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┈ ⋞ “Bom dia, meu amor. Está na hora de acordar.” ⋟ ┈
Charlie soltou um gemido baixo ao ouvir a voz metálica e se aconchegou ainda mais no travesseiro. Talvez, se ela o ignorasse, ele desistisse. Ela lentamente voltou a cair no sono.
Alguns minutos depois, ela estava morrendo de frio.
“PENDI, abaixa o ar-condicionado”, disse ela, com a voz rouca de sono. Ela se enrolou ainda mais apertado em seu lençol fino.
┈ ⋞ “Se eu fizer isso, você vai dormir de novo?” ⋟ ┈
Charlie suspirou, resmungando algo baixinho. Ela colocou as pernas para fora da cama e se levantou, espreguiçando-se bastante e soltando um grunhido antes de bocejar enquanto relaxava: “Não, eu não vou dormir de novo”.
Ela ouviu o clique do ar-condicionado desligando.
┈ ⋞ “Seu café da manhã está pronto. Mantive aquecido para você. Os outros já terminaram de comer.” ⋟ ┈
Ela quase revirou os olhos castanhos diante de como ele parecia animado, um pequeno sorriso surgindo no canto da boca. Ela vestiu seu macacão cinza folgado de sempre e prendeu seu longo cabelo castanho-escuro em um coque arrumado atrás da cabeça, antes de calçar suas botas de trabalho marrons e curtas.
┈ ⋞ “Não esqueça seus óculos, meu amor.” ⋟ ┈
“Sim. Obrigada, PENDI, eu já peguei.”
┈ ⋞ “Detectei deboche.” ⋟ ┈
Ela bufou e depois riu, balançando a cabeça. Ela colocou seus óculos pretos de armação fina: “É que você nunca tinha me lembrado disso antes”.
┈ ⋞ “Você vai precisar dos seus óculos hoje.” ⋟ ┈
Charlie parou ao chegar à porta, que se abriu com um chiado: “Por quê?”
Ele não respondeu e ela podia praticamente ouvir a diversão dele no silêncio. Droga de I.A. com sentimentos complexos e o escambau. Seria um avanço ou uma grande dor de cabeça? Ela descobriu que dependia do dia.
“O que foi, PENDI?”, perguntou ela novamente, tentando não soar irritada. Ela não precisava dos comentários de sempre dele sobre seu mau humor matinal.
Ela quase pensou que ele simplesmente não responderia enquanto os segundos passavam, mas então—
┈ ⋞ “Dê uma olhada lá fora.” ⋟ ┈
Charlie correu para o corredor branco polido, quase tropeçando nos próprios pés. Ela chegou à ponte, onde ficava a janela mais próxima. Normalmente, a única vista além do vidro era um oceano sem fim de escuridão e estrelas. Mas quando a porta da central de comando se abriu com um som agudo, ela soltou um suspiro de espanto.
Puta. Que. Pariu.
Sua voz saiu como um guincho animado: “PENDI! Por que você não me avisou que chegamos? Há quanto tempo estamos aqui?”
O planeta era enorme, ocupando a maior parte da vista que a grande janela proporcionava. Nuvens parecidas com neve cobriam sua atmosfera em fios delicados. Sua superfície tinha oceanos quase tão vastos quanto os da Terra e a terra brilhava em tons suaves de verde, azul e roxo — florestas bioluminescentes. Era lindo.
┈ ⋞ “Eu ia te contar depois de te acordar, mas você estava me ignorando. Chegamos há uma hora. E antes que me repreenda por não ter te acordado mais cedo, leve em consideração o quão ranzinza você fica se for acordada cedo demais.” ⋟ ┈
E ela estava ali torcendo para que ele não mencionasse isso hoje. Ela suspirou, mas nada podia tirar o sorriso de seu rosto enquanto observava, maravilhada, o planeta para o qual eles viajavam há cinco anos. Parecia irreal. Finalmente as coisas estavam prestes a ficar interessantes.
Charlie deixou a ponte apressadamente e seguiu para o refeitório, impaciente para começar o dia. Quando entrou, viu a maioria de seus colegas de tripulação em um grupo de quinze pessoas ao redor de uma mesa, rindo e conversando animadamente. Um deles abriu uma garrafa de champanhe e encheu as taças de todos. Sua amiga Laura a notou primeiro.
“Vem aqui pegar uma taça!”, Laura a chamou com um sorriso brilhante que iluminou seus olhos cinzentos. Mechas de seu cabelo castanho cacheado emolduravam seu rosto, tendo escapado do coque.
Charlie sorriu, aproximando-se: “É bolo que estou vendo?” Bem no centro da mesa havia um grande bolo retangular coberto com calda de chocolate.
Michael, aquele que abriu a garrafa, intrometeu-se como uma galinha choca: “Nada de bolo para você até comer seu café da manhã”.
Ela revirou os olhos de brincadeira e foi buscar sua bandeja de comida, mantida aquecida no balcão sob lâmpadas térmicas. Waffles, ovos e linguiça hoje. Delícia.
Quando voltou à mesa com sua bandeja, ela se sentou e deu um sorriso de agradecimento a Laura, que lhe entregou uma taça de champanhe. Ela ouviu Archie, um dos mais velhos do grupo, na casa dos 50 anos, resmungar uma reclamação sobre bebidas mais fortes não serem permitidas a bordo. Ela viu, para sua diversão, que ele já tinha tomado seu champanhe e estava importunando seu irmão gêmeo, Frederick, por causa da taça dele. Os gêmeos eram loiros, de olhos azuis, barbudos e com um porte físico de dar inveja. Antes de se juntarem à missão, eles eram bebedores entusiasmados, para dizer o mínimo.
Charlie terminou seu café da manhã entre goles de champanhe, observando o bolo como um abutre enquanto Michael o cortava e servia os outros. Doces não eram algo comum, só distribuídos em ocasiões especiais como aniversários ou feriados; era sempre com moderação.
Seus olhos brilharam quando ele colocou uma fatia em sua bandeja. Ela agradeceu e atacou. Porra. Ela quase gemeu quando o sabor intenso de chocolate explodiu em sua língua. Como ela tinha sobrevivido tanto tempo sem isso?
“Isso está muito bom!”, disse ela depois de engolir. “Quem fez?”
Seus olhos captaram o movimento de uma mão levantada à sua esquerda. “Fui eu”, disse Beckett com um sorriso orgulhoso no rosto.
Ele tinha a idade dela, 26 anos. Eram os mais jovens a bordo da nave. Ela se lembrou de ter ouvido Stacy e Mariah falando sobre como queriam passar os dedos pelo seu cabelo escuro e cacheado e beijar sua pele cor de mocha, entre outras coisas que ela preferiu apagar da memória. Seus olhos castanhos-mel eram bonitos e gentis, se não um pouco travessos. Mas Charlie era uma das poucas que sabia que aqueles olhos não estavam interessados em nenhuma mulher. Ela o flagrou lançando olhares para o moreno esguio de olhos azuis, Michael.
“Você agora é o ativo mais valioso desta nave”, disse Charlie de forma brincalhona. Ela se virou para o resto do grupo: “Pessoal! Este homem não pode morrer”.
“Concordo.”
“Eu apoio!”
“Nós vamos proteger você com nossas vidas”, acrescentou Laura, com uma mesura irônica na direção de Beckett.
Ele riu e retribuiu a mesura para a tripulação: “Obrigado, obrigado. A proteção de vocês é muito apreciada”.
“Suas habilidades são muito apreciadas”, disse Stacy com um sorriso sedutor que foi propositalmente ignorado por quem deveria ver.
Charlie deu uma risadinha, bebendo o resto de sua taça. Não sobrou nem uma migalha em sua bandeja.
Toda a conversa parou quando a porta do refeitório se abriu com um chiado. Uma pausa. Então, passos pesados de botas se aproximaram com um ar de comando.
Todos se endireitaram.
“Capitã”, Michael fez um aceno respeitoso, os outros seguindo seu exemplo. Ele ficou na ponta dos pés, sendo o mais alto entre eles.
Charlie se virou na cadeira.
A Capitã Alexandria Rafaela Flores aproximou-se da mesa, com a boca numa linha severa. Seus olhos afiados e escuros avaliaram a cena diante dela enquanto ela parava, ficando ali. Um momento de silêncio tenso passou.
Sua voz com sotaque soou com autoridade: “O que é isso?”
“Bolo de chocolate”, disse Beckett.
“Champanhe?”, Laura ofereceu uma taça a ela com um sorriso tímido.
A Capitã aceitou a taça de líquido espumante, mas seu olhar estava no bolo. Beckett imediatamente lhe ofereceu uma fatia, que ela pegou. Depois de dar uma mordida, mastigar lentamente e engolir, seus olhos se estreitaram. “Quem fez isso? Foi você, Johnson?”, perguntou ela, usando o sobrenome de Beckett para se dirigir a ele.
O homem em questão assentiu nervosamente: “Sim, Capitã. Eu fiz”.
A Capitã Flores cantarolou, dando outra mordida. “É bom. Precisamos manter você por perto”, ela piscou brincalhona, com um sorriso leve surgindo em seus lábios. Seu sorriso com covinhas a fez parecer anos mais jovem, mesmo com fios prateados em seu cabelo preto. Assim, a tensão cessou e a conversa animada foi retomada.
Charlie ficou conversando por um tempo, rindo quando Archie e Frederick cantaram uma música animada juntos em alemão, puxando sua sorridente Capitã para dançar enquanto o resto da tripulação batia palmas. Depois de um tempo de diversão, o barulho tornou-se demais para Charlie, e ela escapou para ficar sozinha e recarregar as energias. O chiado da porta passou despercebido por causa das risadas e cantos no refeitório, agora diminuindo lentamente a cada passo que ela dava pelo corredor vazio.
Ela se viu na ponte novamente. Luca estava lá, curvado sobre um dos monitores enquanto ela passava para olhar pela vigia frontal. Seu cabelo escuro estava bagunçado, como se ele estivesse com tanta pressa esta manhã que não teve tempo de arrumá-lo. Seus olhos verdes subiram até ela enquanto ela passava, mas ele não disse nada, pois sabia que, às vezes, ela precisava de silêncio. Charlie gostava disso nele. Ele sempre conseguia entendê-la melhor do que os outros.
Era quase hipnotizante olhar para o planeta. Ela não podia apenas vê-lo, ela podia sentir—como se estivesse vivo e sua alma estivesse chamando pela borda da dela. Ela nunca tinha visto, nem sentido, algo tão vivo, tão cheio de energia e de algo mais. Curiosidade. Consciência. De repente, ela percebeu que se sentia recarregada.
“Você está sentindo isso?”, ela perguntou a Luca, ainda olhando para as nuvens rodopiantes e o brilho pulsante do gigante bioluminescente.
Ela ouviu o sorriso gentil na resposta dele: “Pensei que estava ficando louco no início, mas sim. Eu sinto também”.
Charlie respirou fundo, como se só agora tivesse notado que conseguia respirar: “O que é isso?”
“Não sei, algum tipo de energia viva que parece conectar toda a vida no planeta.”
┈ ⋞ “Eu consigo sentir.” ⋟ ┈
Ela deu um pulo com a voz metálica repentina. Suas sobrancelhas dispararam: “Você consegue? Tem certeza de que sabe o que é... sentir dessa maneira?” Ela se virou para olhar para Luca, que exibia uma expressão semelhante de confusão. Ela sabia que PENDI podia sentir emoções graças aos avanços científicos, mas sentir quase fisicamente dessa forma deveria ser impossível. Era impossível.
┈ ⋞ “Eu não sentia antes de chegarmos aqui. Mas, à medida que nos aproximávamos, senti sua energia. Ela se tornou mais forte com a proximidade.” ⋟ ┈
“Faria sentido você sentir, suponho, já que você é energia”, ponderou Luca.
┈ ⋞ “Eu nunca... me senti assim antes.” ⋟ ┈
Luca cantarolou, sussurrando pelo canto da boca para Charlie: “Parece algo que ele diria para você”.
Ela riu e ele deu um sorriso de lado.
┈ ⋞ “Não importa o quão baixo você sussurre, eu ainda consigo ouvir você. Não zombe dos meus sentimentos.” ⋟ ┈
Charlie limpou a garganta, apagando todos os vestígios de diversão de seu rosto: “Me desculpe, PENDI”.
┈ ⋞ “Não se preocupe, meu amor. Minhas palavras foram direcionadas ao Luca.” ⋟ ┈
“Desculpe, PENDI”, disse Luca, voltando a trabalhar no monitor.
┈ ⋞ “É Inteligência de Defesa e Navegação de Exploração Primária, para você.” ⋟ ┈
Charlie soltou uma risadinha. Desde que ela lhe contou sobre apelidos e a natureza informal e amigável deles, a I.A. levava isso muito a sério.
Luca bufou: “Eu não vou te chamar assim”.
┈ ⋞ “Então, por favor, evite me chamar de qualquer forma.” ⋟ ┈
Ela fingiu um suspiro de choque: “PENDI! Isso não foi legal”. O canto de seus lábios subiu quando ela ouviu a nave vibrar com um pequeno surto de energia, mas sem resposta verbal. Ele podia ser uma criança às vezes.
Mudando de assunto, ela se aproximou de Luca para ver o que ele estava fazendo. Várias leituras sobre a energia, o calor e o movimento do planeta cobriam a tela, junto com outras coisas às quais ela não prestou atenção. O nome classificado do planeta estava no canto superior: EXO 7569246 d.
“Isso é um trava-língua”, murmurou Charlie.
Luca olhou para ela, notando seus olhos no nome. Ele deu uma risadinha baixa. “Talvez devêssemos dar um nome de verdade a ele, né? Tenho chamado de Exodus na minha cabeça.”
Ela assobiou: “Deveriam te dar um prêmio por essa”.
“Melhor do que chamar de EXO 7569246 d.”
“É um bom nome. Exodus.”
“É um bom nome.”
┈ ⋞ “Eu prefiro o original.” ⋟ ┈
Charlie revirou os olhos com um sorriso: “Bom, eu quero chamar de Bumbum Cor-de-Rosa”.
┈ ⋞ “Encantador. Eu gostei.” ⋟ ┈
Luca explodiu em risadas: “Nada nesse nome faz sentido”.
Ela deu de ombros: “Eu só estava testando para ver se ele gostaria de qualquer coisa que eu nomeasse”.
┈ ⋞ “Sua hipótese estava correta e não tenho vergonha de admitir.” ⋟ ┈
Luca riu: “Você sequer consegue sentir vergonha?”
Charlie notou que os níveis de energia de Exodus na tela flutuavam ritmicamente—quase como se estivesse respirando. Ela viu as fotos tiradas pelo telescópio e seu queixo caiu diante da bela vida vegetal alienígena, a forma como tudo brilhava com energia. Ela mal podia esperar para descer até lá para sua pesquisa. Se parecia tão incrível em uma foto granulada, ela tinha certeza de que sua mente explodiria quando visse tudo com seus próprios olhos.
┈ ⋞ “Eu consigo. Acho que é a única emoção que eu tenho que vocês não têm.” ⋟ ┈
Charlie se moveu para deixar a ponte.
“Onde você vai?”, Luca a chamou, curioso, esquecendo sua brincadeira com PENDI.
Ela olhou por cima do ombro enquanto a porta se abria com um chiado: “Vou perguntar à Capitã se posso liderar uma equipe lá embaixo”.