01
As luzes fluorescentes da defensoria pública zumbiam sobre sua cabeça, projetando um brilho doentio que fazia com que todos parecessem mortos-vivos. Juliette pensou que era apropriado para um lugar onde carreiras jurídicas iam para morrer. Ela colocou uma mecha de cabelo escuro atrás da orelha, alisando a frente de seu blazer azul-marinho sensato — aquele que comprara em uma promoção no ano passado, quando ainda acreditava que este emprego seria temporário.
Ela encarava os processos espalhados em sua mesa, cada um representando uma pessoa cuja vida estava por um fio em um sistema superlotado. O cheiro de café velho e toner de fotocopiadora pairava no ar, misturando-se ao leve aroma cítrico de produto de limpeza industrial. Com vinte e seis anos, ela já sentia o peso de cem histórias pressionando seus ombros. Não era exatamente o que ela tinha imaginado quando entrou na defensoria pública com sonhos de proteger os inocentes e ser a voz daqueles que a sociedade silenciou.
“Carter!” A voz ríspida de seu chefe, o defensor público distrital Richard Simmons, cortou o barulho do escritório. “No meu escritório. Agora.”
Juliette olhou para cima e viu cabeças se escondendo atrás das divisórias das mesas. Seus colegas estavam subitamente fascinados com as telas de seus computadores, canecas de café ou qualquer outra coisa que não fosse cruzar seu olhar. O escritório ficou em silêncio, exceto pelo zumbido das lâmpadas e um telefone distante tocando sem ser atendido. Seu estômago deu um nó e um ácido subiu pela garganta. O que quer que estivesse esperando na sala de Simmons não era notícia boa.
Apenas respire, ela disse a si mesma, levantando-se da cadeira. Seja o que for, você dá conta.
Seus saltos batiam contra o linóleo desgastado enquanto ela caminhava para o escritório de Simmons, cada passo ecoando no silêncio repentino. Através da divisória de vidro, ela podia ver não apenas Simmons, mas outros dois homens que não reconhecia. Um vestia um terno caro que gritava "promotor federal"; o outro se portava com a rigidez inconfundível das autoridades — postura larga, olhar atento, um comportamento que sugeria que ele calculava riscos e saídas de emergência até mesmo enquanto estava parado.
Merda.
Ela bateu duas vezes antes de entrar, com a expressão cuidadosamente neutra. O cheiro de colônia — cara demais para um servidor público — atingiu-a assim que ela abriu a porta.
“O senhor queria me ver?”
Simmons não sorriu. Nos três anos em que trabalhou sob seu comando, ela o vira sorrir exatamente duas vezes: uma na festa de Natal da firma, quando já tinha bebido três doses de uísque, e outra quando um juiz elogiou sua gravata.
“Juliette, este é o promotor federal Marcus Levine e o agente especial do FBI Thomas Grayson.”
Nenhum dos dois ofereceu a mão. Levine era alto e magro, com traços marcantes e olhos calculistas que a avaliaram com uma indiferença gélida. O terno dele provavelmente custava mais do que o aluguel dela. Grayson estava parado, ereto, com os pés exatamente na largura dos ombros e um olhar inabalável. Tudo nele — do cabelo cortado bem curto às calças perfeitamente passadas — sugeria um homem que construiu uma carreira deixando os outros desconfortáveis o suficiente para que obedecessem.
“Por favor, sente-se”, disse Simmons, gesticulando para a única cadeira vazia na sala.
O ar parecia denso, carregado com algo que Juliette não conseguia identificar. A cadeira de couro rangeu quando ela se sentou na ponta, com as costas retas. Anos de aulas de balé lhe deram uma postura que, agora, servia como armadura.
“Você sabe quem é Kai Moretti, Sra. Carter?” perguntou Levine, com a voz suave como mármore polido.
O nome percorreu sua espinha como um arrepio, fazendo os pelos de seus braços se arrepiarem apesar do ar abafado do escritório. Todos na cidade sabiam quem era Kai Moretti — não pelas manchetes dos jornais ou coletivas de imprensa da polícia, mas pelos sussurros em cantos escuros e pelos olhares assustados quando certos bairros eram mencionados.
“Eu sei quem ele é”, ela respondeu com cuidado. “Suspeito de liderar o crime organizado. Suspeito de gerenciar várias operações ilegais por toda a cidade.”
“Suspeito”, repetiu Grayson com um sorriso sem humor. “Essa é uma palavra simpática para o que ele é.”
“Que é?” perguntou Juliette, embora já soubesse.
“Um monstro”, disse Grayson de forma direta. “Tráfico humano, distribuição de drogas, extorsão, assassinato — o que você imaginar, Moretti esteve envolvido. E nós finalmente o pegamos.”
Ela lutou para manter sua expressão neutra, pressionando os dedos contra o metal frio da pulseira de seu relógio. “Desculpe, mas não entendo por que estou aqui.”
Simmons pigarreou, o som áspero no silêncio tenso. “Estamos designando você para o caso Moretti. Como advogada de defesa dele.”
As palavras a atingiram como um golpe físico. Por um momento, ela achou que tinha ouvido errado; o sangue pulsando em seus ouvidos abafou todo o resto.
“Eu... o quê? Mas eu não pego casos federais. Não tenho experiência para—”
“Você passou no exame da ordem. Está qualificada”, interrompeu Levine, sua voz cortando as objeções dela como um bisturi.
Tecnicamente qualificada e realmente qualificada são duas coisas muito diferentes, ela pensou, mas guardou para si.
“Com todo o respeito, senhor”, ela se virou para Simmons, com o assento de couro rangendo ao se mover, “existem advogados mais experientes no escritório que seriam mais adequados para—”
“É você, Carter”, disse Simmons, com um tom que deixava claro que o assunto não estava aberto a discussão. “A designação já foi processada.”
Sua mente começou a acelerar, aquela descarga familiar de adrenalina que ela sentia durante as sessões de estudo noturnas antes das provas. Fragmentos de informações se montaram como peças de um quebra-cabeça: eles a queriam especificamente. Jovem, inexperiente, fácil de atropelar no tribunal.
Eles estão me preparando para perder.
Ela encontrou o olhar de Levine diretamente. “As evidências devem ser fracas se vocês estão tão preocupados com quem o defende.”
Um brilho de algo — aborrecimento, talvez respeito — passou pelas feições de Levine antes de desaparecer.
“As evidências são sólidas”, ele respondeu, batendo os dedos uma vez na superfície polida da mesa de Simmons. “Mas Moretti tem recursos. Conexões. Precisamos garantir que este processo prossiga... corretamente.”
“Prejudicando a defesa dele”, ela completou por ele, com o gosto amargo na língua.
O maxilar de Grayson travou. “Garantindo que a justiça seja feita.”
Ela se virou para Simmons. “E o senhor concordou com isso? Jogar-me aos lobos?”
Simmons evitou o olhar dela, fixando-o em um ponto logo acima de seu ombro. “Nosso escritório está enfrentando cortes de verba, Carter. Estamos nos afogando em casos. O FBI ofereceu recursos adicionais, apoio—”
“Em troca de uma condenação garantida”, disse ela, com o sabor amargo da percepção enchendo sua boca.
O silêncio que se seguiu foi toda a confirmação de que ela precisava, interrompido apenas pelos sons abafados do escritório atrás da porta fechada.
“E se eu recusar?” ela perguntou, embora já soubesse a resposta, com o pulso vibrando na garganta.
Simmons finalmente olhou para ela, com uma expressão que misturava resignação e advertência. “Então você precisará esvaziar sua mesa hoje. E eu começaria a procurar outro caminho profissional, porque nenhuma firma nesta cidade vai querer você depois de abandonar um caso federal.”
A ameaça pairou no ar, tão real quanto as partículas de poeira flutuando no feixe de luz da tarde que entrava pelas persianas entreabertas. Três anos de semanas de sessenta horas, de jantares de miojo e pagamentos de empréstimo estudantil, de férias adiadas e reuniões de família perdidas — tudo aquilo seria por nada.
Ela pensou em seu apartamento modesto, em Ethan esperando por ela em casa, nos planos deles de finalmente se mudarem para um lugar melhor juntos, assim que ela conseguisse um emprego em uma firma privada. Tudo dependia de ela construir um histórico sólido, de provar seu valor no tribunal.
De qualquer forma, eu perco. A percepção pesou como chumbo em seu estômago.
“Quando eu o conheço?” ela perguntou, resignada.
Levine deu um sorriso discreto. “Amanhã de manhã. Às 9h no centro de detenção federal.” Ele deslizou uma pasta grossa sobre a mesa; o papel arrastou contra a madeira. “Sua cópia dos autos. Sugiro que comece a ler imediatamente.”
A pasta parecia pesada em suas mãos — o peso da vida de um homem, de seu futuro, de um jogo que ela foi forçada a jogar sem conhecer as regras.
“Terminamos aqui”, anunciou Grayson, levantando-se. As pernas da cadeira arranharam o chão, um som estridente. “Sra. Carter, acompanharemos este caso de perto.”
Pode apostar que vão, ela pensou.
Os homens trocaram acenos, seus negócios concluídos. Levine ajeitou sua gravata já perfeita, enquanto Grayson pegava sua maleta, os fechos de metal estalando ao fechar. Nenhum deles a reconheceu novamente enquanto saíam, deixando-a sozinha com Simmons e o rastro do cheiro de colônia cara.
Depois que a porta se fechou, Simmons suspirou pesadamente e serviu-se de um copo de água da jarra em sua mesa. O líquido borbulhou enquanto enchia o copo. Ele não lhe ofereceu nenhum.
“Não é pessoal, Carter. É política.”
“É a minha carreira”, rebateu ela, com a voz mais firme do que se sentia.
“É apenas um caso”, disse ele, sem encará-la. O gelo tilintou no copo enquanto ele bebia um gole. “Faça seu trabalho, lute um pouco — apenas o suficiente para parecer bem nos registros — e, quando acabar, garanto que você terá casos melhores.”
Quando acabar, ela pensou. Quando eu tiver ajudado vocês a vender a própria integridade.
Ela se levantou, apertando a pasta contra o peito. “Mais alguma coisa, senhor?”
Ele balançou a cabeça, já alcançando o telefone, dispensando-a.
A volta para sua mesa pareceu mais longa do que antes, cada passo deliberado enquanto ela processava o que tinha acontecido. Ela jogou a pasta pesada em sua mesa bagunçada com um baque surdo, sua mente girando. Um olhar rápido para o relógio: 16h37. O escritório esvaziava às 17h, mas ela sabia que estaria ali muito tempo depois disso hoje.
“O que foi isso?” Denny, da mesa ao lado, espiou por cima da divisória compartilhada, com a voz baixa. O cheiro de sua bebida energética — cereja química e cafeína — pairou no ar.
“Acabei de ser designada para defender Kai Moretti”, ela disse, e as palavras ainda soavam irreais em sua boca.
Os olhos de Denny se arregalaram de forma cômica. “Merda, Jules. Isso é... merda.”
“Muito bem colocado”, ela respondeu, tentando um humor que não sentia.
“Não, quero dizer... é o Kai Moretti. O Kai Moretti. O cara que supostamente mandou quebrar as pernas do irmão do juiz Harrington no ano passado quando ele decidiu contra ele.”
“Supostamente”, ela corrigiu automaticamente, com sua mente de advogada entrando em ação. “E obrigada pelo voto de confiança.”
Denny teve a decência de parecer arrependido. “Desculpe. É só que... tome cuidado, tá?”
Ela assentiu, já abrindo a pasta, sinalizando o fim da conversa. A pasta fez um som suave de papel sendo espalhado. Dentro havia fotos, relatórios, transcrições — a narrativa cuidadosamente construída dos crimes de um homem. Mas enquanto ela folheava as páginas, com o papel frio e crocante sob as pontas dos dedos, algo parecia errado. O depoimento da testemunha, o antigo motorista de Moretti, contradizia as fotos da vigilância que o colocavam do outro lado da cidade. Evidências cruciais foram coletadas durante uma batida com justificativa de mandado questionável. Três testemunhas diferentes deram declarações idênticas — palavra por palavra — sobre uma conversa que supostamente teriam ouvido.
É nisso que eles estão tão confiantes?
O caso não era à prova de falhas. Longe disso. O que tornava a insistência deles em tê-la — inexperiente e sobrecarregada — como advogada de defesa ainda mais suspeita.
Ela pegou o celular, o brilho azul da tela forte na luz fraca do escritório, e enviou uma mensagem rápida para Ethan.
Vou chegar tarde hoje. Caso importante. Explico quando te vir.
A resposta dele veio segundos depois:
Sem problemas. Quer que eu traga o jantar do restaurante? Especial de tailandês da noite.
Ela sorriu, apesar da exaustão.
Você é meu herói. Sim, por favor.
O pad thai de sempre com limão extra?
Você me conhece bem demais. Obrigada.
Já faz 3 anos, Jules. É bom que eu saiba o seu pedido agora. A chave ainda está embaixo do vaso de plantas?
Um pequeno conforto no caos do seu dia — alguém que se lembrava das pequenas coisas, que estava por perto desde os tempos de faculdade de direito, quando ela praticamente vivia no restaurante dele.
Sim. Mas posso chegar BEM tarde.
Vou te esperar. Boa sorte com seu caso.
Ela hesitou, então adicionou um emoji de coração antes de guardar o celular.
As páginas viravam, o café esfriava e o sabor amargo ficava na boca conforme ela abandonava as canecas pela metade. O escritório esvaziou, mesa por mesa; as conversas diminuíram, o zumbido dos computadores sendo desligados cedeu lugar ao silêncio. O rangido rítmico das rodas do carrinho de limpeza passou por sua mesa, seguido pelo zumbido de um aspirador de pó ao longe. Nancy, da equipe da noite, parou ao lado dela; o cheiro de desinfetante industrial era forte no ar.
“Queimando o óleo da meia-noite de novo, Sra. Carter?” perguntou ela, com seu sotaque carregado de Boston, enquanto esvaziava a lixeira, papéis amassados farfalhando.
Juliette olhou para cima, piscando para afastar a visão embaçada pelas horas lendo textos jurídicos densos. “Que horas são?”
“Quase nove.”
Como se atendendo a um comando, as luzes de teto diminuíram para o modo noturno de economia de energia, projetando longas sombras por sua mesa. Ela se espreguiçou, sentindo uma pontada quando sua espinha protestou; a rigidez em seus ombros era prova de quanto tempo ela ficara debruçada sobre os autos.
“Pelo amor de Deus, você deveria ir para casa”, disse Nancy, com preocupação nos olhos. “O que quer que seja, vai estar aqui amanhã.”
Mas esse era exatamente o problema. Amanhã, Kai Moretti estaria lá — em carne e osso, não apenas como palavras em um papel. Ela reuniu os documentos espalhados, organizando-os cuidadosamente antes de colocá-los em sua bolsa de couro gasta, com a alça desfiada nas bordas por anos de uso.
Seus dedos demoraram na foto anexada ao arquivo dele — a foto oficial de fichamento que não capturava o que ela imaginava ser sua verdadeira presença. Mesmo naquela imagem estática, algo em seus olhos parecia desafiá-la, ver através dela. A superfície brilhante estava fria sob seus dedos, em contraste com o calor inesperado que surgiu nela ao pensar em enfrentá-lo. Uma antecipação que ela não conseguia justificar e que não queria analisar muito de perto.