Capítulo 1: A Seleção
Ergo o queixo em direção ao céu, de olhos fechados. Uma garoa fina desce, encharcando a praça da vila e tudo o que há nela. As nuvens escuras pairam acima de nós, pesando sobre a multidão reunida, um reflexo do pavor que paira no ar.
Estou entre as outras mulheres, meu corpo rígido sob a capa escura que mal cobre o traje cerimonial revelador por baixo. O tecido gruda na minha pele, ensopado e pesado pela chuva. Aperto as bordas da capa, tentando me proteger do frio. O volume dos meus seios quase transborda do tecido fino, deixando-me exposta e vulnerável. A raiva aperta minha garganta ao pensar nisso. Puxo o capuz ainda mais para frente, deixando meu cabelo molhado e emaranhado cair ao lado do meu rosto, sobre os ombros.
Os anciãos da vila nos organizaram em uma fila, como oferendas esperando para serem recolhidas. Lanço um olhar para as outras. Elas abaixam a cabeça, os capuzes lançando sombras sobre seus rostos enquanto se encolhem sob suas capas, tremendo em suas vestes encharcadas e frágeis. O nojo cresce dentro de mim. É isso que eles esperam? Que fiquemos aqui, quase nuas, na esperança de sermos escolhidas?
A chuva tamborila contra as pedras da rua, uma batida constante que só aumenta a tensão. Fixo meu olhar na estrada; ele está chegando. O lorde dragão, sua carruagem e seus soldados estão vindo para fazer sua escolha.
O ruído grave dos cascos chega aos meus ouvidos, tornando-se mais alto à medida que se aproxima. Meu pulso acelera, apesar de mim mesma. A carruagem surge da névoa, uma estrutura escura de carvalho puxada por enormes cavalos negros. Ao lado dela, soldados cavalgam em formação, suas capas tremulando na chuva, com armaduras brilhando opacamente sob o céu cinzento.
O cortejo para na beira da praça. Os cavalos bufam, batendo os cascos na lama. Vapor sobe de seus corpos enquanto a umidade evapora no ar frio. Os moradores da vila calam-se quando a porta da carruagem se abre. Perco o fôlego quando ele sai.
O lorde dragão.
Alto, com uma presença que preenche o espaço ao seu redor. O capuz de sua capa está para trás, revelando um rosto que é ao mesmo tempo belo e frio. Seus olhos são afiados, penetrantes, enquanto percorrem a nós, com uma mistura de diversão e tédio em seu olhar. Ele está aqui para levar o que quer, e sabe que ninguém irá impedi-lo.
Seu conselheiro o segue, um homem magricela com olhos de falcão. Os soldados desmontam, formando um círculo ao redor do seu lorde. O lorde dragão dá um passo à frente, a lama chapinhando sob suas botas. Sinto o calor do seu olhar se aproximando.
As outras mulheres encolhem-se, seus capuzes caídos sobre os rostos. Seguro firme as bordas da minha capa, e a água escorre pelas dobras do capuz. Não vou desviar o olhar. Não vou me acovardar.
Ele levanta uma mão, silenciando os murmúrios dos moradores. "É hora da sua oferenda mais uma vez", ele declara, sua voz cortando a chuva. "Por séculos, este ritual tem sido mantido. Em troca da sua oferenda mais requintada, eu concedo-lhes minha proteção."
Um murmúrio percorre a multidão — medo, alívio e resignação. Alguns moradores assentem, outros agarram suas capas com mais força. Eles acreditam nas suas palavras. Eles precisam acreditar. A proteção dele é a única coisa que os separa dos perigos lá fora.
Seu olhar percorre a multidão, com um toque de satisfação em seus olhos. "Vocês vivem sob minha guarda, livres dos horrores que espreitam nas terras selvagens", continua ele, sua voz calma e suave. "Vocês devem sua paz a mim. E, em troca, eu levo o que é legitimamente meu."
Meus dentes se travam e meu coração dispara. O que lhe dá o direito de nos reivindicar? De nos tratar como meros objetos em troca de sua suposta proteção?
Seus olhos se estreitam e finalmente param em nós, a fila de mulheres. "Uma de vocês será escolhida", anuncia ele, seu tom baixo, quase um rosnado. "Minha nova consorte. Aquela que irá compartilhar do meu poder... e da minha cama."
O ar torna-se pesado, pressionando-me. Meu coração martela contra as costelas enquanto seu olhar percorre a linha. As outras mulheres baixam a cabeça, seus capuzes escondendo seus rostos. Levanto meu queixo ainda mais. A raiva queima quente no meu peito.
Ele se move lentamente, sem pressa, enquanto seus olhos avaliam cada uma de nós. Sua presença é avassaladora, o calor que emana dele corta o frio da chuva. Sinto seu olhar demorar-se em mim, mas me recuso a encontrá-lo.
Então, ele para na minha frente.
O silêncio se estende, quebrado apenas pelo som da chuva atingindo o chão. Seus olhos se prendem aos meus, afiados e desafiadores. Ele leva seu tempo, deixando seu olhar percorrer meu corpo, absorvendo as curvas mal disfarçadas pelo tecido encharcado do meu traje. Minhas bochechas ardem de vergonha. Mantenho a mandíbula cerrada, recusando-me a recuar.
"Bem", diz ele, arrastando as palavras, sua voz como veludo sobre o aço. "O que temos aqui?"
Ele dá um passo à frente, seus movimentos lentos e deliberados, até que posso sentir o calor irradiando de seu corpo, apesar do frio da chuva. "Diga-me", murmura ele, seu olhar penetrando a sombra do meu capuz. "Qual é o seu nome?"
"Zara", respondo rispidamente, recusando-me a perder o duelo visual.
"Zara". Ele repete lentamente, quase saboreando o som. Seus olhos brilham com algo sombrio e ilegível. "Um nome adequado para alguém com tanto fogo." Ele se vira levemente para seu conselheiro, embora seu olhar nunca deixe o meu. "O que você acha?", pergunta ele, com a voz suave e zombeteira. "Ela é digna de ser levada?"
O conselheiro assente. "Ela tem espírito, meu senhor. Talvez até demais."
"Demais?" O lorde dragão ri, um som baixo que faz um calafrio percorrer minha espinha. "Não. Eu gosto do espírito dela." Ele se aproxima, seus olhos perfurando os meus. "Eu vou levá-la."
Meu estômago se revira. "Você não vai fazer nada disso", cuspo, dando um passo para trás. "Eu não pertenço a ninguém." Meus nós dos dedos ficam brancos enquanto agarro o tecido úmido do meu manto.
Seus olhos brilham, seus lábios se curvando em um sorriso perigoso. "É mesmo?", murmura ele, estendendo a mão para segurar meu queixo. Seu toque é firme, não doloroso, mas envia um choque através de mim. "Sua rebeldia é... requintada", diz ele suavemente. "Mas não se engane — você irá se submeter a mim."
Viro o rosto, encarando-o. "Eu nunca vou me submeter a você." Meu coração bate descompassado no peito.
Seus olhos brilham com diversão. "Nós veremos." Ele se vira para seus soldados. "Tragam-na. Ela será minha consorte."
Os soldados movem-se em minha direção, suas mãos são ásperas, mas não cruéis, enquanto agarram meus braços. O medo não tem lugar aqui; não vou deixar que ele me veja desmoronar.
Enquanto me arrastam em direção à carruagem, olho de relance para a multidão. Meu estômago dá um nó ao ver minha irmã, parada, imóvel como uma estátua. Suas mãos estão cerradas em punhos firmes ao lado do corpo, o maxilar tenso. Gotas de chuva escorrem pelo seu rosto, misturando-se à raiva em seus olhos. Seu olhar encontra o meu e, por um batimento cardíaco, o mundo desaparece.
Eu me apresentei para a seleção para protegê-la. Era eu ou ela. Nosso pai tinha deixado isso brutalmente claro. Sua ameaça ainda ecoa em minha mente: Se você não for, ela irá. Eu não tive escolha. Não podia deixá-lo colocá-la lá, exposta e vulnerável.
Meu pai está atrás dela, com o rosto impassível como pedra. Seu maxilar está tenso, seus olhos queimando com uma determinação inabalável que faz meu estômago revirar. Ele encontra meu olhar, mas não desvia. Não há arrependimento, apenas a convicção fria de um homem que acredita ter feito a escolha certa. A traição arranha meu peito, uma dor aguda e fria que me rouba o ar.
Ao lado dele, minha mãe agarra seu braço, com os nós dos dedos brancos. Seu rosto está pálido, os lábios pressionados em uma linha fina, mas seus olhos — aqueles olhos queimam nele com todas as palavras que ela não diz. Quando ela olha para mim, sua expressão se quebra, apenas por um segundo. Ela murmura algo sem som e, embora eu não consiga ouvir as palavras sobre o barulho da chuva e o meu próprio coração, eu sei que é um pedido. "Seja forte".
Minha melhor amiga está na borda do grupo, com as mãos cobrindo a boca. Seus ombros tremem, seus olhos estão avermelhados e brilhantes. Ela balança a cabeça, um movimento pequeno e desesperado, como se tentasse negar o que está acontecendo.
Os soldados me puxam para frente e eu quase tropeço. Mantenho minha cabeça erguida, recusando-me a olhar para trás novamente. O lorde dragão me observa, seus olhos brilhando sob o capuz da capa, um leve sorriso de escárnio brincando em seus lábios.
Ele acredita que já venceu.
Travo o maxilar, sustentando seu olhar. Ele pode ter me escolhido, mas estou longe de ser derrotada. Ele aprenderá isso logo, logo.
A porta da carruagem paira à minha frente, sua madeira escura lisa pela chuva. Sou empurrada para dentro, o mundo lá fora se tornando um borrão enquanto a porta se fecha com um baque. Meu coração bate forte; cada batida é um lembrete de que lutarei contra ele a cada momento.
A carruagem parte, carregando-me para o desconhecido.