Capítulo 1: A Crise
Dominic
Soltei um suspiro de impaciência e virei meu rosto bronzeado na direção do CFO, meu longo cabelo preto saindo dos meus olhos com o movimento. O ar na sala de reuniões estava pesado por causa das discordâncias, e eu não estava com a menor vontade de lidar com isso. — Chega! Essa briga de vocês não vai nos levar a lugar nenhum. Harrison, explique a situação.
Harrison Blythe era um homenzinho inquieto, com olhos semicerrados e óculos tão grossos que qualquer um poderia usá-los como lente de telescópio. Ele embaralhou as pastas à sua frente e escolheu a mais grossa. — O Kingsley Group é o nosso bilhete premiado para a expansão global. Eles são a maior empresa de investimentos da Europa e mostraram interesse em uma parceria substancial. Mas há um problema. — Ele deu um tapinha no dossiê volumoso e balançou a cabeça. — Eles estão procurando um parceiro imobiliário que projete estabilidade, longevidade e valores familiares.
— O que significa que eles não estão procurando um CEO indomável, obcecado por trabalho e sem equilíbrio pessoal — interrompeu Martha Langley. Ela era um dos membros do conselho com mais tempo de casa, uma remanescente de antes de eu assumir a Voss Enterprises. Naquela época, era a Monsen Properties, pouco mais que uma agência de aluguel local. A senhora idosa girou uma das pérolas de seu colar entre os dedos e balançou a cabeça. — Estamos dando um passo maior que a perna se eles esperam um cão onde temos um lobo. Eles querem ver um homem que seja casado com mais do que apenas o seu trabalho.
Afundei na minha cadeira e enterrei minhas unhas nos braços de couro. — A Voss Enterprises mais que triplicou sua participação no mercado nos últimos três anos por causa da minha “liderança indomável”. Os números, por si só, deveriam mostrar ao Kingsley Group que a Voss Enterprises sabe o que faz. Negócios de sucesso.
— Deveriam — concordou Martha —, mas a Kingsley é administrada por um bando de elites do "old money" que se importam tanto com a imagem quanto com o dinheiro. Eles valorizam a tradição e a longevidade; o novo CEO deles é um herdeiro de quarta geração. E o nosso CEO é — ela gesticulou para mim — um empresário implacável e solteiro, sem herdeiros e sem sinal de que vá mudar algum dia.
As palavras foram um golpe fatal no meu orgulho. Olhei friamente para a sala de reuniões, fazendo o melhor para manter meu tempero sob controle. Aquilo era mais do que um grande negócio. Se eu conseguisse garantir essa parceria, a Voss Enterprises poderia facilmente quadruplicar nossa participação no mercado em 18 meses. Eu não estava nem aí para o que a Kingsley pensava da minha vida pessoal. Mas esta empresa? Era o meu império. E eu faria qualquer coisa para vê-lo crescer.
— Qual é o prazo para a decisão final deles?
Harrison vasculhou o dossiê. Ele parou em algumas páginas diferentes antes de seu rosto se iluminar. — Ah. Trinta dias. E se eles não seguirem em frente conosco, você sabe que a Drake Industries vai dar o bote.
Só de ouvir o nome do meu rival, meus dentes rangeram. Minha mandíbula tensionou e meu nariz se enrugou. É claro que Lucian Drake e seu bando de lobos de segunda categoria estariam rodeando o Kingsley Group também! Eles vinham lutando para me sabotar há anos, tanto nos negócios quanto no território. Se Lucian garantisse o contrato da Kingsley, isso causaria uma mudança enorme no mundo imobiliário.
— Tem que haver outro ângulo. Encontrem. — Dei um soco no braço da cadeira, e todos na sala pularam. — Temos que provar que a Voss Enterprises é a única escolha correta!
Martha engoliu em seco e se afastou de mim, ainda mexendo no colar. — Bem, existe outro ângulo. Você não tem tempo para mostrar que a Voss tem longevidade, mas a maneira mais fácil de mostrar estabilidade seria uma esposa.
A sala ficou em um silêncio mortal. Os outros membros do conselho encararam Martha, completamente chocados por ela ter sido corajosa — ou estúpida — o suficiente para sugerir algo assim. Estreitei os olhos. — Nem pensar.
— Não precisa ser real? — Harrison interveio. — Um relacionamento. Um noivado. Apenas algo para marcar essa porra de requisito deles.
Isso foi um ataque organizado! Esses lunáticos tinham que ter planejado isso com antecedência! Antes que eu pudesse calá-los, uma risada vinda do outro lado da mesa fez com que todas as cabeças na sala se virassem na mesma direção.
Na ponta da mesa estava Vivianne Sinclair, COO e minha braço-direito. Ela era loira e alta, macia nos lugares certos… mas com um rosto tão afiado e frio quanto gelo cortado pelo vento.
— Estamos realmente sugerindo que Dominic Voss, o bilionário solteiro mais famoso da cidade de Nova York, finja um casamento só para deixar alguns investidores do "old money" felizes? É mais provável você ligar para a emergência em Manhattan e conseguir uma ambulância em menos de uma hora. — Ela começou a rir novamente, e a sala de reuniões permaneceu em um silêncio constrangedor.
Levantei-me, debruçando meus quase dois metros de altura sobre a mesa o máximo que pude. — Você tem um plano melhor, Srta. Sinclair? — Meus olhos castanhos com manchas douradas encontraram seus azuis celestes e travaram.
Ela deu um sorriso de lado e balançou a cabeça. — Não, eu só acho ridículo. A menos, é claro, que você esteja realmente considerando fingir um noivado? Mas quem você acha que conseguiria enganar com uma coisa dessas? Uma atriz? Uma socialite aleatória? Isso é ainda menos provável do que você estar levando esse plano estúpido a sério.
Recostei-me na cadeira, estudando Vivianne por um longo momento. — Por que não?
— Por que não o quê? — O tom dela mudou, perdendo a maior parte da diversão em troca de alarme. Seus braços se cruzaram sobre o peito e depois caíram nos braços da cadeira. — Espere. Você não está falando sério.
Cruzei as mãos sobre a mesa, com um sorriso de lado brincando nos cantos dos meus lábios. Mesmo que eu não seguisse o plano, qualquer coisa que irritasse minha COO valia a provocação. — Por que eu não estaria? Um “casamento” temporário resolve nosso problema. Seis semanas. É tudo o que levaria. Tempo suficiente para assinar o contrato, oficializar tudo e seguir caminhos diferentes, sem sentimentos envolvidos.
Vivianne bufou e recostou-se na cadeira, com uma perna cruzada sobre a outra. Ela apontou seu salto agulha na minha direção. — Novamente pergunto, então, quem você acha que poderia possivelmente enganar com isso? Não existe mulher em sã consciência que toparia entrar nessa armação.
— Você — respondi sem nem piscar.
Ela me encarou, sem palavras. — Nem por um caralho, Dominic Voss. Absolutamente não.
— Por que não? Você já está no meu círculo íntimo. Você já sabe como a empresa funciona e aguenta a pressão. Além disso, você é a única mulher que conheço que não teria nenhuma ideia errada.
Vivianne ficou boquiaberta para mim, a raiva começando a deixar sua pele pálida manchada. — Ah, eu tenho muitas ideias, Dominic Voss. E, agora, a maioria delas envolve eu jogar meu café em você!
Apenas ri em resposta. — Você mesma disse. Eu poderia tentar arrastar uma atriz ou socialite para isso, mas ninguém acreditaria. Mas você? Você é brilhante, respeitada por seus próprios méritos e minha COO. Todos já pensam que somos uma dupla dinâmica. Não seríamos apenas convincentes. Seríamos imparáveis. — Honestamente, quanto mais eu falava, mais eu gostava do plano.
— Você perdeu o juízo. — Vivianne balançou a cabeça, os olhos ainda faiscando enquanto processava como o dia tinha dado uma guinada tão incrível para o lado errado.
— Talvez eu tenha perdido — admiti. — Mas você sabe tão bem quanto eu o quanto esse negócio significa. Não estamos falando de milhões de dólares. Estamos falando de bilhões se jogarmos as cartas certas. E se o Drake chegar e roubar o contrato debaixo do nosso nariz? Você sabe que você será a pessoa que terá que limpar a bagunça.
Eu podia ver as engrenagens girando em seu cérebro. Eu tinha desbloqueado com sucesso a tubarão que contratei, para meu deleite. O resto do conselho observava com vários níveis de curiosidade e horror absoluto enquanto a COO tentava entender tudo.
— Você quer que eu finja ser a esposa dedicada por seis semanas. Sem mais tempo, sem compromissos? Sem romance. Sem casamento real. Apenas um contrato temporário?
Assenti. — Estritamente profissional.
Vivianne massageou as têmporas e suspirou tão profundamente que pensei que seus pulmões pudessem colapsar. — Isso é insano.
— Insanamente brilhante — corrigi. — Então, o que acha, Sinclair? Você se casa comigo?
Ela gemeu e olhou para o teto. — Deus me ajude…
— Vou considerar isso como um sim. Com isso dito, temos alguns preparativos a fazer. Harrison, preciso que você reorganize o orçamento e encontre meio milhão de dólares para realizar um casamento de verdade. Se é para fazer isso, vou fazer direito.
Tirei uma caneta stylus do bolso do paletó e abri a capa do meu celular para gravar um lembrete de voz para mim mesmo. — Quero o Salão de Festas do Plaza Hotel. Martha, entre em contato com Mario Vinchelli. Peça para ele começar um vestido de noiva para Vivianne e um smoking para mim. Ele vai insistir que está muito ocupado, mas espero que você o convença. Ele é o melhor designer de vestidos de noiva de uma geração.
— Erickson, quero que você contrate Annie Esplin para planejar a cerimônia. Isso tem que ser um casamento perfeito para a mídia, e ela dará conta do recado. E William, peça ao departamento de eventos para cuidar dos convites e da lista de convidados. Quanto mais elite, melhor. O Salão de Festas comporta até 500 convidados, e quero a cidade de Nova York lutando com unhas e dentes para sentar naquelas cadeiras.
Recostei-me na cadeira e encarei os membros do conselho, que me devolveram olhares de choque. — O que estão esperando? Esse foi o plano de vocês. Saiam daqui! Todos, menos você, Vivianne. Temos mais planejamento a fazer.