a luz da janela e pensei em vir me apresentar. Por favor, apenas me chame de Sophia. Sra. Harris me faz sentir velha”, ela acrescentou com um sorriso amigável.
Os ombros de Anna relaxaram de alívio, embora seu coração ainda batesse um pouco rápido demais. Uma vizinha, não uma ameaça. Ela sorriu fracamente, esperando que não parecesse tão forçado quanto ela sentia. “Obrigada. Eu sou Anna… Anna Hawthorne.”
Sophia brilhou, seu sorriso largo e genuíno. “Bem-vinda, Anna. Só queria dizer olá e avisar que, se precisar de qualquer coisa, somos todos bem amigáveis por aqui. É uma vila quieta — não acontece muita coisa, o que suponho ser o que você procura.”
Anna assentiu, com a garganta apertada. “Sim, sossego é exatamente o que eu preciso.”
Os olhos da mulher mais velha brilharam com compreensão. “Bem, você veio ao lugar certo. Não vou tomar seu tempo, mas é um prazer conhecê-la. Espero que se instale bem.” Com um pequeno aceno, ela se virou e desapareceu na noite.
Anna fechou a porta e encostou a testa nela por um momento. O bater em seu peito se acalmou lentamente, mas o medo persistente ainda pairava logo abaixo da superfície. Ela tinha fugido por tanto tempo que não tinha certeza se conseguiria parar de olhar por cima do ombro.
Soltando o ar, ela se afastou da porta e caminhou para dentro da sala de estar. Seus dedos roçaram levemente as paredes frias enquanto ela se movia, ancorando-se no presente. Ela desempacotaria amanhã. Não havia pressa — ela tinha tempo para construir algo aqui. Algo que não fosse tocado pela escuridão do seu passado.
Mas o som distante do uivo de um lobo cortou o silêncio, parando-a onde estava. Seu corpo ficou tenso, a respiração presa na garganta. Ela ficou paralisada, ouvindo o eco fraco que parecia ondular pelo ar noturno. As memórias voltaram correndo, indesejadas e nítidas. O medo, a agonia daquela noite. Os lobos nunca tinham realmente a deixado. Eles a tinham marcado de mais de uma maneira.
Suas mãos tremiam enquanto ela fechava os olhos, tentando afastar as imagens. Este era um novo começo, ela lembrou a si mesma. Uma nova vila. Uma nova vida.
Aqui, ela estaria segura.
Pelo menos, era o que ela esperava.