1) Meu tio-postiço
A vida é uma merda.
É sim, e ninguém me convence do contrário.
Desempregada. Quebrada. Solteira. E sem teto.
Bom, risca o último. Tenho onde morar. Ou melhor, a casa dos meus pais?
Não é só dos meus pais, não. Essa mansão gigante é herança de três irmãos.
Por causa do laço entre eles, decidiram não vender e continuar morando juntos. Depois, o mais velho, meu padrasto, conheceu minha mãe, e blá-blá-blá, resumindo: a gente se mudou pra cá.
Isso foi há doze anos, e provavelmente a segunda pior fase da minha vida, por causa da mudança repentina de país, do Canadá pros Estados Unidos.
Meus pais quase não apareciam por causa do trabalho, então eu passava a maior parte do tempo com os empregados. De vez em quando, dava de cara com meus tios-postiços. E toda vez, eles chegavam cheios de presentes.
Agora, com vinte e dois anos e recém-formada, me sinto velha demais pra morar aqui, mas pobre demais pra ir embora.
Meus pais nem sabem que fui demitida semana passada depois de ferrar um projeto importante na empresa onde trabalhava. Um emprego que eles conseguiram pra mim usando os contatos deles.
"Como é que você perde dois empregos em menos de três meses?" Eu resmungo, dando uma mordida no edredom antes de me debater como uma criança.
Exagero um pouco e acabo rolando da cama, batendo no chão como o saco de lixo que sou.
"Aaah! Puta que pariu!" Eu gemo, me levantando do chão de madeira. Mal consigo jogar meu corpo dolorido de volta na cama, e alguém bate na porta.
Pra ter certeza de que não foi coisa da minha cabeça, prendo a respiração e espero. E lá vem de novo.
"Emily? Sei que você está aí, sua pestinha. Abre a porta!" Uma ordem brincalhona entra pelos meus ouvidos e vai direto pro coração.
Minha cabeça vira na direção da porta, lágrimas de alegria turvando minha visão. "Tio Ray!" Eu grito, pulando da cama e correndo pra porta.
Na pressa, quase arrebento a fechadura. Essa felicidade não cabe em mim.
É um dos meus tios-postiços. Meu favorito, Ray Gilmore. Ele é o caçula dos irmãos, mas ainda assim é treze anos mais velho que eu.
Mesmo assim, nessa idade, ele salvou a empresa da mãe deles, que estava à beira da falência, e fechou negócios maiores do que ela jamais conseguiu. "Descanse em paz, vó postiça, mesmo que a gente nunca tenha se conhecido."
No segundo em que destranco a porta, esqueço quantos anos tenho e me jogo nos braços dele como fazia quando era criança.
"Puta merda!" Ray ofega quando o peso do meu corpo pendurado no pescoço dele o atinge. "Você não é mais criança, sua pestinha. Sai de cima de mim!"
"Só saio se você prometer me ajudar."
Eu me agarro ainda mais forte no pescoço dele, com as pernas enroladas na parte de trás das coxas, pra ele sentir todo o meu peso.
Sei que é manipulação. Mas quem se importa, contanto que eu consiga o que quero?
"Tá bom! Solta!" ele respira fundo, enquanto meu peso o puxa pra frente.
Ele precisa se segurar no batente da porta pra não cair.
"Obrigada!" Eu dou risada, pulando de cima dele e ficando na frente dele com um sorriso enorme.
"Quantos anos você tem mesmo? Vinte e seis… oito?"
Reviro os olhos e dou meia-volta, voltando pro meu quarto. "Muito engraçado. Agora que você terminou de correr o mundo com suas mulheres, finalmente resolveu aparecer", eu provoco, de volta. "Aliás…" Eu giro de novo, bem quando ele está fechando a porta. "Quando é que eles voltam?"
Ele franze a testa. "Quem?"
"Você sabe de quem estou falando. Os médicos da família Gilmore. Quem mais?"
"Ah! Não sei. Faz meses que não falo com eles."
"Nossa! Que irmão mais amoroso você é, tio."
"Tio?" Ele levanta a sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito.
Caramba! Ele parece um supermodelo com esse cabelo ruivo preso num meio-rabo-de-cavalo. Bom, ele foi modelo aos vinte e poucos, então faz sentido.
"Tio!" Faço cara de pidona e corro de volta, agarrando o braço dele. "Você acabou de prometer que ia me ajudar, né?"
É meio infantil, mas não tenho mais nada pra conseguir o que quero.
"Puta merda, Emily. Mesmo depois de tanto tempo sem nos vermos, você ainda usa essas táticas infantis?" Ele suspira, olhando pra mim, sem conseguir resistir. "O que você quer agora que está desempregada?"
Dou um sorriso, apoiando a têmpora no braço dele. "Tio, você sabe o quanto eu te amo, né?"
"Cala a boca e diz logo o que você quer. Mas se for um emprego, nem se dê ao trabalho de pedir."
Finjo um suspiro profundo, tirando a cabeça do braço dele. "Eu jamais faria isso!"
A descrença nos olhos dele é óbvia. Faz sentido. Nunca fui a filha mais obediente da família, mesmo tendo uma irmã mais nova.
Quando encosto a cabeça de novo no braço dele, uma mancha vermelha na manga da camiseta cinza chama minha atenção. "Isso é sangue?"
Ele dá um peteleco na minha testa, me distraindo.
"Fiquei sabendo que você foi demitida. Isso é um novo recorde. Mas achou mesmo que ia esconder isso de mim?"
Eu me agarro mais forte no braço dele. "Por isso quero que você me faça um favor. Por favor, converse com meus pais. Não quero ser expulsa de novo. Não tenho pra onde ir", eu choramingo, botando um tom emocional só pra ganhar a simpatia dele.
"Nem pensar."
"Então… então…"
Deslizo a cabeça pra baixo, apoiando o queixo no peito dele e olhando pra cima. "Que tal me emprestar um dinheiro pra eu não morrer de fome nesse mundo frio, frio, frio?"
"Emily", ele diz com um suspiro. "Você sabe que eu também te amo. Mas…" Ray começa a descolar minhas mãos do braço dele, "…prometi que não ia mais te mimar." Ele consegue me soltar completamente antes de segurar meus ombros e trocar nossas posições, me encostando na porta.
"Só posso te ajudar te motivando e garantindo que sua mãe maluca não te mate. Isso não é ajuda suficiente?"
Argh!
Por que ele ia me abandonar assim?
Não quero encarar minha mãe. Ela me expulsou depois que eu dei mancada na empresa do Ray e pediu pra ele não me contratar de novo.
Passei uma semana inteira vivendo às custas de uma amiga da faculdade, como uma sanguessuga. Essa vida é miserável demais agora que sou adulta.
"Tio!" Eu choramingo, fazendo cara de coitadinha.
"Porra!" ele geme, virando pro lado. "Você é igual a uma barata, não morre nem se pisarem em você."
Silêncio.
Ele se vira de novo pra mim, com os braços cruzados. "Talvez eu precise de uma empregada no meu apartamento. Posso te deixar trabalhar lá por só três meses. Se você provar que consegue manter esse emprego, talvez eu te contrate de volta na empresa, em tempo integral, com todos os benefícios."
A última parte faz meu coração bater mais forte.
Se eu conseguir, vou garantir um emprego de luxo. Mas, antes disso… Preciso ser empregada doméstica?
Abro a boca pra reclamar, mas ele logo tapa minha boca com a mão. "O trabalho não vai ser pesado, então pensa antes de chorar… Comida, cama, casa quentinha, tudo. Você só precisa cuidar da casa. A última roubou uma coisa, e agora não confio mais em estranhos tão fácil."