Capítulo 1 - Anastasia
A brisa de verão sussurrava entre os pinheiros imponentes, trazendo o perfume fresco do cedro e da terra úmida. Caminhei com cuidado pela floresta, com passos leves enquanto me esgueirava pela natureza selvagem do Canadá. A floresta densa estava viva, com o zumbido suave da natureza — um pica-pau batendo ritmicamente ao longe, o farfalhar de criaturas invisíveis correndo pelo mato e o murmúrio suave de um riacho escondido serpenteando por entre as árvores.
Parando na beira de uma pequena clareira, recuperei o fôlego, observando os arredores. Eu estava perto das fronteiras da alcatéia. A alcatéia Northern Hollow, se bem me lembro. Antes de partir, tirei um tempo para me familiarizar com as alcatéias locais. Durante minha pesquisa, descobri que algumas eram amigáveis, outras neutras e algumas... hostis. A alcatéia Northern Hollow era conhecida por seu alfa implacável. Seus pais foram brutalmente mortos em um ataque que deixou a alcatéia instável, para dizer o mínimo. Isso também significava que eles não eram exatamente acolhedores com estranhos.
Avaliei minhas opções. Meu plano era chegar a uma alcatéia amigável estabelecida no leste do Canadá, a alcatéia Everglow. Para isso, eu precisava atravessar essa alcatéia ou dar a volta. Dar a volta seria a opção mais segura, mas levaria duas semanas a mais. Atravessar era mais rápido, porém com riscos maiores. A luz do sol filtrava-se pela copa das árvores, lançando padrões salpicados no chão da floresta. Tirei um momento para aproveitar o sol. Crescer no ambiente gelado onde ficava minha antiga alcatéia me acostumou aos ventos frios do norte. Depois do que aconteceu, eu sabia que precisava deixar a Rússia. Ficar significaria viver uma vida sendo alvo de pena. A luna rejeitada, substituída por outra loba. Eu não precisava da pena deles. O que eu queria era uma alcatéia onde pudesse viver minha vida como eu quisesse, em paz e sozinha. A alcatéia Everglow me oferecia isso, tornando-se o destino da minha viagem.
Foda-se, nunca fui de escolher o caminho mais fácil. Peguei minha pequena bolsa, que continha duas trocas de roupa, uma faca e outras necessidades básicas para a sobrevivência. Colocando a bolsa sobre o ombro, aproximei-me da fronteira com cautela. Cada passo trazia o cheiro inegável de lobos — fresco, forte e territorial. Alina agitou-se inquietamente no fundo da minha mente, seus instintos avisando contra cruzar a linha invisível marcada pelos marcadores de cheiro da Northern Hollow. Mas a hesitação não me levaria a Everglow mais rápido, e eu não estava disposta a passar duas semanas extras atravessando a natureza congelada quando meu objetivo estava tão tentadoramente perto.
Deveríamos dar a volta, disse Alina, sua voz calma, mas firme. Ela não gostava de riscos desnecessários, mesmo que eu me sentisse bem com eles. “Duas semanas na natureza contra quatro dias de possível hostilidade? Fico com a opção mais curta”, murmurei baixinho. O vento mudou um pouco e senti um toque de algo distinto no cheiro da alcatéia — uma mistura de resina de pinheiro, almíscar e algo levemente metálico, como ferro. Uma patrulha de caça, talvez? Era possível que eu conseguisse passar sem ser detectada se me movesse rápido o suficiente, evitando qualquer encontro.
Criando coragem, cruzei a fronteira.
O ar pareceu mudar imediatamente, tornando-se mais pesado, mais opressor, como se a própria floresta estivesse me avisando para voltar. O território da Northern Hollow era denso e selvagem, com as árvores se fechando firmemente ao meu redor. Minhas botas estalavam sobre as agulhas de pinheiro secas e a terra dura; cada som era amplificado pelo silêncio estranho. Alina permanecia em alerta máximo, seus sentidos atentos para captar qualquer sinal de movimento ou som. Não precisei esperar muito. Um rosnado baixo ecoou pela floresta, vindo de algum lugar à minha esquerda. Congelei, vasculhando as sombras entre as árvores, com o coração disparado. O rosnado não era uma ameaça — ainda. Era um aviso, um que dizia: nós sabemos que você está aqui. “Ótimo”, sussurrei. “Nem cinco minutos aqui.” Correr? Alina sugeriu, sua energia aumentando com a sugestão de uma luta. “Não”, respondi suavemente. “Ainda não.” Levantei lentamente as mãos para mostrar que não estava armada, embora minha pequena bolsa ainda estivesse pendurada em um ombro. “Não estou aqui para causar problemas”, falei, projetando minha voz para ser ouvida, mas mantendo-a firme. “Estou apenas de passagem.”
Silêncio.
Então, uma figura saiu das sombras — um homem na casa dos vinte anos, com traços marcantes e olhos cor de âmbar penetrantes que praticamente brilhavam. Ele era alto e de ombros largos, sua postura irradiava poder. Seu cabelo escuro estava preso para trás e seus braços estavam cruzados sobre um suéter grosso que parecia prático e intimidador.
“Você está invadindo”, disse ele, com a voz baixa e rouca. “Eu sei”, respondi, mantendo o tom estável. “Só preciso passar pelo seu território para chegar à alcatéia Everglow. Não vou me demorar nem causar problemas.” O homem — provavelmente um membro de alto escalão da alcatéia, se não o próprio alfa — inclinou a cabeça levemente, me estudando. “Rogues que invadem são desesperados ou tolos. Qual dos dois é você?” Sustentei seu olhar, recusando-me a ser intimidada. “Nenhum. Só tentando ganhar tempo.”
Ele soltou um riso curto, embora não houvesse humor nele. “Você é corajosa para alguém sozinha em território desconhecido.” “Prefiro pensar nisso como ser prática”, respondi, apertando a alça da minha bolsa. Por um momento, encaramo-nos, a tensão estalando entre nós como eletricidade estática. Meu pulso batia forte nos ouvidos, mas recusei-me a deixar transparecer. Alina rosnou baixinho na minha mente, pronta para qualquer coisa. Finalmente, ele falou de novo. “O alfa vai querer te conhecer. Se você estiver mentindo sobre suas intenções, farei com que se arrependa de ter pisado aqui.” Assenti, sabendo que não tinha muita escolha. Se eu quisesse atravessar esse território viva, tinha que seguir as regras deles — por enquanto.