1│𝐀𝐥𝐢𝐠𝐧𝐞𝐝
“Vamos lá, meninas! Mais um shot para dentro. Temos que acabar com essa garrafa inteira, e eu não aceito um não como resposta hoje.” Cara ergueu seu copo no ar e esperou que Grace e Zoe fizessem o mesmo.
Essa era a rotina de Grace todas as sextas-feiras. Curtir a festa até o amanhecer e ficar completamente bêbada. Sem conseguir andar sozinha, apenas sentindo-se livre. Ela amava esse estilo de vida despreocupado, até que a demitiram do emprego onde trabalhou por três anos. Esta era sua última noite de festa até conseguir outro emprego fixo. Elas viraram o shot de uma vez e decidiram ir para a pista de dança.
“Grace, não se preocupe, gata, eu sei que você logo vai encontrar outro emprego. Oportunidades vão e vêm; só escolha um lugar onde você se sinta confortável. E não cometa o mesmo erro da última vez.” Sua outra amiga, Zoe, tranquilizou Grace com palavras de incentivo.
Ela trabalhava no escritório há algum tempo e nunca teve problemas com o chefe ou com os colegas. Até que, um dia, Grace xingou o chefe, mas por um motivo muito justo.
O chefe era estranhamente legal com ela e, toda vez que se encontravam fora do trabalho para discutir assuntos profissionais, ele sentava terrivelmente perto. Certa noite, ele a convidou para um café e ela aceitou, afinal, o que poderia acontecer? Era apenas um convite idiota para um café. Mas ela estava enganada.
Quando se encontraram fora da cafeteria, ela sentiu o cheiro de álcool vindo da boca dele a metros de distância. Naquele momento, soube que tinha cometido um erro. Ele praticamente se jogou para cima dela e começou a tocá-la de forma inapropriada, então ela disse poucas e boas para que ele a deixasse em paz.
Na semana seguinte, no trabalho, o chefe a chamou em sua sala e ela soube que estava ferrada. Aquele desgraçado contou a todos que ela o convidou para um café, mesmo sendo ele o chefe, e disse que ela tentou seduzi-lo. Ele alegou que, quando a rejeitou, ela começou a xingá-lo porque não aceitava levar um fora. E ainda acrescentou que era casado e tinha filhos.
Grace nunca se sentiu tão envergonhada na vida. Então, o chefe a demitiu na frente de todos no escritório. Ela saiu imediatamente e chegou em casa com lágrimas nos olhos. Essa é a história.
“Eu sei, Zoe; é que... e se ninguém me contratar e, de alguma forma, descobrirem o que aconteceu no meu antigo trabalho? Aff, vamos parar de falar disso agora.” Grace disse, e sua música favorita começou a tocar. Ela sorriu para as amigas, e elas começaram a mover os quadris no ritmo da melodia. Mãos para o alto, sentindo-se cada vez mais à vontade.
Os olhos de Grace pararam de repente em um homem de terno sentado no sofá. Duas mulheres lindas o cercavam, mas seus olhos estavam fixos no chão. Ele segurava um uísque e parecia entediado demais até para estar ali.
Quando ele levantou a cabeça, os olhares deles se alinharam. Como se ele pudesse sentir os olhos curiosos dela. Grace estava um pouco bêbada e imprudente, então fez um sinal para que ele viesse até ela.
Ele a estudou por alguns segundos, levantou-se de repente e começou a caminhar lentamente através da multidão que dançava. Seus olhos perfuravam os dela, e ela perdeu toda a confiança que tinha. Ele estava a poucos metros quando parou de andar.
Ele era bem alto comparado aos outros homens na pista de dança. Tinha cabelos castanhos longos presos em um coque baixo. Sua barba aparada parecia tão simétrica e perfeitamente feita. O mais bonito nele eram seus olhos esmeralda.
Quando ela deu um passo à frente para ir até ele, ele se virou rapidamente e saiu apressado. Grace olhou em volta, mas ele não estava em lugar nenhum.
“Achou alguém que gostou, Grace?” Cara provocou enquanto passava o braço pelos ombros dela. Grace revirou os olhos e voltou a dançar. Conhecer alguém na balada nem sempre é a melhor escolha. Depois de alguns minutos, ela se esqueceu completamente dele e bebeu ainda mais do que tinha prometido.
Por volta das duas da manhã, decidiram ir para casa. Seus pés doíam por causa do salto alto, e ela precisou tirá-los no caminho para o táxi que a esperava do lado de fora. Cara e Zoe foram com outro táxi, já que moravam do outro lado da cidade.
Quando Grace chegou em casa, tomou um banho de espuma demorado para tirar todo o suor. Comeu algo rápido, porque esqueceu de jantar, e depois foi para sua cama king-size confortável.
“Talvez eu tenha mais sorte a essa hora.” Ela murmurou para si mesma e começou a procurar um emprego online. Estava desempregada há duas semanas e não conseguia achar nada durante o dia.
Talvez, na mágica das três da manhã, eu tenha sorte, ela pensou.
É claro que ela caiu no sono no minuto seguinte. Às dez da manhã, acordou com uma dor de cabeça terrível e uma sensação estranha no estômago. A vodca não tinha sido uma boa escolha. Quando estava pronta para voltar a dormir, seu telefone começou a tocar e vibrar.
“Onde diabos eu coloquei isso?” Ela suspirou, movendo a mão sobre os lençóis, tentando achar o aparelho.
“Quem é?” Ela perguntou ao pegar o telefone debaixo do travesseiro.
“Sou eu.”
“Quem é 'eu'?” Ela perguntou de novo.
“Você é idiota, Grace? Sou eu, a Zoe.” Ela disse em tom sarcástico e suspirou.
“Ah, eu estou com uma dor de cabeça por causa daquela vodca maldita que a Cara insistiu tanto para bebermos. Mas por que você está me ligando tão cedo?”
“Porque tenho notícias excelentes para você!”, ela exclamou. Grace colocou no viva-voz e se levantou da cama.
“Então conta! Não me faz de boba.” Ela revirou os olhos.
“Para de revirar os olhos quando eu não estou aí.”, Zoe disse e continuou, “Recebi uma oferta de emprego para secretária de um grande amigo meu, ele é gerente de contratação. Como eu não preciso de emprego, falei de você, e ele concordou com uma entrevista!”
“O QUÊ???” Ela gritou, colocando o celular de volta na orelha. “Zoe, você é a melhor. Eu te amo tanto!” Grace sorriu e começou a dançar pelo quarto, empolgada.
“Claro, gata, qualquer coisa por você.” Ela disse, mandando um beijo. “Vou te mandar o endereço por mensagem. Só, por favor, chegue no horário.” Zoe acrescentou, e a conversa terminou. Ela recebeu o texto logo em seguida, e Grace pesquisou no Google a empresa para onde iria amanhã.
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O alarme a acordou em uma manhã ensolarada às sete e trinta e quatro. Olhou no armário e escolheu a melhor opção: um vestido preto clássico, elegante e justo. Grace o vestiu, ajeitou seu cabelo curto preto e passou uma maquiagem. Enquanto estava no táxi, leu algumas avaliações sobre a empresa e teve que admitir para si mesma que nunca tinha lido tantas críticas positivas antes.
“Chegamos, senhorita.” O motorista anunciou, e o nervosismo começou a bater. Ela pagou a corrida e deu uma pequena gorjeta. Ele agradeceu, e ela saiu, indo em direção à porta da frente. Perguntou à recepcionista as direções, e ela a informou que era no décimo primeiro andar. Grace entrou no elevador, suando frio.
Pareceu que passou uma hora até chegar lá. A porta do elevador se abriu, e à sua frente havia um longo corredor com várias portas pretas enormes, com uma mesa de secretária em frente a elas e uma mulher mais velha sentada atrás. Seu cabelo era ruivo-escuro e ondulado, chegando até a saboneteira. Ela usava óculos de armação preta na ponta do nariz.
Ela começou a caminhar devagar, respirando fundo para se acalmar. “Bom dia; eu estou aqui para a entrevista de emprego”, disse Grace.
A mulher levantou o olhar lentamente para ela, e um sorriso fraco apareceu em seu rosto. “Sim, claro, Srta. Ellington. Por favor, pode entrar.” Ela apontou para a última porta.
Grace assentiu e deu alguns passos em direção à porta preta. Bateu duas vezes. “Entre.” Uma voz profunda falou de dentro. Ela abriu a porta e a fechou atrás de si.
“Bom dia. Sou Grace Ellington. Estou aqui para a entrevista de emprego.” Ela anunciou, endireitando a postura para parecer mais confiante.
“Olá.” Ele finalmente disse, depois de sair de seus pensamentos. “A pessoa que deveria entrevistá-la teve um imprevisto, então outra assumirá o lugar. Vou chamá-lo; só me dê um minuto. Sente-se enquanto isso.” Ele disse. Ela se sentou no sofá que havia ali e esperou pacientemente, observando o local.
As paredes eram pintadas em um tom neutro de cinza, e o chão estava coberto com um carpete macio. Havia uma mesa grande de mogno em um canto, cheia de papéis e documentos, e algumas obras de arte penduradas nas paredes.
Graças a Deus não é ele quem vai me entrevistar, ela pensou consigo mesma.
Ele desligou o telefone depois de dizer algo baixinho e olhou para ela. “A porta ao lado da minha é onde você deve ir.” Grace assentiu com um sorriso, agradeceu e saiu rapidamente. Aquele homem lhe dava arrepios. Ela agradeceu a Deus por ele não ser seu chefe.
Grace entrou na sala ao lado e encontrou um homem sentado em uma cadeira de couro. “Sente-se, por favor.” Foi só o que ele disse.
Não acredito, outro homem arrogante, ela pensou.
Ela sentou na cadeira à frente dele, tirando o currículo da bolsa. Soltou um suspiro audível, ficando irritada. Este dia deveria ter sido diferente. E ainda bem que trouxe a versão impressa, já que só tinha enviado o formulário digital para a pessoa que deveria entrevistá-la.
“Dia difícil?” Ele questionou.
Ela franziu a testa. “Você poderia se virar, por favor? É um pouco desrespeitoso falar comigo desse jeito, não acha?” Ela deixou a raiva vencer de novo e usou sua língua afiada.
Grace deu um tapa na própria testa por causa do que tinha acabado de sair de sua boca. “Hum, sinto muito. Por favor, esqueça o que eu disse.” Ela disse rapidamente, esperando que ele não fizesse disso um grande problema.
“Não, eu que peço desculpas, senhorita. Eu...”
Aqueles olhos esmeralda que ela achou que nunca mais veria estavam bem à sua frente. Ambos ficaram em choque, com um constrangimento tomando conta do ambiente. Ela tentou esconder a surpresa, entregando-lhe o currículo que estava sobre a mesa e cruzando os braços. Ele limpou a garganta e parou de olhar para Grace imediatamente. Seus olhos se voltaram para o currículo.
Ela, no entanto, não conseguia parar de olhar. O terno abraçava perfeitamente os músculos de seus braços. O cabelo longo estava mais uma vez preso em um coque baixo, e era difícil olhar para outro lugar. O cheiro amadeirado do perfume dele atingiu suas narinas, fazendo-a aspirar o aroma mais uma vez. Ele devia usar um perfume caro.
“Você já trabalhou em um escritório antes. Isso é ótimo, Srta. Ellington.” Ele disse.
Por que o olhar dele não está em mim quando ele fala?
“Não tenho mais perguntas. Você está contratada.” Ele acrescentou. Ele nem sequer lhe fez uma pergunta. Ela não o entendia de jeito nenhum. E ele a contratou logo de cara? Eles não precisam verificar credenciais?
“Você tem alguma pergunta?” Ele perguntou, mas seus olhos continuavam presos nos papéis dela.
“Quando posso começar?” Ela perguntou, encarando-o. De repente, ele soltou os papéis e se virou novamente. Grace ficou em choque total. Esse homem tinha uma audácia imensa para fazer isso enquanto conversavam sobre o cargo dela.
“Amanhã. Você receberá todas as instruções com seu colega de trabalho. Tenha um bom dia.” Essas foram suas últimas palavras. Ele a expulsou apenas com palavras.
Grace pegou seu currículo com raiva e saiu sem dizer nada, fechando a porta com toda a força. Ela não queria trabalhar ali de jeito nenhum.
“Ei, senhorita!” Uma voz atrás dela chamou enquanto ela caminhava rapidamente pelo corredor.
Ela parou e olhou para trás. Um homem com um sorriso doce segurava um dos papéis que provavelmente tinha caído da sua bolsa. Seu cabelo curto e loiro estava penteado para trás, e uma camisa branca simples estava por dentro de uma calça social azul.
Ele correu até ela e esperou que ela pegasse o papel. “Ah, obrigada; eu não vi que tinha caído”, ela suspirou.
Ele estudou o rosto dela por alguns segundos e disse: “Nosso chefe não é um cara mau. Ele é um pouco estranho, se quer saber. Você só precisa se acostumar com ele. Espero que a gente se veja de novo.” Ele disse com um sorriso discreto e voltou para sua sala.
Com "nosso chefe", ele quis dizer o cara que conheci na balada. Isso significa que ele é meu chefe e eu sou secretária dele?
A vida não podia piorar.
Confira minha outra história SCYTHE.
