Capítulo 1
Quatro anos depois
Lexi
Sextas-feiras são para festas privadas, o que significa ganhar mais dinheiro do que trabalhando no clube. Mais dinheiro significa que Drago geralmente fica feliz com a gente e ninguém vai para a jaula.
"Pé, Jasmine", Marco dispara para mim. Eu deixo meu delineador de lado, tiro o sapato e estico o pé na direção dele. Ele abre meus dedos e insere uma agulha entre eles.
No começo, eu morria de medo das drogas, mas agora, sem elas, eu nunca conseguiria fazer as coisas necessárias para sobreviver e manter minha sanidade.
As drogas nos deixam flexíveis e submissas, exatamente como os clientes gostam. Além disso, depois de quatro anos sendo viciada, eu teria uma abstinência pesada, e provavelmente morreria se tentasse parar.
Ver o Marco se tornou o ponto alto do meu dia. O barato que sinto com as drogas me faz esquecer da vida que eu tinha antes. Ajuda a esquecer eles.
Marco traz meu pé até a boca e põe a língua para fora. Assim que ele remove a agulha da minha pele, um fio de sangue escorre. Ele passa sua língua comprida pela planta do meu pé para recolhê-lo. A antiga eu provavelmente ficaria repulsada com algo assim, mas estou tão entorpecida agora que nada me incomoda.
Além disso, sou a única garota que recebe esse tipo de tratamento do Marco. Ele é meio obcecado por mim, mas não me importo, isso tem suas vantagens. Ele me chama de anjo e vive dizendo que, um dia, planeja me tirar de tudo isso. A verdade é que ele está preso aqui tanto quanto eu. Drago é dono de todo mundo, de um jeito ou de outro.
"Você sabe que faz cócegas, né?", pergunto. Dou um sorriso sedutor para ele, bem no momento em que as drogas começam a fazer efeito no meu organismo.
"Mas será mesmo? Aposto que você não ri quando aqueles velhos gordos e escrotos fazem isso." Ele coloca meu pé no chão gentilmente.
"Eu não rio porque vou parar na jaula, mas ainda faz cócegas."
"Um dia, meu anjo, estaremos deitados naquela praia, bem longe dessa merda toda." Ele suspira e se levanta. Então, ele se inclina e beija minha testa com suavidade. O gesto é doce e me lembra Cameron, ele sempre beijava minha testa. Talvez seja por isso que gosto tanto da atenção de Marco; parece com um lar.
À medida que as drogas entram na minha corrente sanguínea, meu corpo relaxa e eu deixo meus olhos se fecharem.
"Termine logo, já está quase na hora", ele sussurra, pairando sobre mim. Seus olhos percorrem meu corpo quase nu, ele solta um suspiro de frustração e vai embora.
Abotoo meu salto alto novamente e passo um spray fixador no rosto para manter a maquiagem impecável.
"É noite de cliente rico, meninas! Dizem que a maioria desses caras são milionários", Teegan anuncia para a sala.
Teegan é irmã do Drago, a mesma que me atraiu para esse inferno naquele dia, perto da padaria. Ela é tão fudida quanto o Drago, e também a vadia responsável por me viciar em drogas.
Nós não vemos nada do dinheiro que ganhamos; os presentes e as gorjetas vão direto para Drago e Teegan. Nossa única recompensa é mais droga ou a cortesia de ficar longe da jaula.
"Vamos logo, vadias!", Teegan grita batendo palmas. Como zumbis bem arrumadas, seguimos em fila para nossos respectivos quartos. Algumas de nós não usam nada além de salto e fio-dental, como eu, outras estão vestidas com roupas de fetiche ou fantasias.
Renee está sempre vestida de empregada para aqueles que têm fetiche em governanta. Roxy usa um traje de couro vermelho dos pés à cabeça, com nada além de um zíper onde deveria estar a boca e dois buracos cobertos por tecido para os olhos.
Subo as escadas até o quarto que me foi designado e me coloco de joelhos no chão, esperando pelo meu primeiro cliente.
O quarto tem uma cama grande com dossel, uma cadeira tântrica e uma grande variedade de brinquedos sexuais à escolha do meu mestre. Há também as restrições que sou obrigada a usar.
Coloco as algemas de couro nos tornozelos, depois o outro par nos pulsos, antes de puxar a venda preta para baixo. Agora é só esperar e deixar minha mente se desligar.
As drogas deixam tudo pesado e nebuloso, mas me permitem escapar para dentro da minha própria cabeça. Viajo para épocas mais agradáveis, lembranças felizes que agora parecem ter acontecido há uma vida inteira.
Meu estômago ronca; não consigo me lembrar da última vez que comi alguma coisa. Uns dias atrás, talvez?
Vozes agitadas ecoam pelo corredor. O som de homens rindo alto ressoa pelo quarto desolado. O barulho do outro lado da porta parece uma festa de fraternidade, ou pelo menos o que imagino que seria.
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Hardy
"Qual é, cara, diz para a Amy que é só por uma noite."
"Hardy, tenho treino de manhã", responde Cam.
"Tá bom, só algumas horas então? Te levo de volta antes do amanhecer."
"Foi mal, cara. Estamos na estrada, não posso simplesmente parar tudo e pegar um jatinho para uma noite de curtição. O que o Wrigs tá fazendo?"
"Você realmente precisa perguntar?", suspiro.
"É... pergunta idiota. Ele está trancado no bunker dele caçando um fantasma na internet, né?"
Todos nós sabemos o nome desse fantasma, mas há dois anos concordamos em parar de falar nele. No terceiro ano, Cam e eu até paramos de procurá-la. Foi pela nossa própria sanidade, precisávamos seguir em frente. Era o que a Lexi teria querido.
Mas Wrigley nunca parou. Até hoje, ele passa horas seguidas revendo as mesmas filmagens de câmeras de segurança do dia em que ela foi sequestrada. Depois, ele vasculha a internet usando softwares de reconhecimento facial de alta tecnologia.
Ele analisa câmeras de trânsito, câmeras privadas, qualquer feed de vídeo que consiga hackear, na esperança de ter o menor vislumbre que seja dela. Ele se recusa a acreditar que ela simplesmente desapareceu no ar.
Não tenho certeza se ele algum dia vai conseguir seguir com a vida sabendo que ela ainda está por aí. O resto de nós acha que ela está morta, ou pelo menos torcemos para que esteja, porque a alternativa é escura demais para qualquer um de nós imaginar.
Desde a formatura, assumi o império imobiliário do meu pai e me enterrei no trabalho para que ele e Louise pudessem viajar.
Ela e Halston se divorciaram logo após Cameron levar o tiro, e Halston e Beth se casaram desde então. Sem Halston, não acho que Beth teria sobrevivido sozinha ao desaparecimento de Lexi. Então, acabou sendo melhor para todos.
Cameron joga futebol pela seleção dos EUA, que está na estrada para tentar ganhar a Copa do Mundo. Até hoje eles não levaram o título, mas Cam espera mudar isso. O pai dele ganhou quando jogava pelo Brasil, antigamente, então Cameron quer deixá-lo orgulhoso.
Hoje à noite vou a uma festa, um tipo de evento underground. Depois que Lexi desapareceu, comecei a mergulhar mais fundo no mundo do BDSM. Sempre tive uma personalidade dominante no quarto e sentia prazer com a submissão de mulheres que me deixavam realizar minhas fantasias.
Mas, depois que perdemos Lexi, o BDSM se tornou mais um vício para mim. A perda dela me fez entrar em uma espiral com uma necessidade de controle. Parecia que eu não tinha controle sobre mais nada, como se estivesse sendo levado à beira da loucura, exatamente como Wrigs e Cam.
Todos nós aprendemos a lidar com a perda dela do nosso jeito. Cam se enterrou no futebol, Wrigley se tornou um hacker perseguidor de elite, e eu sou um viciado em sexo distorcido.
"Bryce, estou a caminho."
"Seu carro estará esperando, senhor."
Subo as escadas do meu jato particular, sentindo-me um pouco triste por nem Wrigs nem Cam poderem se juntar a mim nesta festinha. Eles já foram uma ou duas vezes no passado, mas sei que não é muito a praia deles; os dois só ficam por perto observando. Cam agora tem Amy, sua noiva, e Wrigs... bem, aquele pobre filho da puta não ficou com mais nenhuma mulher desde a Lex.
Faz quatro anos desde a última vez que ele transou. Cam até desistiu de tentar um relacionamento com Wrigley depois que a perdemos. O clima entre os dois ficou tenso, e eles mal se falam.
Tomo um gole de bourbon Rip Van Winkle e inclino a cabeça para trás, fechando os olhos. Preciso entrar no clima para esta noite. Estou ansioso por um alívio de estresse muito necessário.
Ouvi falar da festa desta noite por meio de um cliente. Normalmente, não vou a essas coisas a menos que conheça alguém ou tenha um amigo comigo. Os ingressos para esta noite custam 20.000 dólares cada, o que é um pouco mais caro que o normal. Mas, aparentemente, este evento atende a um público com apetites um tanto mais sombrios.
Estou ansioso para expandir meu leque de dominação há algum tempo, interessado em experimentar coisas novas. Quanto mais penso no que aconteceu com Lexi, mais depravados meus impulsos se tornam.
Na maioria dos dias, sinto-me perdendo o controle, e essa perda de controle só faz com que eu deseje esse estilo de vida cada vez mais.
Meu cliente me informou que as submissas não usarão palavras de segurança. Isso significa que posso levar seus limites ao meu bel-prazer, algo que eu precisava desesperadamente há algum tempo.
O aniversário do desaparecimento de Lexi está a poucos dias de distância, e é só nisso que conseguimos pensar.
Estou precisando desesperadamente dessa distração agora.
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Hardy
"Bem-vindo! Eu sou a Teegan, você
tem seu ingresso, querido?"
Uma mulher alta, com traços hispânicos e vestindo um vestido preto elegante, me recebe na porta. O cenário para o evento desta noite é uma antiga mansão de fazenda.
Ela é mais velha, mas ainda bastante bonita, embora um pouco grosseira. Teegan é
uma daquelas mulheres que sempre se esforça para ser elegante, mas nunca conseguirá fugir de seus demônios, e isso fica evidente.
É meia-noite, voei direto de Nova York para Nova Orleans só por causa dessa festa. Como tudo que é depravado e vive nas sombras, festas como a de hoje só começam mesmo por volta da hora do diabo. Isso me faz chegar extremamente cedo. O que posso dizer? Estou ansioso demais para descarregar o estresse.
A maioria dos homens que vêm aqui não é muito exigente quanto à aparência de suas submissas. Eu, por outro lado, prefiro que sejam loiras. Talvez venha lá do colégio; Darcy e Gwen eram loiras. Ou talvez a ideia de infligir dor a uma morena, como Lexi, tenha se tornado dolorosa demais para se imaginar.
Meto a mão no bolso interno do meu terno Armani e pego o ingresso. Os olhos de Teegan percorrem meu corpo com voracidade a cada movimento meu.
"Você não é um cliente habitual", ela comenta em um tom sedutor.
"Não", respondo secamente. Não tenho necessidade nem desejo de vínculos, não é isso que procuro. Estou aqui para ter prazer e alimentar a besta que se alojou na minha alma.
Ela pega o ingresso e dá um sorriso malicioso. "Loiras, é? Bem, se isso não é de partir o coração, não sei o que é."
Nossos ingressos especificam nossas preferências para a noite, desde a aparência desejada até os fetiches preferidos.
"Divirta-se, amor, nossas garotas são as melhores. Mas, se não encontrar o que procura, também estou aqui para prestar serviços privados."
"Obrigado, Teegan. Vou levar isso em consideração." Dou uma piscada para ela e entro.
No segundo em que passo pela porta, entendo por que ela praticamente se jogou em cima de mim. Dando uma olhada rápida no salão principal, percebo logo que a maioria dos frequentadores são homens carecas e barrigudos.
Sinto-me deslocado imediatamente. Talvez esta festa seja extrema demais para um cara como eu.
Um cavalheiro idoso passa por mim vestido com uma fralda. Uma chupeta pendurada na boca, ele segura a mão de uma mulher linda. Ela o leva até uma cadeira de balanço, coloca-o em seu colo e levanta a blusa. O homem se prende ao seio dela com a boca e começa a mamar como um bebê.
Jesus Cristo... talvez isso realmente não seja minha praia. Eu esperava mais algemas e chicotes, e menos fetiches estranhos.