Destinada ao Padrasto

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Resumo

Ava, uma estudante universitária de 20 anos, metade humana e metade lobisomem, não fala com a mãe há anos. O atual marido da mãe de Ava, o Alpha da alcateia Blackthorn, Lucas Blackthorn, liga para Ava um dia com uma notícia perturbadora: sua mãe morreu. Mas nada a prepara para a verdade que começa a surgir no momento em que ela conhece Lucas pessoalmente. Ele é o seu mate.

Status
Completo
Capítulos
40
Classificação
4.8 102 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

POV: AVA

“Aqui é Lucas Blackthorn.”

A voz era suave, rouca e tensa, mas só de ouvi-la, algo dentro de mim despertou.

Congelei onde estava, com a mão tremendo enquanto segurava o telefone contra a orelha.

Eu conhecia o nome. Não muito bem, mas o suficiente. Era o novo marido da minha mãe. O homem com quem ela se casou depois de desaparecer — de novo — da minha vida. Nunca tinha falado com ele nem o visto pessoalmente, mas, no sentido literal, ele era meu padrasto.

Ouvi uma respiração do outro lado da linha.

Então, suave mas firmemente, ele disse: “Estou ligando com... notícias difíceis. Sua mãe faleceu ontem à noite.”

As palavras não fizeram sentido de imediato. Ficaram ali, chocantes e silenciosas. “Ela... o quê?”

“Ela morreu dormindo, pacificamente.” A voz dele não tremeu. Não vacilou. “Sinto muito por ser eu a te dar essa notícia.”

Olhei fixamente pela janela da cafeteria. As árvores lá fora balançavam suavemente com o vento, e estudantes passavam em grupos, rindo. Mas eu estava debaixo d'água. Flutuando. Não — me afogando.

Eu não via minha mãe há anos. Quando fiz vinte anos no mês passado, ela nem se deu ao trabalho de ligar. E agora, nunca mais ligaria.

“Achei que você deveria saber”, continuou Lucas. “O funeral será amanhã à noite na Blackthorn packhouse, no norte do Oregon. Ela gostaria que você viesse.”

Packhouse.

Essa palavra ecoou no fundo da minha mente, despertando memórias quase enterradas — de dentes afiados e uivos suaves — de como minha mãe olhava para a lua às vezes, como se ela falasse apenas com ela — da vida que ela escolheu em vez da vida ao meu lado, como minha mãe.

Minha voz saiu rígida e indiferente, embora eu estivesse destruída por dentro com sentimentos que nem conseguia compreender. “Ok.”

“Posso enviar alguém para te buscar ou te passar o endereço, caso prefira vir por conta própria.”

“Eu vou dirigindo.”

“Muito bem. Vou te enviar as coordenadas por mensagem.”

Houve uma longa pausa, em que pensei em desligar, mas não o fiz.

“Ela perguntou por você, quase no fim”, disse ele. “Ela esperava que você viesse.”

Não respondi nada.

“Vou deixar você em paz”, disse ele finalmente. “Boa viagem, Ava.”

Ele desligou antes que eu pudesse pensar em algo — qualquer coisa — para dizer.

Fiquei olhando para o telefone por um longo tempo depois. Meu nome parecia estranho na tela. Como se eu não fosse real. Como se eu não soubesse quem eu era.

***

Não chorei — nem no carro — nem enquanto fazia as malas — nem enquanto olhava para a fotografia antiga que guardava no fundo da gaveta de meias. Aquela em que ela me segurava quando bebê, com o rosto cansado, mas radiante, e seus cabelos loiros selvagens presos ao vento.

Ela já tinha ido embora há muito tempo. Costumava dizer que o lobo dentro dela era sempre mais alto do que o mundo ao seu redor. Que isso a afastava do comum. Foi por isso que ela deixou meu pai, e foi por isso que ela me deixou. Tentei me convencer durante anos de que estava tudo bem e que eu não precisava dela. Mas agora, enquanto via a natureza selvagem do Oregon se revelando pelo para-brisa, percebi que nunca acreditei nisso. Não de verdade. Ela era minha mãe.

Dirigi para o norte por horas, cada vez mais fundo na mata e longe da minha vida antiga. Saí da cidade, para longe de tudo que era familiar. Os grandes pinheiros ficaram mais densos, mais altos do que deveriam ser.

O território dos Blackthorn não estava listado em nenhum GPS. Tive que usar as coordenadas que Lucas enviou, digitando-as manualmente.

A estrada estreitou, virando cascalho e, depois, terra. A névoa rastejava por entre as árvores. Musgo pendia dos galhos.

Quando parei diante dos portões imponentes, soltei um suspiro pesado. Saí do carro, com o cascalho estalando sob minhas botas de couro preto.

Eu não sabia o que esperar — talvez um porteiro, ou um guarda. Talvez até o próprio Lucas. Mas não havia ninguém.

Os portões se abriram rangendo, como se respondessem à minha presença. Automaticamente. Em silêncio. Atrás deles, a estrada subia por entre árvores mais antigas que o tempo. A floresta pairava dos dois lados da propriedade — vasta — abundante. O ar era mais cortante aqui. Mais rarefeito. Eu podia sentir o perfume de pinho no ar.

Segui o caminho sinuoso até ele se abrir em uma clareira. E lá estava ela.

A Blackthorn packhouse.

A packhouse parecia mais uma fortaleza do que um lar. Ela surgiu da terra como se tivesse brotado dela. Madeira e pedra, vigas enormes, telhados em arco, um teto robusto.

Estacionei na beira da entrada e fiquei no carro por um minuto inteiro, com o coração martelando e a respiração irregular.

Eu era metade loba, metade humana, e naquele momento não sentia que pertencia a nenhum dos dois lados.

Ninguém saiu para me cumprimentar. Ninguém sequer olhou pela janela. Senti-me uma intrusa no funeral da minha própria mãe.

Meus dedos tremiam enquanto eu pegava minha mala e entrava na noite escura.

A porta da frente erguia-se à minha frente, esculpida com símbolos que eu não entendia. Espirais. Garras. Luas crescentes. Lobos.

Levantei a mão e bati o mais forte que pude.

Nada.

Esperei e bati de novo — ainda sem resposta.

Então, a porta se abriu um pouco, revelando o interior da packhouse — quente — silencioso — pouco convidativo. Hesitei. E entrei.

O cheiro me atingiu primeiro. Pinho, cinzas, pelo. Fumaça velha. Terra molhada. O perfume da minha mãe ainda pairando no ar.

A entrada estava vazia. Depois dela, um longo corredor se estendia. Pisos de madeira escura. Peles de animais nas paredes. Relíquias tribais.

Agarrei a alça da minha mala com mais força e chamei baixinho: “Olá?”

Sem resposta. O silêncio era absoluto. Eu não sabia se era bem-vinda ali.

Um bilhete estava sobre a mesa de madeira, perto da grande escadaria. Meu nome estava escrito nele com tinta preta.

Ava — seu quarto fica no final do corredor. O funeral será amanhã ao pôr do sol. Descanse bem.

Sem assinatura, mas eu sabia de quem era. Lucas. Meu padrasto. O marido da minha mãe.

Não havia fotos da minha mãe em lareiras ou mesas. Não havia rostos espiando pelas portas. Apenas o som do vento contra as janelas e a escuridão lá fora cobrindo a luz artificial dentro da casa.

Segui o corredor até a última porta, com minhas botas ecoando no piso de madeira.

Meu quarto era simples — aconchegante, equipado com uma cama, uma cômoda de madeira e uma pequena janela que dava para a linha infinita de árvores. O luar derramava-se sobre a cama e sobre mim.

Coloquei minha bolsa no chão, mas não me sentei. Fiquei lá por um longo tempo, com os braços abraçando meu próprio corpo, olhando para o nada.

Aquele lugar não era um lar. Não era o luto, exatamente, que me preenchia. Era o vazio doloroso de algo não resolvido. Uma ferida que nunca tinha cicatrizado de verdade.

Eu não sabia quem minha mãe tinha sido nos seus anos finais. Não sabia por que ela tinha se mantido afastada, por que não tinha ligado, por que tinha construído uma vida sem mim.

Mas eu estava aqui agora. E amanhã, eu a enterraria em um lugar onde nunca estive. Entre lobos que nunca conheci.

Eu ainda não tinha visto Lucas. Achei um pouco estranho, considerando que ele me convidou e deveria ser meu padrasto, mas minha mãe mencionou que ele era o líder da alcatéia Blackthorn, e tenho certeza de que ele tinha responsabilidades próprias para lidar.

Eram sete da noite, e eu estava deitada na cama como apenas uma mestiça faria.

Eu não sabia como ser uma loba. Não estava acostumada a uma packhouse, e nas poucas vezes que tentei me transformar, fui inútil; nem conseguia trazer meu lado loba totalmente à tona. Eu era mais humana do que qualquer outra coisa, embora minha loba se agitasse dentro de mim.

Cada rangido da velha packhouse parecia amplificado na escuridão. O vento arranhava as paredes de madeira como se tivesse garras, e o uivo distante de lobos — lobos de verdade, não mestiços como eu — perfurava a noite.

Deitei-me na cama desconhecida com os olhos bem abertos enquanto o cobertor se enrolava em minhas pernas.

Parte de mim queria acreditar que eu estava apenas cansada, apenas desorientada. Mas sob minha pele, algo zumbia — inquieto. Era uma vibração baixa no meu sangue que não tinha nada a ver com cafeína, mas talvez com outra coisa.

Era a terra. O ar. O silêncio. Tudo parecia... expectante.

Virei-me, abraçando um travesseiro contra o peito e tentando não pensar no cheiro que ainda pairava no quarto. O cheiro dela. Da minha mãe. Elle.

Até mesmo pensar no nome dela tinha um gosto de arrependimento.

Ela tinha sido uma força da natureza quando eu era pequena — sorrisos radiantes, risadas selvagens, beijos que cheiravam a sândalo e chuva. Mas ela sempre desaparecia. Ela sempre voltava mais magra, mais quieta, com os olhos um pouco mais distantes. Ela nunca foi feita para a normalidade, e certamente não para a maternidade.

Meu pai disse uma vez que ela tinha uma tempestade na alma — que ela nunca ficava em um lugar porque não era para ficar.

Ele disse isso suavemente, como se fosse uma gentileza.

Mas não parecia gentil.

Parecia abandono.

Meu estômago roncou alto enquanto eu me virava de lado. Eu não comia desde aquela manhã — antes da ligação.

Antes de o mundo sair dos eixos.

Sentei-me e esfreguei os olhos, esperando que a dor diminuísse. Não diminuiu.

Houve uma batida suave na porta. Dei um pulo. A porta se abriu um centímetro, e vi o brilho de uma bandeja. Então uma voz — baixa, aveludada — rompeu o silêncio. Era ele.

“Posso entrar?”

Então, o mesmo cheiro de antes invadiu o quarto, cortante e inebriante, fazendo meu pulso acelerar.

Pinho, cinzas, pelo. Fumaça velha. Terra molhada.

Meu rosto se transformou em confusão enquanto eu levantava o nariz para o ar e era recebida pelo olhar firme de Lucas.

O cheiro pertencia a ele.

O marido da minha mãe. Meu padrasto.

Lucas.