Capítulo 1
Tessa
Eu andava de um lado para o outro na sala, passando as mãos pelo cabelo, frustrada com o anúncio chocante que minha mãe acabara de fazer. Eu não sabia se gritava a plenos pulmões ou se ia embora de casa de vez. Parei de andar e lancei um olhar para a mulher sentada à minha frente, com as mãos repousadas no colo. "Você está brincando, né, mãe?", perguntei.
Quando ela levantou a cabeça para olhar para mim, a expressão em seu rosto dizia tudo, mas eu não queria acreditar. Acreditar que minha mãe estava se casando de novo — ou melhor, que ela já tinha se casado. "Eu estou falando sério, Tessa."
Dei uma risadinha e balancei a cabeça. "Certo." Fechei os olhos e os abri novamente. "E você acha que fez a escolha certa ao não conversar com sua filha primeiro?", disse em voz baixa, mantendo o olhar fixo no dela.
Ela se levantou, sua estrutura alta intimidando a minha. Minha mãe tinha corpo de modelo. Magra, alta e linda. Ela tinha uma pele natural que, às vezes, as pessoas confundiam com cirurgia plástica. Frequentemente, quando ela sai com o papai, as pessoas pensam que ele é o pai dela. Digo, não é como se meu pai fosse um homem feio. É que ele se casou com minha mãe quando ela estava no auge da juventude. "Escuta, Tessa."
Fui trazida de volta à realidade pela voz da mamãe. Ela segurou meus ombros. "Carter é um bom homem. Ele vai cuidar muito bem de você. Acredite em mim."
Balancei a cabeça, afastei as mãos dela e dei um passo para trás. "Esse é exatamente o meu ponto, mãe. Você não confiou em mim o suficiente para me avisar antes de tomar uma decisão tão grande." Passei as mãos pelo cabelo, mordendo o lábio de frustração.
Dei um passo à frente. "Como você espera que eu aceite um completo estranho como meu pai? Alguém que mal conheço. Não acho que consiga fazer isso", falei, mantendo o tom sério.
"Não estou pronta para ter um pai, muito menos para me mudar para a casa dele. Não sou mais criança. Tenho 19 anos, pelo amor de Deus!", acrescentei.
A decepção brilhou em seus olhos, misturada com tristeza. "Eu sei, Tessa. Mas já faz um ano. Não podemos continuar vivendo assim. Empréstimos, contas, aluguel. Tudo está se acumulando. Meus negócios não vão bem o suficiente para eu dar conta de tudo. E seu pai nos deixou sem nada." Ela baixou a cabeça e a levantou novamente. Vi lágrimas de dor em seus olhos.
"Eu posso não estar onde queria agora, mas Carter é um bom homem. Ele tem me ajudado muito."
"E quanto à minha faculdade?", perguntei.
"Tudo isso será resolvido. Carter é professor na faculdade de lá. Ele está providenciando a sua transferência. Você não precisa se preocupar com isso." Massageei as têmporas. Eu não podia negar o fato de que minha mãe se esforça muito pela família. Ela trabalha como gerente de vendas em uma grande boutique em Newark, onde moramos. Sei que não ajudo muito. Meu emprego de meio período na lanchonete não paga quase nada.
Soltei um suspiro profundo. "Então é isso. Vamos sair deste lugar para sempre. Deixando tudo para trás."
"Às vezes, apegar-se a algo só traz dor. Sim, eu sei que temos todas as nossas memórias aqui. Mas elas estarão gravadas em nossos corações. Temos que seguir em frente e começar uma vida melhor, Tessa." Ela pegou minha mão e segurou na dela.
"Eu te amo e nunca farei nada para te machucar. Vamos começar uma nova vida, hum?"
**
Não sei quantas vezes bufei dentro do ônibus. Eu não conseguia processar a amarga verdade de como tudo estava acontecendo. "Por que você continua bufando? Quer que os outros passageiros pensem que você está bufando para eles?", a mamãe disse ao meu lado. Estávamos a caminho da cidade de Nova York, perto de onde moramos, em Newark. Eu não conseguia acreditar que concordei em segui-la.
Eu deveria ter ficado. Mas sei que seria eu quem sofreria por isso, considerando que minha mãe cuida de mim. Não me falta nada. Ela paga minhas mensalidades, compra minhas roupas novas e outras coisas. E eu sei que não conseguiria ficar longe dela. Nunca fiquei sozinha.
"Tudo bem, mãe", foi o que respondi, virando o rosto para a janela.
Uma hora depois, chegamos à cidade grande, Nova York. Não tentei esconder meu espanto com o tamanho da cidade. Descemos do ônibus na rodoviária. A mamãe se afastou para fazer uma ligação enquanto eu deixava meus olhos se perderem pelo movimento. "Tessa, vamos pegar um táxi."
Meus olhos se arregalaram um pouco. "Com todas essas malas?", perguntei, olhando para nossa bagagem grande. "Carter disse que está ocupado e não poderá vir nos buscar."
Engoli em seco e soltei o ar. "Certo. Imagino que esta também seja a sua primeira vez aqui." Não deixei passar o olhar feio que ela me lançou em resposta.
Finalmente pegamos um táxi e entramos no carro. Mamãe passou o endereço para o motorista e saímos. "Ele mora sozinho?", quebrei o silêncio, fazendo a mamãe olhar para mim.
"Por que a pergunta?"
"Para saber como devo me preparar para conhecer a família dele", respondi, desviando os olhos de um lado para o outro.
"Sim, mas ele tem uma filha. Ela mora no Canadá. Estuda lá", disse mamãe.
"E, para responder às suas outras perguntas, a esposa dele faleceu há muito tempo, quando a filha tinha 10 anos. Ela tem 18 agora." Balancei a cabeça em sinal de entendimento. Não disse mais nada e recostei-me no banco.
Chegamos à casa alguns minutos depois. O motorista foi gentil o suficiente para nos ajudar com as malas. A casa não era tão grande, nem pequena. Moderada o suficiente para ser chamada de uma casa de classe média.
Fiquei surpresa ao ver a mamãe caminhar até a janela e tirar uma chave. "Consegui!", ela comemorou com um sorriso de orelha a orelha. Revirei os olhos em resposta.
Ela destrancou a porta e entramos. Não parei em nenhum lugar a não ser no sofá, exausta demais para qualquer coisa. "Aqui", mamãe me passou um copo de água gelada. Tomei tudo sem perguntar como ela tinha encontrado o caminho da cozinha.
"Deixe-me ver se encontro algo para comermos."
Ela estava prestes a sair quando a chamei. "Espera, mãe. Ele vai ficar bem com a gente invadindo a casa dele?" Ela me lançou um sorriso. "Não seja boba. Carter disse para eu me sentir em casa. E não podemos ficar aqui com fome esperando por ele." Bem... ela tem razão. Eu estava sentindo como se minhas entranhas fossem saltar de tanta fome.
"Isso está delicioso. Você merece um prêmio", disse enquanto dava a última garfada no espaguete. Fiz um sinal de positivo com o polegar.
Mamãe balançou a cabeça. "Você sabe que sua mãe cozinha muito bem."
"Não vou discutir isso." Esfreguei as palmas das mãos sobre a minha barriga estufada. Agora sim, penso com clareza.
A noite caiu e não havia sinal do Sr. Carter. Acho que ainda não consigo chamá-lo de papai ou pai. Simplesmente não parece certo. "Você tem certeza que ele vai aparecer hoje? Estamos aqui desde a tarde."
"Ele vai. Ele acabou de me mandar uma mensagem dizendo que está a caminho." Balancei a cabeça, entediada, e peguei meu celular. Eu estava tentando o número da Natalie desde que saímos de Newark, mas não conseguia falar com ela. Natalie é minha amiga mais próxima em Newark. Sinto-me mal por ter partido sem me despedir.
Ouvimos o som da porta. Mamãe se levantou. "Acho que ele chegou." A empolgação em seu tom não passou despercebida.
"Desculpem por fazer vocês esperarem. Tivemos uma reunião longa. Não consegui escapar." Ouvi uma voz masculina, porém forte, dizer. Ao virar o pescoço, deparei-me com um homem musculoso, alto e atraente.
"Não, tudo bem", ouvi a mamãe dizer, e então ela se virou para mim. "Conheça minha filha, Tessa."
"Tessa, este é Carter. Seu novo pai", disse ela. Tive vontade de revirar os olhos pelo modo como ela usou o título. Mas, por causa dos olhos dele, que estavam fixos em mim, não o fiz.
"Olá, senhor. É bom conhecê-lo", eu disse, forçando um sorriso. O que eu não esperava era me ver envolvida por um abraço caloroso. O choque me dominou, e meu coração disparou. Mesmo depois de me afastar, meu corpo ainda se sentia aquecido pelo toque dele e pelo seu perfume. O que estava acontecendo?
"É um prazer conhecê-la pessoalmente. Sua mãe me falou muito de você", disse ele, lançando-me um sorriso. E, por minha própria vontade, vi-me encarando-o por mais tempo do que o normal.
Mamãe sentiu a tensão na sala. Ela limpou a garganta. "Por que você não se instala, Carter? Tenho certeza de que está exausto", disse ela.
"Sim, você tem razão. Deixe-me mostrar os quartos de vocês." Ele caminhou entre nós. No momento em que ele deslizou a mão para a curva da minha lombar, senti como se meu coração fosse saltar pela boca.
Subimos as escadas e ele nos mostrou nossos quartos. O quarto dele ficava entre o meu e o da mamãe. "Fique à vontade, Tessa. Esta é sua casa e sua nova família. Não hesite em me procurar se precisar de alguma coisa."
Não sei por que, mas o jeito como ele olhava para mim e como ele me tocou mais cedo deixaram meu corpo fraco. Ele chegou até a dar tapinhas no meu ombro, o que piorou as coisas. Meu corpo reagiu ao toque dele. "Obrigada, senhor", murmurei quase para mim mesma, enquanto ele já estava fora de vista com a mamãe.