1. Sozinha no Natal
Emilia
A cena do lado de fora da janela parecia um globo de neve. Como se uma mão invisível e gigantesca tivesse pegado o mundo, com a empolgação de uma criança, e sacudido tudo só para ver os flocos leves rodopiarem e cobrirem a terra com um manto branco e brilhante.
Emilia observava a nevasca da segurança do seu apartamento, sabendo que não teria a menor chance de chegar à casa da Melanie no Natal.
Ventos uivantes espalhavam a neve para todos os lados, formando montes mais altos do que os que ela havia visto ao acordar, e seu coração afundou só de pensar em passar o feriado sozinha.
Sua respiração embaçou o vidro enquanto ela semicerrava os olhos para enxergar através da tempestade. Uma sombra passou pelo branco. Ali, depois sumiu. Alguém estava lá fora.
Ela balançou a cabeça, tremendo mesmo dentro de casa, as mãos geladas, e viu a figura se aproximando da entrada do prédio.
Só quando notou os olhos vermelhos brilhantes ao lado do homem é que percebeu que era seu vizinho rabugento. Ele sempre estaria sozinho.
Apesar das várias tentativas de puxar conversa, ele respondia aos cumprimentos, mas nunca parava para bater papo por mais de alguns segundos — muitas vezes com um lampejo de irritação nos olhos escuros.
O homem nunca a ignorava de propósito. Nunca foi rude; só não parecia gostar de papo furado. Mas sempre pegava suas encomendas quando ela não estava, ou arrastava a lixeira para fora no dia da coleta quando ela esquecia, o que acontecia quase sempre.
Ele a deixava entrar quando ela esquecia a chave da porta principal. Nunca reclamava, mas para isso teria que dizer mais do que um simples "oi" ou um aceno de reconhecimento.
Não que doesse olhar para ele, todo pele pálida, olhos e cabelos escuros, mais curto que o do ex dela e provavelmente mais novo também. Maçãs do rosto marcadas e um quê de tristeza nos traços marcantes.
Uma barba bem aparada emoldurava a boca carnuda — ela sempre se perguntava como seria passar as unhas por ali.
Macia ou áspera? As poucas palavras que ele lhe dirigia, naquele sotaque escocês rouco, ficavam na memória justamente pela raridade. Ela tentava arrancar mais dele, mas era quase sempre em vão.
Ainda assim, às vezes ele perguntava se ela precisava de ajuda com as compras quando a via voltando da cidade. Gentil. Atencioso. Seus olhos se arregalaram quando o olhar dele se voltou para sua janela.
Só dava para distinguir os olhos pretos e uma faixa de pele pálida. Ele estava tão agasalhado que ela admirou o cuidado com o bicho de estimação, pois jamais teria levado aquele lindo animal para passear com um tempo daqueles.
O coração dela disparou quando ele ergueu a mão enluvada em cumprimento, e ela retribuiu automaticamente com um sorriso tímido antes que ele desaparecesse dentro do prédio. O apartamento dele ficava ao lado do seu, e ela se perguntou se a nevasca também tinha estragado os planos dele para o feriado.
A tempestade inesperada cancelara todos os voos, trens e outras opções de viagem para fora da cidade.
Sem conseguir ignorar a decepção que se instalava, ela apertou mais o cardigã ao redor do corpo e se afundou na poltrona, pegando o celular para ler as respostas dos amigos e da família à sua má notícia.
Seus amigos estavam mais chateados do que seu irmão e sua mãe. Eles estavam indo para Bali, como de costume, e não teriam tempo de sentir sua falta.
Oliver prometeu deixá-la morrendo de inveja quando voltasse com histórias da praia e da vida noturna que ela tanto sentia falta.
A indignação da Melanie e a promessa de vir desenterrá-la pessoalmente a fizeram rir, enquanto dizia à amiga mais querida para curtir a viagem e que se veriam assim que possível.
A TV só mostrava atualizações sobre o tempo, mais cancelamentos e avisos para ficarem abrigados até a tempestade passar. Aquilo a irritou, e ela passou os canais até encontrar um reality show qualquer e se acomodou para assistir àquela bobagem.
Sua mente não parava enquanto um grupo de mulheres competia para se casar com um homem sem graça, desejando ter reservado voos mais cedo e se culpando por decepcionar todo mundo.
Ela sabia que a Mel daria um tapa nela, diria que era sempre bem-vinda e para não se preocupar com uma nevasquinha besta. Mas seu peito se apertou quando os flocos de neve se acumularam no parapeito da janela, e ela já estava de saco cheio daquilo.
A melancolia era como um manto sobre seus ombros enquanto tamborilava os dedos no braço da poltrona, sem aguentar mais.
Decidida a não ficar sentada na tristeza, levantou-se. Se ia passar o Natal sozinha, faria valer a pena. Correu para calçar os sapatos e vestir o casaco. As decorações estavam no porão compartilhado, embaixo dos apartamentos.
Pegou as chaves, trancou a porta e lançou um longo olhar para a porta silenciosa do vizinho antes de seguir para a escada e descer correndo até o térreo, estremecendo de frio apesar do casaco grosso.
Acendeu a luz, piscando até a escuridão se dissipar e revelar o espaço enorme, cheio de memórias esquecidas.
Seguiu o caminho sujo até onde havia guardado as decorações no ano anterior, afastando uma bicicleta quebrada e um espelho velho e embaçado para chegar até elas.
Não era muita coisa: algumas luzes emaranhadas, uma árvore de Natal artificial, as bolas, os enfeites e uma estrela grande. Não dava para carregar tudo de uma vez, então pegou a árvore de quase dois metros primeiro.
Nem tinha desmontado antes de jogá-la ali e acabou tendo que abraçá-la para tirá-la do porão e levá-la até a escada.
Os galhos verdes falsos atrapalhavam sua visão, e ela subiu cada degrau devagar, arrastando os pés e tentando não perder o equilíbrio. Suas mãos ficaram úmidas quando errou um passo e quase caiu de costas.
Ofegante, chegou ao patamar e, desajeitada, procurou a maçaneta da porta com uma mão.
Resmungando baixinho, abriu e fechou a porta duas vezes antes de desistir e se atirar contra ela, colidindo com uma parede humana de tijolos.
Ela e a árvore ricochetearam e caíram em direções opostas. Por instinto, largou a árvore para se segurar.
Aterrissou com um baque que fez seus dentes baterem, a cabeça rodando, até que alguém a puxou de volta, segurando firme em seu braço.
Suas bochechas queimaram quando seus olhos encontraram os do vizinho. Por um instante, viu um leve traço de diversão nos olhos escuros, antes que desaparecesse.
Ele a soltou assim que teve certeza de que ela estava firme nos pés.
Seu braço formigou e esquentou enquanto tentava afastar o rubor do rosto.
— Me desculpa. Não esperava que tivesse alguém ali — disse, murmurando e evitando olhar nos olhos dele enquanto ele a examinava e inclinava a cabeça.
— Ouvi a porta batendo e achei que podia te dar uma mão.
O sotaque dele parecia mais forte do que o normal, cada palavra carregada de aspereza, enquanto ela tentava pensar em algo para dizer e recuperar a dignidade. Mas ele foi mais rápido.
— Tem mais alguma coisa maior que você lá embaixo que você queira que eu ajude a carregar?
Ele estava brincando com ela? O rosto dele não mudou, mas havia um tom claramente divertido na voz, e ela desejou não ter sido tão preguiçosa no ano anterior.
Se tivesse desmontado a árvore, isso não teria acontecido.
Como não tinha uma máquina do tempo nem juízo, balançou a cabeça e pigarreou.
— Não, só algumas sacolas que consigo pegar depois de levar minha pobre árvore para dentro — brincou, desviando o olhar do rosto bonito dele e indicando com a cabeça o pinheiro falso caído no fim do corredor.
Ele assentiu, os olhos percorrendo-a como se verificasse se ela estava machucada, antes de dizer: — Se precisar de ajuda, é só chamar.
Ela franziu a testa. — Eu nem sei o seu nome.
— Luke.
Sorrindo, ela deixou o nome rolar na mente e o guardou na memória. Sua própria boca se abriu antes que pudesse se conter.
— Já era hora, Luke. Eu sou a Emilia.
Ele lhe deu um sorriso estranho, meio torto, que fez sua barriga dar uma cambalhota.
— Eu sei — disse ele, deixando-a piscando atrás dele, sentindo-se uma idiota ao se lembrar de todas as vezes em que ele segurou sua correspondência.