Capítulo 1
Presente
O advogado me encarou e senti meu estômago afundar. Não gostei da expressão dele, porque eu sabia que não gostaria do que ele estava prestes a dizer.
“Sinto muito, Sra. Bennett, mas a senhora precisa estar no local se quiser vender a casa”, disse ele. Walter Bradley era o advogado da minha família desde que eu aprendi a andar. Meus pais confiavam nele cegamente, e eu não tive escolha a não ser confiar também quando eles faleceram e ele apareceu para ler o testamento. Meus pais o deixaram como meu padrinho, mas ele nunca esteve por perto tanto quanto eu gostaria. Tanto quanto eu precisava.
“Tem certeza de que não há outro jeito? Eu realmente preciso vender aquela casa, mas não quero ir até lá. Tenho meu trabalho e o Pat vai para a faculdade em poucos meses. Tem muita coisa para fazer. E se eu passar uma procuração para um corretor ou algo assim?”, perguntei. Eu sabia que estava agindo como uma criança, mas não queria voltar para o lugar de onde fugi há três anos. Aquele lugar não era seguro. Eu não estava segura. O Pat, definitivamente, não estava seguro lá.
“Você sabe que não é possível, Aurora. Se quer vender a casa, precisa estar presente para finalizar a papelada e seguir com a transação. Precisa conhecer as pessoas que vão comprar a sua casa.”
“Mas por quê?”, choraminguei.
“É uma propriedade ancestral. Seus pais escreveram no testamento que a casa não pode ser vendida a menos que você ou o Patrick estejam fisicamente presentes”, explicou ele, e eu praguejei mentalmente. Só meus pais para tornarem as coisas ainda mais difíceis. “Você ou o Pat precisam ir até lá e, se ele vai para a faculdade, o melhor é ir o quanto antes. Quanto mais rápido vender a casa, melhor. Mas se quiser mantê-la, pode sempre alugar e gerar uma renda extra”, disse ele.
Por mais que a ideia fosse tentadora, eu não podia ficar com aquela casa. Eu precisava cortar todos os meus laços com Ridgeview. Eu não queria nada me prendendo àquele lugar, nada que me desse um motivo para voltar. Minha prioridade era o Patrick, e eu tinha que mantê-lo a salvo. Ridgeview não era seguro para ele.
Suspirei e me joguei no sofá. “Tudo bem. Vou reservar o próximo voo disponível e acabar logo com isso.”
“Você já tem um comprador, certo?”, perguntou ele, e eu assenti, apertando os lábios.
“Sim. Foi por isso que vim até você, porque queria vender a casa sem ter que ir pessoalmente.”
“Apenas vá e resolva isso de uma vez, Aurora. Você sabe o quanto seus pais amavam aquela casa. Você tem sorte de não ter primos na sua cola querendo uma parte da propriedade. Venda a casa e use o dinheiro para o que precisar”, disse ele. Era óbvio que o dinheiro da venda seria usado para pagar a educação do Patrick.
Suspirei e assenti antes de me levantar. Os olhos cinzentos de Walter me acompanharam e ele me deu um sorriso gentil enquanto eu me preparava para sair.
“Obrigada por explicar”, eu disse. “Vou apenas finalizar isso.”
“Tem certeza de que quer vender a casa?”
Eu assenti. “Tenho. O Pat precisa ir para a faculdade e o estudo não é de graça.” Eu não ia dizer a ele que precisava eliminar meu último vínculo com aquele lugar que me aterrorizava.
Com outro sorriso e um aceno rápido, saí do escritório do Sr. Bradley, atravessei o prédio e fui direto para o meu carro. Só quando coloquei o cinto é que liguei para o Patrick, que atendeu no segundo toque.
“E então? Como foi?”, perguntou ele.
“Temos que ir até lá para vender a propriedade. Mamãe e papai escreveram isso no testamento. Não podemos deixar que outra pessoa venda a casa por nós”, falei, odiando a ansiedade que começava a percorrer minhas veias.
Ouvi o suspiro dele do outro lado. “Então, quando vamos?”
“Nós não vamos a lugar nenhum. Eu vou cuidar disso. Você vai ficar aqui, onde ninguém pode te machucar”, respondi. “Estarei em casa em dez minutos e então poderemos ver as passagens.”
“Aurora, você não precisa fazer isso”, disse ele. “Não preciso ir para uma faculdade chique. Posso simplesmente me matricular na faculdade comunitária...” Eu o interrompi.
“Cala a boca. Você vai para Stanford. Mamãe e papai queriam que você fosse para lá. Você vai cursar a faculdade que quiser e vai ser bem-sucedido”, falei em um tom severo.
“Sim, mas você não precisa ir para aquele lugar. E eu posso fazer minha graduação em uma faculdade local também. Seria muito mais barato”, murmurou ele, mas eu não ia ceder.
“Patrick, eu vou para Ridgeview vender a casa e depois vamos te mandar para a faculdade. Fim de papo”, disse, desligando o telefone antes de encostar no banco e soltar um suspiro profundo. Eu realmente não queria voltar e encará-lo. Ele me mataria se me visse. Ainda me lembrava das últimas palavras que ele me disse.
“Se eu te vir aqui de novo, não vou te deixar ir. Você será minha.”
Um arrepio percorreu meu corpo enquanto uma sensação familiar descia pela minha espinha. Eu não queria voltar, mas uma parte de mim — a parte que era claramente insana — queria voltar e jogar esse jogo de gato e rato. Seria maravilhoso se eu pudesse ir e sair sem que ele descobrisse. Eu só esperava que ele tivesse se esquecido de mim ao longo desses anos.
“Não seja boba, Aurora. Ele deve estar com outra pessoa agora”, disse a mim mesma enquanto ligava o carro e me afastava do meio-fio. Meu coração esteve pesado durante todo o trajeto, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Eu sabia por que estava me sentindo assim, e o medo não iria embora até que eu estivesse fora de Ridgeview para sempre.
Preparei-me quando o avião fez um pouso brusco e repentino. Pressionei minhas mãos contra o assento à minha frente enquanto descíamos e não soltei até que o avião diminuísse a velocidade e, finalmente, parasse.
Ufa. Eu consegui, pensei, tirando o cinto de segurança depois de ver os outros passageiros fazendo o mesmo. Levantei-me após algum tempo e me espreguicei antes de sair e pegar minha mala de mão no compartimento acima.
Não demorei para entrar e sair do aeroporto. Chamei um táxi e não pude deixar de sentir saudade do meu irmãozinho. Teria sido bom se o Pat estivesse aqui comigo para vender a casa, mas eu não podia colocar a vida dele em perigo só porque estava me sentindo um pouco emotiva. Não, eu podia fazer isso sozinha. Eu tinha um encontro com o comprador em duas horas, então pensei em comer e me arrumar no motel local antes de sair para encontrar o Sr. Novo Dono.
Não passou despercebido que eu não fazia ideia de quem era o comprador. Eu só tinha falado com o agente dele, e ele tinha sido bem vago ao dar informações. Mesmo que isso me incomodasse, eu disse a mim mesma que, se não gostasse dele, simplesmente me recusaria a vender a propriedade. E se eu quisesse vender, saberia tudo assim que os papéis fossem assinados.
Entrei no táxi e fui direto para o motel fazer o check-in. Fiquei feliz por haver um quarto disponível, corri para lá e joguei minha mala no chão antes de me jogar na cama. Queria tirar um cochilo, mas não tinha tempo, então entrei no chuveiro para me livrar da sensação de viagem aérea e só então me senti melhor. Sequei meu cabelo com o secador e passei um pouco de hidratante e protetor solar no rosto antes de aplicar meu brilho labial favorito, que não deixou de me lembrar de como ele também era o favorito dele. Mas eu não estava usando por ele, e eu queria poder esquecê-lo. Mas não, era como se ele tivesse se gravado em minha alma e eu nunca pudesse me livrar dele.
“Acorda para a vida, Aurora. Você precisa seguir em frente. Ele é um perigo para você e para sua família”, repreendi-me enquanto terminava de prender o cabelo e pegava minha bolsa transversal. Verifiquei o horário no meu relógio e relaxei ao ver que ainda tinha uma hora antes de me encontrar com o comprador. Isso me dava tempo de sobra para comer no meu restaurante favorito.
Saí do motel e segui para o próximo destino de táxi. Levei meu tempo lendo o cardápio e pedindo meus pratos favoritos, e só depois de saciar minha fome é que relaxei e pedi a conta ao garçom. Como ainda faltavam vinte minutos, decidi ligar para o meu irmão e saber como ele estava.
“E aí? Você está segura, né?”, perguntou Patrick com um toque de preocupação.
“Não se preocupe. Estou bem.”
“Você não viu ele, viu?”, perguntou ele, com um pouco de medo nas palavras.
“Não, e não pretendo. Vou apenas assinar os papéis, pegar o dinheiro e voltar direto para casa. Não tenho a menor intenção de ficar aqui depois do pôr do sol. Meu voo decola às oito, então, se quiser, pode vir me buscar no aeroporto”, disse eu, tentando tornar a situação mais leve.
“Ah, tenho uns amigos vindo aqui. Mas tudo bem. Eu posso ir te buscar.”
“Não, se seus amigos estão vindo, vá com eles. Vou de táxi”, disse eu. Não sei por que estava tendo tanta sorte com táxis hoje; para todo lugar que eu ia, precisava pedir um.
“Tem certeza? Vai estar escuro...”
“Patrick, você é o irmão mais novo, não eu. Ficarei bem. Apenas vá se divertir. Logo estarei em casa”, disse a ele. “E trate de comer na hora certa. Não pense que eu não sei o quanto você é descuidado com a comida.”
“Ok, mamãe”, disse ele, com sarcasmo, e eu revirei os olhos.
“Bom. Agora preciso ir. Te ligo assim que o negócio for fechado”, disse e desliguei. Paguei pela comida, fiz questão de deixar uma gorjeta generosa para o garçom e saí do restaurante. Como eu tinha pegado um táxi atrás do outro, decidi dispensá-lo desta vez e ir andando até o meu destino. O comprador queria um tour pessoal pela casa antes de irmos ao escritório finalizar a transação. Não vi problema nenhum nisso. A casa era grande, mas o tour não demoraria muito, desde que o comprador não fizesse perguntas demais ou reclamasse muito.
Quando virei na rua onde ficava minha casa, parei e me encostei no muro, o que fez minhas pernas gritarem de alívio. Fiz uma careta ao esticar as pernas, arrependida da decisão de não ter pego um táxi. A caminhada não tinha sido longa, mas, por algum motivo, foi cansativa.
Assim que tive certeza de que minhas pernas tinham parado de protestar, continuei caminhando, adorando o jeito que o sol acariciava minha pele e a brisa sussurrava, deixando pequenos arrepios nos meus braços. O tempo estava perfeito e eu fiquei triste por ter que ir embora em breve.
A casa finalmente apareceu e eu apressei o passo. Notei um carro preto caro estacionado bem na frente e fiquei feliz por não ter que esperar pelo meu cliente.
A casa era grande e pertencia à minha família há cinco gerações. Era uma mansão vitoriana de três andares com janelas em arco e colunas de mármore. A estrutura era sólida, mantendo-se alta e orgulhosa, e raramente tínhamos problemas com ela.
“Olá”, eu disse ao homem que estava no jardim da frente, de costas para mim e com os braços cruzados atrás do corpo. “Sr. Connor, certo?”
O homem se virou e me lançou um sorriso, que eu retribuí antes de acenar. “Sra. Aurora Bennett, suponho.”
“Sim. É um prazer conhecê-lo”, disse eu, apertando a mão dele. Ele era um homem bonito e fiquei surpresa com o quão jovem ele parecia. Seu perfil mostrava que ele tinha acabado de entrar nos quarenta, mas, julgando pelos seus olhos azuis brilhantes e pela cabeça cheia de cabelos castanhos grossos, ele parecia estar na casa dos trinta e poucos anos.
“É um prazer conhecê-la também”, disse ele antes de soltar minha mão.
“O seu cliente está aqui?”, perguntei, olhando para a esquerda e para a direita à procura da pessoa que compraria minha casa.
“Sim. Você pode notar pelo carro que ele está aqui”, disse o Sr. Connor, apontando para o carro preto.
“Ah, pensei que fosse seu”, admiti.
“Ah, não”, ele balançou a cabeça e riu. “Eu nunca poderia pagar por ele, e meu filho não levaria dois dias para destruí-lo.” Ri disso e assenti, compreendendo.
“Então, onde ele está?”, perguntei.
“Ele quis ver o quintal”, explicou, e eu assenti mais uma vez.
“Vou abrir a porta da frente para vocês dois para que eu possa lhes mostrar a casa”, disse e comecei a caminhar em direção à pesada porta de madeira, mas congelei quando um homem apareceu vindo dos fundos da casa. “Não”, sussurrei para mim mesma enquanto encarava o homem que era a razão pela qual eu fiquei longe desse lugar por tantos anos.
Não, não. Ele não deveria estar aqui. Como ele pode estar aqui?!
O homem desviou o olhar do celular e sorriu quando seus olhos verdes pousaram em mim. Os mesmos olhos verdes que me capturaram todos aqueles anos atrás e se recusaram a me deixar ir. Ele guardou o telefone no bolso, e eu sabia que deveria ter virado e corrido na direção oposta, mas, como sempre, não consegui me mover.
“Olá, Aurora”, disse ele, e eu engoli em seco com o jeito que seus olhos brilharam perigosamente.
“Vincent.”