Capítulo 1
“Fogo! Fogo! Fogo!”
Eu empurrei e forcei meu caminho para fora da porta. Meus joelhos estavam apertados um contra o outro. A parte superior da manga do meu vestido preto estava rasgada.
“Socorro!”
Eu gritei. Estava trancada num quarto pequeno, quase como um closet, perto do estábulo. O feno estava empilhado num canto do quarto e ardendo em chamas. A madeira do telhado também tinha pegado fogo e começava a cair.
Fui trancada aqui para ser salva dos invasores que entraram na alcatéia. Minha mãe saiu depois que a porta foi trancada por fora. Ela implorou para eu não fazer barulho, disse que logo acabaria e que voltaria para me tirar dali.
Ela mentiu. Ela nunca voltou.
Sem saber que as chamas invadiriam o cômodo, eu tinha me espremido num canto.
Cheguei à porta e minhas mãos bateram nela fervorosamente. A fumaça escura e espessa pairava ao meu redor. Bati na porta com mais força com os punhos. Eu tossia e gritava.
“Alguém!”
“Mãe! Pai!” Eu gritei e tossi. Meus olhos estavam embaçados de lágrimas, e minha garganta ardia. O calor estava ficando insuportável, e minha pele começava a sentir a queimadura.
“Recuar! Fogo! Fogo!” Alguém gritou do lado de fora da porta. Eu me levantei, me apoiei na parede, lutei para voltar até a maçaneta e a segurei. Ela queimou minha mão quando a toquei. Eu chorei e caí de joelhos.
“Sob ataque! Protejam o Alpha!” Essa era a voz do beta, eu tinha certeza. Cranon Felipe, o mais forte dos lobos e líder dos guerreiros da alcatéia.
Ele era muito próximo do meu pai. Seu melhor amigo, como o pai o chamava.
Ele estava perto.
“Eu estou aqui!” Eu tossi. Se eu pudesse gritar só mais um pouco, talvez fosse ouvida.
“...protejam-no com suas vidas!” Ele gritou.
“Alguém! Eu estou bem aqui!” As lágrimas escorriam soltas pelo meu rosto. Meus olhos estavam fixos no buraco da fechadura. Eu não conseguia respirar e minha visão estava embaçada. Eu não ia durar muito tempo aqui dentro.
“Protejam a princesa!” Meu pai, Grahams Wells, gritou. O alpha da Alcatéia do Lobo Branco. Ele era o homem mais doce que eu já conheci.
E eu sei que ele me amava profundamente.
“P-pai...” minha respiração estava trêmula. Limpei os olhos e olhei pela fresta. Ele estava vindo para o quarto onde eu estava trancada. Eu não podia abrir, porque estava trancada pelo lado de fora.
Ele estava vindo me tirar dali. Eu sorri em meio às lágrimas, com um brilho de esperança nos olhos.
Ele ia me proteger.
Limpei os olhos para ver melhor. Vi um homem alto atrás dele lançar uma lança nas suas costas. Ela tinha poeira de prata. Atingiu-o e fez ele ser jogado para frente. A lança saiu pelo seu peito.
Seus olhos castanhos estavam em mim. Um sorriso fraco apareceu nos seus lábios finos antes que os olhos se fechassem. Meus olhos marejaram. Nem percebi quando as lágrimas caíram.
“Minha... Princesa...” a voz dele falhou. E ele caiu de cara no chão.
Um suspiro escapou da minha boca, e engoli mais fumaça. Corri da porta, mas não havia onde me esconder. As chamas tinham entrado. A porta estava queimando, e eu estava encurralada.
“Eu vou morrer, eu vou morrer...” Eu chorei porque já não conseguia respirar. E um pedaço de madeira do teto caiu sobre mim. Caí de bruços no chão, com a madeira em chamas nos meus ombros.
“Argh!”
Eu tinha apenas treze anos.
Quando perdi tudo.