O Dia em que a Chuva Veio
Gracie Edwards tinha a melhor das vidas, brilhante e dourada, como os contos de fadas que sua babá lia para ela antes de dormir. Ela tinha tudo o que sempre quis e muito mais. Desde o momento em que nasceu, ela foi a princesinha do papai, e ele fez questão de que o mundo inteiro soubesse disso.
Ela frequentava a prestigiosa Rye Country Day School, uma escola particular situada atrás de portões de ferro forjado e cercas vivas aparadas, onde filhas de CEOs, senadores e da realeza eram preparadas para uma vida de grandeza. Seus uniformes eram feitos sob medida. Seus cadernos tinham monogramas. Ela chegava todas as manhãs em um elegante carro preto, com o motorista abrindo a porta enquanto ela ajustava sua presilha de cabelo cravejada de diamantes.
Todo aniversário era um espetáculo. Aos oito anos, ganhou um pônei chamado Stardust. Aos dez, teve uma festa com tema de Paris, completa com uma Torre Eiffel em miniatura e uma fonte de chocolate mais alta do que ela. Aos treze, seu pai a levou com suas amigas mais próximas para Nova York para um dia de compras na Quinta Avenida.
“Papai, eu amo este vestido!”, ela gritou dentro de uma boutique de luxo, girando com um vestido de veludo azul-marinho.
“Você parece uma rainha”, disse seu pai, Richard Edwards, com orgulho, ajustando a gola do terno enquanto entregava seu cartão black à atendente que aguardava. “Embrulhe mais três de cada cor que ela gostar.”
“Papai!”, ela exclamou, radiante.
“De que serve o dinheiro se não posso mimar minha garota?”
Em casa, ela tinha sua própria ala na mansão: três cômodos conectados por arcos. Um para dormir, um para seu closet e um apenas para “relaxar”, completo com lareira de mármore e uma chaise longue de veludo. Seu closet rivalizava com uma loja de departamentos, com fileiras de saltos, bolsas de grife e casacos ainda no plástico.
Todas as manhãs, seu pai batia suavemente na porta antes de sair para o trabalho.
“Princesa?”
“Pode entrar”, ela dizia, já tomando seu suco de laranja trazido pela empregada.
Ele se inclinava e beijava sua testa. “Me ligue se precisar de qualquer coisa. E eu digo qualquer coisa mesmo.”
“Eu sei, papai. Amo você.”
“Também te amo, minha pequena.”
Ele sempre arranjava tempo para ela. Mesmo com reuniões de diretoria, viagens de negócios e eventos de caridade, Richard Edwards nunca perdia uma apresentação, nunca esquecia um ensaio de dança, nunca deixava passar o brunch de domingo. Ele a chamava de “seu mundo”, e, de muitas formas, ela era. Onde quer que fosse, ela caminhava com a confiança de alguém que nunca tinha ouvido a palavra “não”.
Sua vida era um sonho. Pelo menos, era o que todos diziam. A inveja das colegas de classe, a queridinha dos clubes de campo e o centro constante das atenções. Gracie Edwards vivia em um mundo de seda, colheres de prata e adoração.
O que mais uma garota poderia querer?
Mas o dia em que seu pai morreu foi o dia em que a vida de Gracie se estilhaçou como porcelana fina no chão de mármore.
Era uma manhã chuvosa de terça-feira. Aquele tipo de dia cinzento e choroso que parecia fazer o próprio mundo estar de luto. Em um momento, seu pai estava enviando uma mensagem sobre a reserva para o jantar no restaurante favorito dela.
“Só nós dois hoje à noite, garota. Use algo fabuloso.”
No momento seguinte, um policial estava parado no saguão com um chapéu nas mãos e um olhar que fez seu estômago despencar.
Um acidente de carro. Instantâneo. Sem dor, disseram. Como se isso importasse. Como se alguma coisa importasse depois daquilo.
Seu mundo, antes brilhante e dourado, escureceu em um instante. E ela pensou... pelo menos ainda tenho a mamãe.
Mas ela estava errada.
No começo, sua mãe, Camille, parecia arrasada pela dor. Ela caminhava pelos corredores da mansão como um fantasma, soluçando em lenços de seda e servindo-se de vinho na hora do almoço. Gracie tentava confortá-la, apegando-se à única família que lhe restara.
“Somos só nós agora, mamãe”, ela sussurrou uma noite, envolvendo a mãe em um abraço no escuro.
Camille assentiu em silêncio, apoiando o rosto na cabeça de Gracie. “Só nós.”
Mas, em poucos meses, sua mãe começou a mudar. A casa, antes um lugar de memórias e calor, começou a parecer um cenário de teatro, frio, planejado, vazio. E então veio ele.
Julian Mercer.
Ele era só sorrisos e charme, um homem com dentes perfeitos e um relógio caro, que dizia todas as coisas certas e dizia a Camille que ela era linda quando ninguém mais dizia. Gracie tentou dar a ele o benefício da dúvida. A princípio. Mas algo nele sempre parecia errado. Polido demais. Perfeito demais.
Ainda assim, sua mãe estava encantada. “Julian me faz sentir viva novamente”, Camille se derretia certa noite, arrumando a mesa para um jantar à luz de velas enquanto Gracie a encarava como se fosse uma estranha.
“Nós não precisamos dele”, Gracie disse secamente. “Estamos bem. O papai não gostaria disso...”
“Não”, Camille cortou. “Não traga seu pai para isso. Ele se foi. E eu estou tentando seguir em frente. Você deveria fazer o mesmo.”
E, simplesmente assim, a voz de Gracie não importava mais.
Quando Julian se mudou, a casa mudou. Os cômodos foram redecorados sem lhe perguntar nada. O escritório do pai foi transformado em uma “caverna do homem”. Funcionários que a conheciam desde o nascimento foram demitidos. E o pior de tudo: Savannah chegou.
A filha de Julian.
Uma meia-irmã vinda diretamente de um pesadelo. Ela entrou no mundo de Gracie roubando seus saltos de grife e dando aquele sorrisinho como se fosse dona de tudo. Loira, linda e fria, Savannah tinha um talento para a manipulação que beirava a arte. Para quem via de fora, ela era doce. Educada. Mas, para Gracie, ela era veneno por trás do brilho labial.
“Ah, desculpe, não sabia que aquilo era seu”, Savannah dizia com uma falsa inocência, jogando o suéter favorito de Gracie no chão.
“Ops, acho que apaguei sem querer aquela redação do seu notebook.”
Gracie tentou contar à mãe, tentou explicar o que estava acontecendo. Mas Camille sempre defendia Savannah, sempre dava desculpas.
“Ela só está se adaptando.”
“Você está sendo dramática.”
“Não estrague esta família com seu comportamento, Gracie.”
Família? Que família?
O golpe final veio numa tarde, quando Gracie voltou da escola e encontrou seu quarto, aquele que seu pai tinha projetado para ela, sendo esvaziado. Caixas empilhadas por toda parte. Funcionários da mudança circulando de um lado para o outro.
“Que porra está acontecendo aqui?!”, ela gritou.
Julian deu um passo à frente, calmo como sempre. “Sua mãe e eu achamos que era hora de Savannah ter mais espaço. Você vai se mudar para o quarto no fim do corredor.”
“Aquele quarto nem tem janelas!”
“É temporário”, Camille acrescentou friamente, sem encontrar o olhar da filha. “Você vai ficar bem.”
Ninguém perguntou. Ninguém se importou.
A partir daquele dia, Gracie foi um fantasma em sua própria casa. A vida brilhante que ela um dia conheceu havia sumido. Suas roupas de grife foram substituídas por peças baratas de departamento. Seus cartões de crédito foram “perdidos”. Os convites para eventos sociais de elite pararam de chegar. E sua mãe, a mulher que costumava colocá-la na cama com canções de ninar sussurradas e promessas de um para sempre, já não era mais dela.
Camille escolheu a eles.
O marido. A filha dele. A vida deles.
E Gracie? Ela foi deixada de lado como uma memória inconveniente, com o nome de seu pai sendo lentamente apagado de cada foto, de cada corredor, de cada canto da casa que ele construiu.
Ela nunca tinha se sentido tão sozinha.
Nunca tão traída.
Mas o que ninguém percebeu foi que, por baixo da mágoa, por baixo dos pedaços estilhaçados da garota que um dia teve tudo, algo feroz e inquebrável começava a despertar.
Porque, não importava o quanto ela tivesse caído, Gracie Edwards ainda não tinha terminado.
Nem de longe.
***
O dia em que Gracie se mudou para a faculdade foi, sem dúvida, o melhor dia de sua vida.
Ela não chorou quando sua mãe mal a abraçou na despedida na entrada da garagem. Ela não piscou quando Julian ficou parado perto da porta, mal desviando o olhar do celular. Savannah estava ocupada demais documentando sua “despedida cheia de lágrimas” nas redes sociais para notar que Gracie estava realmente indo embora.
Mas Gracie não sentiu nada além de liberdade enquanto se afastava da prisão de mármore que costumava ser seu lar, para longe da traição, para longe de tudo o que tentava silenciá-la.
O campus da Universidade de Columbia estava vivo e fervilhando de energia, risadas e possibilidades. Prédios de tijolos cobertos por hera, estudantes relaxando debaixo das árvores, o cheiro de café flutuando da cafeteria em cada esquina. Pela primeira vez em anos, ela sentiu que podia respirar.
A faculdade não era sobre aparências. Ninguém se importava com sobrenomes ou fundos fiduciários. Eles se importavam com quem você era agora, não com quem seu pai costumava ser.
E foi lá, nos cantos tranquilos da sala de estudos do campus, que ela conheceu ele.