Prólogo
Sempre tive esse desejo sombrio e sem nome dentro de mim, desde as minhas primeiras lembranças conscientes. Eles cresceram com o conhecimento e o tempo. Não sei dizer por que, mas eu desejava ser possuída completamente por um homem dominante. É claro que esses desejos eram um segredo guardado a sete chaves. Eram coisas para fantasias de momentos a sós, ou para o desenho ousado ocasionalmente rabiscado às pressas nas margens do meu caderno escolar. Não era algo para ser visto ou falado. No entanto, eles estavam sempre em segundo plano, me guiando em direção ao meu destino final.
Eu compartilhei meu segredo com apenas uma pessoa no início da minha infância. Minha melhor amiga, Anne, era uma menina estranha, anormalmente baixa, ainda mais baixa do que eu. Ela tinha traços simples, usava óculos grossos, tinha o rosto gordinho e cabelos castanhos cacheados e sem graça. Seus pais eram bastante excêntricos, ingleses, e dirigiam Land-Rovers, um pouco como a Rainha da Inglaterra.
Lembro-me de que ela tinha uma casinha de pedra deliciosa e minúscula chamada South Cottage no quintal. Era cercada por um jardim inglês idílico, cheio das flores mais bonitas. Devo confessar que eu sentia inveja.
Aquele espaço de brincar encantador era uma réplica independente e completa da casa dos pais dela. Ainda não sei para que servia quando foi construída, décadas antes, talvez como dependências de empregados, e nunca vi outra igual. Os pais de Anne a decoraram e a transformaram em uma casinha de bonecas. Era cheia de brinquedos, jogos e quebra-cabeças. O melhor de tudo era uma prateleira que percorria todas as paredes superiores; nela, ficava uma Arca de Noé completa, com todos os tipos de animais de brinquedo da marca Breyer, entrando de dois em dois. Ela me deu alguns desses animais, e os tenho até hoje. Mas estou divagando.
Eu compartilhei com Anne esses desejos estranhos de ser conquistada que escondia lá no fundo, mas não da maneira como eu realmente os vivenciava. Falei deles para ela a partir do lado dominante da equação, e isso despertou algo nela. Ela retribuiu, e passamos horas na South Cottage ou na escola, sob a sombra dos pinheiros grandes, conversando sobre dominância e rapazes escravos dispostos. Isso, porém, não era bem o que eu queria, mas preencheu o vazio durante meus anos de formação.
Tenho certeza de que, ao entrar na vida adulta, Anne se tornou a dominante sobre a qual conversávamos. Não consigo imaginá-la de outra forma. Era praticamente tudo sobre o que falávamos. Nossa amizade inteira foi baseada nessa obsessão. Perdemos o contato, no entanto, depois que saí da região para o ensino médio. Mais uma vez, tive que esconder meus sentimentos.
Quem é tão incompreendido costuma viver uma vida solitária. Eu assistia a filmes, fazia esboços e lia livros sem parar, com minha mente jovem e fértil firmemente fixada no cenário de ser a escrava voluntária. Conquistada, tomada, acorrentada, amada. Eu me apaixonava fácil demais pelos bad boys atraentes. Imaginava-me diante de figuras temíveis da história, como Gêngis Khan ou Júlio César. Talvez sendo sequestrada por piratas e escravizada em alto-mar? Eu adorava Planeta dos Macacos e qualquer filme que apresentasse escravos.
Então, um dia, encontrei um livro surrado da série Gor em uma venda de usados. O título proclamava "Slave Girl of Gor", e senti como se tivesse encontrado um tesouro raro. Levei-o para casa e senti que foram os melhores cinquenta centavos que já investi, enquanto devorava avidamente seu conteúdo. Foi combustível para o fogo que não se apagava e que crescia rapidamente em mim. Procurei por mais em todos os sebos que pude visitar. Meus pais, felizmente, não fiscalizavam tudo o que eu fazia ou lia, e acumulei uma bela biblioteca, lendo-os repetidas vezes em sua perfeição gasta.
Enquanto esperava, eu praticava de forma atrapalhada as posições que uma kajira deve saber de cor durante meu tempo a sós. Tornou-se uma disciplina, como ioga.
Quando cheguei à maioridade, ainda optei por recusar todas as oportunidades de romance que surgiam. Ninguém da minha idade me atraía. Acho que alguns me achavam distante ou estranha, mas eu estava me guardando para ele.
Onde ele estava, quem ele era? Eu realmente não sabia. Eu vivia minha vida comum e o procurava em cada momento em que estava acordada. Perguntando-me: se ele aparecesse, eu estaria pronta? Poderia eu realmente ser o que meus desejos profundos e sombrios queriam que eu fosse? Poderia viver de forma sombria e plena, me entregar a um poder maior? Ser massa de modelar para ele em minha servidão, fazendo tudo o que ele quisesse dia após dia, sem reclamar? A pergunta permanecia sem resposta.
Até o dia em que ele vagou pela minha vida; eu estava prestes a descobrir como seria, eu, a ovelha, a jantar com o leão.