Capítulo 1
POV: Mike
Desci do jato com minha mala na mão. O ar morno da noite roçava minha pele enquanto o sol se punha no horizonte, incendiando o céu com tons de laranja e vermelho. Johnny estava logo atrás de mim, arrastando os pés e resmungando algo sobre ter perdido no cara ou coroa.
Meu Jeep estava estacionado no aeroporto, exatamente onde o deixei. Abri o porta-malas e ajudei Johnny a colocar a mala no carro dele. Aquela maldita mala era o resultado da nossa última missão: duas semanas exaustivas na Coreia que testaram nossa paciência e nossos corpos. Johnny perdeu a aposta, o que significava que ele teve o privilégio de entregá-la à agência antes de ir para casa.
“Nos vemos segunda-feira”, disse ele, fechando o porta-malas com um suspiro pesado.
“Se eles não nos chamarem antes disso”, murmurei, esfregando a nuca.
Johnny zombou. “Acabamos de chegar. Eles não teriam coragem.”
Dei um sorriso de canto, sabendo que teria.
No momento em que cheguei em casa, servi um uísque, tomei um banho bem quente e desabei na cama. O plano? Um fim de semana sem fazer absolutamente nada: besteiras para comer, TV e silêncio. Sem missões. Sem tiros. Sem picos de adrenalina. Só eu e minha seleção de filmes de ação de merda.
Mas, é claro, esse plano morreu antes mesmo de começar.
O toque estridente do meu celular cortou meu sono. Atordoado, peguei o aparelho e apertei os olhos para ler a tela. Johana.
Merda.
Pensei em ignorar, mas sabia que era melhor não.
“Olá, chefe”, resmunguei, com a voz carregada de cansaço.
“Mike. Emergência. Código 3. Agência. Agora.”
A voz dela foi seca, mais cortante que o normal. Johana nunca desperdiçava palavras, mas aquilo era diferente. Não era apenas urgente; era grave.
Sentei-me na cama, passando a mão pelo rosto. “Já estou indo.”
A agência raramente nos convocava tão cedo após uma missão. Geralmente, tínhamos pelo menos duas semanas entre os trabalhos — ou uma, no mínimo. O fato de nos chamarem agora significava que algo muito sério tinha acontecido.
Quando estacionei no estacionamento da agência, aquela sensação ruim já tinha se instalado no fundo do meu estômago.
Lá dentro, passei direto por Cindy, a recepcionista, que mal encontrou meu olhar. Ela parecia... tensa.
“Manhã difícil?”, perguntei.
Ela forçou um sorriso fraco. “Algo assim.”
É, a coisa estava feia.
Quando entrei na sala de Johana, Johnny já estava lá, de braços cruzados, espelhando minha preocupação.
“A agência está sem equipes?”, brinquei, jogando-me em uma poltrona, tentando esconder meu nervosismo. “Poderiam ter nos deixado dormir uma noite inteira.”
Johnny, sentado à minha frente, assentiu. “Sério, chefe. Qual a pressa?”
Johana não respondeu de imediato. Em vez disso, passou a mão pelo pescoço — um tique nervoso que eu tinha visto talvez duas vezes em todos os anos que a conhecia.
Aquele foi meu segundo sinal de alerta.
Johana era uma rocha, firme mesmo sob fogo cruzado. Eu a vi convencer um terrorista com uma arma na cabeça sem nem piscar. Mas agora? Ela estava hesitando.
Antes que eu pudesse pressionar, a porta se abriu atrás de nós.
“Desculpe, estou atrasada.”
Danna, nossa hacker, entrou caminhando e ajeitando seus óculos enormes. Ela se jogou no sofá, mal notando a tensão na sala.
“Bem na hora”, Johana murmurou, e então respirou fundo, como se estivesse escolhendo suas próximas palavras com cuidado.
“Dez horas atrás”, começou ela, ligando a tela grande atrás de si, “uma de nossas agentes disfarçadas parou de responder às comunicações. Ela estava trabalhando como repórter, infiltrada em uma operação de alto risco...”
Eu me inclinei para frente. “Espere. Dez horas? O protocolo diz que esperamos vinte e quatro antes de classificar como desaparecimento.”
Silêncio.
Então, uma voz — grave, rústica e dolorosamente familiar — cortou o ambiente.
“Não quando essa agente tem ordens diretas para enviar prova de vida a cada seis horas.”
Meu estômago despencou.
Virei-me lentamente, um medo intenso se enrolando no meu peito antes mesmo que meu cérebro processasse o motivo.
O Coronel Gordon MacDawson estava parado na porta, exatamente a figura autoritária de quem eu me lembrava. Seu maxilar quadrado estava tenso, as sobrancelhas grossas franzidas e os fios brancos em seu cabelo escuro estavam mais evidentes do que na última vez que o vi. Ele ainda era o mesmo durão, vestido em um terno impecável, sua presença comandando a sala sem esforço. E os mesmos olhos verdes intensos.
Levantei-me de um salto. “Senhor.”
Johnny fez o mesmo, batendo continência. Johana também. Apenas Danna permaneceu sentada, de olhos arregalados, olhando para nós como se tivéssemos perdido o juízo.
“Dispensados”, disse Gordon, descartando as formalidades enquanto caminhava em direção à mesa de Johana.
Meu pulso acelerou. Não. Não, isso não podia ser...
“Espere”, disse eu, com a voz quase rouca. “Essa agente não é... Amanda, é?”
A sala mergulhou em um silêncio mortal.
Johana exalou bruscamente, evitando meu olhar. Johnny ficou rígido.
Dei um passo para trás, o ar parecia subitamente denso, meu peito apertando como um maldito torno.
“Espere — Amanda?”, repetiu Johnny, os olhos alternando entre nós. “Sua Amanda?”
Johana suspirou, e essa foi a minha resposta.
Amanda.
O nome sozinho disparou uma onda de choque em mim; anos de emoções enterradas romperam como uma represa. Minhas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo.
“Onde ela está?”, virei-me para Gordon, com a voz beirando o desespero.
“Ela nunca parou de procurar por Horatio”, disse ele.
As palavras atingiram como um soco no estômago.
Ela nunca parou; Gordon, aquele que me tirou da trilha de Horatio, dizendo-me que ela nunca parou.
Engoli em seco, minha cabeça girando. Eu não sabia o que era pior: o fato de ela nunca ter parado de caçá-lo ou o fato de eu ter me convencido de que ela tinha seguido em frente.
Gordon continuou, mas eu mal o ouvi.
“O último contato foi na Alemanha. Dez horas atrás.”
Forcei-me a olhar para a tela.
E lá estava ela.
Amanda McDawson.
A foto era recente. Seu cabelo loiro estava preso, os olhos verdes tão afiados quanto sempre. Mas havia algo mais ali — algo endurecido.
Porra.
“Ela nunca perdeu um check-in antes”, murmurei, passando a mão pelo cabelo.
“É por isso que você está indo para a Alemanha”, disse Johana, com a voz firme. “Enviaremos mais informações no caminho.”
Balancei a cabeça, meu pulso martelando. “Eu não posso. Eu...”
“Lancaster, você é o melhor agente que temos, você a conhece”, interrompeu Gordon. “Você conhece o caso. E se Horatio já a pegou, não importa se você está no mesmo lugar ou não.”
As palavras dele deveriam ser reconfortantes. Não foram.
Minha equipe saiu, mas Gordon ficou.
“Mike”, ele chamou, usando meu primeiro nome. Ele só fazia isso quando falava como família, não como meu superior.
“Sim, Gordon?”
“Traga-a de volta”, disse ele, com um tom de súplica na voz.
“Eu vou”, prometi — tanto por ele quanto por mim.
Mal me lembro do que aconteceu depois disso. Tudo ficou embaçado à medida que a realidade se instalava.
Amanda estava desaparecida.
E eu era o único que poderia trazê-la de volta.
A próxima coisa que soube foi que estávamos em nosso jato, cortando o céu a caminho da Alemanha. Johnny, meu melhor amigo e alguém que me conhecia melhor do que ninguém, sentou-se algumas fileiras atrás, me dando espaço. Ele conhecia a história de Amanda. Ele conhecia Gordon. Ele sabia quando pressionar e quando me deixar em paz. Então fiquei sentado sozinho, olhando pela janela, meus pensamentos um espiral sem fim de lembranças, hipóteses e o pavor corrói que sentia no estômago.
“Mike?”
A voz estava distante, quase abafada pelo zumbido dos motores.
“Mike?”
Desta vez, foi mais claro, seguido por um toque gentil em meu braço. Virei-me e vi Danna parada ao meu lado. Ela hesitou por um momento antes de finalmente se sentar ao meu lado, com as mãos inquietas no colo.
Ela soltou um pequeno suspiro antes de falar suavemente. “Você se importa de me dizer quem era Amanda?”
Seus olhos estavam arregalados, cheios de curiosidade e talvez até uma pitada de preocupação. Eu não podia culpá-la. Ela tinha acabado de presenciar a cena na agência e visto quando quase perdi o controle. Ela tinha perguntas.
Olhei para baixo, apoiando os braços nas pernas, inspirando profundamente. Falar sobre Amanda doía — doía de uma maneira que parecia reabrir uma ferida antiga que nunca sarou de verdade. Mas, ao mesmo tempo, havia algo sobre nossa história que eu amava, algo que ainda parecia tão cru e vivo dentro de mim.
“Ok”, murmurei, oferecendo um sorriso fraco. “Você lembra que servi ao exército, certo?”
Danna assentiu.
“Eu estava terminando meu treinamento como franco-atirador de longo alcance quando a agência me recrutou. Eu aceitei, e tudo mudou da noite para o dia. Na agência, além de todo o treinamento balístico, tive que aprimorar minhas habilidades de combate e luta corpo a corpo. E no meu primeiro dia de treinamento...”
A memória me atingiu como um tsunami, arrastando-me de volta àquele momento como se tivesse acontecido ontem mesmo.