Lendas Malditas: Belgrave

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Sumário Capítulo 1: [Mensagem Interrompida] Capítulo 2: [Bem-vindos a Belgrave!] Capítulo 3: [Título do Capítulo] Capítulo 4: [Título do Capítulo] Capítulo 5: [Título do Capítulo] Capítulo 6: [Título do Capítulo] Capítulo 7: [Título do Capítulo] Capítulo 8: [Título do Capítulo] Capítulo 9: [Título do Capítulo] Capítulo 10: [Título do Capítulo]

Gênero
Mystery/Horror
Autor
Kandi
Status
Em Andamento
Capítulos
3
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1: Mensagem Interrompida

“Vamos lá, vamos lá, vamos lá!“, sussurrou Clara, desesperada, rodeada por fileiras de computadores que piscavam freneticamente. As luzes cortavam a escuridão, projetando sombras inquietantes nas paredes daquele quarto frio. O ambiente era sufocante, e o constante som das ventoinhas e dos alarmes ecoando pelos corredores deixava-a cada vez mais inquieta. Seu coração batia tão forte que ela podia ouvi-lo, e o suor escorria por sua pele clara. Seus cabelos pretos e curtos já caíam sobre seu rosto enquanto ela se apressava para digitar algo no teclado.

Os ecos de vozes e passos vinham de longe, aproximando-se rapidamente. Ela sabia que não tinha muito tempo. Seus dedos tremiam ao tentar concluir a mensagem, mas o som insistente dos alarmes e das vozes atrapalhava sua concentração. Ela se forçou a manter o foco, respirando fundo e encarando a tela.

“Rápido... antes que...“, pensou, antes de uma voz próxima ecoar pelo corredor. Em um reflexo, Clara enviou a mensagem e rapidamente começou a apagar tudo o que pôde no tempo que restava. Sem hesitar, empurrou a cadeira para longe, preparando-se para sair. Mas então seu olhar caiu sobre uma gaveta aberta. Ela sabia o que havia ali — algo importante. Sem pensar duas vezes, encheu as mãos com o máximo de papéis que pôde, questionando por um breve segundo se aquilo realmente valeria a pena. Não havia tempo para se lamentar.

O som dos eletrônicos cessou repentinamente. Todas as luzes se apagaram, mergulhando-a na escuridão total. O único som que restava era o de e sua própria respiração ofegante. Clara não ousava respirar alto. Lentamente, ela pegou uma lanterna na mesa e a acendeu. A luz era fraca e irregular, mas já era o suficiente.

Ela saiu apressada pelos corredores, tentando se distanciar dos passos e, ao mesmo tempo, encontrar uma saída rapidamente. Foi quando encontrou uma porta que parecia segura, mas estava terrivelmente enganada. A porta se abriu violentamente, e dois guardas gritaram e correram em sua direção.

Clara congelou por um instante. Ao fim daquele corredor, havia um homem alto, vestindo um terno elegante, com o cabelo bem cortado e olhos penetrantes. Ele a encarava fixamente, como se pudesse ver através dela. O pavor tomou conta de Clara, e ela correu como nunca antes, sem pensar em uma direção exata, apenas fugindo. Seus passos ecoavam no chão frio, e sua respiração ofegante podia ser ouvida de longe.

Ela sentia o coração disparar, batendo tão rápido que parecia querer escapar de seu peito. A adrenalina pulsava em suas veias, misturando-se ao terror que a envolvia como um manto pesado, tornando a respiração difícil e a visão turva. Cada sombra que se movia parecia ganhar vida, e cada ruído a fazia pular, como se algo a estivesse espreitando a cada passo.

Enquanto corria, sua mente estava um turbilhão. Pensamentos confusos se misturavam com flashes de lembranças: o sorriso de sua mãe, a segurança de seu lar e o abraço reconfortante de seu pai. O que ela tinha feito para merecer isso? Uma pergunta que ecoava em sua cabeça, fazendo-a hesitar por um instante. Mas a urgência da situação a forçou a seguir em frente. Clara não podia parar. Não agora.

Cada passo que dava era um desafio contra o desespero. Ela pensava em Emily, se ela realmente entenderia a mensagem, talvez chama-la para o meio disso não fosse a escolha certa.Eu preciso sair daqui!, pensou, determinada. O desejo de sobreviver queimava dentro dela, maior que o medo que a paralisava. Com isso, Clara se obrigou a manter o foco, sua mente lutando contra as memórias dolorosas e o terror iminente, enquanto corria em busca de uma saída.

Olhando ao redor desesperadamente, seus olhos se fixaram em uma única saída: uma porta dupla à sua frente, marcada com as palavras “ÁREA RESTRITA” em letras vermelhas e sinais de alerta. Sem tempo para hesitar, ela correu em direção à porta. O som dos guardas atrás dela era ensurdecedor, mas Clara apenas aumentou a velocidade, passando por aquela porta.

Ela empurrou a porta com força, o eco metálico reverberando pelo corredor quando a porta se fechou atrás de si. O ar na sala seguinte era mais frio, e as luzes fracas faziam as sombras nas paredes parecerem se mover. Os guardas hesitaram por um momento, parando na entrada como se temessem seguir adiante. Clara olhou ao redor — a sala estava cheia de computadores desligados e maquinários que ela não conseguia identificar.

E então seus olhos se fixaram na enorme porta metálica à frente. “Droga”, ela pensou, com o coração na garganta. Não havia volta. O medo dominava cada célula do seu corpo, mas o medo de ficar ali, à mercê dos guardas, talvez fosse maior do que o de encarar o que estava além daquela porta.

Com um último impulso de coragem, ela empurrou a porta pesada e passou por ela. Sabia o que a aguardava do outro lado, mas a sensação de que ficar para trás seria ainda pior a impulsionou para frente.

***

Fremont Street, aquela velha estrada de Nevada cheia de casas a volta. Dean, um jovem alto com cabelos loiros, estava encostado em seu Ford Mustang preto, que ganhara não a muito tempo em seu aniversario de 21 anos, segurando um cigarro e um isqueiro personalizado com sua banda favorita, combinando com sua camisa. O céu ao entardecer estava tingido de laranja e rosa, criando um cenário bonito, mas ele parecia imune à beleza ao seu redor. Assim que ouviu um barulho vindo do portão da garagem, sua expressão de desdém se intensificou.

Uma grande mala foi arrastada para fora, e logo atrás dela surgiu sua irmã, Emily, que se esforçava para movê-la. Baixa, e loira como Dean, ela tinha cabelos curtos e olhos azuis que brilhavam, mesmo com a camisa branca e o short esverdeado que usava.

— O que caralhos você colocou nessa mala? vamos ficar lá no máximo duas semanas! — Dean comentou, franzindo a testa e abrindo bem os olhos.

— Está tudo aqui. Você sabe como as coisas são. Não posso prever imprevistos — respondeu Emily, determinada.

— Imprevistos? Isso é só uma viagem! Não é como se estivéssemos indo para a guerra. — Dean revirou os olhos.

— Se você não ajudar, vamos ficar aqui para sempre! E não esquece que se você não vier, vou contar para a mãe sobre aqueles seu “amigos” de gangue.

— Eu não acredito que você está me fazendo ir nessa viagem de merda! Eu deveria estar com os meus amigos, não puxando sua mala gigante!

A mãe, Crista, apareceu e observou a cena com preocupação. Não podia ver seus filho partirem assim para tão longe, mas impedir Emily era uma tarefa inda mais difícil. Aproximou-se de sua filha e a abraçou.

— Cuidado, filha. Está levando tudo certo? — disse Crista, olhando para a filha com carinho.

— Sim mãe, computador, câmera, roupas e os lanchinhos — disse à abraçando por alguns segundos.

— O celular também? quero que me liguem quando chegarem lá e me avisem se algo ruim acontecer, ok?

Dean joga o cigarro na rua assim que ver sua mãe chegar.

— Você andou fumando de novo?! Me dá isso aqui! — Crista exclamou, percebendo o cheiro. Dean, com um suspiro, entregou o maço.

— Prometa que vai cuidar da sua irmã — Crista disse, olhando nos olhos de Dean.

— Claro, mãe. Não vamos ficar muito tempo. São só alguns dias. — ele desvia o olhar por alguns segundos.

Crista abre os braços e um pouco corado Dean retribui. Assim que entraram no carro, Crista gritou:

— Tomem cuidado!

Dean acelerou e buzinou duas vezes. Emily olhou pela janela até perder de vista sua mãe e se acomodou com os pés no banco.

Dean ligou o rádio no volume máximo com sua música favorita, mas Emily, colocando os fones, tentou ignorar o barulho.

— Não consigo parar de pensar na Clara. O que aconteceu com ela? Isso não parece certo — disse Emily, com a preocupação evidente em sua voz. Ela se lembrava de como Clara sempre fora medrosa, mas também curiosa, o que a levava a se meter em situações complicadas. A ideia de abrir o blog fora de Clara, e Emily sempre admirou a forma como ela a apoiava nessas aventuras.

O carro acelerou, saindo da cidade em uma longa estrada que parecia não ter fim. O cheiro de madeira queimada misturava-se com o ar fresco da noite, mas a melodia no carro não conseguia afastar a tristeza de Emily.

— Não importa o que aconteceu, ela com certeza está bem, e você está me fazendo perder o restante das minhas férias nessa droga de viagem — comentou Dean, aumentando o tom de voz, a frustração transparecendo em cada palavra.

— E se a Clara precisar de nós? Não posso ignorar isso! — Emily respondeu, a inquietação crescendo dentro dela. A preocupação pela amiga superava qualquer cansaço, e a lembrança de suas risadas e segredos compartilhados a fazia querer lutar para protegê-la.

O céu escureceu rapidamente conforme a viagem seguia.

— Você está preocupado, não está? — Emily olhou para Dean, que tentava disfarçar.

— Não. Só estou cansado dessa viagem — ele respondeu com tensão em seu olhar.

Emily manteve-se em silêncio, tentando não pensar muito no que poderia ter acontecido. Duas horas de viagem já haviam passado, e Dean, cansado de ouvir música, agora escutava a narração de um jogo de basquete no rádio. A paisagem pela janela era uma escuridão monótona, quebrada apenas pelos faróis do carro.

Ela pegou seu gravador de voz da bolsa, que estava cheio de adesivos de alienígenas, fantasmas e outros desenhos rabiscados de seu caderno escolar.

— BlogLendas Malditasapresentando... — começou a falar em um tom levemente entediado. — Aqui é Emily Addans, falando diretamente de um carro rumo a Belgrave, Califórnia. Estamos nas primeiras duas de nove longas horas de viagem com o imbecil do meu irmão.

Dean revirou os olhos sem tirar a atenção da estrada.

— Você vai mesmo gravar cada minuto dessa viagem? — perguntou com irritação.

— Claro! É para o blog. As pessoas precisam dos detalhes... você não entenderia.

— Que seja, só termina logo essa porcaria, tô tentando escutar o jogo.

Emily suspirou, impaciente, e, num gesto típico, levantou o dedo do meio para ele antes de guardar o gravador. Cruzou os braços e ficou olhando para a estrada, emburrada.

Horas se passaram com brigas, gravações de voz e música alta, até que Emily, exausta, acabou adormecendo no banco ao lado de Dean. Entediado e querendo acabar logo com aquela viagem, Dean começou a acelerar o carro. O ronco do motor preencheu o ar.

Emily acordou com um sobressalto, sentindo o carro ganhar velocidade.

— Dean! O que você tá fazendo?! — exclamou, agarrando o painel, alarmada.

Dean soltou uma gargalhada, com o cabelo balançando ao vento.

— Só estou com pressa!

Emily olhou para a estrada escura à frente, os faróis cortando a noite. Seu coração disparou.

— Cuidado! — gritou, apontando para frente.

— O quê?! — Dean mal teve tempo de reagir.

Algo saltou da beira da estrada para o centro da pista. Dean pisou no freio com força. O som dos pneus derrapando foi ensurdecedor, e o cheiro de borracha queimada invadiu o carro. Emily foi jogada para frente, batendo o rosto no painel. Quando o carro finalmente parou, quase no meio da estrada, ambos ficaram em silêncio por um momento, tentando processar o que havia acontecido.

Irritado e confuso Dean foi o primeiro a sair do carro, batendo a porta com força enquanto caminhava até algo caído no meio da estrada. Emily, ainda dentro do carro, olhou na direção dele, mas não ousou se mexer.

Ele parou ao lado de um cervo deitado na pista. O animal tinha uma ferida feia na pata traseira, mas ainda respirava, embora com dificuldade. Dean ignorou o animal e foi inspecionar o carro, encontrando um pequeno amassado no para-choque. Seu rosto se contorceu de raiva, uma frustração profunda se apoderando dele. Ele lembrava-se claramente de como sua mãe havia trabalhado duro para ajudá-lo a comprar aquele carro, fazendo horas extras e sacrificando seu próprio descanso.E agora isso?A dor e a fúria se misturavam, fazendo-o sentir que estava perdendo não apenas o carro, mas também um símbolo do esforço dela.

— Meu carro! — gritou, furioso, enquanto pegava algo na cintura.

Emily pôs as mãos na boca, horrorizada.

— Dean! — implorou, virando o rosto e fechando os olhos.

O som alto de dois disparos ecoou pela noite silenciosa. Ela permaneceu imóvel no banco, com o coração acelerado, até ouvir a porta do carro abrir novamente e o som dos motores sendo ligados.

Observando o lado de fora pela janela, viu o corpo do cervo imóvel na estrada. Um poste de luz próximo emitiu uma forte luz por um breve momento e um som estático de eletricidade, pouco antes de começar a piscar. Ela pode sentir um leve arrepio em sua nuca, algo que a deixava ainda mais assustada.

A viagem pela estrada no completo silêncio. Dean olhava fixamente para a frente, os dedos apertando o volante com força. Emily, com a voz trêmula, finalmente quebrou o silêncio.

— Por quê? — perguntou.

— O quê?

— Você não precisava ter feito isso... ele ainda estava vivo.

Dean bufou.

— Não enche. Aquela merda de cervo amassou meu carro novo. — Ele respondeu secamente, ainda irritado.

Emily permaneceu em silêncio, suas mãos tremendo levemente em seu colo, enquanto as lágrimas ameaçavam escapar de seus olhos. Dean ligou o rádio novamente, deixando a música pesada da banda Black Réquiempreencher o carro, enquanto eles seguiam pela estrada escura.

As luzes da cidade começaram a surgir ao longe, quebrando a escuridão da estrada. Belgrave finalmente estava à vista, envolta em uma leve neblina que parecia torná-la ainda mais misteriosa. Emily suspirou, apertando a mochila contra o peito. Sabia que as respostas estavam ali, mas também pressentia que, uma vez entrando na cidade, nada seria como antes.


Próximo Capítulo