Ponto de vista da Madison.
“HIKE.”
Os oito huskies siberianos à frente do trenó disparam na neve, animados para uma boa corrida. Decidi levá-los à cidade hoje em vez de usar minha caminhonete. Faz tempo que não os levo para correr, pois tenho estado muito ocupada com o trabalho ultimamente.
Só preciso fazer umas compras, mas os cachorros ainda precisam se exercitar, então é isso que eles vão fazer.
“GEE.”
Os cães ávidos seguem meu comando e fazem uma curva à direita na trilha pelo terreno acidentado coberto de neve.
Moro em uma cabana isolada num terreno que possuo no Canadá. Gosto de não ter vizinhos muito próximos. Acho que pode me chamar de um tanto antissocial. Eu não conseguiria viver em uma cidade cheia de gente. Pelo menos não mais. Felizmente, a cidade mais próxima das minhas terras é pequena. As pessoas lá são gentis e todo mundo se conhece.
Infelizmente, isso significa que, quando vou à cidade, as pessoas me fazem todo tipo de pergunta para saber como estou, o que às vezes é exaustivo. Mas é bom saber que se importam.
Uma hora depois, chego à cidade e faço os cachorros pararem, garantindo que bebam água antes de entrar no mercadinho. Assim que passo pela porta, digo: “Oi, Max. Só vim buscar umas coisas”.
O rosto dele se ilumina com um sorriso aberto. “Madison. Bom te ver. Como você está?”
“Ah, você sabe. A mesma coisa de sempre”, digo, fazendo-o rir. “A mesma resposta de sempre.”
“Bom, eu não sou tão interessante. Não acontece nada de empolgante na minha vida.” E é a verdade. Fora as coisas que construo para melhorar minha cabana, nada de emocionante acontece na minha propriedade.
Ele sorri novamente e pergunta: “Você trouxe os cachorros hoje?”
“Sim, eles estão lá fora.”
“Posso ir vê-los?”
Retribuo o sorriso, mas estreito os olhos para ele de forma brincalhona. “Sim, mas nada de petiscos desta vez. Não quero que você os estrague.”
Ele faz um sinal de cruz no peito e sai da pequena loja. Dou uma volta e pego as coisas de que preciso, e quando estou quase terminando, Max volta para dentro.
“O Tarzan está com uma aparência melhor do que nunca.”
“É, ele está começando a brilhar de verdade. Virou um ótimo cão-guia.”
Tarzan é meu cão-guia, o que lidera os outros. Ele é um cão magnífico e obedece a cada comando que dou. Ele também é o meu favorito.
Entrego a cesta com as compras para Max, e ele começa a somar os valores. Quando termina, pago e guardo tudo na minha mochila esportiva, que fecho com o zíper.
“Obrigada, Max.”
Antes de sair, ele pergunta: “Posso passar aí um dia para tomar um café?” Sorrio para ele enquanto balanço a cabeça positivamente. “Claro. Que tal segunda-feira?”
“Combinado.”
Acenando para ele, digo: “Então, até segunda”.
Max é uma das poucas pessoas que me visita, o que não me incomoda. Ele é um homem tão doce e gosto da companhia dele.
Nos despedimos antes de eu sair para o trenó, onde os cães me esperam. Amarro a bolsa no trenó e subo na parte de trás.
“HIKE.”
Todos começam a correr, fazendo o trenó disparar, e eu me seguro firme para não cair.
Eu adoro isso. Adoro estar na parte de trás do trenó, gritando comandos e vendo os cachorros correrem com entusiasmo pelas trilhas de neve. Isso me dá um tipo de liberdade que não sei explicar e sem a qual não consigo viver.
Depois de 40 minutos, estamos prestes a fazer uma curva à esquerda quando ouço algo ao longe. “Socooorro.”
“WHOA”, grito, fazendo os cachorros pararem. O silêncio me rodeia até ser quebrado novamente por uma voz desesperada.
“Socooorro.”
Parece que alguém se perdeu. Talvez um trilheiro que deu um passo maior que a perna?
Este não é um lugar para novatos que buscam aventura. Se quer saber, até os trilheiros mais experientes deveriam seguir apenas pelas trilhas demarcadas nesta área.
A voz soa de novo, então escuto de onde vem antes de gritar: “HIKE”.
Meus cachorros começam a correr e eu os guio para uma trilha mais acidentada, seguindo a voz. Começa a nevar, então olho para o céu. Droga. A tempestade de neve está começando antes do que eu esperava.
Ao ouvir a voz novamente, percebo que não consigo chegar até a pessoa com o trenó. Isso me faz xingar baixinho, porque significa que terei que ir a pé.
Desço do trenó e saio da trilha, atravessando as árvores à minha direita na neve que vai até os joelhos.
Felizmente, não demora muito até eu encontrar um homem desmaiado na neve. Vou até ele o mais rápido que posso e sacudo seus ombros.
“Ei. Ei, olhe para mim.”
“Ajuda”, ele sussurra com os olhos fechados.
“Ei, cara. Vamos lá, abra os olhos. Olhe para mim.”
“Ajuda”, ele sussurra de novo antes de perder a consciência.
Solto um suspiro de frustração antes de xingar: “Merda”.
Levantando-me, passo meus braços por baixo das axilas dele e começo a arrastá-lo pela neve, o que é absurdamente difícil!
Ainda bem que não sou uma mulher pequena. Sou carpinteira e faço muito trabalho braçal, então sou forte e tenho preparo físico.
Leva um tempo para arrastá-lo pela neve e, a certa altura, me perco porque a neve está caindo forte e cobriu meus rastros. Então, chamo pelo Tarzan, que responde com dois latidos todas as vezes, guiando meu caminho de volta ao trenó.
Quando finalmente chego, estou ofegante. Logo depois de conseguir colocá-lo no trenó, fico de pé e inspiro profundamente algumas vezes para recuperar o fôlego. Então olho para o sujeito e balanço a cabeça.
Idiota. Por que diabos ele viria caminhar aqui com uma tempestade de neve chegando?
Falando nisso, é melhor tirar esse cara do frio. Estou mais perto de casa do que da cidade, então decidi levá-lo comigo, já que está escurecendo. Espero que a tempestade passe até amanhã. Assim poderei levá-lo de carro até a cidade para ver um médico.
Como moro aqui, tenho treinamento básico em primeiros socorros, como suturar um ferimento se necessário e, claro, RCP, mas o rapaz não precisa disso. O que me preocupa é a hipotermia.
Eu o amarro ao trenó e penso se deveria voltar para buscar a mochila que ele certamente deve ter, mas afasto o pensamento. É perigoso demais para isso agora. A neve está caindo forte, preciso seguir em frente.
Subindo no trenó, guio os cães pelo resto do caminho até em casa, onde rapidamente coloco o rapaz para dentro e na minha cama, tiro suas roupas molhadas, cubro-o com todos os edredons e cobertores que tenho e acendo uma fogueira no fogão a lenha da sala.
Depois, volto ao quarto para verificar a respiração dele. Ouço que está estável, então o deixo lá por um momento para tirar os cães da linha e colocá-los no celeiro. Depois, garanto que tenham comida e água antes de voltar para a cabana e acender as lamparinas a querosene que tenho na sala.
Como não tenho eletricidade, fervo água para um chá no fogão a gás que tenho na minha cozinha pequena. Volto para o quarto, sento-me em uma cadeira no canto e fico observando o sujeito.
“Idiota”, digo balançando a cabeça. Sair sem checar a previsão do tempo. Especialmente se ele não conhece a região. O que ele estava pensando?
Sei que ele não é daqui porque nunca o vi na cidade. Deve ser um turista. Recebemos muitos deles por causa da natureza e das trilhas, mas os guias da cidade normalmente não deixam pessoas inexperientes saírem por aí sem um guia.
Se ele for um trilheiro experiente, então o que aconteceu? Como eu disse: você deve ficar nas trilhas, não sair andando por aí, e ele saberia disso se fosse experiente.
Horas passam enquanto o observo e, a certa altura, pego um livro para ler enquanto fico aqui. Também decido fazer uma xícara de café para me manter acordada.
Bem quando o sol começa a nascer, o rapaz se mexe, então deixo meu livro de lado e vou até a cama.
“Ei, cara. Acorde.”
Ele geme antes de seus olhos se abrirem fracamente.
“Ei”, digo.
Seus olhos pousam sobre mim antes de se arregalarem um pouco. “Que diabos...?” Ele se senta na cama e o edredom desliza pelo seu tronco bonito e definido.
Então ele pergunta: “Quem é você?” Ignorando a pergunta, digo: “Como você está se sentindo?” Ele olha ao redor do meu pequeno quarto com olhos arregalados. “Onde eu estou?”
“Responda à minha pergunta”, digo.
Seus olhos encontram os meus castanhos. “Você responde à minha.” Suspiro. “A minha primeiro. Como você está se sentindo?”
“Eu... eu me sinto bem.”
“Ótimo.”
Então, dou um tapinha na testa dele. “O que você estava pensando ao sair das trilhas?” Ele me olha com uma expressão de surpresa e esfrega a testa. “Eu não... eu não saí.”
Revirando os olhos, levanto-me e vou em direção à porta da sala, mas antes de entrar, olho por cima do ombro e digo: “Eu encontrei a sua bunda idiota fora da trilha, então sim, você saiu”.
Atravesso a sala e vou para a cozinha, onde começo a fazer uma xícara de chá para ele.
Então, quase o ouço gritar: “ESTOU PELADO. POR QUE ESTOU PELADO?”
Balanço a cabeça enquanto sirvo o chá em uma caneca e levo para ele. Então digo: “Você está pelado porque suas roupas estavam molhadas e você estava quase tendo hipotermia, então eu o despi e o cobri com edredons quentes. De nada”.
“Você me despiu?”, ele pergunta com as sobrancelhas levantadas. Revirando os olhos, suspiro. “Não, suas roupas caíram sozinhas. É claro que eu o despi. Você precisava tirar as roupas molhadas.”
Empurro a caneca para as mãos dele. “Aqui. Beba isso.” Ele olha para o chá e franze o nariz. “Eu prefiro café.”
“Eu não ligo. Beba.”
Saio do quarto e vou para a cozinha preparar o café da manhã. Ouço-o tropeçar pela sala pequena e ele entra na cozinha com um edredom enrolado na cintura. Então ele pergunta: “Onde estão minhas roupas?”
Apontei para a sala. “Estão no varal, ao lado do fogão a lenha.”
Ele vai até lá se vestir antes de voltar à cozinha e perguntar: “Agora responda à minha pergunta. Quem é você?” Coloco o café da manhã no prato e entrego a ele antes de pegar uma xícara de chá para mim e olhá-lo.
“Eu sou a Madison.”